quinta-feira, 30 de julho de 2026

 

Getúlio Marinho[1] :

os terreiros de axé, os ranchos e as escolas de samba

 

Getúlio Marinho da Silva, nasceu em Salvador no dia da proclamação da República, 15/11/1889 e, cresceu no Rio de Janeiro. É uma das figuras estruturais da cultura afro‑carioca: viveu e atravessou os  pilares fundamentais da formação do samba urbano: os terreiros da Pequena África, as casas das tias baianas, os ranchos carnavalescos, e, finalmente, as primeiras escolas de samba.

Sua vida é um documento vivo da ancestralidade negra que moldou o Rio de Janeiro no início do século XX.


“Roda de samba”, 1948. Tela de Heitor dos Prazeres. Retirada do site História das Artes

1 — A Pequena África como território de iniciação:

A Pequena África compreendia Saúde, Gamboa e Santo Cristo — região portuária onde se concentravam comunidades negras desde o século XIX. Era um espaço de memória, religiosidade, música, culinária e sociabilidade afro‑brasileira, marcado por terreiros, rodas de batuque, casas de baianas e encontros culturais. Ali estavam o Cais do Valongo, principal porto de chegada de africanos escravizados no continente americano; a Pedra do Sal, ponto sagrado e musical, berço de rodas de samba; a Praça Onze, onde se reuniam músicos, terreiros e ranchos carnavalescos.

Esse ambiente era um caldeirão cultural que misturava: candomblé nagô e umbanda; culinária baiana; batuques e chulas; redes de solidariedade entre migrantes; festas que atravessavam a madrugada e uma sociabilidade negra que resistia à marginalização urbana.

Foi ali que Getúlio cresceu!

Getúlio Marinho Amor

Ao chegar ao Rio, com 6 anos de idade, seus pais Antonio Marinho da Silva e Paulina Teresa de Jesus, se instalaram na região que ficaria conhecida de Pequena África — um território que reunia ex-escravizados, baianos recém‑chegados, trabalhadores do porto, músicos, mães de santo e toda a rede cultural que sustentava a vida negra na cidade. Ali, ele conviveu com figuras centrais das Tias Baianas, mulheres negras baianas que migraram para o Rio e se tornaram matriarcas culturais. Suas casas funcionavam como: terreiros, cozinhas comunitárias, espaços de cura e hospedagem, salões de dança e verdadeiros “centros culturais” da época.

Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Foto retirada da internet

Elas eram fundamentais porque: protegiam músicos e sambistas perseguidos pela polícia, organizavam festas que misturavam religião, comida e música, mantinham tradições afro‑baianas vivas e e criavam redes de apoio para negros pobres recém-chegados ao Rio.

Tia Ciata, mãe de santo e articuladora política, cuja casa era ponto de encontro de músicos, curandeiros e líderes comunitários, em especial,  um polo musical onde passaram Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres — e também Getúlio Marinho; Tia Bebiana, referência de cura e ritual, guardiã de ebós e rezas; Tia Carmen do Xibuca, líder religiosa e comunitária; Tia Gracinda, anfitriã de rodas e cozinheira de axé; Tia Calu Boneca, ponte viva entre Bahia e Rio, com festas que atravessavam a madrugada; Tia Perciliana Maria Constança, dona de terreiro aberto, guardiã de pontos e tradições, mãe de João da Baiana.

Mulheres que eram instituições da cultura negra no Rio de Janeiro. E, Getúlio cresceu dentro dessa rede — aprendendo que música, comida, fé e comunidade são dimensões inseparáveis da vida negra.

2 — Os terreiros: a liturgia que moldou o corpo:

Getúlio frequentou terreiros de Umbanda e Candomblé que eram referências na época: João Alabá, Assumano, Abedé. Nestes espaços, ele aprendeu: a postura do ogã, o respeito ao sagrado, a lógica do giro, a disciplina do corpo, a função da elegância ritual. Essa aprendizagem  foi central na sua formação: moldou sua dança, sua presença, sua ética e sua forma de se relacionar com o samba.

Getúlio não foi apenas frequentador do samba, foi um guardião e um dos primeiros artistas brasileiros a gravar pontos de Umbanda e Candomblé em disco — um ato de preservação cultural num período de forte repressão policial às religiões afro‑brasileiras.

3 — Os ranchos: a escola antes da escola

Com os ranchos carnavalescos — Flor do Abacate e Recreio Flor da Síria — Getúlio encontrou a estrutura que mais tarde moldaria as escolas de samba: cortejo, hierarquia, disciplina, mestre‑sala, porta‑estandarte, ritual de apresentação.

Foi discípulo de Hilário Jovino Ferreira, o maior mestre‑sala de sua geração. Com ele, aprendeu que o carnaval também é liturgia — que cada gesto tem função, que cada passo tem história, que cada movimento é parte de uma tradição.

Mural Hilário Jovino, Largo da Prainha/RJ

    
Esse processo formativo fez de Getúlio uma figura épica: o elo entre o passado baiano dos ranchos e o futuro carioca das escolas de samba.

Getúlio iniciou muito cedo sua participação nas manifestações culturais locais integrando o Rancho Carnavalesco Dois de Ouro, que havia abrigado Hilário Jovino quando de sua chegada ao Rio de Janeiro e que serviu de aprendizagem para que ele criasse o Rancho Carnavalesco Rei de Ouro. E, em 1916, Getúlio atuou como dançarino no Teatro de Revista, com a peça Dança de Velho, encenada no Teatro São José[2].


Hilário Jovino Ferreira (1873 - 1933)

Atuou como mestre-sala em tradicionais ranchos da época, desfilando no Flor do Abacate (1917), no Quem Fala de Nós Tem Paixão, e no Recreio Flor da Síria (1921). Posteriormente, acompanhou a transição do formato dos ranchos para as escolas de samba, tornando-se um dos mestres-salas mais notórios do período.

Como mestre‑sala, sua dança era um documento. A prova viva de que o samba nasceu da boemia e da espiritualidade; da festa e da ancestralidade; da improvisação e da liturgia. Ele dançava como quem guarda um segredo antigo — e, guardava mesmo.

Getúlio aprendeu a arte da dança com Hilário Jovino Ferreira, mas foi nas festas das tias baianas que ele desenvolveu: a elegância, o domínio da dança, o respeito aos códigos afro‑religiosos e a postura cerimonial que marcaria sua carreira. As rodas e charangas das casas baianas eram verdadeiras escolas de dança e etiqueta carnavalesca. A elegância dele como mestre-sala — postura ereta, gestos contidos, respeito cerimonial — tem raiz direta na liturgia dos terreiros. O mestre-sala é, de certa forma, um ogã dançante: guarda, conduz, reverencia.

4. Gravações e Composições:

A convivência com terreiros e ebós das tias baianas influenciou diretamente sua obra: ele foi pioneiro na gravação de pontos de Umbanda e Candomblé, algo raríssimo na década de 1930. Isso só foi possível a partir de sua vivência espiritual na Pequena África. Isso é revolucionário para a época, porque a polícia reprimia terreiros, a imprensa tratava religiões afro como “feitiçaria” e o mercado fonográfico era profundamente elitista. Mesmo assim, ele gravou “Ponto de Inhassan” e “Ponto de Ogum”. E, essas gravações são documentos históricos: mostram como os toques, as melodias e a estrutura dos pontos já estavam consolidados na oralidade da Pequena África.

https://radiobatuta.ims.com.br/pequenas-africas/getulio-marinho-amor

Se a sociabilidade das tias baianas foi a base dos ranchos carnavalescos, que depois dariam origem às escolas de samba, Getúlio Marinho foi figura central nessa transição — e isso nasceu da cultura comunitária da Pequena África.

A relação de Getúlio Marinho com a Pequena África e com as tias baianas não é apenas biográfica — é estrutural. Ele é fruto direto desse território negro, e sua obra é uma extensão das tradições que ali se preservavam: sem a Pequena África, não existiria Getúlio Marinho. E, sem as tias baianas, não existiria o samba que ele ajudou a construir.

A religiosidade afro-brasileira moldou nele, a noção de comunidade, a ética da reciprocidade, a ideia de ancestralidade e a relação com o corpo como instrumento de expressão espiritual.

Além de seu trabalho pioneiro na gravação de cantos afrobrasileiros, Getúlio também se consolidou como compositor, sendo gravado por grandes nomes da música popular. Sua primeira obra, como compositor, foi o samba “Não Quero Amor”, gravada em 1930 pelo “Conjunto Africano”, na gravadora Odeon. Em 1931, Francisco Alves gravou "Apanhando o Papel", sua parceria com Ubiratã Silva. No mesmo ano, Luiz Barbosa, gravou "Fome Não É Pagode”, sua parceria com João Bastos Filho. E, Patrício Teixeira, gravou "Não Chores, Benzinho", em 1932.

Mural Getúlio Marinho Amor, muro externo do Colégio Pedro II campus Centro


Ele também compôs música junina "
Pula a Fogueira" foi gravada por Francisco Alves, em 1936, sendo dos temas mais executados nas tradicionais festas de São João por todo o país até hoje.

Em 1934, ajudou a fundar em 1934 a União das Escolas de Samba, onde ocupou a primeira secretaria da entidade. Em 1940, recebeu o título de Cidadão Samba, conferido a figuras de destaque do carnaval carioca.

5. Conclusão:

Seu legado é maior que qualquer título. Getúlio Marinho “Amor” foi o Mestre‑Sala que transformou gesto em ritual, o sambista que preservou cantos sagrados, o filho das tias que levou o axé para o carnaval, um elo entre Bahia e Rio, o corpo ancestral que atravessou o samba como quem atravessa um rito. Ele é a prova de que o samba é memória espiritual.

Getúlio Marinho “Amor”, partiu em 31 de março de 1964.

Relembrar Getúlio Marinho é relembrar a Pequena África, a força das tias baianas, a liturgia dos terreiros, a disciplina dos ranchos, a fundação das escolas de samba, a resistência cultural negra no Brasil.

E até hoje, quando um mestre‑sala gira ao redor de uma porta‑bandeira, o gesto carrega a marca dele — como se o corpo dissesse, silenciosamente: “Getúlio passou por aqui”!

 


Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério


Carmen Evangelho

Ilha da Magia 30/07/2026

Obs: A “União da Ilha do Governador” terá como enredo no Carnaval de 2027, “Getúlio Marinho: um Amor de Carnaval”.


Enredo da União da Ilha do Governador em 2027.

☑Algumas sugestões sobre o tema:

1.   1. Sobre Pequena África, tias baianas e formação do samba

*   * Cunha, Ma. Clementina Pereira: Ecos da Folia

R      Recupera a história social do Carnaval

* Moura, Roberto: Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 

     Obra fundamental sobre o território e as tias baianas.

* Moura, Roberto. No princípio, era a roda. 

     Estudo clássico sobre samba, sociabilidade e ancestralidade.

* Lopes, Nei: Dicionário da História Social do Samba. 

     Referência indispensável para nomes, datas e conceitos.

* Lopes, Nei: O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical. 

     Excelente para contextualizar terreiros, batuques e rodas.

* Sodré, Muniz: Samba, o dono do corpo. 

    Análise profunda da relação entre corpo, dança e ritual.

 2.    Sobre ranchos e escolas de samba

* Araújo, Hiram: Carnaval: seis milênios de história. 

    Panorama histórico com foco nos ranchos.

* Cabral, Sérgio: As escolas de samba do Rio de Janeiro. 

    Clássico sobre a formação das escolas de samba

* Ferreira, Felipe: Inventando carnavais. 

    Estudo sobre a transição dos ranchos para escolas.

 3.  Sobre religiosidade afro‑brasileira:

* Prandi, Reginaldo: Mitologia dos Orixás;

    reúne a mais completa coleção de mitos da religião dos orixás, e nos aproxima do          vasto patrimônio cultural dos negros iorubás ou nagôs

* Ligiéro, Zeca: O corpo da dança. 

    Relação entre liturgia e movimento.

 4. Registros fonográficos relacionados ao tema:

Gravações de Getúlio Marinho:

“Não Quero Amor” (1930) — Conjunto Africano, Odeon.

“Apanhando o Papel” (1931) — Francisco Alves.

 “Fome Não É Pagode” (1931) — Luiz Barbosa.

“Não Chores, Benzinho” (1932) — Patrício Teixeira.

“Pula a Fogueira” (1936) — Francisco Alves.

Pontos de Umbanda e Candomblé gravados por ele

“Ponto de Inhassan”

“Ponto de Ogum” 

  Essas gravações são raras e históricas — documentos sonoros da liturgia afro‑carioca. https://radiobatuta.ims.com.br/pequenas-africas/getulio-marinho-amor

5. Registros complementares:

* Donga — “Pelo Telefone” (1917) 

    Para contextualizar o ambiente musical das casas das tias baianas.

* João da Baiana — gravações de prato‑e‑faca 

    Mostram a estética musical da Pequena África.

* Pixinguinha — série de gravações dos anos 1920–1930 

    Para compreender o ambiente musical que cercava Getúlio.



[1] Getúlio Marinho ficou conhecido como “Amor”, apelido que nasceu da forma como ele tratava as pessoas — com gentileza e reverência — e foi incorporado aos registros oficiais de sua obra.Com o tempo, virou marca de identidade espiritual e artística, reconhecida por sambistas, gravadoras e historiadores.

[2] O antigo Teatro São José, no Rio de Janeiro, foi um importante espaço cultural localizado na Praça Tiradentes. Inaugurado em 1881 como Teatro Príncipe Imperial, passou a se chamar Teatro São José em 1903 e acabou demolido na década de 1980.

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