sábado, 25 de julho de 2026

 

Órgãos Gestores da Cultura Estruturados: 

Necessidade Estratégica

 

A cultura é um dos pilares fundamentais da vida coletiva, responsável por preservar identidades, estimular a criatividade e fortalecer vínculos sociais. No entanto, para que ela se desenvolva de forma contínua, democrática e sustentável, é indispensável a existência de órgãos gestores estruturados. Sem essas instituições, a política cultural se torna frágil, improvisada e vulnerável às oscilações políticas, prejudicando tanto os criadores quanto o público e a própria economia.

Segundo dados recentes do IBGE[1] , a cultura brasileira emprega hoje cerca de 5,9 milhões de pessoas e contribui com R$ 387,9 bilhões de reais em valor adicionado à economia, o equivalente a algo próximo de 3% do PIB. E, neste quadro, a cultura representa 6,8% do total de empresas do país com 4,2% do pessoal ocupado formalmente, evidenciando a capilaridade do setor.

Santa Catarina possui cerca de 267 mil trabalhadores no setor cultural, o que corresponde a 6% da população economicamente ativa catarinense. Esse percentual é superior à média nacional (5,5%) e coloca o estado entre aqueles onde a cultura tem maior relevância econômica. Em Florianópolis, esse número é ainda mais impressionante: 10,7% da força de trabalho da capital atua no setor cultural, um dos índices mais altos do país.

Esses dados evidenciam que a cultura não é um nicho: é um setor estratégico! Gera empregos qualificados, movimenta a economia e impulsiona a inovação do estado. Por isso, instabilidade institucional e ausência de diretrizes e falhas recorrentes em editais não são meros detalhes burocráticos — são entraves que afetam milhares de famílias e toda a cadeia produtiva.

Diagnóstico: os problemas dos editais são sintomas de insegurança estrutural. A recorrente fragilidade nos editais da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e de outros órgãos não ocorre de forma isolada, nem são meros incidentes administrativos. É, claramente, sintoma de um sistema que revela uma fragilidade estrutural na governança cultural do estado, operando sem planejamento, sem equipe técnica adequada e sem processos padronizados. A cada novo edital, “reinventa-se a roda”: critérios mudam, prazos tornam-se inexequíveis, pareceres são inconsistentes e a insegurança jurídica passa a ser a regra. Uma fragilidade estrutural que impacta a vida dos artistas, produtores, fazedores de cultura e a própria economia catarinense.

Para um setor que emprega mais de um quarto de milhão de catarinenses, esse improviso não é apenas inconveniente, mas custa muito caro. A cada erro, atraso ou cancelamento, perdem-se renda, continuidade, confiança e capacidade de planejamento de longo prazo. Prejuízos concretos para um setor que, em Santa Catarina, tem participação econômica superior à de muitos segmentos industriais tradicionais.

A cultura exige políticas públicas contínuas, estruturadas e de longo prazo. Editais são instrumentos, não políticas. Quando não há política cultural, os editais se tornam ações isoladas, desconectadas de diagnósticos, metas e indicadores.

Órgãos gestores estruturados garantem: planejamento plurianual; continuidade entre gestões; coerência entre diagnóstico e investimento; monitoramento e avaliação; transparência e participação social. Sem isso, a gestão cultural fica à mercê de improvisos e disputas internas — o setor inteiro paga o preço e a economia fica afetada.

A cultura não pode depender apenas de ações pontuais ou da boa vontade de gestores temporários. Projetos culturais exigem tempo, pesquisa, acompanhamento e memória institucional. Editais, programas de formação, preservação de patrimônio, manutenção de equipamentos e políticas de fomento só funcionam quando há equipes técnicas capazes de planejar a longo prazo e assegurar que cada gestão avance sobre o trabalho da anterior, em vez de recomeçar do zero.

 A execução de recursos públicos na cultura exige rigor. Para evitar distorções, concentração de recursos e favorecimentos políticos, os órgãos gestores precisam de:

v Corpo técnico qualificado: Equipes concursadas ou com estabilidade técnica mínima; 

v Formação contínua: Capacitação permanente em legislação, gestão e avaliação de projetos;

v Sistemas e Governança: Plataformas digitais integradas, auditáveis e comissões de seleção qualificadas e independentes; normativas atualizadas e claras;

v Participação Social Efetiva: Conselhos de Cultura, Conferências e Fóruns com caráter ativo, vinculante e respeitado.

Órgãos gestores estruturados: atraem investimento privado; articulam parcerias com universidades e instituições; fortalecem cadeias produtivas locais; ampliam o alcance das políticas culturais. Não trabalham isolados: trabalham em diálogo com a sociedade.

Órgãos gestores frágeis e desestruturados geram retração, desconfiança e descontinuidade. Sem diretrizes claras, abre-se espaço para concentração de recursos, invisibilização de grupos minorizados, falta de abrangência territorial e decisões baseadas em preferências individuais.

Além disso, a existência de estruturas sólidas é essencial para assegurar transparência e distribuição justa de recursos públicos. A cultura envolve investimentos significativos, e sem critérios claros, fiscalização adequada e processos técnicos, o risco de concentração de recursos e favorecimento político aumenta. Órgãos estruturados criam regras, monitoram resultados e garantem que o dinheiro público chegue a diferentes territórios, linguagens e grupos sociais — incluindo aqueles historicamente marginalizados.

Outro ponto importante é a proteção do patrimônio cultural, tanto material quanto imaterial. A preservação de acervos, arquivos, museus, tradições e saberes exige profissionais especializados — historiadores, museólogos, antropólogos, restauradores — e procedimentos técnicos rigorosos. Sem uma instituição responsável, o patrimônio se deteriora, se perde ou é apropriado de forma indevida, comprometendo a memória coletiva e a identidade de comunidades inteiras.

Por fim, a cultura é uma área transversal, que dialoga com educação, turismo, desenvolvimento econômico, urbanismo, esporte, direitos humanos, tecnologia, etc. Para que essa articulação aconteça de forma eficiente, é necessário um órgão capaz de coordenar políticas, integrar setores e transformar a cultura em estratégia de desenvolvimento, e não apenas em entretenimento ou decoração de eventos

Políticas culturais estruturadas garantem: diversidade de linguagens; descentralização territorial; ações afirmativas; participação social real.

A cultura é plural — e só políticas públicas estruturadas conseguem assegurar essa pluralidade.

E, Participação Social na Cultura não é adorno: é pilar! Conselhos de Cultura, Conferências, Fóruns e escutas públicas precisam ser ativos, vinculantes e respeitados. Quando a participação social é fraca, os editais deixam de refletir as necessidades reais do setor e passam a reproduzir visões restritas ou interesses específicos/individuais.

Diante do cenário atual, é urgente defender: reestruturação administrativa do órgão gestor da cultura catarinense, com cargos técnicos permanentes; atualização do Plano Estadual de Cultura, com metas e orçamento definido; funcionamento e fortalecimento do Sistema Estadual de Cultura (Conselho, Fundo, Plano, Conferências); capacitação contínua das equipes; calendário anual de editais com previsibilidade e definição das respectivas oitivas; transparência ativa em todas as etapas; construção de indicadores da cultura para o Estado; monitoramento e avaliação com indicadores públicos;

Essas medidas não são luxo: são o mínimo necessário para garantir que a cultura catarinense — rica, diversa e potente — tenha condições reais de existir, crescer e impactar a sociedade.

Conclusão:

Os dados do IBGE evidenciam que a cultura é um setor estruturante da economia contemporânea no estado de Santa Catarina. Ignorar essa dimensão significa comprometer a capacidade do estado de planejar seu desenvolvimento de forma integrada, sustentável e alinhada às transformações sociais e tecnológicas em curso.

A consolidação de um órgão gestor forte, estável e tecnicamente qualificado não é uma demanda corporativa: é uma condição institucional mínima para o desenvolvimento sustentável.

Santa Catarina tem na Cultura uma de suas participações na força de trabalho e desenvolvimento. Transformar esse potencial exige governança: equipes permanentes, sistemas integrados, normativas claras, participação social vinculante e instrumentos de monitoramento capazes de orientar decisões com base em evidências. Estados que estruturaram seus sistemas de cultura avançaram porque compreenderam que gestão pública não se faz apenas com recursos financeiros, mas com capacidade institucional.

O momento exige que o Estado de Santa Catarina assuma a cultura como política estratégica. Reestruturar o órgão gestor, atualizar o Plano Estadual de Cultura, fortalecer o Sistema Estadual de Cultura e instituir calendários, processos e indicadores não são medidas complementares — são pré-requisitos para que a cultura catarinense possa existir, crescer e gerar impacto econômico, social e simbólico de forma contínua.

A cultura já demonstrou sua força. Agora, cabe ao poder público garantir as condições para que ela seja tratada como política de Estado — e não como ação eventual. Estruturar a governança cultural é investir no futuro de Santa Catarina, na sua diversidade, inovação e capacidade de produzir sentido, identidade e desenvolvimento.


Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 25/07/2026

 








[1] Dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais/IBGE - 2024

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  Órgãos Gestores da Cultura Estruturados:  Necessidade Estratégica   A cultura é um dos pilares fundamentais da vida coletiva, responsá...