Seu
Jair do Cavaquinho, viu a Portela nascer!!!
(22/04/1920 – 06/04/2006)
“Ai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
À cidade a seus pés
Ai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço
um minuto ...”
(Jair do Cavaquinho)
| Jair do Cavaquinho, imagem retirada da internet |
Seu Jair do Cavaquinho — Jahyr de Araújo Costa — foi daqueles raros personagens cuja vida se confunde com a história de um lugar. Nascido na Rua Arruda Câmara[1], viveu e cresceu no miolo do Mapa afetivo da Portela, entre panelas de feijão, rodas de samba e conversas que moldaram o caráter de uma Escola inteira. Antes de saber escrever o próprio nome, já sabia reconhecer um bom partido-alto.
Desde pequeno acompanhava Alvaiade, Rufino
e Alvarenga e com seis anos de idade, Jair construiu seu primeiro cavaquinho
com um pedaço de tábua e arame de cerca. Não era instrumento — era teimosia,
sonho e destino. Tocava com a seriedade de quem já sabia que aquilo seria sua
vida. A Velha Guarda achava graça, mas também respeitava: aquele menino tinha
ouvido. E tinha alma. Aprendeu
a tocar cavaquinho observando os músicos mais velhos na infância, enquanto
trabalhava como engraxate. Seu talento era tão reconhecido que até o rigoroso
Jacob do Bandolim elogiava a forma como ele tocava.
O menino Jair começou a participar do “Vai
Como Pode”, o bloco que deu origem à Portela, ainda criança, levado pela
mãe e pelas irmãs que desfilavam na Ala das Baianas. Ele teve a honra de ser o
primeiro mascote da Escola. Cresceu circulando entre casas que eram templos do
samba, um trajeto que virou quase mítico: tudo começava na Estrada do Portela:
onde ele viu a Escola nascer; a casa de Paulo da Portela, onde aprendeu
disciplina e elegância; a de Manacéa, onde aprendeu melodia; a de Alcides
Malandro Histórico, onde aprendeu história.
O menino Jair nasceu e se criou em Oswaldo
Cruz, no miolo do território portelense, muito perto da lendária Estrada do
Portela — que era o eixo da vida social da Escola.
O mapa afetivo da Portela antiga, não
aparece no Google, mas vive na memória dos portelenses e é uma das coisas mais
bonitas da história do samba. Não é um mapa de ruas — é um mapa de pessoas,
casas, quintais, cheiros, sons e trajetos. A Portela nasceu assim: de porta em
porta, de fogão em fogão, de roda em roda, devagar por Oswaldo Cruz nos anos
30, 40 e 50. E este mapa tinha pontos bem definidos:
1. A Estrada do Portela — o eixo do
mundo: Era a “avenida central” da Portela, mas com alma de vila. Por ali
passavam: Paulo da Portela indo trabalhar impecável, Alvaiade com o violão
debaixo do braço, crianças correndo atrás de bola, sambistas indo e vindo das
casas uns dos outros. A Estrada do Portela era a espinha dorsal. Tudo acontecia
ali ou a partir dali.
2.
A casa de Paulo da Portela
— o farol: Ficava perto da
Estrada do Portela. Era o lugar onde se discutia disciplina, se ensaiava canto,
se conversava sobre postura, respeito, elegância, se sonhava com uma Escola
organizada, bonita e altiva. Paulo era o
professor. Quem entrava ali saía diferente.
3. A casa da Tia Vicentina — o
coração: A casa da Tia Vicentina era o ponto de acolhimento do mapa. Ali
tinha: feijão no fogo, roda de samba espontânea, compositor chegando com letra
pela metade, batendo na porta pedindo café, mostrando samba novo, gente rindo,
chorando, comendo, cantando. Era a casa onde todo mundo cabia. E onde o pequeno
Jair cresceu vendo o samba acontecer.
4. A
casa do Manacéa — o laboratório:. Também perto da Estrada do Portela, era
onde ele: compunha, recebia amigos, mostrava sambas novos, discutia letra,
melodia, harmonia, oferecia a dobradinha da Dona Neném. A casa dele era mais
silenciosa que a da Vicentina, mas igualmente importante. Era o estúdio caseiro
da Portela.
5. A casa do Alcides Malandro Histórico
— o ponto de encontro dos malandros bons: Ali se falava da história da Escola,
política do samba, fofoca boa, causos antigos. Era o lugar onde se aprendia a
malandragem honesta, aquela que não fazia mal a ninguém.
6. A Portela – a Escola do coração: antes
da quadra existir, a Portela era rua, sala, quintal, cozinha, botequim,
varanda, terreno baldio. A Quadra só veio muito depois e, quando chegou, a
Portela já existia inteira, espalhada por este Mapa. E, esse mapa não tem CEP.
O trajeto por esse Mapa moldou o homem que o menino Jair se transformou.
A Portela não nasceu da quadra, nasceu de
gente que amava o samba. Paulo da Portela era o norte. Tia Vicentina era o acolhimento.
Manacéa era a poesia. Alcides era a memória. Alvaiade, Alvarenga. Mijinha e
tantos outros ajudaram o pequeno Jair a ser o fio que costurava tudo isso.
O menino Jair virou Seu Jair, compositor,
cavaquinista, cantor, parceiro de gigantes. Participou de grupos históricos
como “A Voz do Morro[2]”
e “Os Cinco Crioulos[3]”,
da gravação de LPs fundamentais para a identidade do samba como “Rosa de
Ouro[4]”,
conviveu com Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, e tantos
outros que ajudaram a escrever o livro invisível do samba carioca. Mas, apesar
de tudo isso, nunca perdeu a simplicidade. Era daqueles que chegavam cedo,
cumprimentava todo mundo, afinava o cavaquinho com calma e sorria com os olhos.
| Seu Jair, imagem retirada da internet |
Seu Jair era memória viva. Guardava histórias que não estão em livro nenhum. Contava causos com humor seco, daquele que chega de mansinho e acerta em cheio. Tinha a doçura de quem viu muita coisa e a firmeza de quem sabe o valor do que viveu. Era ponte entre gerações, entre a Portela antiga e a Portela que viria. Sempre dizia que havia visto a “Portela nascer”!
Quando a Portela o reconheceu como sócio
número 1, ninguém estranhou. Era apenas a formalização de algo que todos
sabiam: antes de existir quadra, antes de existir desfile, antes de existir
título, já existia Jair, menino correndo pela Estrada do Portela, carregando o
instrumento feito por ele mesmo, ouvindo conversa de gente grande, aprendendo o
que não se ensina
Ele tinha uma memória prodigiosa sobre o
cotidiano de Oswaldo Cruz que não está nos livros de história oficiais, mas sim
nas crônicas de quem viveu o dia a dia no mapa afetivo da Portela. Suas composições
são um relato da vida suburbana. A música do Seu Jair não é apenas melódica; é
um registro social. "Barracão de Zinco[5]"
é um marco. Não retrata apenas uma paisagem, mas a dignidade do morador do
subúrbio e a precariedade que ele enfrentava. Analisar essa letra é entender a
estética da Portela — uma escola que sempre prezou pela elegância, mas que não
esconde a realidade de onde seus integrantes são originários.
O fato de ele ter composto com Nelson
Cavaquinho (que era da Mangueira!) prova que, no nível dos compositores, a
rivalidade entre as escolas era restrita ao carnaval. Eles circulavam, trocavam
temas e compartilhavam o mesmo universo poético.
Embora tenha tido uma carreira extensa como
músico de bastidor e acompanhante de grandes nomes como Elizeth Cardoso e
Clementina de Jesus, ele teve um reconhecimento tardio como artista solo. Foi
apenas aos 79 anos, com o apoio de Marisa Monte, que produziu o álbum Tudo Azul
e, posteriormente, seu CD solo pelo selo Phonomotor, que ele viu sua obra ser
consolidada em discos próprios.
Para quem se interessa pela Portela, ele foi
a conexão viva com a era de Paulo da Portela. Ele não apenas viveu a fundação
da escola, mas dedicou sua vida a transmitir esse legado para as gerações
seguintes.
Ele, que foi o primeiro mascote da Escola,
com a partida de Manacéa, o substituiu na coordenação e preservação Velha
Guarda da Portela. Quando ele assumiu a liderança, a função não era apenas
"cantar", era transmitir o comportamento: como se vestir, como se
portar, como manter a liturgia do samba. Ele cumpriu suas funções com
galhardia.
Foi diretor de harmonia da Portela e em sua
visão, a harmonia era o que garantia que a Escola não se perdesse na desordem.
Para ele, manter a harmonia era quase uma missão política — garantir que o
legado dos fundadores não fosse diluído pelo crescimento do carnaval comercial.
Foi, também, presidente da Ala dos Compositores da Escola.
Para quem se interessa pela Portela, ele foi
a conexão viva com a era de Paulo da Portela. Ele não apenas viveu a fundação
da escola, mas dedicou sua vida a transmitir esse legado para as gerações
seguintes.
| Argemiro, Tia Eunice, Seu Jair, Tia Surica |
Faleceu em 2006, mas não foi embora. Ficou
na lembrança de todos os que o conheceram, na música que deixou, no jeito de
tocar cavaquinho que ainda ecoa nas rodas e, principalmente, no território
afetivo que ajudou a construir. Porque a Portela não é só uma escola: é um
conjunto de casas, ruas, vozes e histórias. E, nesse mapa afetivo invisível,
Seu Jair é um dos pontos centrais — um farol discreto, mas indispensável, que
ainda hoje ajuda a iluminar a Escola azul e branco de Osvaldo Cruz.
Carmen
Evangelho
Ilha da
Magia, 06/06/2026
[1]
Atual Rua Clara Nunes
[2]
Zé Kéti, Paulinho
da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do
Cavaquinho, Zé Cruz e Oscar Bigode
[3]
Anescar do
Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Mauro Duarte (substituindo
Paulinho da Viola, que integrou o conjunto antecessor) e Nelson Sargento.
[4]
Aracy Cortes,
Clementina de Jesus, Anescar do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho,
Nelson Sargento e Paulinho da Viola
[5]
Gravada por Jamelão e Elizeth Cardoso