terça-feira, 28 de julho de 2026

 

Setoriais, Governamentais e Governança Cultural:

Contribuições para a Construção

do

Plano Municipal de Cultura de Florianópolis

 

1.     Introdução:

O objetivo deste texto é sistematizar o papel das setoriais e da representação governamental na elaboração de um Plano Municipal de Cultura. A partir de referenciais da gestão cultural, da participação social e da governança pública, afirmamos que as setoriais constituem instâncias de formulação política e técnica, responsáveis por produzir diagnósticos, diretrizes e metas setoriais.

A representação governamental, por sua vez, atua como mediadora institucional, garantindo viabilidade administrativa, alinhamento jurídico e integração intersetorial. E, a articulação entre sociedade civil e governo é condição para a construção de políticas culturais democráticas, exequíveis e orientadas por evidências.

Os Planos Municipais de Cultura são instrumentos de planejamento de médio e longo prazo que orientam a ação pública, definem prioridades e estabelecem metas para o desenvolvimento cultural de um determinado território. Sua elaboração pressupõe processos participativos, produção de diagnósticos, definição de diretrizes e construção de mecanismos de monitoramento.

Este texto focará no caso de Florianópolis, onde o CMPCF[1] desempenha papel central no processo de construção/atualização do Plano Municipal de Cultura 2026/2036.

O primeiro Plano Municipal de Florianópolis havia sido elaborado em 2013 e aprovado pela Lei Municipal 9.845/2015 para orientar as políticas públicas culturais do município, estabelecendo diretrizes, metas e gestão participativa. Cabe agora ao CMPCF, através das suas setoriais e da representação governamental verificar o que foi alcançado ou não com o Plano de 2015, atualizar as necessidades e definir novos objetivos e metas.

2. As Setoriais:

Do ponto de vista da teoria da participação social, Conselhos e Setoriais são mecanismos de deliberação pública, nos quais diferentes atores produzem diagnósticos, formulam propostas e influenciam decisões governamentais. No campo da política cultural, essa atuação é particularmente relevante, dada a heterogeneidade dos setores culturais e a necessidade de políticas específicas para cada linguagem e expressão cultural.

As setoriais são instâncias de representação de segmentos culturais específicos. Sua atuação constituem espaços de formulação política, produção de conhecimento e mediação entre agentes culturais e o poder público.

As setoriais do CMPCF cumprem três funções centrais na elaboração do PMC:

2.1. Produção de diagnósticos setoriais:

Esses diagnósticos são instrumentos analíticos que permitem compreender a realidade dos diferentes segmentos do setor cultural. Devem incluir:

§  mapeamento de agentes, espaços e práticas de maneira a permitir que eles não só sejam ouvidos como participem da formulação de propostas que vão se relacionar com sua realidade específica;

§  identificação de desigualdades de acesso, possibilitando a definição de ações e metas no sentido de superar/minimizar as desigualdades de acesso ao fomento, as políticas públicas de formação, de mercado e de divulgação;

§  análise de fragilidades estruturais, permitindo a construção de propostas afirmativas que fortaleçam as condições estruturais necessárias ao desenvolvimento do segmento em questão;

§  levantamento de demandas históricas, inserindo-as nas propostas, metas e ações do Plano em construção;

§  reconhecimento de práticas emergentes, no sentido ampliar a abrangência do PMC para novos segmentos culturais.

A produção desse conhecimento específico é fundamental que seja fornecido para a construção do PMC, de maneira a permitir que ele seja estruturado de acordo com a realidade do território e não em percepções isoladas.

2.2. Formulação de diretrizes e ações estruturantes:

Com base nos diagnósticos realizados, as setoriais devem formular diretrizes que expressem objetivos estratégicos para o desenvolvimento de cada setor. Essas diretrizes orientam ações estruturantes, como: programas de formação; políticas de circulação e difusão; criação e qualificação de equipamentos culturais; mecanismos de fomento contínuo; ações de preservação e memória, expansão dos investimentos, etc.

2.3. Construção de metas e indicadores:

A definição de metas mensuráveis e indicadores é essencial para a governança do Plano. As setoriais contribuem propondo metas específicas, enquanto o governo participa definindo os indicadores e a metodologia de coleta das informações para que a mensuração das metas aconteça, bem como a previsão orçamentária necessária à sua execução.

3. A representação governamental como mediadora institucional:

A literatura sobre governança pública destaca a importância da articulação entre sociedade civil e Estado na formulação e no gerenciamento de políticas públicas. No processo de construção do Plano Municipal de Cultura, a representação governamental na composição do CMPCF cumpre funções complementares às das setoriais, integrando o processo, garantindo coerência institucional, viabilidade administrativa e articulação com políticas públicas correlatas.

3.1. Viabilidade administrativa e orçamentária:

A representação governamental no CMPF se divide em três tipos: o primeiro é a representação dos órgãos gestores do Poder Executivo[2]. O segundo são as representações das instituições formativas[3] e o terceiro e a representação do Poder Legislativo Municipal.[4] As representações governamentais devem contribuir com informações sobre: a capacidade institucional; limites orçamentários; estrutura administrativa; marcos legais e normativos; os projetos de desenvolvimento, metodologia para construção do PMC, construção de indicadores, etc. Essa mediação garante a exequibilidade do Plano e evita que ele se torne um mero documento declaratório sem função social.

3.2. Integração intersetorial:

A cultura é transversal. A representação governamental facilita a articulação com educação, turismo, urbanismo, juventude, diversidade, inovação,  etc. Essa integração amplia o impacto das políticas culturais, tornando-as muito mais abrangentes.

3.3. Adequação jurídica e integração ao planejamento municipal:

O governo assegura que as propostas das setoriais estejam alinhadas ao Plano Plurianual (PPA), à Lei Orçamentária Anual (LOA) e às diretrizes nacionais e estaduais de cultura.

4. A escuta social como fundamento democrático:

A participação social é um princípio estruturante da política cultural. As setoriais devem ampliar sua escuta para incluir: agentes independentes, coletivos periféricos, culturas tradicionais e populares, juventudes e cultura urbana, cultura digital, grupos invisibilizados.

Essa escuta qualificada fortalece a legitimidade das propostas e amplia a capacidade analítica das setoriais. Para que isso ocorra, é necessária uma ampla divulgação dos mecanismos de escuta e participação, através de oitivas descentralizadas nos bairros/regiões do município, elaboração de formulários digitais acessíveis, realização de plenárias presenciais/virtuais e outros instrumentos que permitam aglutinar contingente expressivo de artistas, gestores, fazedores de cultura e da comunidade para que se manifestem quanto as propostas e metas a serem definidas.

5. A construção do Plano Municipal de Cultura:

Depois da contribuição das setoriais e da representação governamental, caberá a Comissão de Elaboração do PMC, consolidar as propostas, definindo os eixos, ações e metas que darão forma, estrutura e conteúdo ao Plano. Concluída esta etapa, a minuta da proposta final do PMC é apresentada ao CMPCF e a sociedade para aprovação.

Esta é uma etapa fundamental pois é o momento em que as Setoriais poderão verificar a viabilidade das propostas apresentadas, os indicadores que serão utilizados para o monitoramento das ações e se apropriar das condições de execução real do PMC.

6. A formalização jurídica administrativa do PMC:

Nessa etapa, os órgãos da administração pública se manifestam para os ajustes necessários antes do encaminhamento formal ao Poder Legislativo. Nesta etapa ocorre a tramitação prévia na Procuradoria Geral do Município (PGM)[5] e na Secretaria de Finanças/Planejamento antes do envio à Câmara de Vereadores. Feitos os ajustes necessários, o Poder Executivo encaminhará o PMC a Câmara Municipal para posterior aprovação.

7. Governança e acompanhamento pós-aprovação:

Após a aprovação do Plano, inicia-se a fase de governança e monitoramento. As setoriais assumem papel de controle social, acompanhando a execução das metas e avaliando o desempenho das políticas.

O governo, por sua vez, é responsável pela implementação e pela prestação de contas ao Conselho, pela elaboração de relatórios anuais de gestão e relatórios bienais de metas para que a função de controle social exercida pelas setoriais tenha dados periódicos para análise.

Essa relação é complementar e necessária para garantir continuidade, transparência e efetividade.

8. Considerações finais:

A construção do Plano Municipal de Cultura de Florianópolis exige articulação entre participação social qualificada e capacidade institucional do poder público. As setoriais, como instâncias de formulação política e técnica, produzem diagnósticos, diretrizes e metas que expressam a diversidade cultural da cidade. A representação governamental assegura viabilidade, alinhamento jurídico e integração intersetorial.

Embora a interação entre sociedade civil e governo constitua o núcleo da governança cultural democrática, o reconhecimento da participação institucional ainda deixa muito a desejar no município. As dificuldades do efetivo reconhecimento da legitimidade do CMPCF como órgão consultivo, deliberativo e fiscalizador das ações governamentais não só ainda é um grave problema a ser solucionado, como torna-se um entrave no bom andamento da elaboração das políticas públicas para o setor cultural.

Há um verso de um poeta espanhol[6] que diz “Caminhante não há caminho, se faz o caminho ao andar”. O CMPCF, aqui compreendido como o conjunto das representações da sociedade civil e governamentais, deve caminhar para construir o caminho que resulte no amplo exercício das suas atribuições legais. Somente por meio dessa articulação será possível construir um Plano que seja ao mesmo tempo legítimo, exequível e transformador.

O Plano Municipal de Cultura de Florianópolis deve ser, antes de tudo, uma obra coletiva. 

"A governança cultural não se decreta: se constrói na tensão positiva entre o desejo da sociedade e a capacidade do Estado!"

 

Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 29/07/2026

 



[1] No link  https://nasesquinasdavida.blogspot.com/2026/04/o-papel-dos-conselhos-municipais-de.html permite o acesso ao texto sobre o Papel dos Conselhos Municipais de Cultura, em especial do CMPCF.

[2] Poder Executivo Municipal: Fundação de Cultura de Florianópolis Franklin Cascaes, Gabinete do Prefeito; Instituto de Geração de Oportunidades de Florianópolis, Sec.Mun.Assistência Social , Sec. Mun.Casa Civil, Sec. Mun. Continente, Sec. Cultura, Esporte e Lazer, Sec.Mun.Educação.

Poder Executivo Estadual: Fundação Catarinense de Cultura;

Poder Executivo Federal: , Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico NacionalPHAN, Ministério da Cultura-MinC

[3] Universidade de Santa Catarina - UDESC, Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, Instituto Federal de Santa Catarina-IFSC

[4] Câmara Municipal de Florianópolis.

[5] Procuradoria-Geral do Município (PGM)  exerce o papel principal dela de garantir que todas as ações do Poder Executivo Municipal sigam estritamente a lei, além de defender, em juízo,  os interesses do Município e do patrimônio público.

[6] O poema "Cantares", do escritor espanhol Antonio Machado in Campos de Castilla (1912)




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