sábado, 19 de setembro de 2026

 

Camafeu de Oxóssi: um filho da Bahia

 

Há homens que nascem para viver discretos, dissolvidos no tempo.

E há outros, que chegam ao mundo como quem acende uma vela em noite escura: iluminando caminhos, reunindo pessoas, criando histórias.

Camafeu de Oxóssi foi desses. Um clarão. Um riso. Um toque de berimbau que atravessou décadas e ainda vibra no ar da Bahia.

Camafeu de Oxóssi

Nascido Ápio Patrocínio da Conceição[1], ele veio ao mundo em 1915, em Salvador, quando a cidade ainda era feita de lampiões, procissões e rodas de capoeira[2] nas esquinas. Cresceu no Pelourinho, entre o cheiro de dendê, o som dos atabaques e a poesia espontânea do povo, como engraxate ou vendendo cadarço e jornal. Aprendeu a fundição na Escola de Aprendizes e Artífices da Bahia e depois trabalhou na estiva de Salvador.

Desde cedo, aprendeu que a vida é música e que quem sabe ouvir, sabe viver. Camafeu não estudou música em escola. A rua foi sua mestra, o berimbau, seu companheiro, a capoeira seu idioma. Ele aprendeu a tocar como quem aprende a respirar: naturalmente, sem esforço, como se o som já estivesse dentro dele antes mesmo de nascer. E, o menino virou mestre.

O toque de Camafeu tinha algo de Oxóssi — certeiro, rápido, elegante. Cada nota era uma flecha lançada na mata da vida. Ele era um homem das ruas, das rodas e do axé.

Desenho de Carybé



                 

Desenho de Carybé

Mercado Modelo 1940
A vida o levou ao Mercado Modelo, onde montou sua barraca[3] e depois seu restaurante. Ali, Camafeu virou ponto de encontro, atração turística, conselheiro, anfitrião. Era impossível passar por ele sem ser puxado para uma conversa, uma história, uma cantiga. Ele tinha o dom raro de fazer qualquer pessoa se sentir parte da Bahia. E isso não se aprende, parece ser característica de nascença dos filhos de Oxóssi. Porque na Bahia, quem reina na rua também guarda santo no coração.

Mãe Senhora

No Ilê Axé Opô Afonjá, Camafeu encontrou sua casa espiritual. Foi iniciado por Mãe Senhora, uma das maiores ialorixás do século XX, e ali recebeu o título de Obá Aresá[4], ministro simbólico de Xangô. Nas religiões de origem africana ser Obá não é apenas honra: é responsabilidade, é tradição, é compromisso com o axé. Camafeu cumpriu tudo isso com devoção. No terreiro, era respeitado. Na rua, era reconhecido. No coração da Bahia, era amado.

Brincalhão, cheio de estilo, Camafeu não recebeu o apelido por acaso: um broche de camafeu encontrado e usado com vaidade lhe deu o nome. O destino e a fé completaram com “de Oxóssi” até ficar impossível separar o homem do Orixá.

Oxóssi é o Orixá da caça, da fartura e do conhecimento. No candomblé, ele representa muito mais do que o caçador literal: é o buscador, aquele que encontra caminhos, soluções e sustento para a comunidade. Camafeu carregava Oxóssi no olhar atento, na diplomacia natural, na leveza dos passos, na alegria que distribuía como quem distribui caça para alimentar o povo.

Dizem que quem conhece Oxóssi sabe que seus filhos carregam marcas muito próprias: observadores, independentes, diplomáticos, curiosos e com forte ligação com música e artes. Não por acaso, Camafeu de Oxóssi carregava exatamente essa combinação: musicalidade, liderança, humor, independência e uma presença magnética. Camafeu era um mestre do berimbau, com uma musicalidade que misturava capoeira, samba de roda, cantigas de candomblé e improviso popular. Camafeu não era apenas músico: era performer, contador de histórias, improvisador. Sua voz e seu jeito de cantar eram parte da paisagem sonora da Bahia.

O berimbau chegou para Camafeu antes mesmo que ele soubesse seu próprio caminho. Veio como dizem que vem o vento de Oxóssi: silencioso, certeiro, inevitável. Um arco de madeira, um fio de aço, uma cabaça: tão pouco para quem vê de fora, tão imenso para quem escuta de dentro. Camafeu escutou.

Desenho de Carybé
Ainda menino, aprendeu que o berimbau não fala com quem tem pressa. Ele exige o ouvido inteiro, o corpo inteiro, a alma inteira. E Camafeu tinha tudo isso para dar. Quando tocava o primeiro dom, parecia que o mundo respirava com ele. Quando soltava o ding, era como se a mata respondesse. E quando deixava escapar o tsh, aquele chiado fino, era como se Oxóssi soprasse no ar. O berimbau era sua  oração.

Na rua, ele tocava para chamar gente. No Mercado Modelo, tocava para espantar tristeza. Na roda, tocava para ensinar malícia. No Afonjá, tocava para honrar santo. E em todos esses lugares, o toque dele era reconhecido antes mesmo que alguém visse seu rosto.

Camafeu não tocava como músico. Tocava como quem conversa. O berimbau era sua língua materna — uma língua que não se aprende, se revela. Quando ele segurava o arco, o corpo mudava: ficava mais leve, mais atento, mais vivo. O braço direito virava flecha. O esquerdo, caminho. E a cabaça, coração.

O toque dele tinha humor. Tinha ironia. Tinha elegância. Tinha aquela malandragem boa que não machuca, só ensina. Era o toque de quem conhece a rua, mas respeita o santo. De quem sabe o peso da tradição, mas não perde a alegria.

Sua vida pessoal foi marcada por uma mistura irresistível de vaidade, generosidade e humor. Gostava de se vestir bem, de perfumes fortes, de adornos que chamavam atenção, inclusive o camafeu que lhe deu o nome. Era brincalhão, mas nunca desrespeitoso; gostava de provocar, mas sempre com elegância. Conversava com qualquer pessoa, do pescador ao diplomata, com a mesma naturalidade. Tinha família[5], filhos, e muitos “filhos afetivos” que encontravam nele um guia, um protetor, um amigo. No Mercado Modelo, sua barraca e depois seu restaurante eram extensão da sua casa: lugar de acolhimento, de música, de histórias e de axé. Camafeu era múltiplo: da casa, da rua e do santo.

E, na religião, Camafeu era sério, disciplinado e profundamente devoto. No Opô Afonjá, respeitava hierarquias, obrigações e tradições. Sua ligação com Oxóssi era tão forte que virou identidade pública. Ele carregava o Orixá na postura, na leveza, na esperteza, na diplomacia. Era o caçador que encontra caminhos, o homem que sabe chegar e sabe sair, o que traz fartura não só material, mas simbólica: alegria, música, presença.

Como músico, Camafeu deixou marcas importantes. Sua participação no disco Berimbaus da Bahia (1967) é um registro histórico da musicalidade afro-baiana. Ali, sua voz rouca, seu toque firme e seu improviso espontâneo revelam um artista que não se preocupava com técnica acadêmica, mas com verdade. Ele tocava como quem conversa, cantava como quem conta causos, e improvisava como quem respira. Era mestre da rua, da roda, da vida.

No Afoxé Filhos de Gandhi[6], Camafeu teve papel decisivo. Em momentos difíceis, ajudou a reorganizar o bloco, fortalecer sua estrutura e preservar sua identidade espiritual. Desfilava com orgulho, com seu turbante azul e branco, irradiando a paz e a ancestralidade que o afoxé representa. Sua liderança ali não era burocrática: era afetiva, simbólica, espiritual.

Camafeu de Oxóssi e Jorge Amado
A relação com Jorge Amado e Carybé[7] era de amizade verdadeira. Os três compartilhavam o amor pela Bahia, pelo candomblé, pela cultura negra. Jorge Amado via em Camafeu um personagem vivo, desses que parecem ter saído de um romance antes mesmo de serem escritos. Carybé o desenhou, o pintou, o celebrou. No Opô Afonjá, os três eram Obás — ministros de Xangô — e essa irmandade espiritual reforçava a ligação entre arte, literatura e religião.

O Berimbau como Símbolo de Oxóssi

O berimbau é arco, é flecha, é caminho. E por isso, dizem que pertence a Oxóssi antes de pertencer a qualquer homem.

Quando Camafeu segurava o berimbau, não era apenas músico: era caçador. O arco de madeira curvada lembrava o arco do Orixá, e o fio de aço vibrando era como a tensão da corda prestes a lançar a flecha. A cabaça, redonda e oca, era o mundo — e o som que saía dela era o chamado da mata.

Oxóssi é considerado como senhor do conhecimento rápido, da esperteza, da diplomacia. E o berimbau tem tudo isso: ele fala pouco, mas diz muito; ele não grita, mas comanda; ele não empurra, mas guia.

O toque do berimbau é o som da mata respirando. É o som da folha que se mexe antes da caça aparecer. É o som da flecha que não erra. É o som do silêncio que ensina.

Desenho de Carybé

Por isso Camafeu tocava como tocava: com leveza, com precisão, com elegância. Não era força: era mira. Não era volume: era intenção. Não era espetáculo: era axé.

Contam aqueles que conviveram com Camafeu que quando o berimbau vibrava nas mãos dele, parecia que Oxóssi estava ali sentado, ouvindo. E talvez estivesse.

Porque o berimbau, na vida de Camafeu, não era instrumento: era altar. Era oferenda. Era ligação direta com o Orixá que lhe deu nome, caminho e destino.

A roda se forma devagar, como sempre acontece quando a Bahia decide que é hora de brincar. Um círculo de gente, um chão de terra batida, um sol preguiçoso se inclinando para ver melhor. E no centro, sentado com a calma de quem já viu muita coisa, estava Camafeu.

Levantava o berimbau. O arco brilhando um pouco na luz. A cabaça encostada no corpo. O dobrão encontrando o arame. E então veio o primeiro toque: Dom… ding… dom… ding… tsh… A roda respirava junto. Era Angola: lenta, funda, cheia de malícia. Os capoeiristas se olhavam como quem recebe convite. E entravam.

Um gingava baixo, rente ao chão, como se conversasse com a terra. O outro respondia com movimentos longos, quase preguiçosos, mas atentos como felino. Camafeu observava tudo com aquele sorriso que não dizia nada e dizia tudo.                                                                                                                        O toque mudava. Ele acelerava o ritmo, puxando o jogo para cima. São Bento Grande. A roda se acendia. Os corpos começavam a voar. Rasteiras rápidas, meia lua cortando o ar. E Camafeu ali, firme, conduzindo como maestro. De vez em quando ele soltava um canto — rouco, bonito, cheio de Bahia. E o canto entrava no corpo dos jogadores como vento entra na vela de barco. A roda crescia, ganhava vida própria.

Quando Carybé estava ali, desenhava o instante. Se Pierre Verger estivesse ali, fotografava o ar. Mas, quase sempre, quem guardava toda aquela beleza era a própria Bahia.

O toque mudava de novo. Benguela. Sincopado, manhoso, íntimo. Os jogadores se aproximavam, quase se tocando, quase se provocando, quase se rindo. Era jogo de dentro, jogo de quem se conhece.

Camafeu inclinava a cabeça, fechava os olhos por um segundo. Parecia ouvir algo que só ele escutava. Talvez fosse Oxóssi. Talvez fosse a mata. Talvez fosse apenas o próprio berimbau dizendo: “Agora.”

E, ele tocava Iúna[8]. Solenidade. Respeito. Silêncio ao redor. Os jogadores pararam. Só mestres entram nesse toque. E quando entram, entram como quem pisa em um templo.

A roda terminava como começava: devagar. O berimbau fazendo seu último dom. A cabaça descansava. Camafeu sorria. E a Bahia, naquele instante, parecia sorrir com ele. Quando Camafeu tocava, a roda não era só roda. Era história. Era axé. Era vida.

Os Quatro da Bahia

Camafeu também era figura central fora da roda — na arte, na amizade, na cultura. Há encontros que não acontecem por acaso. Camafeu, Jorge Amado, Carybé e Pierre Verger[9] formavam uma roda silenciosa — não de capoeira, mas de vida, esbanjando cultura. Cada um trazia um dom e juntos criavam uma Bahia que não cabia em mapa, só em axé.

Camafeu era a voz. O berimbau dele não tocava música: tocava gente. Ele era o personagem vivo que a Bahia inventa quando está inspirada.

Jorge Amado era a palavra. Via Camafeu e enxergava o personagem pronto, desses que não precisam de ficção porque já nascem com literatura no corpo. Para Jorge, Camafeu era Bahia em estado bruto: e por isso mesmo, poesia.

Carybé era o traço. Desenhava Camafeu como quem desenha vento: rápido, preciso, cheio de movimento. Nos seus cadernos, Camafeu aparece não como modelo, mas como símbolo — o homem que carrega a rua no sorriso.

Pierre Verger era o olhar. Fotografava Camafeu com a mesma reverência com que fotografava sacerdotes africanos. Para ele, Camafeu era ponte: entre o Afonjá e o Mercado Modelo, entre a Bahia e o mundo, entre o sagrado e o cotidiano.

Os quatro se encontravam no Ilê Axé Opô Afonjá, onde todos eram Obás de Xangô. Ali, não eram artista, escritor, fotógrafo ou músico. Eram irmãos de axé.

E quando se reuniam — na roda, na mesa, na festa, no terreiro — parecia que a Bahia inteira se inclinava para ouvir. Porque cada um deles guardava uma parte da alma da cidade: Camafeu, o som; Jorge, a história; Carybé, a imagem; Verger, a memória. Quatro homens, quatro linguagens, uma Bahia só.

.O Mercado Modelo[10] nos Tempos de Camafeu

Camafeu transitava entre o sagrado e o profano com uma naturalidade que lhe era característica. Na sua época, o Mercado Modelo não era só mercado: era o mundo.

Um mundo que começava cedo, quando o dia nem bem amanhecia, o mercado ainda meio escuro, as portas rangendo, o cheiro de dendê, peixe fresco, sal e madeira molhada subindo do chão, misturando risada, briga, canto, promessa, fé e malandragem boa. As barracas eram apertadas, mas vivas, cada uma com seu dono, seu santo, seu jeito de chamar freguês. E lá vinham eles: os homens e mulheres que faziam o Mercado Modelo existir antes mesmo que os turistas descobrissem o caminho.

Tinha o pescador, que falava pouco e carregava o mar nos olhos. Tinha a baiana de acarajé, que fritava com a mesma paciência com que rezava. Tinha o artesão, que esculpia santos e barcos como quem conversa com a madeira. Tinha o carregador, que sabia o peso das mercadorias e o peso das histórias. Tinha a vendedora de fitas, que sabia exatamente a cor que cada pessoa precisava, mesmo quando a pessoa não sabia.

E tinha Camafeu. Mas Camafeu não era trabalhador como os outros. Ele era o ponto de luz no meio da confusão. Os trabalhadores o chamavam de “meu compadre”, “meu velho”, “meu mestre”. E ele respondia a todos com aquele sorriso que parecia saber mais do que dizia.

Quando Camafeu chegava, o mercado mudava de ritmo. Ele passava cumprimentando um por um, perguntando da família, da saúde, do santo, do dinheiro, sabia que tudo isso era vida e vida não se separa em gavetas.

Às vezes ele tocava o berimbau ali mesmo, sem cerimônia. E os trabalhadores paravam. A baiana segurava a colher no ar. O pescador encostava o balde. O artesão deixava a faca sobre a mesa. O carregador apoiava o saco no chão. Era como se o mercado inteiro respirasse junto.

O toque dele não era espetáculo. Era descanso. Era conversa. Era lembrança de que a Bahia tem ritmo próprio, e que quem trabalha nela também dança, mesmo quando não percebe.

Os trabalhadores gostavam de Camafeu porque ele era um deles. Não era artista distante, nem figura de livro, nem personagem inventado. Era homem de rua, de barraca, de suor, de axé. Sabia o valor de uma boa venda, de uma boa risada, de uma boa história. Sabia o peso da vida e o jeito de torná-la mais leve.

E quando a tarde caía e o mercado começava a esvaziar, os trabalhadores se juntavam perto da barraca dele. Ali, entre cachaça, conversa e música, o dia se fechava como roda. E Camafeu, com seu berimbau, fazia o Mercado Modelo parecer menos mercado e mais casa.

Camafeu ficava sentado como quem reina sem precisar de trono. Perfume forte, roupa bem escolhida, sorriso que sabia mais do que dizia. Era comum ver Carybé passando, caderno de desenho debaixo do braço, parando só para observar o gesto de Camafeu segurando o arco. Pierre Verger, quando aparecia, vinha com aquele olhar de quem fotografa até o silêncio. E Jorge Amado, sempre que podia, sentava para ouvir, sabendo que ali, naquela barraca, estava a Bahia que ele escrevia.

O Mercado Modelo daqueles tempos era barulho, era confusão, era festa — mas quando Camafeu tocava, tudo virava roda. Roda de gente, roda de axé, roda de vida. Quem viveu aquilo nunca esqueceu, porque o Mercado Modelo dos tempos de Camafeu não era um lugar: era o mundo e Camafeu era o coração dele.

 O Samba de Roda na Capoeira

O samba de capoeira, frequentemente chamado de samba de roda, é a expressão festiva e comunitária que encerra, tradicionalmente, as rodas de capoeira, marcando a transição do jogo marcial para a celebração e a descontração.

O samba de capoeira começa antes do primeiro passo. Começa no berimbau, naquele toque que não chama para a luta, mas para a festa. É como se o instrumento dissesse: “Agora é hora de brincar.”

A roda se abre um pouco, o chão parece ganhar brilho, e os capoeiristas mudam de corpo. A ginga vira balanço. O balanço vira convite. E o convite vira samba.

Capa de CD 1984

Capa de CD 1967
Capa de CD 1968

               

Não é o samba do palco, nem o samba da avenida. É o samba da roda, nascido da capoeira, criado na rua, moldado pela malícia. Os pés deslizam como quem não quer acordar o chão. Os quadris conversam. Os ombros respondem. E o sorriso aparece sem ninguém mandar.

O samba de roda dentro da capoeira não é dança: é conversa. Cada passo diz uma coisa. Cada giro responde outra. Os quadris falam, os pés riem, os ombros provocam. É jogo de sedução, mas também de respeito. É brincadeira, mas também é rito.

Os mais velhos dizem que o samba é a parte da capoeira que guarda a alegria dos ancestrais. A parte que lembra que a luta nasceu da festa, e não o contrário. Que o corpo resiste, sim — mas também celebra. Que a capoeira é arma, mas é também abraço. Que o samba de capoeira é o descanso da luta.

Depois de jogar Angola, depois de medir força no São Bento Grande, depois de testar malícia no Benguela, o corpo pede riso. E o samba chega como água fresca, como sombra boa, como riso que se espalha.

Quem entra no samba de roda dentro da capoeira não entra para vencer. Entra para brincar. Para honrar quem veio antes. Para lembrar que a capoeira é feita de luta, mas também de festa — e que uma não vive sem a outra.

O jogo muda: não há rasteira, há sedução; não há esquiva, há brincadeira. Não há disputa, há encontro, há diálogo. Cada movimento diz algo: um elogio, uma provocação, uma lembrança, uma promessa.

E quem sabe ler esses gestos entende que ali, naquele instante, a capoeira está mostrando sua outra face — a face da festa, da alegria, da rua viva.

Depois do jogo sério, da mandinga baixa, da esquiva calculada, o berimbau muda de intenção. O toque fica mais leve, mais redondo, mais cheio de convite. E a roda, que até então era combate disfarçado, vira festa.

As palmas começam primeiro — tímidas, depois confiantes. O pandeiro entra como quem pede licença. A voz sobe, quente, cheia de Bahia. E os corpos, que antes se mediam, agora se aproximam.

Camafeu adorava esse momento. Tocava o berimbau com um brilho no olhar, como quem sabe que o samba é o segredo da capoeira: a prova de que ela não nasceu para machucar, mas para celebrar. E quando o samba começava, parecia que a Bahia inteira entrava na roda.

 A Morte de Camafeu de Oxóssi

Mas, até a alegria tem seu tempo e a Bahia também sabe quando é hora de recolher o canto. Quando Camafeu adoeceu, a Bahia pareceu ficar mais silenciosa. Não era silêncio de luto — era silêncio de espera. Como quando o mar recua antes de uma onda grande. Como quando o berimbau segura o som antes de soltar o toque.

Ele estava cansado. O corpo já não acompanhava o brilho dos olhos. Mas o axé, esse ninguém lhe tirou. Mesmo doente, Camafeu ainda tinha aquele jeito de quem sabe mais do que diz, aquele sorriso que guardava rua, santo e malícia.

No Afonjá, diziam que Oxóssi estava chamando. Chamando devagar, como quem chama filho querido. E Camafeu, que sempre ouviu o Orixá no som do berimbau, começou a ouvir no silêncio também.

No Mercado Modelo, os trabalhadores falavam baixo. A barraca dele parecia esperar. O berimbau, encostado num canto, parecia guardar o último toque. Quando a notícia chegou[11], não veio como susto. Veio como maré. Uma onda que cobre tudo, mas não derruba nada.

A Bahia inteira sentiu — não como perda, mas como mudança de lugar. No velório, alguém tocou berimbau. Não para fazer roda, não para fazer festa. Para fazer caminho. O som subiu lento, bonito, cheio de respeito.

E parecia que cada dom dizia: “Vai em paz”. E cada ding respondia: “Estamos aqui.”

O velório reuniu capoeiristas, sambistas, filhos de santo, comerciantes, intelectuais, turistas que o haviam conhecido décadas antes. O cortejo foi acompanhado por cantigas, berimbaus, lágrimas e risos, porque despedidas de figuras de axé nunca são apenas tristeza. São celebração da vida que foi vivida com intensidade.

Camafeu partiu como viveu: com elegância, com axé, com a Bahia. Não deixou vazio — deixou eco. Camafeu segue existindo como mito: desses que não precisam de estátua, porque já estão eternizados na lembrança do povo. Um filho de Oxóssi que fez da própria vida uma obra de arte popular. Até hoje, quando um berimbau toca grave, firme, cheio de mandinga boa, alguém comenta baixinho: “Esse toque tem coisa de Camafeu.” E enquanto o berimbau tocar, Camafeu ainda estará entre nós!

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 19/09/2026

 

A bibliografia sobre Camafeu de Oxóssi é extremamente rica mas fragmentada. Algumas sugestões:

1. Carybé – As Sete Portas da Bahia

Carybé retrata personagens fundamentais da Bahia, e Camafeu aparece como figura viva do Mercado Modelo e do Afonjá. O livro é essencial para entender o ambiente cultural onde Camafeu circulava — e como artistas o viam como símbolo da Bahia negra e popular.

2. Carybé – Iconografia do Candomblé

Obra visual que documenta o candomblé baiano. Camafeu aparece desenhado como Obá Aresá, reforçando sua importância dentro da estrutura civil-religiosa do Ilê Axé Opô Afonjá. É uma das fontes mais diretas sobre sua posição no axé.

3. Pierre Verger – Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo

Verger não dedica um capítulo a Camafeu, mas o menciona como Obá do Afonjá e como figura próxima de Mãe Senhora. O livro contextualiza profundamente o universo religioso que moldou Camafeu — especialmente Oxóssi e Xangô.

                                 – Acervo Fotográfico (Fundação Pierre Verger)

Há fotografias de Camafeu no Mercado Modelo e no Afonjá. Essas imagens são documentos históricos raros, mostrando sua postura, seu estilo e sua presença pública. O acervo é acessível na Fundação Pierre Verger, em Salvador.

5. Vivaldo da Costa Lima – A Família de Santo nos Candomblés Jeje-Nagô

Sobre a estrutura civil e religiosa dos terreiros. Camafeu aparece listado como Obá Aresá, o que confirma oficialmente sua posição no Afonjá. É uma fonte acadêmica sólida.

6. Waldeloir Rego – Capoeira Angola: Ensaio Sócio-Etnográfico

Rego documenta mestres da capoeira e do berimbau. Camafeu é citado como referência musical e como figura importante da capoeira baiana. Ajuda a entender seu papel na roda e sua musicalidade.

7. Emília Biancardi – Raízes Musicais da Bahia

Biancardi produziu o disco Berimbaus da Bahia (1967), onde Camafeu toca e canta. O livro contextualiza a música afrobaiana e menciona artistas populares como ele. É essencial para compreender sua contribuição musical.

8. LPs Berimbaus da Bahia (1967) e Camafeu de Oxóssi (1968)

Registros sonoros históricos. Camafeu aparece tocando e cantando — são documentos da sua musicalidade. Indispensável para qualquer estudo sobre ele.

9. Antonio Risério – Carnaval Ijexá

Análise do Afoxé Filhos de Gandhi. Camafeu aparece como liderança importante nos anos 1970, ajudando a reorganizar o bloco. Fonte valiosa para entender seu papel no afoxé.

10. Mãe Stella de Oxóssi – Meu Tempo é Agora

Mãe Stella menciona Obás históricos do Afonjá. Camafeu aparece como parte da estrutura do terreiro e como figura respeitada. Ajuda a compreender sua relação com o axé.

11. Edison Carneiro – Candomblés da Bahia

Carneiro não fala diretamente de Camafeu, mas descreve o universo religioso onde ele viveu. É leitura fundamental para contextualizar sua formação espiritual.

12. Ruth Landes – A Cidade das Mulheres

Landes descreve o Afonjá e Mãe Senhora. Camafeu não aparece nominalmente, mas o livro ilumina o ambiente que moldou sua vida religiosa.

13. Jorge Amado – Bahia de Todos os Santos e crônicas diversas

Jorge Amado cita Camafeu em conversas e crônicas como personagem vivo da Bahia. Não é ficção: é testemunho afetivo. Mostra como Camafeu era visto pelos grandes artistas da época.

14. Jornal A Tarde (Salvador) – Arquivo Histórico

Reportagens dos anos 60–80 mencionam Camafeu no Mercado Modelo e no Filhos de Gandhi. Fonte jornalística primária.

15. Correio da Bahia – Arquivo Histórico

Matérias sobre o Afonjá e o Filhos de Gandhi citam Camafeu como Obá e como liderança cultural.

16. Revista O Cruzeiro – Reportagens de Pierre Verger

Verger fotografou Camafeu em matérias sobre a Bahia. Essas fotos são documentos raros e preciosos.

17. Revista Afro-Ásia (UFBA)

Artigos sobre o Afonjá mencionam Obás históricos, incluindo Camafeu.

18. Documentários da TVE Bahia – A Capoeira na Bahia

Imagens de arquivo mostram Camafeu tocando berimbau. É uma das poucas fontes audiovisuais existentes.

 



[1] Camafeu de Oxóssi (Salvador 04/10/1915 – Salvador 26/03/1994), filho de Maria Firmina da Conceição e Faustino José do Patrocínio

[2] A capoeira é simultaneamente uma dança, uma luta e um jogo. Criada pelos africanos trazidos ao Brasil escravizados, a partir de 1500, a capoeira era proibida por lei, mas sobreviveu na clandestinidade. Quando a prática aberta foi permitida na década de 1930, logo se tornou muito popular. Hoje a capoeira é amplamente reconhecida por dançarinos e praticantes de artes marciais.

[3] Barraca de São Jorge que vendia berimbaus e artigos religiosos de matriz africanos

[4] Título honorífico e sacerdotal masculino de alta dignidade dentro da estrutura civil e religiosa do Candomblé, especificamente na tradição Ketu. Esse título o coloca entre figuras como Carybé, Dorival Caymmi e Gilberto Gil.

[5] Foi casado com Dona Toinha, que trabalhava com ele tanto na barraca de São Jorge quanto, posteriormente, no restaurante dentro do Mercado.

[6] Foi presidente do grupo entre 1976-1982

[7] Hector Julio Páride Bernarbó (Argentina/Lanus, 07/02/1911-Salvador, 02/10/1997), pintor, gravador, desenhista, ilustrador, ceramista, escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista argentino, brasileiro naturalizado e residente no Brasil desde 1949 até sua morte.

[8] O toque de Iúna é reservado para que apenas joguem os mestres, contra-mestres e graduados antigos. Não é um toque para iniciantes.

[9] Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 04/11/1902-Salvador 11/02/1996),  foi um fotógrafo autodidata, etnólogo, antropólogo e escritor franco-brasileiro, que assumiu o nome religioso Fatumbi.

[10] O Mercado Modelo é um mercado de artesanato localizado na cidade de Salvador, estado da Bahia, no Brasil. Foi inaugurado em 2 de fevereiro de 1912 e ocupa, desde 1971, o prédio da antiga Casa da Alfândega de Salvador.

[11]  Camafeu de Oxossi , Salvador  04/10/1915 – Salvador, 26/03/1994. A morte de Camafeu, em 1994, vítima de câncer no fígado e um AVC, foi sentida como perda coletiva.

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