Riachão,
o cronista musical da Bahia
“ ... Tem
gingado, tem
Melodia,
tem
Harmonia,
tem
Tem,
carinho, tem
É
brasileiro, como tanto nos faz bem
No salão
da gafieira
É melhor
do que ninguém ...”
Choro Nº 1 - Riachão
No Garcia, bairro de Salvador, com ladeiras
estreitas e vizinhança falante, nasceu um menino que parecia já vir ao mundo
com o ritmo pronto. Clementino Rodrigues[1],
que a família chamava de Tintin e que
a Bahia inteira aprenderia a chamar de Riachão — cresceu entre latas de água
transformadas em tambor, rodas de capoeira que começavam sem aviso e serenatas
que atravessavam a madrugada como se fossem parte natural da paisagem. Ele era
pequeno, mas já tinha aquele olhar de quem observa tudo: o vendedor de frutas
que briga com o freguês, o bêbado que dorme na porta da igreja, a moça que
passa apressada com o vestido azul. Nada escapava. E tudo virava samba.
Aos 9 anos já animava as festas do bairro,
cantando em serenatas e batucadas,
improvisando ritmos em latas de água. Teve uma infância marcada pela
criatividade e pela força das tradições afro baianas. O apelido veio cedo, como
vêm os apelidos que grudam: Riachão, porque vivia se metendo em brigas, e os
mais velhos perguntavam ao desapartar “Você é algum riachão que não se possa
atravessar?”. A pergunta virou nome
e o nome virou lenda!
Aos quinze anos, trabalhando como alfaiate,
encontrou no chão da rua um pedaço de jornal com uma frase que o feriu como uma
provocação: “Se o Rio não escrever, a Bahia não canta.” A Bahia não
canta? Ele, que já cantava desde menino, sentiu aquilo como desafio. Chegou em
casa, pegou o caderno, e escreveu seu primeiro samba. Foi como se tivesse
respondido ao mundo: “A Bahia canta sim — e eu sou prova disso.”
E naquele instante, entre o susto, a raiva
e a teimosia, a indignação virou a música. Nasceu “Eu sei que sou malandro”,
composta em 1936, primeiro samba de Riachão. A partir daí, nunca mais parou de compor. Ele
afirmava ter escrito mais de 500 sambas ao longo da vida, muitos deles nunca
foram gravados, permanecendo
inéditos e permanecem sendo repassados de boca em boca.
A letra que ele lembrava do seu primeiro samba
dizia: “Eu sei que sou malandro, eu sei, conheço o meu proceder / Deixe o
dia raiar que a minha turma, ela é boa para batucar.”[2]
Esta história é considerada o marco inicial da carreira de Riachão e um símbolo
da afirmação do samba baiano como força criativa própria, independente do eixo
Rio de Janeiro, nascido de um gesto simples: um menino de quinze anos, voltando
do trabalho, abaixa-se para pegar um pedaço de jornal jogado no chão. Para
muitos, aquele título seria apenas provocação. Para Clementino Rodrigues, virou
desafio.
Esse samba não foi apenas o início de sua
obra. Foi o primeiro grito de afirmação de um samba que não queria ser cópia do
Rio, nem sombra do Recôncavo, nem folclore para turista. Era o samba urbano de
Salvador dizendo: “Eu existo.”
Ali Riachão fez o que faria por toda a vida: transformar o cotidiano em ritmo. “Eu sei que sou malandro” nasce como resposta, mas já carregando três marcas que definiriam o samba baiano moderno: a malandragem como identidade, não como caricatura; a crônica do dia a dia, onde tudo vira matéria musical; a Bahia como sujeito, não como cenário.
| Riachão |
A partir daquele momento, Riachão passou a
compor como quem conversa com a cidade. O menino que respondeu ao jornal, respondeu
depois à baleia exposta na Praça da Sé, ao incêndio do Mercado Modelo, às
brigas do Garcia, às paixões que passavam pela rua. O samba inaugural virou uma
prática que definiu toda a sua obra:
- v
o
samba como reportagem: Riachão vira cronista musical, registrando
acontecimentos cotidianos;
- v
o
humor como arma: ele devolve ao mundo o que o mundo lhe dá, mas sempre com
ironia, leveza e malícia;
- v
a
Bahia como centro do samba: não mais periferia do Rio, mas território criador.
Cada samba posterior carrega o DNA daquele
primeiro: a Bahia respondendo, a Bahia cantando, a Bahia se afirmando. Ele inaugurou
uma linhagem que depois foi ecoar em Batatinha, Panela, Ederaldo Gentil, Nelson
Rufino, Edil Pacheco, Guiga de Ogum e chega até os sambistas contemporâneos de
Salvador.
| Riachão |
É o momento em que o samba baiano deixou de ser apenas herança do Recôncavo ou influência carioca e se tornou linguagem própria: urbana, espirituosa, crítica, profundamente ligada ao cotidiano da cidade. Riachão não inventou o samba da Bahia, só deu a ele a consciência de si.
Nos anos 1940 e 1950, Riachão brilhou no
rádio da Bahia com sambas irreverentes e cheios de personalidade. Ficou
conhecido como “cronista musical”, por transformar acontecimentos
curiosos de Salvador em música — como a famosa exposição de uma baleia na Praça
da Sé.
Alguns dos seus sambas já atravessaram
gerações: “Cada Macaco no Seu Galho”, mortalizada por Caetano Veloso e
Gilberto Gil em 1972, quando voltaram do exílio. “Vá Morar com o Diabo”,
que ganhou nova vida na voz de Cássia Eller. “Retrato da Bahia”, “Bochechuda
e Papuda”[3]
fazem parte de um célebre pot-pourri
de festas juninas gravado por Riachão. Seu estilo misturava malandragem, humor
e crítica social, sempre com aquele sabor baiano inconfundível.
Ele, também, atuou em filmes importantes: “A
Grande Feira” (1961), de Roberto Pires e “Os Pastores da Noite”
(1972) de Marcel Camus, baseado no romance de Jorge Amado. Participou, ainda,
do seriado “Pastores da Noite” na Rede Globo (2002) e em 2001, sua vida
virou documentário: “Samba Riachão”, de Jorge Alfredo.
Riachão é a ponte entre o samba urbano
baiano e a tradição da malandragem carioca, mas com uma identidade própria: baiana,
popular, espirituosa e profundamente ligada ao cotidiano de Salvador. Ele é
daqueles artistas que não só cantam samba: contam histórias.
Apesar de ser reverenciado por artistas e
críticos, Riachão enfrentou dificuldades em se inserir no mercado fonográfico.
Seu disco “Sonho de Malandro” (1973), teve pouca divulgação. Ainda
assim, sua influência é enorme e sua obra segue sendo celebrada em acervos,
discos póstumos e homenagens. Gravou poucos discos, e alguns tiveram divulgação
limitada. Ainda assim ele é ponte entre o samba do Recôncavo, o samba urbano de
Salvador e a tradição da malandragem que marcou a música brasileira no século
XX.
Algumas das melhores histórias do Riachão
são justamente aquelas que quase nunca aparecem nas biografias formais, pequenas
pérolas que revelam o tamanho da figura que ele foi.
Antes de viver de música, ele trabalhava
como alfaiate no Centro de Salvador. Muitas ideias de samba surgiam ali, entre
linhas, tecidos e conversas com clientes.
De origem familiar muito humilde, frequentava
a casa do vizinho para escutar os discos vindos do Rio de Janeiro. Antes de
compor, ele só cantava sambas cariocas que ouvia na vitrola do vizinho.
Acreditava, então, que o “samba tinha ido para o Rio e ficado lá”.
Riachão repetia em praticamente todas as
entrevistas, a lembrança mais marcante da sua infância, que envolvia um boneco
e um Terno de Reis, dizendo que aquele dia marcou sua vida artística para
sempre: em 1934, aos 12 anos, ele foi convidado para sair em um Terno de Reis e
seu papel era brincar com um boneco durante o cortejo. Este episódio o marcou a
vida toda.
Contam que nos anos 1940, quando tentou
entrar na Rádio Sociedade da Bahia, Riachão quase virou cantor sertanejo antes
de ser sambista, pois ele percebeu que cantar samba não estava fácil. Fez o
teste cantando uma música sertaneja de sua autoria, “Linda Morena” e foi
contratado como cantor de música sertaneja. Mas, tornou-se figura central da
Rádio, ajudando a consolidar o samba na programação da emissora numa época em
que o gênero ainda enfrentava preconceito das elites. Sua presença no rádio
marcou o início da profissionalização do samba soteropolitano.
Riachão viveu quase um século, tempo
suficiente para ver seus sambas atravessarem gerações, chegarem às vozes de
Caetano, Gil, Cássia Eller, Dona Ivone Lara. Morreu aos 98 anos, em Salvador,
como quem encerra um longo desfile. Viveu tempo suficiente para ser personagem
de filmes, documentários, histórias contadas em mesas de bar. Tempo suficiente
para ser mito sem nunca deixar de ser gente. Foi um dos maiores e mais
inventivos sambistas que a Bahia já produziu, um artista que transformou o
cotidiano de Salvador em poesia ritmada, humor afiado e crônica popular. Uma
figura absolutamente singular na música brasileira.
Deixou uma obra que mistura humor, crônica
social, malandragem e um olhar muito baiano sobre o cotidiano. E, o essencial é
que deixou uma obra que continua viva, dançando, sorrindo, atravessando a
cidade como um bloco que nunca termina.
| Capa CD Riachão 2013 |
E talvez seja isso que faz de Riachão um daqueles raros artistas que não se despedem. Ele não partiu: apenas mudou de rua. Continua ali, no Garcia, no Pelourinho, na Baixa dos Sapateiros, sentado em alguma cadeira de bar, batucando no tampo da mesa, rindo de canto de boca, inventando mais um samba que ninguém pediu, mas que a Bahia sempre precisa.
| Capa CD Riachão 2020 |
Enquanto houver alguém andando pelas ladeiras de Salvador com o coração no compasso, Riachão estará por perto. E a Bahia, como ele provou, canta — e continuará cantando — sempre.
Para quem deseja ouvir a herança sonora de
Riachão, preparamos uma seleção enxuta e representativa que equilibra três
vertentes fundamentais de sua obra: os clássicos que marcaram a música
brasileira, as crônicas do cotidiano e joias menos conhecidas que revelam sua
versatilidade.
| Capa CD Riachão 2022 |
1. Cada Macaco no Seu Galho:
A gravação histórica de Gilberto Gil e
Caetano Veloso é a porta de entrada definitiva para o universo de Riachão.
Samba irresistível, malandro, e com aquele humor baiano que só ele sabia
escrever.
2. Vá Morar com o Diabo:
Imortalizada por Cássia Eller, virou hino
moderno do samba baiano. É o lado mais ácido e divertido de Riachão.
3. Quase que Eu Fico Lá:
Um samba delicioso, cheio de balanço, com a
voz do próprio Riachão. Mostra sua veia de cronista popular.
4. Pitada de Tabaco:
Samba de roda puro, com aquele sabor de
Salvador antigo. É Riachão em estado bruto.
5. Retrato da Bahia:
Um dos sambas mais emblemáticos sobre
Salvador — já virou documento cultural.
6. Cartinha:
Romântico, simples e direto. Mostra que
Riachão não era só malandragem: sabia ser terno quando queria.
7. Somente Ela (com J.
Velloso e Paquito):
Um encontro bonito entre gerações do samba
baiano.
8. Eu Vou Chegando:
Samba animado, cheio de personalidade, perfeito
para entender o swing do Garcia, bairro onde nasceu.
9. Camisinha:
Irreverente, divertido, e com aquele toque
de crônica social que só ele sabia fazer.
10. Até Amanhã (com Dona
Ivone Lara)
Dois gigantes da velha guarda juntos. Um
encontro raro e precioso.
11. O Apito Zuou
Da fase mais recente, presente em Mundão de
Ouro (2013), mostra como Riachão continuou relevante até o fim da vida.
12. Incêndio do Mercado Modelo
Crônica musical sobre um acontecimento real
ocorrido em Salvador, exemplo perfeito do estilo “repórter do samba”.
13. Bochechuda e Papuda
Um clássico do humor de Riachão, premiado
com o Troféu Gonzaga.
Sua vida e obra foram celebradas no
documentário Samba Riachão (2001), exibido no Festival de Brasília, que o
apresenta como personagem fundamental da cultura popular baiana.
Ele tinha o dom raro de transformar o
cotidiano em música sem perder a graça, a malandragem, o sorriso de canto de
boca. Seus sambas não eram só canções: eram retratos. Pequenos quadros da Bahia
que ele pintava com humor, ironia e ternura. Riachão não foi apenas sambista.
Ele foi a própria Bahia. E a Bahia, como ele provou, canta sempre!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 06/09/2026
[1] Nasceu em Salvador em
14/11/1921 e faleceu na mesma cidade em 30/03/2020.
[2] Este samba foi cantarolado
por Riachão e gravado em 1974, pelo programa MPB Especial, da TV Cultura,
relançado em CD pelo Sesc/SP na série "A música brasileira deste século
por seus autores e intérpretes”.
[3]
Pode ser acessada pelo link https://www.youtube.com/watch?v=2e7giIqKdc0
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