sábado, 6 de junho de 2026

 

Seu Jair do Cavaquinho, viu a Portela nascer!!!

(22/04/1920 – 06/04/2006)


Ai, barracão

Pendurado no morro

E pedindo socorro

À cidade a seus pés

Ai, barracão

Tua voz eu escuto

Não te esqueço

um minuto ...”

(Jair do Cavaquinho)

 

Jair do Cavaquinho, imagem retirada da internet

Seu Jair do Cavaquinho — Jahyr de Araújo Costa — foi daqueles raros personagens cuja vida se confunde com a história de um lugar. Nascido na Rua Arruda Câmara[1], viveu e cresceu no miolo do Mapa afetivo da Portela, entre panelas de feijão, rodas de samba e conversas que moldaram o caráter de uma Escola inteira. Antes de saber escrever o próprio nome, já sabia reconhecer um bom partido-alto.

Desde pequeno acompanhava Alvaiade, Rufino e Alvarenga e com seis anos de idade, Jair construiu seu primeiro cavaquinho com um pedaço de tábua e arame de cerca. Não era instrumento — era teimosia, sonho e destino. Tocava com a seriedade de quem já sabia que aquilo seria sua vida. A Velha Guarda achava graça, mas também respeitava: aquele menino tinha ouvido. E tinha alma. Aprendeu a tocar cavaquinho observando os músicos mais velhos na infância, enquanto trabalhava como engraxate. Seu talento era tão reconhecido que até o rigoroso Jacob do Bandolim elogiava a forma como ele tocava.

O menino Jair começou a participar do “Vai Como Pode”, o bloco que deu origem à Portela, ainda criança, levado pela mãe e pelas irmãs que desfilavam na Ala das Baianas. Ele teve a honra de ser o primeiro mascote da Escola. Cresceu circulando entre casas que eram templos do samba, um trajeto que virou quase mítico: tudo começava na Estrada do Portela: onde ele viu a Escola nascer; a casa de Paulo da Portela, onde aprendeu disciplina e elegância; a de Manacéa, onde aprendeu melodia; a de Alcides Malandro Histórico, onde aprendeu história.

O menino Jair nasceu e se criou em Oswaldo Cruz, no miolo do território portelense, muito perto da lendária Estrada do Portela — que era o eixo da vida social da Escola.

O mapa afetivo da Portela antiga, não aparece no Google, mas vive na memória dos portelenses e é uma das coisas mais bonitas da história do samba. Não é um mapa de ruas — é um mapa de pessoas, casas, quintais, cheiros, sons e trajetos. A Portela nasceu assim: de porta em porta, de fogão em fogão, de roda em roda, devagar por Oswaldo Cruz nos anos 30, 40 e 50. E este mapa tinha pontos bem definidos:

1. A Estrada do Portela — o eixo do mundo: Era a “avenida central” da Portela, mas com alma de vila. Por ali passavam: Paulo da Portela indo trabalhar impecável, Alvaiade com o violão debaixo do braço, crianças correndo atrás de bola, sambistas indo e vindo das casas uns dos outros. A Estrada do Portela era a espinha dorsal. Tudo acontecia ali ou a partir dali.

2. A casa de Paulo da Portela — o farol: Ficava perto da Estrada do Portela. Era o lugar onde se discutia disciplina, se ensaiava canto, se conversava sobre postura, respeito, elegância, se sonhava com uma Escola organizada, bonita e  altiva. Paulo era o professor. Quem entrava ali saía diferente.

3. A casa da Tia Vicentina — o coração: A casa da Tia Vicentina era o ponto de acolhimento do mapa. Ali tinha: feijão no fogo, roda de samba espontânea, compositor chegando com letra pela metade, batendo na porta pedindo café, mostrando samba novo, gente rindo, chorando, comendo, cantando. Era a casa onde todo mundo cabia. E onde o pequeno Jair cresceu vendo o samba acontecer.

 4. A casa do Manacéa — o laboratório:. Também perto da Estrada do Portela, era onde ele: compunha, recebia amigos, mostrava sambas novos, discutia letra, melodia, harmonia, oferecia a dobradinha da Dona Neném. A casa dele era mais silenciosa que a da Vicentina, mas igualmente importante. Era o estúdio caseiro da Portela.

5. A casa do Alcides Malandro Histórico — o ponto de encontro dos malandros bons: Ali se falava da história da Escola, política do samba, fofoca boa, causos antigos. Era o lugar onde se aprendia a malandragem honesta, aquela que não fazia mal a ninguém.

6. A Portela – a Escola do coração: antes da quadra existir, a Portela era rua, sala, quintal, cozinha, botequim, varanda, terreno baldio. A Quadra só veio muito depois e, quando chegou, a Portela já existia inteira, espalhada por este Mapa. E, esse mapa não tem CEP. O trajeto por esse Mapa moldou o homem que o menino Jair se transformou.

A Portela não nasceu da quadra, nasceu de gente que amava o samba. Paulo da Portela era o norte. Tia Vicentina era o acolhimento. Manacéa era a poesia. Alcides era a memória. Alvaiade, Alvarenga. Mijinha e tantos outros ajudaram o pequeno Jair a ser o fio que costurava tudo isso.

O menino Jair virou Seu Jair, compositor, cavaquinista, cantor, parceiro de gigantes. Participou de grupos históricos como “A Voz do Morro[2]” e “Os Cinco Crioulos[3]”, da gravação de LPs fundamentais para a identidade do samba como “Rosa de Ouro[4]”, conviveu com Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, e tantos outros que ajudaram a escrever o livro invisível do samba carioca. Mas, apesar de tudo isso, nunca perdeu a simplicidade. Era daqueles que chegavam cedo, cumprimentava todo mundo, afinava o cavaquinho com calma e sorria com os olhos.

Seu Jair, imagem retirada da internet

Seu Jair era memória viva. Guardava histórias que não estão em livro nenhum. Contava causos com humor seco, daquele que chega de mansinho e acerta em cheio. Tinha a doçura de quem viu muita coisa e a firmeza de quem sabe o valor do que viveu. Era ponte entre gerações, entre a Portela antiga e a Portela que viria. Sempre dizia que havia visto a “Portela nascer”!

Quando a Portela o reconheceu como sócio número 1, ninguém estranhou. Era apenas a formalização de algo que todos sabiam: antes de existir quadra, antes de existir desfile, antes de existir título, já existia Jair, menino correndo pela Estrada do Portela, carregando o instrumento feito por ele mesmo, ouvindo conversa de gente grande, aprendendo o que não se ensina

Ele tinha uma memória prodigiosa sobre o cotidiano de Oswaldo Cruz que não está nos livros de história oficiais, mas sim nas crônicas de quem viveu o dia a dia no mapa afetivo da Portela. Suas composições são um relato da vida suburbana. A música do Seu Jair não é apenas melódica; é um registro social. "Barracão de Zinco[5]" é um marco. Não retrata apenas uma paisagem, mas a dignidade do morador do subúrbio e a precariedade que ele enfrentava. Analisar essa letra é entender a estética da Portela — uma escola que sempre prezou pela elegância, mas que não esconde a realidade de onde seus integrantes são originários.

O fato de ele ter composto com Nelson Cavaquinho (que era da Mangueira!) prova que, no nível dos compositores, a rivalidade entre as escolas era restrita ao carnaval. Eles circulavam, trocavam temas e compartilhavam o mesmo universo poético.

Embora tenha tido uma carreira extensa como músico de bastidor e acompanhante de grandes nomes como Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus, ele teve um reconhecimento tardio como artista solo. Foi apenas aos 79 anos, com o apoio de Marisa Monte, que produziu o álbum Tudo Azul e, posteriormente, seu CD solo pelo selo Phonomotor, que ele viu sua obra ser consolidada em discos próprios.

Para quem se interessa pela Portela, ele foi a conexão viva com a era de Paulo da Portela. Ele não apenas viveu a fundação da escola, mas dedicou sua vida a transmitir esse legado para as gerações seguintes.

Ele, que foi o primeiro mascote da Escola, com a partida de Manacéa, o substituiu na coordenação e preservação Velha Guarda da Portela. Quando ele assumiu a liderança, a função não era apenas "cantar", era transmitir o comportamento: como se vestir, como se portar, como manter a liturgia do samba. Ele cumpriu suas funções com galhardia.

Foi diretor de harmonia da Portela e em sua visão, a harmonia era o que garantia que a Escola não se perdesse na desordem. Para ele, manter a harmonia era quase uma missão política — garantir que o legado dos fundadores não fosse diluído pelo crescimento do carnaval comercial. Foi, também, presidente da Ala dos Compositores da Escola.

Para quem se interessa pela Portela, ele foi a conexão viva com a era de Paulo da Portela. Ele não apenas viveu a fundação da escola, mas dedicou sua vida a transmitir esse legado para as gerações seguintes.


Argemiro, Tia Eunice, Seu Jair, Tia Surica

Faleceu em 2006, mas não foi embora. Ficou na lembrança de todos os que o conheceram, na música que deixou, no jeito de tocar cavaquinho que ainda ecoa nas rodas e, principalmente, no território afetivo que ajudou a construir. Porque a Portela não é só uma escola: é um conjunto de casas, ruas, vozes e histórias. E, nesse mapa afetivo invisível, Seu Jair é um dos pontos centrais — um farol discreto, mas indispensável, que ainda hoje ajuda a iluminar a Escola azul e branco de Osvaldo Cruz.

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 06/06/2026


[1] Atual Rua Clara Nunes

[2] Zé Kéti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode

[3] Anescar do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Mauro Duarte (substituindo Paulinho da Viola, que integrou o conjunto antecessor) e Nelson Sargento.

[4] Aracy Cortes, Clementina de Jesus, Anescar do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Paulinho da Viola

[5] Gravada por Jamelão e Elizeth Cardoso

  Seu Jair do Cavaquinho, viu a Portela nascer!!! (22/04/1920 – 06/04/2006) “ Ai, barracão Pendurado no morro E pedindo socorro À cidade a...