Camafeu
de Oxóssi: um filho da Bahia
Há
homens que nascem para viver discretos, dissolvidos no tempo.
E
há outros, que chegam ao mundo como quem acende uma vela em noite escura: iluminando
caminhos, reunindo pessoas, criando histórias.
Camafeu de Oxóssi foi desses. Um clarão. Um
riso. Um toque de berimbau que atravessou décadas e ainda vibra no ar da Bahia.
| Camafeu de Oxóssi |
Nascido Ápio Patrocínio da Conceição[1], ele veio ao mundo em 1915, em Salvador, quando a cidade ainda era feita de lampiões, procissões e rodas de capoeira[2] nas esquinas. Cresceu no Pelourinho, entre o cheiro de dendê, o som dos atabaques e a poesia espontânea do povo, como engraxate ou vendendo cadarço e jornal. Aprendeu a fundição na Escola de Aprendizes e Artífices da Bahia e depois trabalhou na estiva de Salvador.
Desde cedo, aprendeu que a vida é música e
que quem sabe ouvir, sabe viver. Camafeu não estudou música em escola. A rua
foi sua mestra, o berimbau, seu companheiro, a capoeira seu idioma. Ele
aprendeu a tocar como quem aprende a respirar: naturalmente, sem esforço, como
se o som já estivesse dentro dele antes mesmo de nascer. E, o menino virou
mestre.
O toque de Camafeu tinha algo de Oxóssi —
certeiro, rápido, elegante. Cada nota era uma flecha lançada na mata da vida.
Ele era um homem das ruas, das rodas e do axé.
| Desenho de Carybé |
| Desenho de Carybé |
| Mercado Modelo 1940 |
Mãe Senhora
No Ilê Axé Opô Afonjá, Camafeu encontrou
sua casa espiritual. Foi iniciado por Mãe Senhora, uma das maiores ialorixás do
século XX, e ali recebeu o título de Obá Aresá[4],
ministro simbólico de Xangô. Nas religiões de origem africana ser Obá não é
apenas honra: é responsabilidade, é tradição, é compromisso com o axé. Camafeu
cumpriu tudo isso com devoção. No terreiro, era respeitado. Na rua, era
reconhecido. No coração da Bahia, era amado.
Brincalhão, cheio de estilo, Camafeu não
recebeu o apelido por acaso: um broche de camafeu encontrado e usado com
vaidade lhe deu o nome. O destino e a fé completaram com “de Oxóssi” até
ficar impossível separar o homem do Orixá.
Oxóssi é o Orixá da caça, da fartura e do
conhecimento. No candomblé, ele representa muito mais do que o caçador literal:
é o buscador, aquele que encontra caminhos, soluções e sustento para a
comunidade. Camafeu carregava Oxóssi no olhar atento, na diplomacia natural, na
leveza dos passos, na alegria que distribuía como quem distribui caça para
alimentar o povo.
Dizem que quem conhece Oxóssi sabe que seus
filhos carregam marcas muito próprias: observadores, independentes, diplomáticos,
curiosos e com forte ligação com música e artes. Não por acaso, Camafeu de
Oxóssi carregava exatamente essa combinação: musicalidade, liderança, humor,
independência e uma presença magnética. Camafeu era um mestre do berimbau, com
uma musicalidade que misturava capoeira, samba de roda, cantigas de candomblé e
improviso popular. Camafeu não
era apenas músico: era performer, contador de histórias, improvisador. Sua voz
e seu jeito de cantar eram parte da paisagem sonora da Bahia.
O berimbau chegou para Camafeu antes mesmo
que ele soubesse seu próprio caminho. Veio como dizem que vem o vento de
Oxóssi: silencioso, certeiro, inevitável. Um arco de madeira, um fio de aço,
uma cabaça: tão pouco para quem vê de fora, tão imenso para quem escuta de
dentro. Camafeu escutou.
| Desenho de Carybé |
Na rua, ele tocava para chamar gente. No
Mercado Modelo, tocava para espantar tristeza. Na roda, tocava para ensinar
malícia. No Afonjá, tocava para honrar santo. E em todos esses lugares, o toque
dele era reconhecido antes mesmo que alguém visse seu rosto.
Camafeu não tocava como músico. Tocava como
quem conversa. O berimbau era sua língua materna — uma língua que não se
aprende, se revela. Quando ele segurava o arco, o corpo mudava: ficava mais
leve, mais atento, mais vivo. O braço direito virava flecha. O esquerdo,
caminho. E a cabaça, coração.
O toque dele tinha humor. Tinha ironia. Tinha
elegância. Tinha aquela malandragem boa que não machuca, só ensina. Era o toque
de quem conhece a rua, mas respeita o santo. De quem sabe o peso da tradição,
mas não perde a alegria.
Sua vida pessoal foi marcada por uma
mistura irresistível de vaidade, generosidade e humor. Gostava de se vestir
bem, de perfumes fortes, de adornos que chamavam atenção, inclusive o camafeu
que lhe deu o nome. Era brincalhão, mas nunca desrespeitoso; gostava de
provocar, mas sempre com elegância. Conversava com qualquer pessoa, do pescador
ao diplomata, com a mesma naturalidade. Tinha família[5],
filhos, e muitos “filhos afetivos” que encontravam nele um guia, um
protetor, um amigo. No Mercado Modelo, sua barraca e depois seu restaurante
eram extensão da sua casa: lugar de acolhimento, de música, de histórias e de
axé. Camafeu era múltiplo: da
casa, da rua e do santo.
E, na religião, Camafeu era sério,
disciplinado e profundamente devoto. No Opô Afonjá, respeitava hierarquias,
obrigações e tradições. Sua ligação com Oxóssi era tão forte que virou
identidade pública. Ele carregava o Orixá na postura, na leveza, na esperteza,
na diplomacia. Era o caçador que encontra caminhos, o homem que sabe chegar e
sabe sair, o que traz fartura não só material, mas simbólica: alegria, música,
presença.
Como músico, Camafeu deixou marcas
importantes. Sua participação no disco Berimbaus da Bahia (1967) é um registro
histórico da musicalidade afro-baiana. Ali, sua voz rouca, seu toque firme e
seu improviso espontâneo revelam um artista que não se preocupava com técnica
acadêmica, mas com verdade. Ele tocava como quem conversa, cantava como quem
conta causos, e improvisava como quem respira. Era mestre da rua, da roda, da
vida.
No Afoxé Filhos de Gandhi[6],
Camafeu teve papel decisivo. Em momentos difíceis, ajudou a reorganizar o
bloco, fortalecer sua estrutura e preservar sua identidade espiritual.
Desfilava com orgulho, com seu turbante azul e branco, irradiando a paz e a
ancestralidade que o afoxé representa. Sua liderança ali não era burocrática:
era afetiva, simbólica, espiritual.
| Camafeu de Oxóssi e Jorge Amado |
O Berimbau como Símbolo de Oxóssi
O berimbau é arco, é flecha, é caminho. E
por isso, dizem que pertence a Oxóssi antes de pertencer a qualquer homem.
Quando Camafeu segurava o berimbau, não era
apenas músico: era caçador. O arco de madeira curvada lembrava o arco do Orixá,
e o fio de aço vibrando era como a tensão da corda prestes a lançar a flecha. A
cabaça, redonda e oca, era o mundo — e o som que saía dela era o chamado da
mata.
Oxóssi é considerado como senhor do
conhecimento rápido, da esperteza, da diplomacia. E o berimbau tem tudo isso: ele
fala pouco, mas diz muito; ele não grita, mas comanda; ele não empurra, mas
guia.
O toque do berimbau é o som da mata
respirando. É o som da folha que se mexe antes da caça aparecer. É o som da
flecha que não erra. É o som do silêncio que ensina.
| Desenho de Carybé |
Contam aqueles que conviveram com Camafeu
que quando o berimbau vibrava nas mãos dele, parecia que Oxóssi estava ali sentado,
ouvindo. E talvez estivesse.
Porque o berimbau, na vida de Camafeu, não
era instrumento: era altar. Era oferenda. Era ligação direta com o Orixá que
lhe deu nome, caminho e destino.
A roda se forma devagar, como sempre
acontece quando a Bahia decide que é hora de brincar. Um círculo de gente, um
chão de terra batida, um sol preguiçoso se inclinando para ver melhor. E no
centro, sentado com a calma de quem já viu muita coisa, estava Camafeu.
Levantava o berimbau. O arco brilhando um
pouco na luz. A cabaça encostada no corpo. O dobrão encontrando o arame. E
então veio o primeiro toque: Dom… ding… dom… ding… tsh… A roda respirava junto.
Era Angola: lenta, funda, cheia de malícia. Os capoeiristas se olhavam como
quem recebe convite. E entravam.
Um gingava baixo, rente ao chão, como se conversasse com a terra. O outro respondia com movimentos longos, quase preguiçosos, mas atentos como felino. Camafeu observava tudo com aquele sorriso que não dizia nada e dizia tudo. O toque mudava. Ele acelerava o ritmo, puxando o jogo para cima. São Bento Grande. A roda se acendia. Os corpos começavam a voar. Rasteiras rápidas, meia lua cortando o ar. E Camafeu ali, firme, conduzindo como maestro. De vez em quando ele soltava um canto — rouco, bonito, cheio de Bahia. E o canto entrava no corpo dos jogadores como vento entra na vela de barco. A roda crescia, ganhava vida própria.
Quando Carybé estava ali, desenhava o
instante. Se Pierre Verger estivesse ali, fotografava o ar. Mas, quase sempre,
quem guardava toda aquela beleza era a própria Bahia.
O toque mudava de novo. Benguela. Sincopado,
manhoso, íntimo. Os jogadores se aproximavam, quase se tocando, quase se
provocando, quase se rindo. Era jogo de dentro, jogo de quem se conhece.
Camafeu inclinava a cabeça, fechava os
olhos por um segundo. Parecia ouvir algo que só ele escutava. Talvez fosse
Oxóssi. Talvez fosse a mata. Talvez fosse apenas o próprio berimbau dizendo: “Agora.”
E, ele tocava Iúna[8].
Solenidade. Respeito. Silêncio ao redor. Os jogadores pararam. Só mestres
entram nesse toque. E quando entram, entram como quem pisa em um templo.
A roda terminava como começava: devagar. O
berimbau fazendo seu último dom. A cabaça descansava. Camafeu sorria. E a
Bahia, naquele instante, parecia sorrir com ele. Quando Camafeu tocava, a roda
não era só roda. Era história. Era axé. Era vida.
Os Quatro da Bahia
Camafeu também era figura central fora da
roda — na arte, na amizade, na cultura. Há encontros que não acontecem por
acaso. Camafeu, Jorge Amado, Carybé e Pierre Verger[9]
formavam uma roda silenciosa — não de capoeira, mas de vida, esbanjando cultura.
Cada um trazia um dom e juntos criavam uma Bahia que não cabia em mapa, só em
axé.
Camafeu era a voz. O berimbau dele não
tocava música: tocava gente. Ele era o personagem vivo que a Bahia inventa
quando está inspirada.
Jorge Amado era a palavra. Via Camafeu e
enxergava o personagem pronto, desses que não precisam de ficção porque já
nascem com literatura no corpo. Para Jorge, Camafeu era Bahia em estado bruto:
e por isso mesmo, poesia.
Carybé era o traço. Desenhava Camafeu como
quem desenha vento: rápido, preciso, cheio de movimento. Nos seus cadernos,
Camafeu aparece não como modelo, mas como símbolo — o homem que carrega a rua
no sorriso.
Pierre Verger era o olhar. Fotografava
Camafeu com a mesma reverência com que fotografava sacerdotes africanos. Para
ele, Camafeu era ponte: entre o Afonjá e o Mercado Modelo, entre a Bahia e o
mundo, entre o sagrado e o cotidiano.
Os quatro se encontravam no Ilê Axé Opô
Afonjá, onde todos eram Obás de Xangô. Ali, não eram artista, escritor,
fotógrafo ou músico. Eram irmãos de axé.
E quando se reuniam — na roda, na mesa, na
festa, no terreiro — parecia que a Bahia inteira se inclinava para ouvir. Porque
cada um deles guardava uma parte da alma da cidade: Camafeu, o som; Jorge, a
história; Carybé, a imagem; Verger, a memória. Quatro homens, quatro
linguagens, uma Bahia só.
.O Mercado Modelo[10] nos Tempos de Camafeu
Camafeu transitava entre o sagrado e o
profano com uma naturalidade que lhe era característica. Na sua época, o
Mercado Modelo não era só mercado: era o mundo.
Um mundo que começava cedo, quando o dia nem
bem amanhecia, o mercado ainda meio escuro, as portas rangendo, o cheiro de dendê,
peixe fresco, sal e madeira molhada subindo do chão, misturando risada, briga,
canto, promessa, fé e malandragem boa. As barracas eram apertadas, mas vivas,
cada uma com seu dono, seu santo, seu jeito de chamar freguês. E lá vinham
eles: os homens e mulheres que faziam o Mercado Modelo existir antes mesmo que
os turistas descobrissem o caminho.
Tinha o pescador, que falava pouco e
carregava o mar nos olhos. Tinha a baiana de acarajé, que fritava com a mesma
paciência com que rezava. Tinha o artesão, que esculpia santos e barcos como
quem conversa com a madeira. Tinha o carregador, que sabia o peso das
mercadorias e o peso das histórias. Tinha a vendedora de fitas, que sabia
exatamente a cor que cada pessoa precisava, mesmo quando a pessoa não sabia.
E tinha Camafeu. Mas Camafeu não era
trabalhador como os outros. Ele era o ponto de luz no meio da confusão. Os
trabalhadores o chamavam de “meu compadre”, “meu velho”, “meu
mestre”. E ele respondia a todos com aquele sorriso que parecia saber mais
do que dizia.
Quando Camafeu chegava, o mercado mudava de
ritmo. Ele passava cumprimentando um por um, perguntando da família, da saúde,
do santo, do dinheiro, sabia que tudo isso era vida e vida não se separa em
gavetas.
Às vezes ele tocava o berimbau ali mesmo,
sem cerimônia. E os trabalhadores paravam. A baiana segurava a colher no ar. O
pescador encostava o balde. O artesão deixava a faca sobre a mesa. O carregador
apoiava o saco no chão. Era como se o mercado inteiro respirasse junto.
O toque dele não era espetáculo. Era
descanso. Era conversa. Era lembrança de que a Bahia tem ritmo próprio, e que
quem trabalha nela também dança, mesmo quando não percebe.
Os trabalhadores gostavam de Camafeu porque
ele era um deles. Não era artista distante, nem figura de livro, nem personagem
inventado. Era homem de rua, de barraca, de suor, de axé. Sabia o valor de uma
boa venda, de uma boa risada, de uma boa história. Sabia o peso da vida e o
jeito de torná-la mais leve.
E quando a tarde caía e o mercado começava
a esvaziar, os trabalhadores se juntavam perto da barraca dele. Ali, entre
cachaça, conversa e música, o dia se fechava como roda. E Camafeu, com seu
berimbau, fazia o Mercado Modelo parecer menos mercado e mais casa.
Camafeu ficava sentado como quem reina sem
precisar de trono. Perfume forte, roupa bem escolhida, sorriso que sabia mais
do que dizia. Era comum ver Carybé passando, caderno de desenho debaixo do
braço, parando só para observar o gesto de Camafeu segurando o arco. Pierre Verger,
quando aparecia, vinha com aquele olhar de quem fotografa até o silêncio. E
Jorge Amado, sempre que podia, sentava para ouvir, sabendo que ali, naquela
barraca, estava a Bahia que ele escrevia.
O Mercado Modelo daqueles tempos era
barulho, era confusão, era festa — mas quando Camafeu tocava, tudo virava roda.
Roda de gente, roda de axé, roda de vida. Quem viveu aquilo nunca esqueceu, porque
o Mercado Modelo dos tempos de Camafeu não era um lugar: era o mundo e Camafeu
era o coração dele.
O samba de capoeira, frequentemente chamado
de samba de roda, é a expressão festiva e comunitária que encerra,
tradicionalmente, as rodas de capoeira, marcando a transição do jogo marcial
para a celebração e a descontração.
O samba de capoeira começa antes do
primeiro passo. Começa no berimbau, naquele toque que não chama para a luta,
mas para a festa. É como se o instrumento dissesse: “Agora é hora de brincar.”
A roda se abre um pouco, o chão parece
ganhar brilho, e os capoeiristas mudam de corpo. A ginga vira balanço. O
balanço vira convite. E o convite vira samba.
Capa de CD 1984 Capa de CD 1967 Capa de CD 1968
Não é o samba do palco, nem o samba da avenida. É o samba da roda, nascido da capoeira, criado na rua, moldado pela malícia. Os pés deslizam como quem não quer acordar o chão. Os quadris conversam. Os ombros respondem. E o sorriso aparece sem ninguém mandar.
O samba de roda dentro da capoeira não é
dança: é conversa. Cada passo diz uma coisa. Cada giro responde outra. Os
quadris falam, os pés riem, os ombros provocam. É jogo de sedução, mas também
de respeito. É brincadeira, mas também é rito.
Os mais velhos dizem que o samba é a parte
da capoeira que guarda a alegria dos ancestrais. A parte que lembra que a luta
nasceu da festa, e não o contrário. Que o corpo resiste, sim — mas também
celebra. Que a capoeira é arma, mas é também abraço. Que o samba de capoeira é
o descanso da luta.
Depois de jogar Angola, depois de medir
força no São Bento Grande, depois de testar malícia no Benguela, o corpo pede
riso. E o samba chega como água fresca, como sombra boa, como riso que se
espalha.
Quem entra no samba de roda dentro da
capoeira não entra para vencer. Entra para brincar. Para honrar quem veio
antes. Para lembrar que a capoeira é feita de luta, mas também de festa — e que
uma não vive sem a outra.
O jogo muda: não há rasteira, há sedução; não
há esquiva, há brincadeira. Não há disputa, há encontro, há diálogo. Cada
movimento diz algo: um elogio, uma provocação, uma lembrança, uma promessa.
E quem sabe ler esses gestos entende que
ali, naquele instante, a capoeira está mostrando sua outra face — a face da
festa, da alegria, da rua viva.
Depois do jogo sério, da mandinga baixa, da
esquiva calculada, o berimbau muda de intenção. O toque fica mais leve, mais
redondo, mais cheio de convite. E a roda, que até então era combate disfarçado,
vira festa.
As palmas começam primeiro — tímidas,
depois confiantes. O pandeiro entra como quem pede licença. A voz sobe, quente,
cheia de Bahia. E os corpos, que antes se mediam, agora se aproximam.
Camafeu adorava esse momento. Tocava o
berimbau com um brilho no olhar, como quem sabe que o samba é o segredo da
capoeira: a prova de que ela não nasceu para machucar, mas para celebrar. E
quando o samba começava, parecia que a Bahia inteira entrava na roda.
Mas, até a alegria tem seu tempo e a Bahia
também sabe quando é hora de recolher o canto. Quando Camafeu adoeceu, a Bahia
pareceu ficar mais silenciosa. Não era silêncio de luto — era silêncio de
espera. Como quando o mar recua antes de uma onda grande. Como quando o
berimbau segura o som antes de soltar o toque.
Ele estava cansado. O corpo já não
acompanhava o brilho dos olhos. Mas o axé, esse ninguém lhe tirou. Mesmo
doente, Camafeu ainda tinha aquele jeito de quem sabe mais do que diz, aquele
sorriso que guardava rua, santo e malícia.
No Afonjá, diziam que Oxóssi estava
chamando. Chamando devagar, como quem chama filho querido. E Camafeu, que
sempre ouviu o Orixá no som do berimbau, começou a ouvir no silêncio também.
No Mercado Modelo, os trabalhadores falavam
baixo. A barraca dele parecia esperar. O berimbau, encostado num canto, parecia
guardar o último toque. Quando a notícia chegou[11],
não veio como susto. Veio como maré. Uma onda que cobre tudo, mas não derruba
nada.
A Bahia inteira sentiu — não como perda,
mas como mudança de lugar. No velório, alguém tocou berimbau. Não para fazer
roda, não para fazer festa. Para fazer caminho. O som subiu lento, bonito,
cheio de respeito.
E parecia que cada dom dizia: “Vai em
paz”. E cada ding respondia: “Estamos aqui.”
O velório reuniu capoeiristas, sambistas,
filhos de santo, comerciantes, intelectuais, turistas que o haviam conhecido
décadas antes. O cortejo foi acompanhado por cantigas, berimbaus, lágrimas e
risos, porque despedidas de figuras de axé nunca são apenas tristeza. São
celebração da vida que foi vivida com intensidade.
Camafeu partiu como viveu: com elegância,
com axé, com a Bahia. Não deixou vazio — deixou eco. Camafeu segue existindo
como mito: desses que não precisam de estátua, porque já estão eternizados na
lembrança do povo. Um filho de Oxóssi que fez da própria vida uma obra de arte
popular. Até hoje, quando um berimbau toca grave, firme, cheio de mandinga boa,
alguém comenta baixinho: “Esse toque tem coisa de Camafeu.” E enquanto o berimbau tocar, Camafeu ainda estará
entre nós!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 19/09/2026
A bibliografia
sobre Camafeu de Oxóssi é
extremamente
rica mas fragmentada. Algumas sugestões:
1. Carybé – As Sete Portas da Bahia
Carybé
retrata personagens fundamentais da Bahia, e Camafeu aparece como figura viva
do Mercado Modelo e do Afonjá. O livro é essencial para entender o ambiente
cultural onde Camafeu circulava — e como artistas o viam como símbolo da Bahia
negra e popular.
2. Carybé – Iconografia do Candomblé
Obra
visual que documenta o candomblé baiano. Camafeu aparece desenhado como Obá
Aresá, reforçando sua importância dentro da estrutura civil-religiosa do Ilê
Axé Opô Afonjá. É uma das fontes mais diretas sobre sua posição no axé.
3. Pierre Verger – Orixás: Deuses Iorubás
na África e no Novo Mundo
Verger
não dedica um capítulo a Camafeu, mas o menciona como Obá do Afonjá e como
figura próxima de Mãe Senhora. O livro contextualiza profundamente o universo
religioso que moldou Camafeu — especialmente Oxóssi e Xangô.
– Acervo
Fotográfico (Fundação Pierre Verger)
Há
fotografias de Camafeu no Mercado Modelo e no Afonjá. Essas imagens são
documentos históricos raros, mostrando sua postura, seu estilo e sua presença
pública. O acervo é acessível na Fundação Pierre Verger, em Salvador.
5. Vivaldo da Costa Lima – A Família de
Santo nos Candomblés Jeje-Nagô
Sobre a
estrutura civil e religiosa dos terreiros. Camafeu aparece listado como Obá
Aresá, o que confirma oficialmente sua posição no Afonjá. É uma fonte acadêmica
sólida.
6. Waldeloir Rego – Capoeira Angola:
Ensaio Sócio-Etnográfico
Rego
documenta mestres da capoeira e do berimbau. Camafeu é citado como referência
musical e como figura importante da capoeira baiana. Ajuda a entender seu papel
na roda e sua musicalidade.
7. Emília Biancardi – Raízes Musicais da
Bahia
Biancardi
produziu o disco Berimbaus da Bahia (1967), onde Camafeu toca e canta. O livro
contextualiza a música afrobaiana e menciona artistas populares como ele. É
essencial para compreender sua contribuição musical.
8. LPs Berimbaus da Bahia (1967) e Camafeu de
Oxóssi (1968)
Registros
sonoros históricos. Camafeu aparece tocando e cantando — são documentos da sua
musicalidade. Indispensável para qualquer estudo sobre ele.
9. Antonio Risério – Carnaval Ijexá
Análise do
Afoxé Filhos de Gandhi. Camafeu aparece como liderança importante nos anos
1970, ajudando a reorganizar o bloco. Fonte valiosa para entender seu papel no
afoxé.
10. Mãe Stella de Oxóssi – Meu Tempo é
Agora
Mãe
Stella menciona Obás históricos do Afonjá. Camafeu aparece como parte da
estrutura do terreiro e como figura respeitada. Ajuda a compreender sua relação
com o axé.
11. Edison Carneiro – Candomblés da Bahia
Carneiro
não fala diretamente de Camafeu, mas descreve o universo religioso onde ele
viveu. É leitura fundamental para contextualizar sua formação espiritual.
12. Ruth Landes – A Cidade das Mulheres
Landes
descreve o Afonjá e Mãe Senhora. Camafeu não aparece nominalmente, mas o livro
ilumina o ambiente que moldou sua vida religiosa.
13. Jorge Amado – Bahia de Todos os Santos
e crônicas diversas
Jorge
Amado cita Camafeu em conversas e crônicas como personagem vivo da Bahia. Não é
ficção: é testemunho afetivo. Mostra como Camafeu era visto pelos grandes
artistas da época.
14. Jornal A Tarde (Salvador) – Arquivo
Histórico
Reportagens
dos anos 60–80 mencionam Camafeu no Mercado Modelo e no Filhos de Gandhi. Fonte
jornalística primária.
15. Correio da Bahia – Arquivo Histórico
Matérias
sobre o Afonjá e o Filhos de Gandhi citam Camafeu como Obá e como liderança
cultural.
16. Revista O Cruzeiro – Reportagens de
Pierre Verger
Verger
fotografou Camafeu em matérias sobre a Bahia. Essas fotos são documentos raros
e preciosos.
17. Revista Afro-Ásia (UFBA)
Artigos
sobre o Afonjá mencionam Obás históricos, incluindo Camafeu.
18. Documentários da TVE Bahia – A Capoeira
na Bahia
Imagens
de arquivo mostram Camafeu tocando berimbau. É uma das poucas fontes
audiovisuais existentes.
[1]
Camafeu de Oxóssi
(Salvador 04/10/1915 – Salvador 26/03/1994), filho de Maria Firmina da
Conceição e Faustino José do Patrocínio
[2] A capoeira é
simultaneamente uma dança, uma luta e um jogo. Criada pelos africanos trazidos
ao Brasil escravizados, a partir de 1500, a capoeira era proibida por lei, mas
sobreviveu na clandestinidade. Quando a prática aberta foi permitida na década
de 1930, logo se tornou muito popular. Hoje a capoeira é amplamente reconhecida
por dançarinos e praticantes de artes marciais.
[3] Barraca de São Jorge que
vendia berimbaus e artigos religiosos de matriz africanos
[4]
Título honorífico
e sacerdotal masculino de alta dignidade dentro da estrutura civil e religiosa
do Candomblé, especificamente na tradição Ketu. Esse título o coloca entre
figuras como Carybé, Dorival Caymmi e Gilberto Gil.
[5] Foi casado com Dona Toinha,
que trabalhava com ele tanto na barraca de São Jorge quanto, posteriormente, no
restaurante dentro do Mercado.
[6] Foi presidente do grupo
entre 1976-1982
[7] Hector Julio Páride Bernarbó (Argentina/Lanus,
07/02/1911-Salvador, 02/10/1997), pintor, gravador, desenhista, ilustrador,
ceramista, escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista
argentino, brasileiro naturalizado e residente no Brasil desde 1949 até sua
morte.
[8]
O toque de Iúna é
reservado para que apenas joguem os mestres, contra-mestres e graduados
antigos. Não é um toque para iniciantes.
[9]
Pierre Edouard
Leopold Verger (Paris, 04/11/1902-Salvador 11/02/1996), foi um fotógrafo autodidata, etnólogo,
antropólogo e escritor franco-brasileiro, que assumiu o nome religioso Fatumbi.
[10]
O Mercado Modelo é
um mercado de artesanato localizado na cidade de Salvador, estado da Bahia, no
Brasil. Foi inaugurado em 2 de fevereiro de 1912 e ocupa, desde 1971, o prédio
da antiga Casa da Alfândega de Salvador.
[11] Camafeu
de Oxossi , Salvador 04/10/1915 –
Salvador, 26/03/1994. A morte de Camafeu, em 1994, vítima de câncer no fígado e
um AVC, foi sentida como perda coletiva.
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