Arquivo Lyndolpho Silva: divulgar para preservar!
O
Golpe Militar de 1964 deixou sequelas profundas na sociedade brasileira. A
desarticulação social promovida com violência e arbitrariedade implantou entre
nós o medo e a desconfiança. Fruto desses sentimentos e temendo a sorte dos
envolvidos, muitos militantes destruíram os registros de parte significativa de
nossa história social e política. A polícia apreendeu enorme quantidade de
documentos que depois chegaram às mãos de alguns pesquisadores, nem todos
coniventes com a brutalidade policial e vários deles desejosos de organizar esta
documentação para um dia poder devolvê-la à sociedade de alguma maneira.
Alguns
militantes e estudiosos, convictos de que a história também é uma arma de luta
(Fraginals, 1983), dedicaram-se a proteger a integridade dessa documentação. Um
exemplo bastante conhecido é o arquivo de Astrojildo Pereira
que acabou constituindo o Arquivo do Movimento Operário Brasileiro
(Asmob),
fundado em 1976, em Milão. O arquivo de Astrojildo Pereira foi enviado à
Itália aos cuidados da Fundação Giangiacomo Feltrinelli, graças ao empenho de
um conjunto de militantes e estudiosos brasileiros e italianos preocupados com
uma documentação que corria o risco de desaparecer, caso a polícia conseguisse
localizá-la (MELLO, 1981).
O
final dos anos 1970, marcado pelas greves que eclodiram em todo o país e pelo
processo de anistia, abre-se um novo período na nossa historiografia social,
extremamente rico e interessante para aqueles que se dedicaram a reconstruir
parte da identidade operária e sindical brasileira.
A
anistia política trouxe à tona uma infinidade de lideranças que estavam na
clandestinidade e/ou no exílio e que retomavam à legalidade e reassumiam seus
nomes, identidades, história de vida e compromissos sociais. Recompor o enorme
quebra-cabeça em que a ditadura havia transformado a história operária e
sindical não era uma tarefa fácil. No entanto, a riqueza dos fatos e das suas
interpretações mobilizou muitos interessados: pesquisadores, militantes e estudiosos.
Foi
nesse contexto que se criou o Centro de Memória Sindical (CMS), tendo como lema
de trabalho: “Não se trata de preservar o passado, mas de resgatar suas
esperanças” (ADORNO, 1988) e, como objeto central de suas ações, a
documentação oral.
O
momento político ainda despertava tensões, medos e receios. O depoente, escaldado com o que havia sofrido
nos anos de ditadura, se indagava o que aconteceria se aquele depoimento caísse
em mãos policiais. Fortalecia o trabalho de recuperação e reconstrução a
certeza de que só a socialização da informação garantiria sua integridade.
Quanto mais os fatos fossem divulgados e incorporados à historiografia oficial
mais difícil seria apagá-los e ignorá-los.
Essa
concepção teórica não era compartilhada por todos os centros de documentação
que trabalhavam com a memória social. Muitos defendiam que a organização da
documentação deveria ser associada à guarda e a não-divulgação dos documentos.
A
iniciativa de criação da Associação Ibero-americana de Arquivos do Movimento
Operário e Sindical, no início da década de 1990, reuniu alguns dos mais
importantes centros de documentação da memória dos trabalhadores do continente.
Durante esse trabalho, ouvimos falar pela primeira vez de um instrumento
chamado “internet”. O debate em torno do que seria a “internet”
foi acalorado e pouco decisivo, até porque quase nada se sabia ou conhecia.
Eram informações sobre o “ouvi dizer” que norteavam o debate. Os pontos
nevrálgicos eram a perda da identidade institucional ao se colocar na rede a
documentação e os critérios para a divulgação de algum documento. Naquele
tempo, existia um sentimento de posse da documentação, como se conhecê-la, ter
acesso às informações ali contidas, diferenciassem as pessoas e as
instituições.
O
CMS defendia que não poderia ser obrigado divulgar o que estivesse “fechado”,
o que no chargão da documentação oral significava depoimento sem acordo de
doação ou com cláusulas condicionais para sua divulgação. Esse debate motivou
várias reuniões com opiniões divergentes. Passado mais de duas décadas,
percebe-se que se tratavam de sequelas deixadas pelo período ditatorial, e que
não havíamos ainda superado.
Ao
resenhar o site de Lyndolpho Silva, o meu primeiro pensamento foi para aquela
discussão ocorrida vinte anos atrás. Constatei que, felizmente, a tecnologia
havia avançado o suficiente para permitir a única forma de garantia da
integridade da documentação sobre a organização dos trabalhadores da cidade e
do campo: sua ampla divulgação.
E
foi com grande interesse e curiosidade que me dediquei a analisar o trabalho
coordenado por Luiz Flávio de Carvalho Costa. Encontro na página inicial uma
frase de Carvalho Costa que muito me emocionou, pois tive o prazer de
compartilhar alguns anos do trabalho com Lyndolpho Silva, no final da década de
1970 e parte dos anos 1980, quando montávamos o Centro de Memória Sindical: “A
digitalização dos documentos é uma forma eficaz de sua preservação, e a decisão
de colocá-los integralmente online levou em consideração um traço da
personalidade de Lyndolpho Silva,qual seja, a sua generosidade intelectual.”
A
generosidade intelectual, a gentileza no trato, o respeito aos companheiros
mais novos e com pouca experiência, o incentivo à curiosidade e à busca
caracterizaram esse militante formado dentro de uma rígida concepção
partidária, onde a disciplina e o centralismo das decisões norteavam sua
conduta, mas não impedia sua capacidade crítica de análise e ação. Lyndolpho
aprendeu a usar a disciplina a seu favor. Estava sempre disposto a discutir, a
buscar um documento que pudesse embasar suas propostas, a alertar sobre determinadas
ações. E, disciplinadamente, organizava seus papéis e os trazia nos momentos
precisos, socializando as informações que dispunha.
Li
cada um dos documentos digitalizados e, em diversos deles, revi a figura
imponente de Lyndolpho, quando relatava ao Centro de Memória Sindical como
havia sido o processo de reconhecimento político da importância dos trabalhadores
do campo: a criação, em 1954, da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas
do Brasil (ULTAB); o Primeiro Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores
Agrícolas, em 1961; a fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores da
Agricultura (CONTAG) em 1963, a legalização das associações rurais por todo o
país. Encontrei entre os documentos, material que divergia abertamente da
organização dos trabalhadores do campo e que ajuda a reconstruir o clima de
disputa ideológica que reinava na época. Manter e divulgar a diversidade de
opiniões revela que se preservou a composição do material original e respeitou
o profundo sentimento que existia em Lyndolpho de conservar – mesmo correndo
perigo de vida, arriscando-se a prisões e a tortura – o registro e a
documentação da trajetória de lutas dos trabalhadores na construção de um país melhor
O
compromisso com a socialização da informação transparece na organização da
documentação. A facilidade como está organizada permite que qualquer
interessado, mesmo aquele que não domine as técnicas de pesquisa, encontre
facilmente o documento.
Acostumada
a ser “rato de biblioteca” e acervos, lembro quando, no final da década
de 1970, procurei material sobre greves em uma importante universidade
paulista. Havia revirado manualmente as fichas do acervo (naquela época nada
era digitalizado) e, depois de quase duas horas, consigo localizar nas estantes
um significativo material sobre o tema. Intrigada por não constar do catálogo,
voltei aos arquivos com o código de referência constante do material. "Greves"
estavam catalogadas como "conflito trabalhista". Uma forma de dificultar que
aqueles pouco habituados as técnicas de pesquisa pudessem acessar a informação.
Continuo
a navegar pelo site Lyndolho Silva! O ordenamento, catalogação e digitalização
inicial priorizaram os documentos anteriores ao golpe militar de 1964, com
algumas exceções. Facilitar o acesso à documentação da organização dos
trabalhadores rurais e da criação de seus sindicatos nesse período é de uma
relevância enorme para a construção da identidade social em nosso país e contribui
para que se reconstitua parte importante da nossa história, incentiva novos
enfoques e desperta o interesse pelo tema nas novas gerações.
A
opção na organização documental do Arquivo Lyndolpho Silva foi por sua
tipologia: anotações, atas, correspondência, declarações, discursos,
entrevistas, legislação, listagens, manifestos, relatórios, resoluções e teses
referentes ao movimento sindical e operário brasileiro, em especial à formação
da Contag e à organização mundial dos trabalhadores agrícolas.
Interessante
ler as anotações manuscritas de Lyndolpho, bem digitalizadas, permitindo
observar sua caligrafia firme e o seu cuidado corrigindo os documentos,
expressando suas opiniões pessoais sobre alguns fatos.
No
conjunto de Documentos Diversos podemos remontar aos antecedentes que
culminaram na fundação da CONTAG, à construção e constituição da ULTAB e ao
Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas.
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| Lyndolpho Silva 25/11/1924 - 06/06/2005 |
Ao
acessar as Declarações e Discursos encontramos a “Nota ao Público”, datada de
16 de março de 1964, alguns dias depois do célebre Comício da Central do Brasil
em defesa das Reformas de Base.
Este
documento, assinado pelo Secretariado Executivo do CGT,
relembra um cargo, pouco comentado, exercido por Lyndolpho: a direção do CGT,
ao lado de Clodsmidt Riani,
Dante Pellacani,
Osvaldo Pacheco da Silva,
e Rafael Martinelli.
O
CGT congregava tanto entidades reconhecidas pela estrutura sindical oficial,
como a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI), a
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Crédito (CONTEC)
e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Marítimos, Fluviais
e Aéreos (CNTTMFA), como organizações paralelas, criadas à margem da estrutura
sindical oficial, estabelecida por Vargas, como a Comissão Permanente das
Organizações Sindicais (CPOS), o Pacto de Unidade e Ação (PUA) e o Fórum Social
de Debates (FSD). Lyndolpho Silva representava na direção do CGT os
trabalhadores do campo.
Navegar
pelo site do Arquivo de Lyndopho Silva permite visualizar grande parcela da
história da organização dos trabalhadores rurais do seu tempo do quadro
sindical comunista. Quando acabamos de ler o último documento do acervo,
ficamos com a sensação de que o Brasil mudou. Talvez não tenha mudado tanto
quanto Lyndolpho e seus companheiros, entre os quais me incluo, sonharam e
lutaram. Mas, mudou! Agora é consolidar a democracia com o reconhecimento do
papel político dos trabalhadores das cidades e do campo e os instrumentos
jurídicos e institucionais para transformar este país em uma sociedade menos
desigual e injusta!
Referências
Bibliográficas
ADORNO,
T.: La dialectica do Iluminismo. Buenos Aires: Sudamericana, 1988.
FRAGINALS,
Manoel M.: La História como arma, Barcelona: Editorial Crítica, 1983.
MELLO,
Mauricio M.: Memória & História, Revista do Arquivo do Movimento Operário
Brasileiro, vol. 1, São Paulo: Livraria Editora de Ciências Humanas, 1981.