sexta-feira, 1 de maio de 2026

 

Alvaiade, um construtor da Portela!

“O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia e cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita

Não há quem possa contestar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar”[1]

 

O mundo parecia mesmo estar virado do avesso. Era 1968. O Brasil vivia tempos duros, o subúrbio sentia o peso das mudanças e a Portela tentava manter sua dignidade intacta.

Alvaiade já não era o rapaz de outrora. Trazia no rosto as marcas de quem viveu muito. No peito, as cicatrizes de quem sentiu mais do que contou. Numa noite quente de novembro, sentado na varanda simples de sua casa em Oswaldo Cruz, com o cavaquinho no colo, ele observava o movimento da rua: crianças correndo, vizinhos conversando, o trem passando ao longe. A vida seguia — sempre seguindo, mesmo quando parecia difícil. Foi, então, que ele murmurou para si mesmo, quase sem perceber: “O dia se renova todo dia…”

A frase ficou no ar, como se tivesse sido dita por outra pessoa. Ele repetiu, agora mais consciente: “O dia se renova todo dia…” e completou, com um suspiro que vinha de longe: “Eu envelheço cada dia e cada mês…

Ali estava o começo. Não era um samba de festa. Não era um samba de enredo. Era um samba de verdade — desses que nascem quando o coração resolve falar.

Ele pegou o cavaquinho e dedilhou um acorde simples, quase tímido. A melodia veio como água mansa, sem pressa. Cada verso parecia puxar o próximo, como se o samba já estivesse pronto e só precisasse de alguém para lhe abrir a porta. Alvaiade escrevia devagar, riscando, voltando, cortando palavras. Era um artesão. E sabia que um samba só fica pronto quando diz exatamente o que precisa — nem mais, nem menos. Quando terminou, recostou-se na cadeira e ficou olhando para o papel. Era um samba sobre o tempo. Sobre aceitar o que não se controla. Sobre seguir adiante mesmo quando o mundo insiste em ser duro.

Era um samba de quem já tinha visto muita coisa — e aprendido a não se desesperar. Na manhã seguinte, levou a letra para mostrar a alguns amigos da Velha Guarda. Um deles, emocionado, disse: “Alvaiadeisso ai é a vida”. Ele sorriu, daquele jeito discreto que era só dele. “A vida é assim mesmo, respondeu, a gente só precisa aprender a caminhar dentro dela[2].

Falar de Alvaiade é falar da minha querida Portela. Ele que chegou por volta de 1928, trazido por Paulo da Portela e, nunca mais saiu. Se transformou num dos pilares fundamentais da Escola e do samba carioca.

Alvaiade

Oswaldo dos Santos[3], Alvaiade, carioca, nascido na Estrada do Portela, criado em Osvaldo Cruz, tem uma história de vida forjada nas adversidades e na efervescência cultural dos subúrbios cariocas. Ficou órfão aos cinco anos de idade e cedo começou a trabalhar como tipógrafo aos 13 anos, profissão que exigia imprimir as palavras e que deixaria marcas na sua personalidade como a de preservar a memória do samba.

Mas, foi no campo de futebol que ele ganhou a identificação que o acompanharia por toda a vida: Alvaiade[4].  Atleta polivalente, jogou pelo time da própria Portela e pela Associação Atlética Portuguesa em 1935, demonstrando que, nos subúrbios, a sociabilidade entre o samba e o futebol constituía o alicerce da identidade comunitária e da formação do caráter do sambista.  

Convidado pelo próprio Paulo da Portela, Alvaiade trouxe consigo a experiência de liderança de um pequeno bloco da Rua B[5], onde também participavam Brasileiro, Zé Cachacinha e Alvarenga[6]. Inicialmente, trazia seu cavaquinho, mas logo chamou a atenção de Paulo da Portela, se tornando seu substituto natural, assumindo a responsabilidade de organizar a escola e receber visitantes ilustres, Na década de 1930, Alvaiade foi organizador e zelador da estética portelense. Sob a orientação de Paulo da Portela, ele absorveu a filosofia de que o sambista deveria ser um cidadão respeitável, combatendo o estigma da vadiagem que assolava as comunidades negras e suburbanas, ajudando a construir a imagem do sambista elegante. Andar bem vestido (de terno, chapéu e sapato), naquela época,  era uma forma de resistência e de exigir respeito. Alvaiade contava que: “Ninguém podia se apresentar com chinelo charlote[7] porque o Paulo não gostava. O pessoal do Estácio, por exemplo, isso não é querer falar mal, mas falar a verdade, apresentava-se muito bem, com ternos caríssimos. Mas de chinelo charlote e lenço no pescoço. O pessoal da Portela não. A gente tinha que andar de sapato e gravata. O Paulo dizia assim: “Quero todo mundo com o pé ocupado e pescoço também”.

A obra musical de Alvaiade é um testemunho da sofisticação que reside na simplicidade. Ele defendia que o artista popular não necessita de citações complexas ou vocabulário rebuscado para filosofar sobre a natureza e a existência humana. A capacidade de extrair lições universais da observação do cotidiano fez de Alvaiade um dos grandes poetas do samba, capaz de dialogar com temas existenciais a partir de uma base de sabedoria popular.    

Alvaiade foi um mestre na composição de sambas-enredo que capturavam o espírito de sua época. Durante a década de 1940, sob a influência do nacionalismo ufanista promovido pelo governo brasileiro, ele ajudou a moldar a narrativa da Portela na Avenida. Em parceria com Bibi[8], em 1942, compôs "A Vida do Samba", que celebrava a evolução do ritmo desde os índios até o sucesso internacional, garantindo o primeiro lugar para a Escola. No ano seguinte, em parceria com Nílson, assinou "Brasil, Terra da Liberdade", mantendo a hegemonia da Portela no carnaval carioca e reforçando o papel das escolas de samba como associações difusoras de valores culturais e históricos.  

A versatilidade de Alvaiade lhe permitia transitar entre o samba de exaltação, o samba-enredo, o samba de terreiro e o partido-alto com igual desenvoltura e qualidade. "Marinheiro de Primeira Viagem"[9]Eu não sou marinheiro de primeira viagem, eu já lhe conheço, sei que isso é visagem, a minha custa, vc não fará cartaz, você gosta do samba que eu canto e nada mais ...”; "Banco de Réu"Sento no banco de réu e aguardo a sentença, porque até hoje ninguém destruiu minha crença, pela voz que ordena que eu me conforme, porque aquele que mora lá em cima não dorme...”  e "Abaixo do Nível"” A tua vida tem sido uma tragédia, nem sequer na classe média conseguistes aceitação. E, é por isso que o teu viver é horrível, vives abaixo do nível, da tua colocação...”, demonstram um olhar atento às nuances da vida urbana e da malandragem regenerada, temas que eram frequentes nas rádios da época. Ele foi um dos primeiros compositores da Portela a ter suas músicas gravadas por grandes intérpretes da era do rádio, como Linda Batista, Cyro Monteiro, Jorge Veiga e Ademilde Fonseca, o que contribuiu significativamente para a projeção nacional da estética musical de Oswaldo Cruz.  

Alvaiade era mestre no chamado “samba de terreiro”. Diferente do samba-enredo (feito para o desfile), o samba de terreiro era o que mantinha a escola viva o ano todo, cantado nos quintais, nas rodas e ensaios. Suas letras costumavam falar de amor, cotidiano e, claro, da paixão pela Majestade do Samba.Noite que tudo esconde”, “Noite que tudo esconde, onde está o meu amor, estou cansado de procurar, mas não há meio de encontrar, ...” e “Vida de Fidalga[10],”Tu que tinhas vida de fidalga, hoje vives a pão e água, coisa que me comoveu ...”

Para além das fronteiras de Oswaldo Cruz e Madureira, Alvaiade teve um papel fundamental na profissionalização da categoria dos compositores no Brasil. Ele foi um dos fundadores da União Brasileira de Compositores (UBC), demonstrando uma compreensão precoce da necessidade de proteção jurídica e financeira para os artistas populares. Em uma época em que o sambista era frequentemente explorado por gravadoras e editoras, a atuação de Alvaiade na UBC representou um passo fundamental para que o samba fosse reconhecido como uma profissão legítima e para que os direitos autorais fossem respeitados, consolidando sua imagem pessoal de visão institucional ampla.  

Capa do disco Passado de Glória - 1970

Nos últimos anos de sua vida, Alvaiade desempenhou um papel central na organização e liderança da Velha Guarda da Portela[11]. Quando Paulinho da Viola reuniu os antigos baluartes para a gravação do LP "Portela, Passado de Glória" em 1970, Alvaiade emergiu como o líder natural do grupo, assinando sucessos e zelando pela autenticidade das performances. Esse movimento de resgate foi fundamental para contrapor a crescente espetacularização do carnaval e reafirmar os valores do samba de terreiro e da tradição oral da Azul e Branco. Alvaiade participou de diversos espetáculos em teatros, como o Opinião, onde sua voz e seu cavaquinho tornaram-se símbolos da resistência cultural do subúrbio.

Cantar Alvaiade, é cantar a querida Portela nos seus anos de glória. E, como ensinou Mestre Monarco: “... No livro da nossa história tem conquistas a valer, Juro que não posso me lembrar, Se for falar da Portela, hoje eu não vou terminar ...”

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 01/05/2026



[1] Letra de “O Mundo é assim”, Alvaiade,1968

[2] A história deste samba me foi contada, numa tarde em Paquetá, por Cristina Buarque.

[3] Alvaiade (Rio de Janeiro, 21/12/1913- 23/06/1981)

[4] O alvaiade, tradicionalmente conhecido como carbonato básico de chumbo, é um pigmento branco denso e opaco. Os linotipos eram letras feitas com chumbo quente. Possivelmente vem dai seu apelido.

[5] Rua em que morava em Osvaldo Cruz.

[6] Brasileiro e Zé Cachacinha são personagens fundamentais da história oral da Portela cujos nomes de batismo acabou ficando em segundo plano diante da força do seu apelido no mundo do samba. Ernani Alvarenga já estava na Portela quando Alvaiade chegou.

[7] Bibi era Sebastião Ramos, compositor portelense, irmão de Chatim da Portela.

[8] Nilson era um compositor portelense dos anos 40/50, no entanto, como muitos outros, não se encontra registros com todo o seu nome.

[9] Alvaiade e Djalma Mafra (Rio de Janeiro, 1900- Rio de Janeiro 1974)

[10] Chico Santana e Alvaiade

[11] A composição original da Velha Guarda: Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana, Antônio Rufino dos Reis, Mijinha, Manacéa, Alvaiade, Alcides Dias Lopes, Armando Santos e Antônio Caetano.

  Alvaiade, um construtor da Portela! “O dia se renova todo dia Eu envelheço cada dia e cada mês O mundo passa por mim todos os dias ...