sábado, 26 de setembro de 2026

 

Tio Hélio e o Morro da Serrinha

 

A Serrinha não começa no asfalto de Madureira. Começa antes, no sopro quente da tarde, no cheiro de terra molhada, no tambor que ecoa mesmo quando ninguém está tocando. É um morro que parece guardar dentro dele um segredo antigo.

Ali, o samba não é composto, parece brotar. Brota das vielas estreitas, dos quintais com roupa no varal, das rodas improvisadas onde cada palma é uma oração. Brota das vozes que se encontram sem combinar, como se o morro inteiro respirasse no mesmo compasso.

A Serrinha é território musical porque tudo nela vibra. O chão vibra. As casas vibram. As pessoas vibram. E quem pisa ali sente que o corpo muda de ritmo — como se o morro tivesse seu próprio batimento cardíaco.

A geografia da Serrinha é  feita de cadência, não se desenha com linhas, mas com sons. O surdo é o chão. A caixa é a rua. O tamborim é o vento que passa rápido. O repique de mão é o chamado “vem pra roda”, mesmo quando a roda ainda nem começou.

Cada viela tem sua própria afinação. Cada casa tem seu próprio eco. Cada família guarda um ritmo que atravessa gerações. É por isso que a Serrinha não produz sambistas. Ela forma sambistas — como quem forma pedra, água, raiz.

A Serrinha não nasceu no mapa. Antes de ser morro, foi ritmo. Antes de ser território, foi memória. E antes de ter nome, já tinha música.

No alto de Madureira, onde o sol bate diferente e a noite parece guardar segredos, a Serrinha se formou como um quilombo sonoro. Ali, cada família tinha um instrumento; cada quintal, uma roda; cada criança, um destino musical. O samba não era escolha, era herança.

Tio Hélio 
Foi nesse chão que nasceu Hélio dos Santos[1], o Tio Hélio. Não nasceu apenas como pessoa: nasceu como parte da paisagem sonora. Como se o morro tivesse decidido que precisava de alguém para guardar suas histórias e escolheu ele.

Tio Hélio cresceu ouvindo o mundo antes de entendê-lo. O surdo marcava o passo dos adultos. A caixa ensinava disciplina. O tamborim mostrava que a vida também tem pressa. E o repique de mão dizia que, mesmo na dificuldade, sempre há espaço para improviso.

Na Serrinha, ninguém aprende samba — absorve. E Tio Hélio absorveu tudo.

Tio Hélio dos Santos (1903–2007)[2] é uma das figuras mais emblemáticas da história do samba carioca e um dos pilares afetivos e culturais do Império Serrano, Escola que ajudou a fundar no morro da Serrinha, em Madureira. Sua trajetória atravessa mais de um século de vida, acompanhando a transformação do samba urbano, a consolidação das escolas de samba e o surgimento de alguns dos maiores nomes da música brasileira.

Nascido e criado na Serrinha, Tio Hélio cresceu em um ambiente onde o samba era mais do que expressão artística — era identidade, comunidade e resistência. Ele conviveu com mestres como Nelson Cavaquinho, Cartola e Noel Rosa, testemunhando de perto a formação do samba moderno. Era também parte de uma família profundamente ligada à música: irmão de Mestre Fuleiro, referência da percussão, e primo de Dona Ivone Lara, a primeira mulher a assinar um samba-enredo no Rio de Janeiro.

Tio Helio, Tia Maria e Molequinho

Quando a comunidade da Serrinha decidiu que precisava de uma Escola que refletisse a sua identidade — Tio Hélio estava lá. Era 1947, e o Império Serrano surgiu como quem ergue um templo. Não um templo de luxo, mas de pertencimento. Um grupo de sambistas e trabalhadores da estiva rompeu com o Prazer da Serrinha para criar uma Escola mais democrática e nasceu o Império Serrano — Tio Hélio estava lá. A nova agremiação carregava valores que ele representava com naturalidade: independência, coletividade e respeito à tradição. O Império se tornaria o “Reizinho de Madureira”, guardião do samba de raiz e uma das Escolas mais queridas do Rio.

O Império nasceu com a cadência da Serrinha, com a teimosia dos seus compositores, com a dignidade dos seus trabalhadores. E Tio Hélio, fundador, era um dos guardiões dessa nova casa. Ele não era apenas parte da Escola. Era parte da razão dela existir. Ele ajudou a erguer uma Escola que nasceu para ser um território afetivo, casa de memória, altar de ancestralidade. O Império é fruto dos que, como Tio Hélio, acreditam que o samba é, sobretudo, trabalho coletivo.

Como compositor, Tio Hélio deixou obras que atravessaram gerações. Sambas como “Prazer da Serrinha”, “Cantei pra distrair”, “Eu não quero mais”, “Minha fama ninguém tira” e “Colete curto” foram gravados por grupos e artistas fundamentais, que ajudaram a levar sua obra para públicos cada vez maiores. Suas composições têm a marca da Serrinha: cadência firme, humor sutil, lirismo cotidiano e uma profunda consciência da vida do sambista.

Os sambas de Tio Hélio não são feitos de metáforas grandiosas. São feitos de vida. Ele escreveu como quem fala sentado na porta de casa, vendo o movimento da rua, ouvindo o riso das crianças, percebendo o silêncio dos mais velhos; lembrando que há lugares que guardam histórias e a Serrinha guarda vozes, assim como cada canto do morro carrega um eco antigo: de Mestre Fuleiro, seu irmão, que ensinou que ritmo é responsabilidade; de Dona Ivone Lara, sua prima, que mostrou que melodia também é coragem; e de tantos outros que fizeram do samba uma forma de existir.

Tio Hélio é parte dessa constelação. Um dos astros que iluminam o céu musical da Serrinha. Sua poesia é simples — mas nunca pequena. É a simplicidade que só quem viveu muito consegue alcançar. Nas suas quadras, a Serrinha aparece como cenário e personagem. Em seus refrões, o morro desce para a avenida. Em suas melodias, o cotidiano vira rito.

Tio Hélio caminhou pelo século XX como quem atravessa um quintal conhecido: sem pressa, sem medo, sem perder o compasso. Era desses sambistas que para serem ouvidos bastava estar, bastava cantar, bastava lembrar.

Na Serrinha, onde o samba nasce discreto, teimoso, inevitável, Tio Hélio foi raiz e sombra. Ele não compunha sobre a Serrinha. Ele compunha a partir da Serrinha. Seus sambas são mapas afetivos do morro: quadras que parecem vielas, refrões que parecem ladeiras, melodias que descem como quem desce o morro ao entardecer. Ele transformava o cotidiano em cadência. O humor em melodia. A dor em ritmo. A vida em samba.

E ao fazer isso, ele não apenas representava a Serrinha — ele continuava a Serrinha. Porque a Serrinha não é só território. É continuidade. É tradição que se move. É memória que canta. Um território onde o samba não é evento, mas ambiente. Onde o tempo passa no compasso do surdo. Onde cada geração nasce sabendo que existe uma responsabilidade: manter o ritmo vivo.

As composições de Tio Hélio têm uma cadência que não se apressa. São sambas que caminham como conversa de fim de tarde, com humor fino, ironia leve e uma sabedoria que não se anuncia — se insinua.

“Prazer da Serrinha” é quase um retrato falado da comunidade. Ele não descreve a Serrinha como cenário, mas como sentimento. A música funciona como uma bandeira afetiva: quem é da Serrinha se reconhece; quem não é, entende. Há ali a alegria de pertencer, mas também a consciência de que o samba é trabalho, suor, disciplina.

Em sambas como “Cantei pra distrair” e “Eu não quero mais”, aparece o traço mais íntimo de Tio Hélio: o sambista que transforma pequenas dores em grandes melodias. Ele não dramatiza o cotidiano — ele o lapida. A tristeza vira ritmo, o desabafo vira refrão, o desencanto vira dança. É a velha alquimia do samba: sofrer sem perder a elegância.

Já em “Minha fama ninguém tira”, surge o humor orgulhoso, quase malandro, mas nunca arrogante. É o riso de quem sabe que a vida tenta, mas não derruba. Tio Hélio usa a vaidade como ferramenta poética: não para se exaltar, mas para afirmar que o sambista tem valor, tem história, tem nome — e que ninguém apaga isso.

Em “Colete curto”, a poesia se aproxima da crônica. Ele observa a vida com olhos de quem já viu muito, mas ainda se surpreende. O cotidiano vira metáfora, o detalhe vira personagem. É o samba que olha para o mundo com carinho, mesmo quando o mundo não retribui.

A marca de Tio Hélio é a simplicidade profunda. Ele não usa palavras difíceis, não constrói imagens rebuscadas. Sua poesia é feita de chão, de rua, de quintal. Mas dentro dessa simplicidade há uma inteligência musical rara: ele sabe onde colocar o silêncio, onde deixar o verso respirar, onde permitir que o ritmo fale sozinho.

Seus sambas têm: cadência firme, típica da Serrinha; melodia generosa, que acolhe a voz de quem canta; humor discreto, que nunca humilha; lirismo cotidiano, que transforma o comum em bonito; respeito pela tradição, sem medo de ser moderno.

Os sambas de Tio Hélio seguem a arquitetura secular da Serrinha, organizando-se predominantemente na estrutura A–B–A, típica do samba de terreiro: quadras de métrica regular e refrões curtos e marcantes. Essa construção funcional favorece a memorização, o canto coletivo e a circulação oral, pois ele compunha para a roda, e não para o palco. A repetição surgia como ferramenta rítmica para reforçar ideias, firmar a cadência e abrir espaço para a percussão.

Tia Eulália, na escadaria da Serrinha, 1992
Sua melodia traduz a própria alma do morro. Ao priorizar linhas descendentes e intervalos curtos, ele cria uma fluidez próxima da fala, que dialoga perfeitamente com o tamborim conversado e o repique de mão. Além disso, sua sensibilidade para a prosódia faz com que a melodia se ajuste com rara naturalidade ao português falado, sem jamais forçar os versos. Na construção poética, apoiava-se em métricas tradicionais de cinco e sete sílabas, rimas simples e imagens cotidianas, transformando objetos e situações comuns em símbolos de um narrador que canta sempre de dentro da roda.

Tio Hélio e Nilton Campolino

Seus sambas foram construídos para encaixar perfeitamente na levada da Serrinha: surdo marcando firme, caixa com levada reta, tamborim conversando, repique de mão dialogando com a melodia. Ele compunha pensando no corpo da escola, não apenas na voz do intérprete.

Sem perder a originalidade, ele compartilha a cadência de Mestre Fuleiro, o lirismo cotidiano de Dona Ivone Lara e a crônica bem-humorada de Nilton Campolino. Mas sua marca é a simplicidade profunda: versos curtos, melodia clara, emoção sem exagero. Tio Hélio é um compositor que domina: métrica tradicional, melodia conversada, cadência firme e o humor elegante do cotidiano.

Ele representa a escola da Serrinha: samba que nasce do chão, da comunidade, da vida real — e que, por isso mesmo, nunca envelhece.

Tio Hélio viveu 103 anos e suas obras continuam sendo cantadas porque falam de coisas que não passam: amor, trabalho, orgulho, comunidade, resistência. Ele é daqueles compositores que não escrevem para o tempo — escrevem para as pessoas. E talvez seja isso que faz dele tão grande: Tio Hélio não queria ser monumento. Queria ser memória. E conseguiu.

 Tio Hélio se tornou mais do que um compositor: virou memória viva. Era presença constante em rodas, eventos e encontros da Velha Guarda, sempre disposto a contar histórias, cantar trechos antigos e lembrar a importância de preservar o samba como patrimônio cultural. Em 2004, já centenário, participou de homenagens no Museu da República, celebrando sua contribuição para a cultura brasileira.

Era um arquivo vivo. Um guardião de histórias que não estão nos livros, mas nos becos, nas rodas, nas quadras, nos terreiros, nos ensaios, nos carnavais. Ele atravessou gerações sem perder o compasso. Viu o samba mudar, crescer, se transformar — mas nunca se afastar da Serrinha. Porque a Serrinha não deixava. Ela o chamava de volta. Ela o protegia. Exigia respeito.

Mais do que fundador, compositor ou veterano, Tio Hélio é símbolo: o sambista que viveu o samba antes de ele ser indústria, espetáculo ou patrimônio — quando era, acima de tudo, modo de viver.

Tio Hélio é lembrado como um homem simples, generoso e profundamente ligado à comunidade. Sua vida se confunde com a história do Império Serrano e com a própria identidade da Serrinha, de onde nunca saiu. Ele representa a ponte entre o samba dos quintais e o samba das grandes avenidas, entre a tradição oral e a memória institucional, entre o passado que não se deve esquecer e o futuro que precisa ser cultivado. Tio Hélio não deixou monumentos. Deixou sambas. E sambas são monumentos que respiram.

Cada vez que alguém canta “Prazer da Serrinha”, o morro se reconhece. Cada vez que um tamborim responde a uma melodia dele, a história se renova. Cada vez que seu nome é lembrado, a Serrinha se ergue mais um pouco.

Ele não foi apenas fundador, compositor, veterano. Foi ponte entre o passado e o futuro do samba do Morro da Serrinha. Durante quase um século Tio Hélio manteve o ritmo do samba vivo. E ao fazer isto, ele se tornou parte da paisagem sonora do morro — tão essencial quanto o repique, tão antigo quanto o tambor, tão presente quanto o vento que sobe e desce as ladeiras e os degraus do Morro da Serrinha!

Tio Hélio foi o próprio som da Serrinha caminhando pelo século XX e segue vivo onde o samba brotar sem pedir licença!

Imagem gerada por IA, gentilmente criada e cedida por Paulo Eleotério

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 26/09/2026

 

Para quem tiver interesse:

Livros e artigos:

Valença, Rachel; Valença, Suetônio. Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba. 1981/2017.

Carvalho, Priscila. Carnaval, a epopeia da comunidade serrana. Revista Amarello.

Nogueira, Lucas. Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba.

Enciclopédia da Música Brasileira. Art Editora.

Trabalhos acadêmicos:

Lima, Tainá Rodrigues de. Carnaval nos anos de chumbo: a vigilância sobre o Império Serrano e seus compositores (1969–1982). UFRRJ, 2025.

Acervos digitais

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – verbete “Hélio dos Santos (Tio Hélio)”.

Galeria do Samba – compositores do Império Serrano.

Discografia:

Dona Ivone Lara: 

CD: A Música Brasileira deste Século por seus autores e intérpretes; Música: Tiê

Fabiana Cozza:  

CD: Canto da Noite na Boca do Vento; Música: Tiê

Fundo de Quintal:

CD: Samba é no Fundo de Quintal - Vol. 2; Música: Prazer da Serrinha

CD: Do Fundo do Nosso Quintal; Música: Eu Não Quero Mais;

CD: Seja Sambista Também; Música: Cantei pra distrair

Velha Guarda do Império Serrano:

CD: Um Show de Velha Guarda; Música: Cuidado Vovó

Quinteto Branco e Preto:

CD: Sentimento Popular; Música: 32 de Fevereiro à Tardinha  

Zeca Pagodinho:

CD: Água da Minha Sede; Música: Chico Palha

CD: Deixa Clarear; Música: Colete Curto

CD: Mania da Gente: Yaô Cadê a Samba?

CD: Pixote; Música: Minha Fama Ninguém Tira

CD: Samba Pras Moças Música: Que Bicho Que Deu

 


[1] Helio dos Santos (Rio,1903-Rio 31/03/2007). No entanto, há divergências quanto a data de seu nascimento. Ricardo do Cravo Albin informa que foi em 1903 e o compositor José Luis do Império informa que foi em 1917.

 

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