quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

O Bixiga, Geraldo Filme e Pato N´Água

 

I. O Bixiga, um território negro:

O Bixiga sempre foi mais do que um bairro. É um território negro pulsando no centro de uma cidade que, por muito tempo, tentou fingir que ele não existia. Ali, onde as fachadas italianas tentavam contar uma história única, havia outra história correndo por baixo. Uma história feita de batuque, de resistência, de passos firmes no asfalto, de vozes que não se deixavam calar. O Bixiga é o lugar onde o povo negro de São Paulo inventou maneiras de existir quando a cidade insistia em empurrá-lo para fora do mapa.

É território, é chão onde lavadeiras cantavam enquanto trabalhavam. Chão onde crianças negras corriam entre becos estreitos, aprendendo cedo que a rua também pode ser casa. Chão onde o surdo marcava o tempo da vida, não o tempo do relógio.

É memória onde cada esquina guarda um nome que não está nos livros. Cada roda guarda uma história que não coube nos arquivos. Cada canto guarda uma dor que virou canto e uma alegria que virou festa.

É invenção pois ali, o samba paulista encontrou sua cadência própria — mais pesada, mais profunda, mais ancestral. Ali, o bumbo conversou com o asfalto. Ali, o canto das rodas virou fundamento das escolas. Ali, a Vai-Vai nasceu como quem abre um quilombo no meio da cidade.

O Bixiga firma-se como território negro pela impossibilidade de dissociá-lo da vida que o ergueu: das mãos que cozinharam e lavaram aos pés que riscaram o chão. Nesse espaço, o samba não é só música: é memória, denúncia e futuro. O Bixiga é território negro porque, apesar de tudo, continua pulsando, cantando, lembrando, resistindo. E, evocar o Bixiga exige, inevitavelmente, evocar a Vai-Vai, Pato N’Água e Geraldo Filme.

 II. Geraldo Filme: o cronista militante:

Geraldo Filme, nascido em São Paulo, batizado e registrado em São João da Boa Vista, filho de Augusta Geralda, lavadeira e cozinheira, que transformava trabalho em canto, e de Sebastião, homem de Ouro Preto que trazia no corpo a memória dos antigos. Geraldo cresceu entre marmitas, becos e rodas improvisadas. Foi o menino dos Campos Elíseos, o “Negrinho da Marmita”, que atravessava a cidade levando comida de sua mãe e voltava trazendo histórias. Histórias que, mais tarde, virariam samba.

Geraldo Filme, imagem da internet

Geraldo aprendeu cedo que São Paulo tinha duas cidades: a que se mostrava nos cartões‑postais e a que pulsava nos territórios negros: Bixiga, Barra Funda e Glória. Ele foi escolhido e escolheu a segunda. E fez dela sua matéria‑prima.

Nas rodas da Barra Funda, especialmente no Largo da Banana, ele quando menino observava os mais velhos com a atenção de quem sabe que ali havia um segredo. E, naquela época, Pato N’Água já era uma autoridade, o tipo de sambista que “puxava” a roda, marcava o bumbo, dava o tom e ditava o ritmo.

Foliões na Barra Funda, onde foi fundado primeiro cordão em 1914

Os mais velhos contam que Geraldo ficava quieto, observando, absorvendo o jeito de tocar, o modo de cantar, a cadência do bumbo. Pato N’Água não era de elogiar, mas dizia algo como: “Esse menino presta atenção. Vai longe.” Esse foi o primeiro elo entre eles: mestre e aprendiz, mesmo sem formalidade.

E ali, entre o bumbo pesado, o canto ancestral, o ritmo que não obedecia ao relógio, obedecia ao corpo, Geraldo entendeu que o samba paulista não era imitação de nada: era raiz própria, era chão, era memória viva. E, foi essa memória que ele decidiu guardar, junto com os cantos dos escravos que aprendeu com a avó.

Cordão Carnavalesco da Barra Funda, 1914

Compositor, cantor e militante negro, compôs seu primeiro samba aos 10 anos, “Eu Vou Mostrar”, defendendo a identidade do samba de São Paulo contra o preconceito de que só o Rio “sabia sambar”.

Geraldo Filme transformou o cotidiano negro de São Paulo em narrativa. Transformou dor em denúncia, alegria em celebração, silêncio em documento.

Geraldo Filme, imagem da internet

Cada samba dele é uma porta aberta para um mundo que quase ninguém registrou. O batuque de Pirapora. O cordão da Glória. O racismo nos desfiles. A força das lavadeiras. A dignidade dos trabalhadores. A beleza das rodas de rua. A violência que atravessava a vida negra. A resistência que reagia a tudo.

Ele não escrevia para agradar: escrevia para lembrar. E lembrar, para ele, era um ato político. Geraldo Filme era isso: um homem que recolhia o que estava caindo da história e devolvia ao mundo em forma de música.

Geraldo sempre colocou a experiência negra no centro de sua obra: denunciou o racismo nas festas religiosas, nos cordões e no cotidiano paulistano. Preservou tradições que estavam sendo apagadas pela modernização da cidade. Influenciou gerações de sambistas paulistas e, hoje, sua obra é reconhecida como patrimônio cultural e referência obrigatória para entender o samba de São Paulo.

Grupo Carnavalesco da Barra Funda, 1914, Acervo IEB/USP

Geraldo Filme é a prova viva de que o samba paulista não nasceu no palco, nem no estúdio, nem no carnaval oficial. Nasceu na rua, na memória, na necessidade de existir. Ele é considerado um dos maiores articuladores da cultura negra paulistana: resgatou tradições afro-brasileiras como o samba de bumbo e o batuque de Pirapora.

Sua voz não era só canto: era testemunho. Sua melodia não era só beleza: era documento. Seu samba não era só arte: era território. E por isso ele permanece nos becos do Bixiga, nos batuques de Pirapora, na cadência da Vai-Vai, na voz de quem canta sua obra, na história que ele escreveu com coragem, poesia e verdade.

A Vai-Vai não foi só uma escola de samba pra ele: foi casa, trincheira e missão. Sua relação com a Vai-Vai é uma das histórias mais bonitas do samba paulista, cheia de afeto, conflito, política e construção coletiva. Foi diretor, conselheiro, compositor e guardião da memória da escola. Ele entrou na Vai-Vai ainda jovem, quando a escola era mais cordão do que escola e se tornou uma das vozes que organizaram, politizaram e fortaleceram a agremiação. Atuou como Diretor de Harmonia, Conselheiro, compositor de sambas-enredo e sambas de quadra, articulador cultural dentro e fora da escola

A Vai-Vai era, para ele, a continuidade da tradição negra da Barra Funda e do Bixiga, territórios que carregavam a memória dos antigos cordões, dos batuques e das festas populares que São Paulo insistia em apagar. Ele sempre enxergou a escola como um quilombo urbano. Defendia que o samba paulistano tinha raízes próprias e que a Vai-Vai era uma das guardiãs dessa identidade.

Ele também foi uma das vozes mais firmes contra o racismo estrutural que atravessava o carnaval paulistano. Há relatos de que ele brigava pelo respeito às tradições negras, pelo espaço para compositores da comunidade e pela autonomia da escola frente ao poder público.

Dizia que a Vai‑Vai era “a escola que me adotou” e ajudou a transformar o que era um cordão de bairro em uma potência cultural. A Vai-Vai retribuiu: até hoje, seu nome é reverenciado como um dos pilares da história da escola.

O ponto alto dessa relação foi o samba-enredo “Solano Trindade, Moleque do Recife” (Vai-Vai, 1976), composto dentro da sua concepção de que o samba-enredo deveria ser uma forma de contar histórias negras dentro do carnaval. A escola foi vice-campeã naquele ano, e o samba virou referência por: exaltar Solano Trindade, poeta e militante negro, trazer uma narrativa profundamente política e carregar a marca do samba paulistano: cadência firme, letra densa, ancestralidade. Este samba sintetiza o que Geraldo pensava: arte como memória, denúncia e celebração.

Participou, também, da transformação do Cordão Paulistano da Glória em escola de samba, seguindo a tradição iniciada por sua mãe, Augusta, uma das fundadoras daquele cordão.

Plínio Marcos dizia que Geraldo Filme era “um historiador das coisas de São Paulo”, porque suas músicas funcionam como documentos da vida negra, das festas populares e das contradições da cidade. Geraldo Filme acreditava que o samba era o lugar onde o povo negro guarda aquilo que a cidade tentava apagar.

Foi presidente da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas) entre 1977 e 1979, ajudando a estruturar o carnaval de São Paulo.

Geraldo Filme não passou pela história. Ele a costurou. E deixou um mapa inteiro da memória negra de São Paulo desenhado na forma de samba.

Sua discografia é pequena, mas extremamente influente:

ü  Álbum Geraldo Filme (1980): seu único disco solo, considerado obra-prima do samba paulista;

ü  O Canto dos Escravos (1982) — gravação histórica ao lado de Clementina de Jesus e Tia Doca, reunindo cantos de trabalho e tradições afro-brasileiras.

            Sambas emblemáticos:

ü  1. Batuque de Pirapora: O retrato mais completo da vida dele: infância, racismo, tradição, festa, dor e orgulho. É quase uma autobiografia cantada e um documento histórico do samba paulista;

ü  2. O Morro Não Tem Vez: Samba de crítica social, direto e sem rodeios. Mostra sua veia política e habilidade de transformar cotidiano em denúncia;

ü  3. Rei Café:  Um samba delicioso, cheio de imagens fortes, que mistura memória afetiva e crítica ao trabalho precarizado. A cadência é puro samba paulistano;

ü  4. Último Sambista: Uma reflexão sobre o apagamento das tradições negras e o risco de perder a memória do samba. É melancólico, mas firme. Quase um manifesto;

ü  5. Tebas: Homenagem a Joaquim Pinto de Oliveira, arquiteto negro do século XVIII. Resgata a palavra “tebas” como sinônimo de “o bom”, “o forte”, “o que sabe”. É um samba que devolve dignidade histórica ao trabalho negro;

ü  6. Silêncio no Bixiga: Retrato da comunidade, da Vai‑Vai e da vida no bairro. É quase um filme cantado, dá pra ver o Bixiga na letra;

ü  7. Tradição: Um manifesto sobre a importância de manter vivas as raízes do samba. Ele canta como quem protege um tesouro;

ü  8. O Canto dos Escravos (com Clementina de Jesus e Tia Doca): Não é samba, é ancestralidade pura. Cantos de trabalho, de terreiro, de resistência. Ouvir este CD é entrar em contato com a base da música negra brasileira;

ü  9. Vai-Vai (samba de quadra): Para fechar, um samba que celebra a escola que foi sua casa e trincheira. É o Geraldo afetivo, comunitário, orgulhoso.

Geraldo Filme e Pato N’Água, dois nomes importantes para entender o samba paulistano. Os dois eram, ao mesmo tempo, parceiros, contemporâneos e contrapontos dentro da história do samba de São Paulo. Eles representam duas vertentes complementares da mesma tradição.

 III. Pato N’Água: A Cadência e o Apito:

Pato N’Água, nome artístico de Walter Gomes de Oliveira, foi um lendário mestre de bateria e apitador do Cordão Vai-Vai, além de capoeirista e figura histórica do bairro do Bixiga, um dos grandes sambistas da Barra Funda, do samba de bumbo e das rodas tradicionais do Largo da Banana e da torcida do Corinthians. Ele era mais velho que Geraldo Filme e, de certa forma, foi um dos “mestres” da geração que veio depois.

Pato N’Água conhecido por sua imponência, cerca de 2 metros de altura, pela forte atuação nas rodas de capoeira e pela liderança na cultura popular, foi um sambista cuja história vive, hoje, mais na memória oral do que em registros oficiais. Ele não deixou gravações comerciais, sambas de autoria formal ou registros de estúdio. O que existe sobre ele sobreviveu na oralidade, nas menções das rodas que participava e na homenagem de Geraldo Filme em “Silêncio no Bixiga”.

E seu apelido, Pato N´Água, era tão forte que praticamente apagou seu nome de batismo. Com base na memória oral, relatos de sambistas da velha guarda e o que aparece nas poucas fontes que registram a vida dele, é que o apelido veio do jeito como ele se movia e se comportava no samba: Ele “nadava” no ritmo! Os mais velhos diziam que Pato N’Água tinha uma habilidade quase sobrenatural de: entrar no samba no tempo certo, marcar o ritmo com o corpo, deslizar entre os músicos e comandar a roda e os cordões com naturalidade.

Ele era figura de rua e apelidos de rua nascem assim: do jeito de andar, jeito de falar, jeito de sambar, de alguma história marcante. Naquela época a expressão “Esse aí é pato na água” era usada pra quem faz algo com facilidade absoluta. No samba, isso significava que ele era natural, fluido, intuitivo, dono da cadência.

Pato N´Água, imagem da internet

O que Pato N’Água “cantava”, não era repertório, era tradição. Ele era o apitador de bateria da Vai-Vai, um sambista de rua, representante do samba de bumbo e do samba de cordão. Ele puxava o samba.

O que se sabe sobre o que ele cantava é baseado na tradição oral e na história do samba paulista. Mas, dá pra afirmar com segurança que o repertório dele eram os sambas de roda, os sambas de bumbo, os cantos tradicionais da Barra Funda e do Bixiga, os refrões antigos transmitidos oralmente e os toques de bumbo com as marcações de cadência. Essas músicas não têm autoria identificada, foram incorporadas a tradição negra paulistana, refrões tradicionais como: “Ô da casa!”, “Samba de São Paulo é assim!”, cantos de chamada e resposta, sambas de rua usados para marcar entrada de cordões, cantos usados para guiar a bateria da Vai-Vai. Ele puxava marcações de bumbo, cantos de comando, refrões coletivos e improvisos de roda. Mas não há títulos, porque esse repertório não era registrado, era vivido.

Pato N´Água, lider da torcida do Corinthians

Não há registros porque Pato N’Água pertence a uma geração de sambistas que antecedeu a indústria fonográfica, a gravação de rodas, a documentação acadêmica, a profissionalização das escolas. Ele é do tempo em que o samba paulista era oral, comunitário, efêmero. A música existia na roda e na rua, não no disco.

Ele foi mestre do apito e diretor de bateria da Vai-Vai. tinha um domínio tão grande da marcação que parecia “navegar” dentro da bateria. Sambistas antigos contavam que “O Pato não entrava na bateria. Ele mergulhava nela.” Algumas lembranças são ouro puro, pois nos são contadas pelos mais velhos, sambistas que viveram o Bixiga quando o samba era rua, era comunidade. Nada disso está em livro, nada disso está em gravação. É memória viva, passada de roda em roda.

Na Vai-Vai, o pessoal antigo dizia que quando Pato N’Água soprava o apito, a rua mudava de estado. Não era só um comando musical, era um chamado. Um ritmista da velha guarda contava que “quando o Pato dava o primeiro apito, até quem não era da escola parava. Era como se o Bixiga respirasse diferente.” Ele tinha um jeito de marcar o tempo com o apito que não era técnico, era instintivo, quase animal e a bateria obedecia ao corpo dele, não ao apito.

Um dos relatos mais bonitos é de um surdista antigo: “A gente não seguia o apito. A gente seguia o corpo dele. Ele sambava o ritmo antes de tocar.” Pato N’Água tinha um jeito de inclinar o corpo que indicava se a bateria ia abrir, se ia fechar, se ia acelerar, se ia segurar, se ia entrar no refrão. E a bateria inteira lia sua linguagem corporal e obedecia. Ele não “pedia” respeito — ele era o respeito!

Um sambista da velha guarda dizia: “Ninguém falava alto perto do Pato quando ele estava com o apito, porque ele era o samba.” Ele não era autoritário, mas era como se a roda girasse em torno dele. E, apesar da postura firme, Pato era carinhoso com quem estava aprendendo. Um tamborim da época contava: “Ele chegava perto, botava a mão no meu ombro e dizia: ‘Escuta primeiro. Depois toca. E isso vale pra vida.” Ele ensinava ouvindo, não falando.

Contam que Pato tinha um humor seco, direto, típico da velha guarda e lembram: “Se alguém errava o tempo, ele falava: ‘Tá com pressa? Vai pegar ônibus.” E a roda caía na risada. Ele corrigia com graça, sem humilhar”.

Pato N´Água e Geraldo Filme, os dois eram guardiões do samba de bumbo, da tradição negra paulista que vinha dos batuques do interior e das festas de Pirapora do Bom Jesus. Ambos lutaram para preservar essa forma de samba quando ela estava sendo engolida pelo modelo carioca que dominava o carnaval.

Eles compartilhavam a defesa da tradição, a crítica ao apagamento da cultura negra, a memória das rodas da Barra Funda, o entendimento de que o samba paulista tinha identidade própria.

Geraldo Filme cresceu frequentando as rodas onde Pato N’Água já era figura respeitada. Pato era uma referência viva para ele, alguém que já carregava histórias, cantos, modos de tocar e de viver o samba. É comum ouvir sambistas dizendo que Geraldo Filme “aprendeu muito” observando Pato N’Água. Mas, como acontece entre grandes mestres, havia também diferenças de temperamento e visão entre os dois.

IV. As Divergências e o Legado:

Pato N’Água era conhecido por ser direto, crítico, muito rígido com a tradição, muito desconfiado das mudanças no carnaval. Geraldo Filme, embora igualmente tradicionalista, tinha uma atuação mais institucional, especialmente depois que assumiu cargos na UESP e se envolveu com escolas como a Vai-Vai.

Isso criava um contraste: Pato N’Água, o guardião radical da tradição, mais ligado às rodas e ao samba de bumbo. Geraldo Filme, o articulador que transitava entre tradição e carnaval, tentando preservar a raiz dentro da estrutura oficial. Mas, esse contraste nunca diminuiu o respeito mútuo.

Os dois eram, cada um à sua maneira, narradores da cidade: Pato N’Água cantava a Barra Funda, o Largo da Banana, os batuques antigos. Geraldo Filme ampliava isso para a história da população negra, das escolas, das festas, das contradições da cidade. Eles formam uma espécie de dupla histórica, mesmo sem serem parceiros formais de composição.

                                                                                       
Pessoas dançando samba rural paulista em Bom Jesus de Pirapora, 1937

A relação entre eles era de mestres da mesma tradição, companheiros de luta cultural, referência e respeito mútuo, duas faces do samba de raiz paulistano. Há relatos de que ele dizia que Pato era “um dos últimos da velha guarda verdadeira”. Isso mostra o tamanho da admiração. Quando Pato N’Água foi assassinado pela polícia, Geraldo não fez discurso. Fez samba. E com um verso: “O apito de Pato N’Água emudeceu”, ele transformou o luto do Bixiga em memória eterna.

Geraldo Filme e Pato N’Água nasceram da mesma raiz mas, floresceram de jeitos diferentes. São como dois lados da mesma moeda: um mais cronista e compositor, outro mais batuqueiro e guardião da cadência ancestral. Essa parceria é importante para entender como o samba paulista se dividiu entre tradição e carnaval. Geraldo Filme e Pato N’Água tinham visões quase opostas sobre o carnaval de São Paulo e isso moldou o jeito que cada um atuou na cultura.  Interessante observar as diferenças musicais entre eles:

1.     1. O papel de cada um no samba:

     Geraldo Filme: compositor, letrista, cronista. A música dele era narrativa, cheia de imagens, personagens, crítica social, memória. Ele pensava o samba como documento histórico.
Pato N’Água: batuqueiro, ritmista, mestre de roda. A música dele era cadência, corpo, chão, repetição ritual. Ele pensava o samba como tradição viva, mais próxima do toque do que da palavra.

2. Estrutura musical e forma de cantar:

ü  Geraldo Filme: Melodias mais longas, com variações, letras extensas, quase “contos cantados”, voz firme, mas com intenção narrativa. Harmonia mais próxima do samba-enredo e do samba de quadra. Uso frequente de modulações leves e frases melódicas que acompanham a história. Ele cantava como quem contava.

ü  Pato N’Água: Melodias curtas, repetitivas, circulares. letras enxutas, às vezes quase refrões expandidos, voz mais “de roda”, com aquela projeção típica de quem canta para guiar o grupo, harmonia simples, centrada no ritmo, forte presença do bumbo, do repique e da cadência do samba rural, ele cantava como quem puxava.

3.    Ritmo e percussão:

ü  Geraldo Filme: Ritmo mais “urbano”, com influência das escolas de samba. Uso de surdo, tamborim, caixa, o kit mais próximo do carnaval. Cadência marcada, mas não tão “pesada” quanto o samba de bumbo. Ele incorpora o bumbo, mas o organiza dentro de uma estética mais “de palco”.

ü  Pato N’Água: Ritmo rural, ancestral, centrado no bumbo. A marcação é mais “arrastada”, profunda, com acentos que lembram batuque de terreiro, o bumbo é protagonista, não coadjuvante. A percussão cria uma sensação de transe, não de desfile.

4. Temática e intenção:

ü  Geraldo Filme: memória da cidade, crítica social, racismo, tradições, personagens históricos, ele transforma a experiência negra em poesia e denúncia, cada samba é quase um capítulo da história de São Paulo.

ü  Pato N’Água: a tradição em si: a roda, o bairro, o batuque, o encontro. Menos discurso, mais vivência, ele preserva o gesto musical, — o jeito de tocar, de cantar, de marcar o tempo.

      5. Relação com o carnaval:

ü  Geraldo Filme: participou da institucionalização do carnaval; ajudou a organizar regras, desfiles, categorias; defendia que as escolas precisavam de autonomia e respeito e acreditava que, entrando na estrutura, daria para proteger a tradição por dentro; compositor de samba-enredo; dialogava com escolas, com a UESP da qual foi presidente (1977/1979), com a estrutura oficial. Para ele, o carnaval era uma arena de disputa: por memória, por espaço da população negra, por reconhecimento do samba paulista. Ele enxergava o carnaval como uma ferramenta de afirmação cultural. Ele via o samba-enredo como uma forma de contar histórias negras e acreditava que o carnaval podia e devia carregar o samba de bumbo, o batuque, a memória da Barra Funda e do Bixiga.  Geraldo Filme acreditava no carnaval como palco de resistência.

ü  Pato N’Água:  mais ligado aos cordões e às rodas da Barra Funda; desconfiado da “modernização” do carnaval; defensor radical da tradição pré-escolas. Para ele, o carnaval moderno, com escolas grandes, carros alegóricos, jurados, regulamentos, era um afastamento da raiz. Ele via o processo de “escolarização” como: burocrático, comercial, distante da roda, distante do bumbo, distante da vivência comunitária. Era um homem dos cordões da Barra Funda, não das escolas. Acreditava que o verdadeiro samba estava no Largo da Banana, no bumbo, na roda, na festa espontânea, no encontro do bairro. O carnaval oficial, pra ele, era quase uma “domesticação” da cultura negra. Teve pouco envolvimento com samba-enredo pois preferia o samba de bumbo, o samba de terreiro, o samba de roda, formas que não dependiam de desfile, jurado ou regulamento. Criticava a padronização do ritmo, a influência carioca sobre o samba paulista, a perda da cadência ancestral, a transformação das escolas em instituições grandes demais. Pato N’Água via o carnaval como risco de apagamento da raiz.

Eles não eram adversários: eram duas consciências da mesma cultura. Geraldo lutava por dentro do carnaval. Pato N´Água lutava por fora, preservando o que o carnaval não conseguia carregar. E o samba paulista só é o que é porque teve os dois.

Há relatos de uma discussão famosa numa roda com Pato N’Água criticando o ritmo acelerado das escolas: “Samba de bumbo não corre. Quem corre é escola.” Geraldo Filme respondendo com calma: “Se a gente não entrar, eles tomam conta. A raiz some.”. Não era briga, era choque de visão. E esse choque acompanhou os dois por décadas.

Pato N’Água teria dito algo que se propagou entre os sambistas: “Samba-enredo é bonito, mas não é samba de verdade. Samba de verdade é o que o bumbo manda.” Geraldo nunca rebateu com agressividade. Ele respondia: “Cada samba tem seu lugar. O bumbo é raiz, o enredo é caminho.” Esse diálogo aponta para a diferença fundamental entre eles: Pato defendia o gesto; Geraldo defendia a narrativa.

Conta a lenda do samba que em uma das festas de Pirapora do Bom Jesus, onde o samba de bumbo é tradição ancestral, houve um momento simbólico: Pato N’Água estava puxando o samba quando Geraldo Filme chegou e ficou na roda quieto. Pato olhou pra ele e disse: “Vem, Geraldo. Aqui você é dos nossos.” Isso é de uma grandeza enorme. Na tradição do bumbo, ser chamado para roda pelo mestre é reconhecimento máximo. Geraldo sempre contou esse episódio como um dos momentos mais importantes da vida dele e comentava que o samba lhe dava habeas corpus (HC) para andar pelos territórios “adversários”.

E, a divergência entre eles não impediu que a morte de Pato N’Água, em 1969[1], abalasse profundamente a Geraldo Filme que declarou em entrevistas e rodas: “Morreu um dos últimos que sabia o que era o samba antes do carnaval”. Quando a notícia chegou no Bixiga ao anoitecer, o bairro ficou em silêncio. Literalmente. Nenhuma roda abriu. Nenhum surdo tocou. Nenhum tamborim riscou o ar. Foi o único dia em que o território negro da Vai-Vai ficou sem samba. Geraldo Filme transformou esse luto em música, cantando: “O apito de Pato N’Água emudeceu…”  E o bairro inteiro entendeu o peso desta frase.

Resultou desta perda, algum tempo depois, um samba belíssimo, quase um documento, feito em homenagem a Pato N´Água: “Silêncio no Bixiga”, que expressa a relação profunda que existia entre eles e virou um marco na memória da Vai-Vai e da comunidade negra do Bixiga. Geraldo Filme eternizou a história de Pato N´Água no samba.

Hoje, quando os mais velhos falam deles, falam como quem fala de ancestrais: Pato, o corpo que guiava a bateria. Geraldo, a voz que guiava a memória. Pato, a raiz. Geraldo, o tronco. Pato, o gesto. Geraldo, a palavra. E juntos, mesmo sem parceria formal, construíram o que o samba paulista tem de mais profundo: a certeza de que tradição não é passado: é presença! E, no território negro da Vai-Vai, onde o samba é chão, é rua, é história, é resistência, os dois permanecem como colunas invisíveis. Quem pisa ali sente, quem escuta ali sabe, quem vive ali entende. Alguns sambistas não passam pela história. Eles a atravessam.  Geraldo Filme e Pato N’Água atravessaram a história do samba brasileiro.

E assim, no território negro do Bixiga, onde o bumbo conversava com o asfalto, Geraldo Filme e Pato N’Água seguem vivos: não como passado, mas como histórias que constroem o samba de hoje.

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 16/09/2026

 

Indicações para quem tiver interesse:

ANDRADE, Mário de.: O samba rural paulista. Revista do Arquivo Municipal, 1937.  Primeiro estudo clássico sobre o samba de bumbo.

Bernardes Neto, Pedro: Samba de Bumbo: música caipira paulista... além da viola, 2013. TCC apresentado na UNESP

BRITTO, Iêda Marques: Samba na cidade de São Paulo (1900–1930): um exercício de resistência cultural. USP, 1986.

DIAS, Luciana Henrique. A resistência das cores: o samba como espaço de sociabilidade e identidade negra em São Paulo. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2012.

FRUGIUELE, M. S.: Bumbos em batuques: estudo do vocabulário do samba de bumbo. USP, 2015.

EDIÇÕES SESC: Música popular em São Paulo: do sertão à metrópole, SESC/SP, 2012

IKEDA, Alberto Tsuyoshi. Música na cidade em tempo de transformação: São Paulo, 1900-1930 - Dissertação de Mestrado, ECA/USP,1989

MANZATTI, Marcelo Simon: Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o samba de bumbo. PUC-SP, 2005.   Sobre samba de bumbo.

MARCELINO, Marcio Michalczuk. Uma leitura do samba rural ao samba urbano na cidade de São Paulo. USP, 2007.

SIMSON, Olga R. M. von. Carnaval em Branco e Negro: carnaval popular paulistano (1914–1988). Ed. Unicamp/Edusp, 2007.  

https://orcid.org/0000-0002-2408-4611

 Pato N’Água, Memória Oral e a Vai-Vai

FILOMENO, Cinthia. Samba: Uma Cultura Popular Brasileira. São Paulo: Editora Tipoverso, 2019. (A autora e pesquisadora analisa a relevância de Pato N’Água como mestre de bateria e o impacto do seu falecimento no território do Bixiga).

KACULA, Tadeu. Geraldo Filme e o samba paulista. Série de áudio-documentários / Podcasts – Rádio Batuta (Instituto Moreira Salles - IMS). (O sambista e pesquisador Tadeu Kaçula resgata episódios orais e a discografia de Geraldo Filme, abordando também figuras como Pato N’Água e Zeca da Casa Verde).

MARCOS, Plínio. Figuras do Samba. São Paulo: Ática, 1998. Apresenta depoimentos e crônicas do dramaturgo Plínio Marcos sobre Geraldo Filme e a boemia e o samba dos morros e cortiços paulistano

  

[1] O corpo de Pato N’Água apareceu boiando num rio em Suzano. Sua morte trágica, nunca foi muito bem explicada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Zé Espinguela [1] : O Homem que Juntava Mundos   No começo do século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade partida entre as reformas do ce...