quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Zé Espinguela[1]: O Homem que Juntava Mundos

 

No começo do século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade partida entre as reformas do centro e a poeira dos subúrbios, vivendo a ilusão de uma modernização que tentava apagar suas fortes raízes africanas. Entre leis que criminalizavam a vadiagem e a feitiçaria, o povo negro do subúrbio e dos morros construiu redes invisíveis de resistência, sociabilidade e arte.

Nos morros, nas casas simples, nos terreiros improvisados, nas rodas de samba que começavam tímidas e terminavam épicas, surgiam figuras que moldariam a cultura brasileira. E no centro dessa teia civilizatória erguia-se a figura de um homem de fala forte, riso largo e presença magnética — o babalaô, sambista e articulador cultural cuja trajetória refundou a história do Carnaval brasileiro:  José Gomes da Costa, o Zé Espinguela ou Spinguela.

Zé Espinguela
Nascido por volta de 1882 e radicado no bairro do Engenho de Dentro, Zé Espinguela transformou sua casa na Rua Bangu em um território sagrado e profano, centro de sua vida e coração da comunidade Como sacerdote de matriz africana, exerceu a liderança espiritual e comunitária de seu terreiro, acolhendo trabalhadores, músicos e despossuídos. Mas no quintal espaçoso do Seu Zé, a rítmica dos atabaques e a devoção aos orixás conversavam diretamente com a cadência do partido-alto. O axé dos terreiros não apenas protegia a comunidade, era a própria matéria-prima do samba de terreiro. Abrigava o terreiro de candomblé e umbanda e servia de palco para feijoadas de confraternização, o imóvel virou ponto de encontro para quem buscava proteção, conselho ou uma boa conversa.

Espinguela cresceu num ambiente onde música e espiritualidade eram inseparáveis  e como a maioria dos sambistas da época não vivia exclusivamente da música, sua renda provinha do trabalho informal e dos serviços comunitários e espirituais no subúrbio.

As mulheres eram o coração silencioso daquele mundo. Não apareciam nas fotografias, não assinavam os sambas, mas seguravam o terreiro, o quintal, a comida, a roupa, o ritmo, a proteção. As mães‑de‑santo, as tias do samba, as vizinhas que chegavam com panela na mão e palavra na hora certa — todas elas costuravam o tecido invisível que mantinha o Engenho de Dentro de pé. E não era só trabalho: era presença. Era axé. Era política. Porque enquanto os homens enfrentavam a polícia na rua, eram as mulheres que enfrentavam o mundo dentro de casa — protegendo os sambistas, escondendo instrumentos, acalmando brigas, guardando segredos. E Espinguela sabia disso. Nunca disse em voz alta — não era homem de discursos — mas sua casa era governada por mãos femininas que não pediam licença porque já tinham direito.

E o Engenho de Dentro é um bairro que acorda cedo. Antes do sol, já tem vida nas calçadas, já tem panela no fogo, já tem vizinho chamando outro pelo apelido que só existe ali. A rua parecia estar sempre acordada. De manhã, cheiro de café e de roupa lavada. À tarde, crianças correndo, vizinhos conversando, o sol batendo nas paredes como se quisesse entrar. É um bairro que não anda: balança. Tem um gingado próprio, como se cada rua tivesse aprendido a sambar antes de aprender a ser rua. E no meio desse mundo que respira quente estava a casa de Espinguela, que parecia maior por dentro do que por fora. Porta sempre aberta, vela sempre acesa, tambor sempre pronto. Ali, o tempo não corria — ele rodava, como quem gira no próprio eixo para não perder o centro. E no meio de tudo, Espinguela — grande sem ser alto, imenso sem ser pesado.

Ele tinha um jeito de olhar que parecia enxergar a pessoa inteira. Cartola dizia que Espinguela via antes de ouvir. Carlos Cachaça jurava que ele sabia quando alguém chegava triste, mesmo que o sorriso estivesse no rosto. Saturnino brincava que Espinguela era “meio santo, meio malandro, completamente necessário”.

Nas noites de festa, a casa virava mundo. Gente entrando, gente saindo, gente ficando. O cheiro de comida misturado ao cheiro de vela. O som do tambor misturado ao som da conversa. E Espinguela no centro, como se fosse maestro de uma orquestra invisível. Ele caminhava pela casa como quem cuida de um jardim. Ajeitava uma vela, arrumava uma cadeira, dava risada, chamava alguém pelo apelido, fazia uma benção rápida com a mão. Ele não mandava — ele guiava.

Nos anos 1920, o Rio fervilhava de pequenos blocos, rodas de partido‑alto e sambistas que construiam o futuro sem saber. Mas, era um período de ostensiva perseguição policial, quando ter um pandeiro sob o braço era motivo para prisão. Espinguela usou seu prestígio para proteger o samba. Foi nesse contexto que, em 1927, ele se aproximou dos lendários Cartola, Carlos Cachaça, Saturnino, Marcelino e outros nomes para que, juntos, formassem o Bloco dos Arengueiros — embrião da Estação Primeira de Mangueira.

Engenho de Dentro era o chão; a Mangueira, o horizonte. Bastava subir o morro para entender que a Mangueira não é só lugar, é estado de espírito. Entre o bairro e o morro, Espinguela caminhava como ponte e travessia. No Engenho, ele juntava gente; na Mangueira, juntava destino. No terreiro, acendia a fé; na roda, acendia o samba. Com seu jeito de quem sabe mais do que diz, costurou os fios invisíveis que fizeram do Engenho um coração e da Mangueira um pulmão, ensinando que o samba não nasce — brota onde há fé, gente e chão.


Foi numa daquelas noites de casa cheia que ele anunciou, com a voz emocionada: “Vamos fazer um concurso. Um concurso de escolas de samba. Aqui. Na minha casa”. Ninguém acreditou. E assim, entre improviso e coragem, nasceu o primeiro desfile da história.

Em 20 de janeiro de 1929, realizou no quintal da sua casa, o que mudaria para sempre a cultura nacional: o primeiro campeonato entre blocos e escolas de samba da história. E naquela noite histórica, enquanto os homens afinavam pandeiros e discutiam versos, foram as mulheres que organizaram o quintal, acenderam as velas, distribuíram comida, acalmaram nervos e garantiram que tudo corresse sem briga.

Sua casa se transformou no palco do primeiro campeonato de escolas de samba de que se tem notícia. Mangueira, “Deixa Falar”, “Vai Como Pode” e outros grupos se apresentaram ali, diante de um público que mal sabia que estava testemunhando história. A Portela venceu, mas quem realmente ganhou foi o samba: pela primeira vez, ele foi tratado como instituição.

Sob as bênçãos do terreiro e o julgamento de intelectuais como Mário Reis e Orestes Barbosa, a disputa pacífica no verso e na batucada estabeleceu a matriz do que viriam a ser os desfiles oficiais na Praça Onze.

Seu terreiro seguiu sendo um espaço de fé, mas também de música, política comunitária, reconciliação e festa. Ele era o tipo de homem que resolvia briga com conversa, que animava ensaio com gargalhada, que abençoava sambista antes da apresentação.

Macumba de Iansã
                              https://www.youtube.com/watch?v=tkVYbGnXNV8

Sua autoridade transcendeu as fronteiras do subúrbio. Nas décadas de 1930 e 1940, Zé Espinguela tornou-se o elo crucial entre a cultura popular e a elite intelectual brasileira e internacional. Amigo e interlocutor de nomes como Villa-Lobos e Mário de Andrade, ele representava a síntese do saber ancestral.

Villa‑Lobos era fascinado pela música popular brasileira — não a música “arrumada”, mas a música viva, a que nascia na rua, no morro, no terreiro, no quintal. E foi nesse movimento de buscar a alma sonora do país que ele chegou até Espinguela que não era músico de conservatório. Era músico de vida. Villa‑Lobos sabia reconhecer isso e chegou ao Engenho de Dentro como quem chega em outro país.

Villa‑Lobos chegou ao Engenho de Dentro como quem chega a um país que ainda não existe no mapa. O maestro vinha do mundo dos paletós, dos teatros, das partituras. Espinguela vinha do mundo das velas, dos tambores, das rodas que começavam sem hora e terminavam quando o corpo decidia.

Quando se encontraram, não houve formalidades. Espinguela o recebeu sem cerimônia, ofereceu café e cadeira. Villa‑Lobos aceitou como quem recebe um presente. O tambor começou a falar. E o maestro entendeu que estava diante de algo que nenhum conservatório ensinava.

Espinguela não tocava para impressionar. Tocava porque era o que o corpo mandava. E Villa‑Lobos, com o ouvido treinado e o coração aberto, percebia que ali havia séculos de história batendo no couro do tambor. Não era ritmo: era memória. Não era percussão: era ancestralidade.

Ele tocava como quem reza. Villa‑Lobos escutava como quem aprende. Numa daquelas noites, Villa‑Lobos disse que Espinguela era “um Brasil inteiro em uma pessoa só”. Espinguela riu, aquele riso largo que enchia a sala. E, Villa‑Lobos sabia. Sabia que Espinguela era raiz. Sabia que o morro era escola. Sabia que o Engenho de Dentro era templo. E sabia que, sem homens como Espinguela, o Brasil que ele queria ouvir não existiria.

E voltou muitas vezes. Cada vez que voltava, aprendia mais. Porque Espinguela não ensinava com palavras. Ensinava com presença. Villa‑Lobos ficou impressionado com a força cultural daquele homem. E assim, entre o maestro e o pai‑de‑santo, nasceu uma amizade silenciosa — feita de respeito, de música e de Brasil.

Sem contrato, sem projeto, sem papel assinado, os dois fizeram o maior trabalho que poderiam fazer juntos: um ensinando o Brasil ao outro. O maestro levou dali sons que colocaria em suas obras. Espinguela ficou com o respeito de um homem que sabia ouvir. E o samba, silencioso, agradeceu.


Zé Espinguela - Reativação Cordão Sodade, 1940
Em 1940, o maestro inglês Leopold Stokowski, um dos regentes mais famosos do mundo ocidental daquela época, escreveu a Heitor Villa‑Lobos, pedindo ajuda para reunir “a mais legítima música popular brasileira”, pois ele estava em turnê pela América do Sul com a “All-American Youth Orchestra” e queria registrar a música popular brasileira em sua forma mais autêntica, sem filtros, sem arranjos, sem maquiagem. Queria ouvir o Brasil como ele era — e levar esse Brasil para o mundo.

Villa‑Lobos, então chefe de um órgão municipal de educação musical, respondeu com entusiasmo afirmativamente e começou a convocar seus aliados: Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Luiz Americano, Jararaca e Ratinho, Cartola — e   também Zé Espinguela, o pai‑de‑santo e sambista cuja força cultural o maestro já conhecia de perto.

Carta do Maestro Stokowski para Vila Lobos
E na noite de 7 de agosto de 1940, o porto do Rio de Janeiro parecia respirar diferente. O transatlântico “S.S. Uruguay”, da marinha americana, estava atracado na Praça Mauá, iluminado como se fosse um palco flutuante. Mas não era uma noite de baile, nem de despedida. Era uma noite de missão cultural.

Mais de cem músicos subiram a bordo do navio para gravar cerca de 40 canções que representavam o Brasil profundo: samba, choro, batucada, marchas de rancho, emboladas e até cantos de macumba — tudo aquilo que fazia o país pulsar.

O estúdio improvisado no convés parecia um milagre técnico: microfones pendurados, cabos improvisados, engenheiros americanos tentando entender o ritmo que não cabia nos padrões deles. E os músicos brasileiros, muitos deles acostumados a tocar em quintais, terreiros e rodas de samba, agora encaravam um cenário que parecia saído de um filme. Espinguela estava lá. Com seu tambor, sua voz ancestral, sua presença que misturava fé e festa. Ele não sabia — ninguém sabia — que aquela madrugada registraria para sempre a alma do samba e dos cantos sagrados do Rio.

Cartola, ainda jovem, gravou ali seu primeiro samba em disco[2] — um marco que só seria reconhecido décadas depois, quando o álbum finalmente foi lançado no Brasil, 46 anos após sua estreia nos Estados Unidos. Stokowski caminhava entre os músicos como quem observa um ritual. Não regia. Não interferia. Apenas escutava — e sorria. Era como se ele soubesse que estava diante de algo que não se repetiria. Villa‑Lobos, por sua vez, observava com orgulho silencioso. Aquele encontro era fruto de sua ponte entre mundos: o maestro do centro e os mestres do morro. O navio, naquela madrugada, era Brasil inteiro.


                                   Disco Native Brazilian Music - Zé Espinguela

Quando o sol começou a nascer, as gravações terminaram. Das quarenta faixas registradas, dezesseis seriam selecionadas para compor o álbum “Native Brazilian Music”, lançado em 1942 pela Columbia Records. Na contracapa, lia-se: “música autêntica do Brasil tocada primorosamente por músicos nativos, selecionada e gravada sob a supervisão pessoal de Leopold Stokowski”.

Disco Native Brazilian Music, imagem internet
Era verdade. Mas era pouco. Porque aquele disco não era apenas registro. Era testemunho. Testemunho de uma madrugada em que o Brasil cantou para o mundo. Testemunho de um maestro estrangeiro que soube ouvir. Testemunho de Villa‑Lobos, que soube reunir. Testemunho de Espinguela, Cartola, Donga, Pixinguinha — que souberam ser Brasil.

Capa disco Native Brazilian Music
E até hoje, quando se escuta aquelas gravações, é possível sentir o convés do “S.S. Uruguay” vibrando. Como se o navio ainda estivesse ali, atracado na Praça Mauá, esperando outra madrugada para registrar o que o Brasil tem de mais profundo: sua música, sua fé, sua gente.

Quando faleceu em 1945, Zé Espinguela deixou um legado inestimável. Ele não era compositor famoso. Não deixou discos, partituras, nem registros formais. O que ele deixou foi gente. Ele juntava pessoas. Ele criava ambiente. Ele fazia o samba acontecer. Ele não foi apenas um compositor ou organizador de festas: foi um arquiteto da identidade cultural brasileira. Ao transformar o terreiro em berço do Carnaval e o samba em patrimônio coletivo, Zé Espinguela provou que a sabedoria popular e a fé ancestral eram capazes de resistir à violência do tempo e inscrever, para sempre, a negritude no coração do Brasil.

E como muitas figuras fundamentais da cultura popular, sua morte não tem data precisa — mas sua presença permanece viva na memória da Mangueira e na história do samba. Zé Espinguela foi, acima de tudo, um organizador de mundos: o mundo da fé, o mundo da música, o mundo da comunidade. Ele não escreveu sambas — ele escreveu caminhos.

Hoje, quem passa pela Rua Adolfo Bergamini talvez não saiba que ali, onde a sede do Arranco levanta seu estandarte, já existiu um quintal que mudaria o Brasil. Mas sente. Sente no cheiro da rua, no batuque que insiste em sobreviver, no verde e rosa que ainda respira no Engenho de Dentro, na Mangueira que segue ensinando o país a cantar. O nome de Espinguela não está em placas, nem em monumentos — está no modo como o samba organiza a vida, no respeito às mães de santo, na força das comunidades que ainda fazem do quintal um mundo. O Engenho continua sendo chão. A Mangueira continua sendo horizonte. E Espinguela continua sendo ponte — mesmo sem estar. Porque homens como ele não partem: permanecem.

 

Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério


Carmen Evangelho

Ilha da Magia 01/10/2026

 

 



[1] Ele era Alufá, sacerdote do culto malê. Espinguela transitava entre as religiões de matriz afro-islâmica e afrobrasileira.

[2] Gravou com sua voz o samba “Quem me vê sorrindo”


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