Zé
Espinguela[1]:
O Homem que Juntava Mundos
No começo do século XX, o Rio de Janeiro
era uma cidade partida entre as reformas do centro e a poeira dos subúrbios,
vivendo a ilusão de uma modernização que tentava apagar suas fortes raízes
africanas. Entre leis que criminalizavam a vadiagem e a feitiçaria, o povo
negro do subúrbio e dos morros construiu redes invisíveis de resistência,
sociabilidade e arte.
Nos morros, nas casas simples, nos
terreiros improvisados, nas rodas de samba que começavam tímidas e terminavam
épicas, surgiam figuras que moldariam a cultura brasileira. E no centro dessa
teia civilizatória erguia-se a figura de um homem de fala forte, riso largo e
presença magnética — o babalaô, sambista e articulador cultural cuja trajetória
refundou a história do Carnaval brasileiro: José Gomes da Costa, o Zé Espinguela ou
Spinguela.
| Zé Espinguela |
Espinguela cresceu num ambiente onde música
e espiritualidade eram inseparáveis e como
a maioria dos sambistas da época não vivia exclusivamente da música, sua renda
provinha do trabalho informal e dos serviços comunitários e espirituais no
subúrbio.
As mulheres eram o coração silencioso
daquele mundo. Não apareciam nas fotografias, não assinavam os sambas, mas
seguravam o terreiro, o quintal, a comida, a roupa, o ritmo, a proteção. As
mães‑de‑santo, as tias do samba, as vizinhas que
chegavam com panela na mão
e palavra na hora certa —
todas elas costuravam o tecido invisível
que mantinha o Engenho de Dentro de pé.
E não era só trabalho: era presença. Era axé. Era política. Porque enquanto os
homens enfrentavam a polícia na rua, eram as mulheres que enfrentavam o mundo
dentro de casa — protegendo os sambistas, escondendo instrumentos, acalmando
brigas, guardando segredos. E Espinguela sabia disso. Nunca disse em voz alta —
não era homem de discursos — mas sua casa era governada por mãos femininas que
não pediam licença porque já tinham direito.
E o Engenho de Dentro é um bairro que acorda
cedo. Antes do sol, já tem vida nas calçadas, já tem panela no fogo, já tem
vizinho chamando outro pelo apelido que só existe ali. A rua parecia estar
sempre acordada. De manhã, cheiro de café e de roupa lavada. À tarde, crianças
correndo, vizinhos conversando, o sol batendo nas paredes como se quisesse
entrar. É um bairro que não anda: balança. Tem um gingado próprio, como se cada
rua tivesse aprendido a sambar antes de aprender a ser rua. E no meio desse
mundo que respira quente estava a casa de Espinguela, que parecia maior por
dentro do que por fora. Porta sempre aberta, vela sempre acesa, tambor sempre
pronto. Ali, o tempo não corria — ele rodava, como quem gira no próprio eixo
para não perder o centro. E no meio de tudo, Espinguela — grande sem ser alto,
imenso sem ser pesado.
Ele tinha um jeito de olhar que parecia
enxergar a pessoa inteira. Cartola dizia que Espinguela via antes de ouvir.
Carlos Cachaça jurava que ele sabia quando alguém chegava triste, mesmo que o
sorriso estivesse no rosto. Saturnino brincava que Espinguela era “meio
santo, meio malandro, completamente necessário”.
Nas noites de festa, a casa virava mundo.
Gente entrando, gente saindo, gente ficando. O cheiro de comida misturado ao
cheiro de vela. O som do tambor misturado ao som da conversa. E Espinguela no
centro, como se fosse maestro de uma orquestra invisível. Ele caminhava pela
casa como quem cuida de um jardim. Ajeitava uma vela, arrumava uma cadeira,
dava risada, chamava alguém pelo apelido, fazia uma benção rápida com a mão.
Ele não mandava — ele guiava.
Nos anos 1920, o Rio fervilhava de pequenos
blocos, rodas de partido‑alto
e sambistas que construiam o futuro sem saber. Mas, era um período de ostensiva perseguição policial, quando ter um pandeiro sob o
braço era motivo para prisão. Espinguela usou seu prestígio para proteger o samba. Foi nesse
contexto que, em 1927, ele se aproximou dos lendários Cartola, Carlos Cachaça, Saturnino, Marcelino e outros nomes para que, juntos,
formassem o Bloco dos Arengueiros —
embrião da Estação Primeira de Mangueira.
Engenho de Dentro era o chão; a Mangueira,
o horizonte. Bastava subir o morro para entender que a Mangueira não é só
lugar, é estado de espírito. Entre o bairro e o morro, Espinguela caminhava
como ponte e travessia. No Engenho, ele juntava gente; na Mangueira, juntava
destino. No terreiro, acendia a fé; na roda, acendia o samba. Com seu jeito de
quem sabe mais do que diz, costurou os fios invisíveis que fizeram do Engenho
um coração e da Mangueira um pulmão, ensinando que o samba não nasce — brota
onde há fé, gente e chão.
Foi numa daquelas noites de casa cheia que ele anunciou, com a voz emocionada: “Vamos fazer um concurso. Um concurso de escolas de samba. Aqui. Na minha casa”. Ninguém acreditou. E assim, entre improviso e coragem, nasceu o primeiro desfile da história.
Em 20 de janeiro de 1929, realizou no
quintal da sua casa, o que mudaria para sempre a cultura nacional: o primeiro campeonato
entre blocos e escolas de samba da história. E naquela noite histórica,
enquanto os homens afinavam pandeiros e discutiam versos, foram as mulheres que
organizaram o quintal, acenderam as velas, distribuíram comida, acalmaram
nervos e garantiram que tudo corresse sem briga.
Sua casa se transformou no palco do primeiro campeonato de escolas de samba de que se tem notícia. Mangueira, “Deixa Falar”, “Vai Como Pode” e outros grupos se apresentaram ali, diante de um público que mal sabia que estava testemunhando história. A Portela venceu, mas quem realmente ganhou foi o samba: pela primeira vez, ele foi tratado como instituição.
Sob as bênçãos do terreiro e o julgamento
de intelectuais como Mário Reis e Orestes Barbosa, a disputa pacífica no verso
e na batucada estabeleceu a matriz do que viriam a ser os desfiles oficiais na
Praça Onze.
Seu terreiro seguiu sendo um espaço de fé,
mas também de música, política comunitária, reconciliação e festa. Ele era o
tipo de homem que resolvia briga com conversa, que animava ensaio com
gargalhada, que abençoava sambista antes da apresentação.
Sua autoridade transcendeu as fronteiras do
subúrbio. Nas décadas de 1930 e 1940, Zé Espinguela tornou-se o elo crucial
entre a cultura popular e a elite intelectual brasileira e internacional. Amigo
e interlocutor de nomes como Villa-Lobos e Mário de Andrade, ele representava a
síntese do saber ancestral.
Villa‑Lobos
era fascinado pela música popular
brasileira — não a música
“arrumada”, mas a música
viva, a que nascia na rua, no morro, no terreiro, no quintal. E foi nesse
movimento de buscar a alma sonora do país que ele chegou até Espinguela que não
era músico de conservatório. Era músico de vida. Villa‑Lobos sabia reconhecer isso e chegou ao
Engenho de Dentro como quem chega em outro país.
Villa‑Lobos
chegou ao Engenho de Dentro como quem chega a um país que ainda não existe no mapa. O maestro vinha do mundo dos paletós, dos
teatros, das partituras. Espinguela vinha do mundo das velas, dos tambores, das
rodas que começavam sem hora e terminavam quando o corpo decidia.
Quando se encontraram, não houve
formalidades. Espinguela o recebeu sem cerimônia, ofereceu café e cadeira. Villa‑Lobos aceitou como quem recebe um presente.
O tambor começou a falar. E o maestro entendeu que estava diante de algo que
nenhum conservatório ensinava.
Espinguela não tocava para impressionar.
Tocava porque era o que o corpo mandava. E Villa‑Lobos, com o ouvido treinado e o coração aberto, percebia que ali havia séculos de história batendo no couro do tambor. Não era ritmo: era memória. Não
era percussão: era ancestralidade.
Ele tocava como quem reza. Villa‑Lobos escutava como quem aprende. Numa daquelas
noites, Villa‑Lobos disse
que Espinguela era “um Brasil inteiro
em uma pessoa só”.
Espinguela riu, aquele riso largo que enchia a sala. E, Villa‑Lobos sabia. Sabia que Espinguela era raiz.
Sabia que o morro era escola. Sabia que o Engenho de Dentro era templo. E sabia
que, sem homens como Espinguela, o Brasil que ele queria ouvir não existiria.
E voltou muitas vezes. Cada vez que
voltava, aprendia mais. Porque Espinguela não ensinava com palavras. Ensinava
com presença. Villa‑Lobos
ficou impressionado com a força
cultural daquele homem. E assim, entre o maestro e o pai‑de‑santo,
nasceu uma amizade silenciosa —
feita de respeito, de música
e de Brasil.
Sem contrato, sem projeto, sem papel
assinado, os dois fizeram o maior trabalho que poderiam fazer juntos: um
ensinando o Brasil ao outro. O maestro levou dali sons que colocaria em suas
obras. Espinguela ficou com o respeito de um homem que sabia ouvir. E o samba,
silencioso, agradeceu.
| Zé Espinguela - Reativação Cordão Sodade, 1940 |
Villa‑Lobos,
então chefe de um órgão
municipal de educação musical,
respondeu com entusiasmo afirmativamente e começou a convocar seus aliados:
Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Luiz Americano, Jararaca e Ratinho, Cartola
— e também Zé Espinguela, o pai‑de‑santo
e sambista cuja força cultural o maestro
já conhecia de perto.
| Carta do Maestro Stokowski para Vila Lobos |
Mais de cem músicos subiram a bordo do
navio para gravar cerca de 40 canções que representavam o Brasil profundo: samba,
choro, batucada, marchas de rancho, emboladas e até cantos de macumba — tudo
aquilo que fazia o país pulsar.
O estúdio improvisado no convés parecia um
milagre técnico: microfones pendurados, cabos improvisados, engenheiros
americanos tentando entender o ritmo que não cabia nos padrões deles. E os
músicos brasileiros, muitos deles acostumados a tocar em quintais, terreiros e
rodas de samba, agora encaravam um cenário que parecia saído de um filme. Espinguela
estava lá. Com seu tambor, sua voz ancestral, sua presença que misturava fé e
festa. Ele não sabia — ninguém sabia — que aquela madrugada registraria para
sempre a alma do samba e dos cantos sagrados do Rio.
Cartola, ainda jovem, gravou ali seu primeiro samba em disco[2] — um marco que só seria reconhecido décadas depois, quando o álbum finalmente foi lançado no Brasil, 46 anos após sua estreia nos Estados Unidos. Stokowski caminhava entre os músicos como quem observa um ritual. Não regia. Não interferia. Apenas escutava — e sorria. Era como se ele soubesse que estava diante de algo que não se repetiria. Villa‑Lobos, por sua vez, observava com orgulho silencioso. Aquele encontro era fruto de sua ponte entre mundos: o maestro do centro e os mestres do morro. O navio, naquela madrugada, era Brasil inteiro.
Quando o sol começou a nascer, as gravações
terminaram. Das quarenta faixas registradas, dezesseis seriam selecionadas para
compor o álbum “Native Brazilian Music”, lançado em 1942 pela Columbia
Records. Na contracapa, lia-se: “música autêntica do Brasil tocada
primorosamente por músicos nativos, selecionada e gravada sob a supervisão
pessoal de Leopold Stokowski”.
| Disco Native Brazilian Music, imagem internet |
| Capa disco Native Brazilian Music |
Quando faleceu em 1945, Zé Espinguela deixou um legado inestimável. Ele não era compositor famoso. Não deixou discos, partituras, nem registros formais. O que ele deixou foi gente. Ele juntava pessoas. Ele criava ambiente. Ele fazia o samba acontecer. Ele não foi apenas um compositor ou organizador de festas: foi um arquiteto da identidade cultural brasileira. Ao transformar o terreiro em berço do Carnaval e o samba em patrimônio coletivo, Zé Espinguela provou que a sabedoria popular e a fé ancestral eram capazes de resistir à violência do tempo e inscrever, para sempre, a negritude no coração do Brasil.
E como muitas figuras fundamentais da
cultura popular, sua morte não tem data precisa — mas sua presença permanece
viva na memória da Mangueira e na história do samba. Zé Espinguela foi, acima
de tudo, um organizador de mundos: o mundo da fé, o mundo da música, o mundo da
comunidade. Ele não escreveu sambas — ele escreveu caminhos.
Hoje, quem passa pela Rua Adolfo Bergamini
talvez não saiba que ali, onde a sede do Arranco levanta seu estandarte, já
existiu um quintal que mudaria o Brasil. Mas sente. Sente no cheiro da rua, no
batuque que insiste em sobreviver, no verde e rosa que ainda respira no Engenho
de Dentro, na Mangueira que segue ensinando o país a cantar. O nome de
Espinguela não está em placas, nem em monumentos — está no modo como o samba
organiza a vida, no respeito às mães de santo, na força das comunidades que
ainda fazem do quintal um mundo. O Engenho continua sendo chão. A Mangueira
continua sendo horizonte. E Espinguela continua sendo ponte — mesmo sem estar.
Porque homens como ele não partem: permanecem.
Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 01/10/2026
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