"Cantar com Clementina é como entrar num templo!" (João Bosco)
Escutar Quelé cantando é entrar em um mundo vivo da cultura brasileira, escavando as raízes africanas, recuperando o papel da oralidade na construção da nossa identidade.
Clementina
de Jesus da Silva[1],
nasceu em Marquês de Valença[2],
em 07 de fevereiro de 1901, numa casa aos pés da Capelinha de Santo Antônio de
Carambita, que havia sido construída por seu pai. Sua infância foi embalada pela voz da mãe,
D. Amélia, que entoava jongos, lundus, curimbas e cantigas de trabalho enquanto lavava
roupas, no riacho que corria atrás da casa. Eram cantos que vinham de seus
antepassados, negros escravizados e que ficaram guardados para sempre na
memória da menina.
A
região de Marquês de Valença, situada no Vale do Paraíba fluminense havia se
desenvolvido a partir do esgotamento da extração do ouro nas Minas Gerais, que
causou um forte fluxo migratório para ocupação das terras virgens existentes no
vale do rio Paraíba do Sul. O cultivo do café, que até os meados do século XIX
havia permitido um crescimento na região, a partir da utilização da força de trabalho escravizada em larga escala, começou a declinar na última década daquele
século.
O
pai de Clementina, Paulo Baptista de Araujo Leite, era banto e trabalhava com
pedreiro e carpinteiro. Os bantos foram os primeiros escravizados a serem
trazidos para o Rio de Janeiro e Minas Gerais, ainda no século XVI. Clementina conheceu seus avós que haviam sido
escravizados e trabalhado como mucamos nas casas das famílias produtoras de
café da região. Através da herança cultural, Clementina aprendeu com a avó
materna Eva e a mãe Amélia, cantos originários que depois viriam a caracterizar
seu repertório e sua voz. “Clementina era uma negra banto! O canto dela,
aliás é de uma negra banto. Ela tinha um repertório de música africana muito
vasto. Muita coisa que ela cantava, ela aprendeu na beira do Rio”, contava
o compositor Elton Medeiros, com quem Quelé subiu ao palco para apresentar o
musical “Rosa de Ouro”[3],
que ficou em cartaz de 1964 a 1967, considerado até hoje uma pérola dos
musicais brasileiros.
Em
1908, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, atraída por promessas de uma
vida melhor e se estabeleceu em Jacarepaguá próximo a Praça Seca, bairro
periférico do Rio que na época ainda tinha um ar bucólico de interior, e
concentrava um grande contingente de libertos, que buscavam se adaptar a pós
abolição. A casa onde foram morar era ao lado de um terreiro de candomblé, para
onde Quelé costumava espiar os movimentos e escutar os cânticos, “alguns tão
bonitos”, como costumava contar.
A
Praça Seca não é muito distante de Osvaldo Cruz onde, nos anos vinte do século
passado, surgiam nomes que viriam a envolver Quelé com o bloco “Quem fala de
nós come mosca”, onde chegou a ser diretora. Convivendo com Paulo
da Portela, Antonio Rufino, Antonio Caetano e Heitor dos Prazeres, Quelé foi
acolhida pela Portela onde conheceu, João da Gente, primeiro diretor de bateria
da Escola.
Osvaldo
Cruz naquele momento reunia algumas figuras que mantinham vivas tradições
culturais como Mané Pesado, mestre macumbeiro com quem Quelé escutava cantigas
e pontos de trabalho. “A cultura de Osvaldo Cruz era mais influenciada por
padrões rurais. As festas no início dos anos 20 não eram animadas pelo samba
como concebemos, mas pelo jongo e pelo caxambu”.[4]
O
jongo é uma manifestação popular muito presente na vida da Quelé, com as festas
da região e intensa convivência com grandes nomes do samba, em muito
contribuíram para ampliar o seu vasto repertório cultural, com fortes
referencias de ancestralidade e africanidade.
Foi
numa visita a Mangueira, na década de 30 que a portelense Quelé conheceu o
mangueirense Albino Pé Grande, com quem se casaria nos anos 40 e viraria
mangueirense!!!
Festeira,
Quelé não deixava de participar de festas religiosas, fossem de origem
africanas ou de origens católicas. Duas importantes festas eram a Festa da
Penha e a Festa da Glória. Foi exatamente numa destas festas, onde Clementina
cantava e bebia nos arredores da Ladeira do Outeiro, no Bar Taberna da Glória, que Herminio Belo de Carvalho ficou hipnotizado por sua voz e a trouxe para o
altar da música popular brasileira. Aos 63 anos, Quelé se mantinha trabalhando
como empregada doméstica, cantava em festas religiosas, organizava grupos de
pastoras do samba, convivia na Mangueira com grandes compositores e tocava a
vida ao lado de Pezão. Naquele fim de tarde, vindo da praia, Herminio Belo de
Carvalho escutou a voz de Quelé. Não se aproximou por estar sem documentos e
com roupa de praia, mas ficou encantado com aquela voz que lhe falava de
ancestralidade, de raízes, de Africa e de Brasil com tanta força.
Algumas
semanas depois voltaram a se encontrar na inauguração do Zicartola, quando
Quelé, cantou, versou e encantou. Dali para Festa da Glória de 1964, Herminio
já sabia que iria reencontrar Quelé. E, nascia uma parceria que vamos agradecer
para sempre na história da nossa música.
Os
discos de Clementina de Jesus são um dos legados mais impressionantes da música
brasileira. Eles registram não só a voz dela, mas um repertório ancestral que,
sem ela, talvez tivesse se perdido. A discografia é relativamente pequena, mas
absolutamente fundamental para a cultura brasileira. Quelé gravou uma
participação especial no disco “Rosas de Ouro”, em 1965 e depois no “Rosas de
Ouro 2” de 1967.
Seu primeiro disco solo, “Clementina de Jesus” (1966), marcou sua estréia tardia, aos 65 anos, e nos trouxe jongos, vissungos, cantos de trabalho e sambas tradicionais. É considerado um documento histórico da cultura afro-brasileira e chega com uma estética completamente diferente de tudo o que se fazia na época. É um repertório que não tocava no rádio, não era incentivado pelo mercado, nem estava na moda. Vinha da vida, da oralidade, da memória. A sonoridade crua, ritual e poderosa.
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| Capa Clementina de Jesus - 1966 |
O
disco teve uma produção mínima, porque ninguém queria “domar” Clementina,
com acompanhamento simples: violão, cavaquinho, percussão leve e coro discreto.
Clementina não cantou “bonito” no sentido tradicional. Ela cantou verdadeiro,
com um timbre que parece vir de séculos atrás.
No “Clementina, Cadê Você?” (1970), com participação de Mestre Nelsinho na direção musical e de Mestre Marçal na percussão, Quelé misturou sambas de roda, partido-alto e cantos religiosos em toda a sua plenitude!!! Gravado no MIS do Rio de Janeiro, o processo de gravação foi o de um disco feito na raça, na espontaneidade e na força da presença de Quelé, sem grandes luxos de estúdio, mas com uma verdade que poucos registros fonográficos alcançaram5. O espaço que não era exatamente um estúdio tradicional, tinha acústica natural, onde se gravava muito samba, depoimentos e encontros musicais. Quelé se sentia à vontade em ambientes assim — ela não era uma cantora de técnica, mas de rito, de presença. O resultado é um disco surpreendente. Inesquecível para quem pôde se deliciar com ele.
Em 1973, “Marinheiro Só” se tornou um dos seus discos mais celebrados.
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| Capa "Marinheiro Só" - 1973 |
O título foi tirado de um canto tradicional afro-brasileiro e sua produção valorizou a força rústica da voz de Clementina.
A
direção musical foi de César Guerra-Peixe, o grande maestro modernista amante
da música afro-brasileira que trabalhou com Clementina como um patrimônio vivo
da nossa cultura.
O encontro entre “Clementina de Jesus – Convidado Especial Carlos Cachaça”, de 1975, reúne a grande guardiã dos cantos afro-brasileiros, e Carlos Cachaça, parceiro de Cartola e um dos pilares da Mangueira. É quase como ouvir duas vertentes da memória do samba conversando: Clementina trazendo a ancestralidade dos vissungos, curimbas, jongos e cantos de trabalho; Cachaça representando a poesia mangueirense, o samba urbano, lírico e malandro.
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| Capa 1975 |
É um registro que capturou um encontro raro. É uma joia que
costuma passar meio despercebida fora dos círculos mais apaixonados pelo samba,
mas guarda um valor histórico e afetivo enorme. Foi o encontro de duas memórias
vivas do samba. Clementina canta com aquela voz que parece vir de um tempo
anterior ao próprio samba, transformando o canto em rito e contrastando com a
fala mansa, o canto quase falado, cheio de histórias e saudades de Carlos Cachaça.
O repertório misturou sambas tradicionais ligados à
Mangueira, cantos de origem africana que Clementina preservava, composições de
Carlos Cachaça, algumas pouco registradas, momentos de conversa e
espontaneidade que dão ao disco um sabor documental. É um álbum que funciona
quase como um encontro de gerações dentro da própria tradição.
É um disco que não se ouve com pressa. Pede atenção, pede silêncio, pede entrega. É daqueles que fazem a gente lembrar que o samba não nasceu para o palco, mas para o estar junto! Clementina e Carlos Cachaça sabiam disto!
O disco de 1978, “Clementina e Convidados”
reuniu um time representando várias vertentes do samba: a tradição paulista
(Adoniran), samba de terreiro carioca (Roberto Ribeiro, Martinho), a linhagem
feminina do samba (Dona Ivone Lara, Clara Nunes e Cristina Buarque) e a ponte
com a MPB mais moderna naquela época (João Bosco e Carlinhos Vergueiro).
Este álbum não foi um projeto comercial nem uma coletânea de participações: foi um ritual de reconhecimento. Foi como se cada convidado tivesse ido prestar reverência à Quelé, com afeto e com aquele jeito de roda que ela carregava, porque cantar com Clementina era como entrar num território sagrado, mas sem perder a espontaneidade.
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| Capa Clementina e Convidados - 1978 |
O
disco inteiro nos dá a sensação de uma grande roda de samba, mas com a
delicadeza de um registro histórico. É
um disco de celebração, da vida, da
ancestralidade e da presença dela no mundo.
Clementina, já tinha atravessado décadas de invisibilidade, já tinha
sido descoberta tardiamente, já tinha gravado obras-primas, faltava o encontro
de gerações, linhagens e tradições reconhecendo que ela representava a origem
das diversas vertentes. E, foi isto que aconteceu neste disco!
E,
seu último disco, em 1982, “Canto dos Escravos” nasceu da necessidade e
da urgência de se registrar o que estava desaparecendo. Clementina de Jesus,
Geraldo Filme e Tia Doca da Portela, registraram – de maneira inédita – um
documento histórico com vissungos de mineração, cantos de despedida, cantos de
lamentos e cantos de resistência. Os vissungos são uma das últimas ligações
diretas entre o Brasil e as culturas africanas trazidas forçadamente para nosso
país. Eles representam: história, espiritualidade, dor, beleza e sobrevivência.
E, Clementina foi uma das últimas guardiãs dessa memória.
A maioria das pessoas escravizadas trazidas para o Brasil entre os séculos XVII e XIX era de origem banto, especialmente de: Angola, Congo e Moçambique. A cultura banto está profundamente entranhada no Brasil, especialmente no Sudeste e no Sul de Minas. Ela aparece no nosso vocabulário (moleque, caçula, fubá, quitanda), religiosidade (candomblé de Angola, Umbanda), culinária (angu, farofa, dendê em certas regiões), dança (jongo, batuque, capoeira), música (pontos, cantos de trabalho, vissungos). E, Clementina foi uma das vozes que mais preservou essa herança.
A
tradição musical dos povos bantos era baseada em: polirritmia, canto
responsorial (chamada e resposta), repetição ritual, uso do corpo como
instrumento, cantos de trabalho, de lamento e quando essas pessoas foram
trazidas escravizadas para o Brasil, elas trouxeram consigo: línguas, ritmos,
modos de cantar, modos de rezar, modos de sobreviver pela música.
Clementina
aprendeu vissungos na infância, com a mãe, que era filha de pessoas
escravizadas. Ela não aprendeu em livros. Ela aprendeu na vida, no corpo, na
memória. Quando ela canta um vissungo, ela não está “interpretando”. Ela está
lembrando e fazendo a gente lembrar junto. É por isso que a voz dela tem aquela
força que parece vir de antes do Brasil.
Os
vissungos eram transmitidos oralmente e com o fim da escravidão, muitos desses
cantos foram desaparecendo — por dor, por vergonha imposta, por esquecimento
forçado. Os vissungos são memória, sobrevivência, código, lamento, resistência
e comunicação de um povo que não podia falar livremente. São cantos de
escravizados de origem banto, especialmente das regiões que hoje correspondem a
Angola e Congo. E, eles eram cantados: nas minas de ouro de Minas Gerais, nos
trabalhos forçados, nos rituais de luto, nas despedidas e nos momentos de dor e
de esperança. Eram cantos em línguas africanas misturadas ao português, com
palavras que às vezes ninguém mais sabe traduzir. São fragmentos de uma África
que sobreviveu na voz.
Os
vissungos tinham muitas funções: comunicar sem que os feitores entendessem,
organizar o ritmo do trabalho, proteger espiritualmente quem cantava, lamentar
a perda da liberdade, manter viva a língua e a memória, criar comunidade entre
pessoas arrancadas de suas terras. Eles eram, ao mesmo tempo, canto e código.
O
“Canto dos Escravos” é um álbum de ancestrais. Clementina, Geraldo Filme
e Tia Doca cantaram como quem carrega séculos na voz. Eles se trataram com
amor, respeito e uma espécie de silêncio cúmplice — o silêncio de quem entende
que está diante de algo maior do que qualquer indivíduo. Eles eram guardiões de
memórias, cada um trazendo um pedaço de um Brasil profundo e que se
reconheceram imediatamente como parentes espirituais.
Clementina
e Geraldo Filme tinham uma ligação muito forte. Clementina vinha da tradição
rural do Sudeste, do jongo, dos cantos de trabalho, da memória banto mineira.
Geraldo Filme vinha da tradição paulista do samba de bumbo, do batuque, das
festas negras do interior de São Paulo. Quando se encontraram, perceberam que
cantavam a mesma África por caminhos diferentes. Geraldo Filme tinha enorme
respeito por Clementina, dizia que ela era “a voz da mãe África”.
Clementina gostava do jeito dele: firme, cheio de consciência histórica. Consta
que durante as gravações, os dois se emocionaram várias vezes. Geraldo Filme
chorou em mais de uma faixa, não de tristeza, mas de reconhecimento.
Clementina
e Tia Doca carregavam uma tradição muito profunda: cantos de trabalho, pontos
de roda, memórias da Portela antiga, fragmentos de cantos africanos que elas
não sabiam nomear, mas sabiam sentir. As duas se tratavam com carinho e
orgulho. Tia Doca via Clementina como uma ancestral viva. Tia Doca dizia que
cantar ao lado de Clementina era “como entrar num lugar sagrado”.
Geraldo
Filme e Tia Doca se reconheceram como parentes de luta: ambos eram guardiões de
tradições negras que o Brasil insistia em ignorar, ambos tinham vivido o
apagamento cultural, ambos sabiam que estavam registrando algo que poderia
desaparecer. Geraldo Filme admirava a força de Tia Doca. Tia Doca admirava a
consciência histórica de Geraldo Filme. Eles se trataram com respeito e
cumplicidade.
Clementina, Geraldo Filme e Tia Doca foram
três das últimas pessoas que ainda guardavam esses fragmentos e quando eles
cantaram juntos, três linhagens diferentes da diáspora banto no Brasil se
encontraram na mesma sala: Minas Gerais (vissungos), São Paulo (samba de bumbo,
batuque), Rio de Janeiro (Portela, cantos de trabalho, jongo urbano). Foi como
juntar três rios que vinham de lugares diferentes, mas desembocaram no mesmo
mar. Hermínio Bello de Carvalho afirmou que, quando eles cantaram juntos, o MIS
parecia “um templo”.
Os
três eram unidos pela ancestralidade, oralidade, memória herdada, dor
transformada em canto, a consciência de que estavam registrando algo maior do
que eles mesmos, respeito profundo pela tradição, sensação de que aquele era um
momento único. Eles não fizeram um disco. Cumpriram uma missão. Registraram a
origem bantu dos vissungos. Registraram a origem de uma parte significativa da
cultura brasileira.
Hoje, relembrar os 125 anos de Clementina de Jesus, é agradecer pelo registro de parte importante de nossa história e de nossa cultura que ela nos deixou. Clementina de Jesus nos presenteou com uma parte significativa de nossa identidade. Nosso maior agradecimento é conhecer seu trabalho e divulgá-lo para as novas gerações!
[1] Nascida Clementina de Jesus de Souza
[2] A cidade que fica cerca de 150km da
capital carioca hoje chama-se Valença
[3] Rosa de Ouro: O espetáculo "Rosa de
Ouro", 1965, foi um marco na música popular brasileira, idealizado por
Hermínio Bello de Carvalho e dirigido por Cléber Santos, que levou o samba do morro para o Teatro Jovem,
no Rio de Janeiro. A montagem destacou a cantora Clementina de Jesus, ao lado
de Aracy Cortes, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, e
Nelson Sargento.
[4] Paulo da Portela: traço de união entre
duas culturas, Volume 3 de Coleção MPB ; Autores, Marília Trindade Barboza,
Lygia Lopes dos Santos ; Edição 2ª.






Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQuerida Carmen, que artigo maravilhoso !!! Parabéns...
ResponderExcluirOlá Carmem, parabéns pelas decisões: a reativação do Blog e o tema Clementina. Abracos. Jorge.
ResponderExcluirAdorei!
ResponderExcluirOi , Carmem parabéns pelo blog, abraço
ResponderExcluirOi Carmem, obrigada por compartilhar esse texto lindo e emocionante. Aprendi muito. Parabéns.
ResponderExcluirFicou muito bom! necessário este texto para recuperarmos a memória do povo sobre as raizes
ResponderExcluirCarmen! Obrigado por dividir essa história com tanto cuidado e com tanto detalhe. Reforça a riqueza da nossa cultura, nosso tesouro brasileiro! Ansioso pra seguir acompanhando as próximas publicações!
ResponderExcluirCarmen, que preciosidade! Teu texto desperta a vontade de ouvir todos esses álbuns em sequência, sem pressa, com muita atenção. Obrigada!
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