sábado, 25 de julho de 2026

 

Tia Eunice da Portela: o rouxinol azul e branco!

 

A história da Portela sempre foi feita de grandes nomes: compositores, carnavalescos, intérpretes, presidentes, baluartes. Mas quem conhece a Escola de verdade sabe que existe uma camada mais profunda, mais silenciosa, que sustenta tudo isso. É a camada das mulheres que seguraram a Escola quando ela ainda era quintal, quando o samba era mais roda do que espetáculo, quando a Portela era mais família do que instituição.

Há pessoas que não precisam de holofotes para serem gigantes. Na Portela, essas pessoas costumam ser chamadas de “Tias”. E entre elas, uma figura caminhou com a serenidade de quem sabe que carrega história no olhar: Tia Eunice, nascida Eunice Fernandes da Silva, em 24 de junho de 1919, pastora da Velha Guarda e guardiã de uma memória que não cabe em livros, mas cabe no coração de portelense.

Tia Eunice não era figura de palco, não era voz de microfone. Era presença. Era raiz. Era aquela pessoa que, mesmo sem aparecer nos jornais, fazia a Escola existir todos os dias. Ela não precisava falar alto pra ser ouvida. Bastava chegar. A quadra mudava de ritmo quando ela aparecia — parecia que o samba ficava mais respeitoso, mais consciente de suas raízes. Costurou muitas fantasias da Ala das Baianas antes de chegar a pastora da Velha Guarda.

Eu me lembro da Tia Eunice como quem lembra de um cheiro antigo, desses que ficam impregnados na alma e a gente nunca esquece. A primeira vez que eu me sentei ao lado dela, recebi aquele sorriso que misturava doçura e autoridade. “Tá bonita a roda, não é, minha filha? Samba não é só música. Samba é gente.” Foi o que ela me disse. E eu me lembro até hoje da sensibilidade daquela frase. Ela estava falando dela mesma e das mulheres que seguraram a Portela no colo e construíram a identidade da família portelense.

Quem conviveu com ela lembra da mulher de fala mansa e forte, c0m autoridade natural. Ela tinha o dom raro de ouvir — ouvir de verdade. E talvez por isso tantos sambistas, jovens e antigos, se aproximavam dela com confiança. Era comum vê-la sentada num canto da quadra, observando tudo com atenção tranquila, como quem vigia um jardim que ajudou a plantar.

Seguindo a mais pura linhagem das grandes tias baianas e festeiras do Rio de Janeiro,como a histórica Tia Ciata, Tia Eunice mantinha um quintal icônico em sua casa na Vila de Turiaçu, no subúrbio carioca, onde ela promovia rodas de samba memoráveis. Esses encontros não eram apenas festas, mas verdadeiros polos de resistência cultural e formação de novos sambistas. O quintal de Eunice revelou e lapidou diversos talentos que viriam a abastecer o eixo Oswaldo Cruz, Madureira e a própria Portela.

As “Tias” da Portela sempre foram pontes entre gerações. E Tia Eunice era uma delas. Ela entrou na Escola atendendo ao convite de Paulo da Portela. Conheceu Antônio Caetano, Antônio Rufino, Alvaide e Alberto Lonato.  Conviveu com Chico Santana, Manacéia e Mijinha. Cantou com Monarco, Argemiro e Seu Jair. Conversou com Tia Vicentina, Dona Dodô e Tia Esther. Viu nascer sambistas que hoje são referência, acompanhou carnavais que ficaram na memória da Escola. Era como se ela carregasse dentro de si um arquivo vivo — não de datas, mas de sentimentos. Sabia o que a Portela já tinha sido, sabia o que a Portela ainda podia ser.

No universo das escolas de samba, as "pastoras" são as mulheres que compõem o coro, sustentando as harmonias dos sambas de terreiro e das composições históricas. A Velha Guarda da Portela, até a década de 1970, contava com apenas uma única pastora fixa, a Tia Vicentina. Quando ela precisou se afastar, Alberto Lonato indicou Tia Eunice para substitui-la e Manacéa e Alvaiade aprovaram. Além do canto melodioso — capaz de silenciar ambientes inteiros quando entoava clássicos como Canto das Areias, imortalizado por Clara Nunes, Tia Eunice era uma exímia dançarina. Dominava como poucos a arte do miudinho, um estilo de sambar tradicionalíssimo, caracterizado por passos curtos, rápidos e extremamente elegantes, considerado uma das danças mais difíceis e bonitas do universo do samba.

Apesar doçura de sua voz e de sua importância histórica no samba Tia Eunice costumava ficar tímida e mudar de assunto quando era elogiada, portando-se com a nobreza e a discrição típicas das grandes matriarcas do subúrbio carioca. Eu gostava de observar como os olhos dela brilhavam quando cantava um samba antigo. Parecia que ela voltava no tempo, revivia carnavais que só conhecemos de ouvir falar.

Entre os próprios membros da Portela, o reconhecimento ao talento de Eunice era unânime: Monarco, importante líder da Velha Guarda e Presidente de Honra da Escola, declarava publicamente que Tia Eunice possuía a voz mais bonita entre todas as pastoras portelenses.

Paulinho da Viola dizia que Tia Eunice era uma grande mãe: recatada, discreta, e capaz de cantar e sambar como poucas. Argemiro gostava de dizer que sua voz lembrava o canto doce de um rouxinol. As pastoras Tia Doca, Tia Surica e Áurea Maria também reverenciavam a afinação e a delicadeza de seu canto.

Tia Eunice partiu em março de 2015, aos 94 anos. A última vez em que ela esteve na quadra da Portela foi no dia 29 de junho de 2013, numa homenagem a ela e ao grande ritmista Cabelinho[1]. Quem lá esteve, não conseguiu segurar as lágrimas durante a homenagem.

Eu ganhei dela, no meu aniversário de 2004, sua presença na roda de samba que organizei. Chegou de mansinho me avisando que ela não iria cantar. Respondi que ela e a Velha Guarda eram meus convidados e que se sentissem à vontade. Meu presente era a presença deles. Algum tempo depois, providenciava alguma coisa quando escutei uma linda voz cantando “Já chegou quem faltava” ... corri prá ver de quem era. E, no meio da roda, sem o lindo turbante que sempre a caracterizava, estava Tia Eunice. Lugar de destaque, dava o tom e alegrava a roda. Imagem inesquecível para qualquer portelense!

Quando ela partiu, um pedaço da história da Escola se recolheu. A quadra ficou diferente. Não triste — porque a Portela não é lugar de tristeza — mas mais silenciosa, como se estivesse guardando luto por dentro.

Hoje, Tia Eunice permanece no legado que nos deixou. Na memória que insistimos em manter, como uma das vozes silenciosas que continuam guiando a Portela. Uma mulher que viveu o samba como quem vive a própria vida — com simplicidade, firmeza, fé e afeto.

Tia Eunice da Portela foi, e sempre será, a Portela em estado puro.

Tia Eunice não foi só uma pastora. Foi um elo. Uma ponte entre tempos, entre pessoas, entre sambas. Se hoje eu entendo o que é ser Portela, é porque um dia sentei ao lado dela e ouvi: “Samba é gente.” E gente como ela é que faz a Portela ser eterna.

 

Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 25/07/2026

 

 



[1] Walter Silva de Vasconcellos Chaves (1948–2016).

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