segunda-feira, 2 de novembro de 2026

 

“Día de los Muertos”,

quando a memória floresce e a vida celebra a eternidade dos afetos

Aos meus pais, André e Edméa!

 

Há um lugar no mundo em que novembro chega vestido de flores, as velas acendem pequenas estrelas sobre os altares e a saudade, em vez de se recolher em silêncio, ganha cores, perfumes, música e poesia. Um lugar onde a morte, sem deixar de ser mistério, aproxima-se da vida e encontra, entre os vivos, um espaço de acolhimento. Esse lugar é o México, onde, todos os anos, o "Día de los Muertos" transforma a lembrança dos que partiram em uma extraordinária celebração da existência.

Não se trata de festejar a morte, tampouco de negar a dor da despedida. Trata-se de reconhecer que há presenças que não desaparecem com a ausência dos corpos, que existem histórias capazes de atravessar o tempo e afetos que continuam habitando aqueles que ficam. É uma celebração da memória como morada do amor.

Suas raízes mergulham profundamente na história dos antigos povos mesoamericanos, muito antes da chegada dos conquistadores espanhóis, povos como mexicas (astecas), maias, zapotecas e mixtecas já realizavam rituais dedicados aos ancestrais. A morte era entendida como uma continuação da existência, não como um fim absoluto. Havia festividades e oferendas para os mortos, ligadas ao ciclo agrícola e à cosmologia indígena.

Nessa época, a relação com os mortos era parte da vida cotidiana. Os ancestrais eram vistos como membros ativos da comunidade, capazes de influenciar a prosperidade dos vivos. Para aqueles povos originári0s, a morte fazia parte dos grandes movimentos da natureza e dos ciclos do universo. A existência não era compreendida apenas como uma passagem linear entre nascimento e fim, mas como parte de uma ordem cósmica na qual a vida e a morte se entrelaçavam.

Para os povos indígenas, a morte não era o fim, mas uma etapa de uma jornada contínua. Eles acreditavam que a alma viajava para o “Mictlán” e que, uma vez por ano, os mortos tinham permissão para retornar e visitar suas famílias. Os rituais originais duravam cerca de um mês e eram dedicados à deusa “Mictecacihuatl”, a "Dama da Morte".

Com a conquista espanhola do território mexicano, no século XVI, essas antigas concepções encontraram as tradições católicas de Todos os Santos e de Finados. Do encontro, das tensões e das transformações entre diferentes mundos culturais nasceu, ao longo dos séculos, uma celebração singular, na qual heranças indígenas e influências cristãs passaram a compartilhar símbolos, ritos e significados.

Imagem retirada de historiasdeambientemx.blogspot.com


Assim, a cada início de novembro, o México parece abrir suas portas para uma antiga conversa entre o passado e o presente, entre os que permanecem e aqueles cuja existência continua inscrita na memória dos seus.

Nas casas, os altares são preparados como quem prepara um encontro muito esperado. São as oferendas, espaços de afeto onde fotografias devolvem rostos ao tempo, alimentos evocam sabores de outras épocas e pequenos objetos recuperam gestos e histórias. Ali estão os nomes, os gostos, as preferências e os vestígios de vidas que não se deseja esquecer. Cada detalhe guarda uma lembrança; cada objeto parece sussurrar uma história.

Altar no "Dia de los Muertos"
 

As velas iluminam os altares como pequenas promessas de luz. Sua chama delicada simboliza o caminho, a esperança e a acolhida. Ao lado delas, a água, o sal, as frutas, as bebidas e os alimentos preferidos dos falecidos compõem uma oferenda de hospitalidade. É como se o amor, incapaz de aceitar inteiramente a distância, encontrasse na delicadeza desses gestos uma maneira de continuar cuidando.

Altar do "Dia de los Muertos"

Entre todos os símbolos, talvez nenhum seja tão expressivo quanto a flor de "cempasúchil". De pétalas abundantes e tonalidade amarelo-alaranjada, ela espalha seu perfume pelos caminhos, pelas casas e pelos cemitérios. Na tradição popular, suas flores orientam simbolicamente os espíritos em seu retorno. Suas pétalas, espalhadas pelo chão, desenham caminhos luminosos, como se a própria natureza participasse da celebração e oferecesse suas cores para aproximar mundos.

"La Calavera de la Catrina", gravura do mexicano José Guadalupe Posada.


Há também as caveiras de açúcar, delicadamente ornamentadas com cores e desenhos. Aquilo que em outras culturas poderia provocar medo transforma-se em expressão artística, brincadeira e reflexão. A morte é representada sem disfarces, mas também sem a solenidade que a distancia da vida. A figura de “La Catrina”, elegante em sua aparência esquelética, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos dessa tradição, trazendo consigo a ironia e a crítica social: diante da morte, títulos, riquezas e aparências perdem sua importância.

As "calaveras" podem ser feitas de açucar, chocolate ou barro, coloridas com flores e enfeites  


"Pan de muerto", preparado para as festividades

O “pan de muerto”, preparado especialmente para a ocasião, acrescenta à celebração o perfume e o sabor do alimento compartilhado. As bandeirolas de papel colorido dançam ao vento, a música acompanha os encontros e os cemitérios se transformam em espaços de convivência, iluminados por velas e cobertos de flores. Famílias permanecem junto aos túmulos, conversam, rezam, recordam e compartilham histórias. A saudade está presente, mas não está sozinha: encontra companhia na ternura, na gratidão e na alegria de ter vivido momentos ao lado daqueles que partiram.E é justamente nessa convivência entre saudade e celebração que reside a beleza mais profunda do “Día de los Muertos”.

Papel picado em bandeirolas, outra das tradições

Em uma época na qual tantas sociedades procuram afastar a morte do cotidiano, escondê-la ou silenciar sobre ela, os mexicanos preservam uma tradição que a coloca diante dos olhos, não como uma ameaça, mas como parte inseparável da própria experiência humana. Não eliminam a tristeza, mas lhe oferecem outras possibilidades de expressão. Não esquecem a perda, mas encontram na memória uma maneira de transformar a ausência em presença simbólica.

Há uma sabedoria antiga nesse gesto. Somos também feitos daqueles que vieram antes de nós. Carregamos palavras que aprendemos, histórias que ouvimos, valores que recebemos e gestos que repetimos, muitas vezes sem perceber. Em nós permanecem os traços de tantas vidas que ajudaram a construir a nossa. Os que partiram continuam presentes na maneira como amamos, educamos, sonhamos e compreendemos o mundo.

A memória, nesse sentido, não é apenas uma lembrança voltada para trás. É uma força que atravessa o tempo e participa da construção do futuro. É herança invisível, patrimônio dos afetos, fio delicado que une gerações e impede que a história de uma vida se perca inteiramente no esquecimento.

Talvez por isso essa celebração ultrapasse tanto as fronteiras do México. Também no Brasil, entre flores depositadas sobre túmulos, fotografias guardadas em álbuns, objetos preservados e histórias repetidas à mesa, procuramos manter próximos aqueles que já não podemos abraçar. Mas o exemplo mexicano nos convida a acrescentar à saudade um gesto de celebração: agradecer pela existência compartilhada, pelas experiências vividas e por tudo aquilo que o amor deixou como herança.

Afinal, não somos feitos apenas do tempo que nos é concedido, mas também das marcas que deixamos uns nos outros. Uma palavra que acolheu, uma mão que amparou, um ensinamento que permaneceu, uma alegria que se tornou lembrança. São pequenas eternidades que a passagem do tempo não consegue apagar.

Quando novembro chega ao México e as flores de "cempasúchil" espalham sua luz sobre os caminhos, quando as velas tremulam na noite e os altares se enchem de fotografias, alimentos e histórias, parece que a vida e a memória se dão as mãos. E, nesse encontro, compreendemos que a morte pode interromper uma presença, mas não tem o poder de apagar tudo o que essa presença significou.

Talvez seja essa a grande lição do “Día de los Muertos”: a vida merece ser celebrada enquanto acontece, e aqueles que amamos merecem continuar sendo lembrados depois que partem. Porque há flores que nascem novamente a cada primavera, histórias que atravessam gerações e amores que encontram na memória um lugar onde o tempo não consegue chegar.

Enquanto houver alguém para lembrar, haverá uma vida que continua florescendo!

 

    Celebração dos "Dias de los Muertos", em México

Carmen Evangelho

Ilha da Magia o2/11/2026

Obs.: Em 2008, a UNESCO inscreveu as festividades indígenas dedicadas aos mortos no México na “Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade”. O reconhecimento valoriza não apenas a beleza estética da festa, mas principalmente: a transmissão de conhecimentos entre gerações, a preservação das tradições comunitárias, a relação entre identidade cultural e ancestralidade, a importância da memória coletiva e a diversidade das expressões culturais mexicanas.

  


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