quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

Editais: Ferramentas da Política Cultural

 

Há uma ilusão perigosa rondando a gestão pública da cultura: a ideia de que lançar editais é sinônimo de fazer política cultural. Essa confusão — repetida por governos que evitam o trabalho profundo da construção institucional — transforma um instrumento em espetáculo. 

A cultura — força que atravessa territórios, memórias, corpos e economias — não vive de ações pontuais; vive de política pública, Estado atuante e compromisso de longo prazo. 

A confusão entre o instrumento e a política pública é recorrente no Brasil. Especialmente em momentos de crise, órgãos gestores frequentemente apresentam os editais como prova de que "estão trabalhando pela cultura". Trata-se de um equívoco com efeitos concretos sobre a vida de artistas e produtores, além de limitar a capacidade do Estado de garantir o direito constitucional à cultura. 

Um edital é uma porta que se abre. Mas portas não sustentam casas; só fazem sentido quando há estrutura, arquitetura e projeto. 

ü  Política cultural é o projeto: define para onde vamos, quem queremos incluir, que desigualdades superar e que futuro construir. 

ü  Editais são as ferramentas: mecanismos valiosos de execução, fomento e transparência, mas que isolados não representam o caminho. 

A verdade é simples: editais servem para aplicar políticas, distribuir recursos, estimular linguagens e apoiar a formação, a pesquisa ou a memória. No entanto, só cumprem esse papel quando conectados a diagnósticos e prioridades previamente estabelecidos. Marcos como o Sistema Nacional de Cultura (SNC), os Planos e Fundos de Cultura, os Conselhos e a PNAB (Lei Aldir Blanc 2) existem justamente para garantir que o fomento seja contínuo, e não um improviso.

 Quando o Estado reduz a cultura a editais, ele a reduz à mera sobrevivência. Tratar editais como política pública revela a ausência de visão, de planejamento e de compromisso. A cultura não se vira sozinha — ela muitas vezes resiste apesar do Estado, não graças a ele. 

Nenhum edital substitui a presença de um órgão gestor estruturado, com equipes técnicas estáveis, Conselhos atuantes, orçamentos garantidos, sistemas de informação e políticas afirmativas. Onde há institucionalidade e indicadores precisos, o edital cumpre sua função; onde não há, ele perde o sentido e vira improviso. 

Editais não definem prioridades, públicos-alvo, estratégias territoriais ou a integração com áreas como educação, turismo e inovação. Quando eles passam a substituir a política pública, o ambiente torna-se instável: 

§  cada edital vira uma reinvenção da roda sem continuidade entre gestões;

§  o setor cultural passa a viver em picos de fomento e disputas anuais, sem monitoramento de impacto;

§  artistas e produtores ficam impedidos de planejar trajetórias consistentes. 

Editais são como torneiras: só funcionam se houver encanamento, reservatório e manutenção. Sem sistema, a torneira falha ou seca. A centralidade excessiva dos editais apenas escancara a fragilidade do Estado, tratando a cultura como evento, e não como direito.  Editais são necessários, transparentes e eficientes, mas insuficientes. Eles representam a ação. Mas, a política cultural é o que dá a direção. 

Conclusão:

A cultura precisa de políticas públicas estruturadas e contínuas. Confundir o instrumento com a política é reduzir o setor a uma sequência de chamadas públicas sem estratégias.  A tarefa urgente é construir uma Política Cultural na qual os editais sejam a expressão concreta de seus objetivos. Para isso, precisamos de participação social e de governos que compreendam que cultura não é calendário ou vitrine, mas desenvolvimento humano, social e econômico. Somente assim os editais assumirão o seu verdadeiro papel: ferramentas de execução de uma política pública. 


Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

                        

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 23/07/2026









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