Antônio Rufino – também foi fundador
da Portela
“Revendo
os mais belos sambas da nossa história
Quantos compositores morreram sem
glória
Foram esquecidos em seu mundo de
ilusões
Muitos sempre exerceram outras profissões ...”[1]
Antônio
Rufino dos Reis é uma das três figuras centrais da fundação da Portela ao lado
de Paulo da Portela e Antônio Caetano.
Rufino nasceu em Juiz de Fora /MG, em 3 de
março de 1907 e chegou a Oswaldo Cruz em 1920, ainda menino. Trazia consigo o
cheiro da terra molhada, o batuque rural, o jongo das rodas mineiras e uma
seriedade que não era sisudez — era compromisso, marcas culturais que havia
vivido em Minas Gerais e que influenciariam sua identidade, visão de samba e
ajudariam a definir sua atuação na futura Escola.
Numa Oswaldo Cruz de quintais, terreiros e
vielas, foi morar na casa de uma tia na Rua Pirapora e começou a costurar sua
vida à vida do bairro, marcando profundamente toda a região. Era sério,
dedicado e inspirava confiança desde cedo. Antônio Rufino dos Reis chegou a
Oswaldo Cruz como quem chega ao seu destino e logo se tornou uma liderança
natural no bairro.
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| Antonio Rufino dos Reis |
Começou a trabalhar cedo, como ajudante de
pedreiro e aos 15 anos, já era um dos responsáveis pelo bloco “Baianinhas de
Oswaldo Cruz”, convivendo com figuras que se tornariam fundamentais para o
samba carioca. Este bloco era formado por Galdino Marcelino dos Santos, Antônio
Caetano, Candinho e Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, Claudionor
Marcelino (irmão de Galdino), José da Costa, Álvaro Sales, Angelino Vieira,
Manuel Barbeiro, Alfredo Pereira da Costa, Carminha e Benedito do Braz.
Galdino Marcelino dos Santos era uma das
figuras centrais e fundadoras do bloco, com visão de gestão mais conservadora e
centralizadora. Antônio Caetano, Candinho, Paulo da Portela e o próprio Antônio
Rufino queriam implantar novas ideias, mais organização e dinamismo ao
conjunto.
Os desentendimentos internos entre Galdino
e o grupo liderado por Rufino se tornaram insuperáveis. Isso fez com que, em
1926, Rufino, Caetano e Paulo se retirassem do bloco e fundassem o “Bloco
Carnavalesco Conjunto de Osvaldo Cruz”, que mais tarde se tornaria o “Vai
Como Pode” e, finalmente, Portela. Rufino
estava lá, desde o primeiro sopro, como quem acende uma vela e protege a chama
com as mãos.
As reuniões do novo bloco aconteciam na
Barra Preta, ou na casa de Paulo da Portela ou sob a grande jagueira da casa de
Seu Napoleão, pai de Natal. Graças a
essa discordância entre a ala jovem e a liderança de Galdino no “Baianinhas
de Osvaldo Cruz”, acabou nascendo a estrutura inovadora da Majestade do
Samba!
Barra Preta era a denominação histórica e popular de um trecho que hoje
corresponde à Estrada do Portela e que ia das vizinhanças da estação de trem em
direção a Madureira. Era o verdadeiro ponto de convergência, onde os fundadores
da Portela residiam, trabalhavam e davam os primeiros passos da história da Escola.
Essa região desempenha um papel fundamental na memória e na origem do samba
portelense.
Na década de 20 do século passado, Paulo da
Portela morou na Barra Preta, na vila de número 338, na antiga Estrada do Rio
das Pedras, atual Estrada do Portela. A sua casa foi a primeira sede informal
do grupo — na prática, o local onde os bambas guardavam os instrumentos e
organizavam a caixinha do bloco. O local funcionava como um centro cultural
informal, onde surgiam composições, discussões, ensaios e ideias do que seria
uma Escola de Samba.
A poucos metros desse trecho da Barra Preta
ficava o Bar do Nozinho e a chácara de Seu Napoleão, pai de Natal da Portela,
onde sob a famosa jaqueira o bloco também se reunia. Foi nesta região que, na
década de 1950, surgiu a tradicional quadra da Portelinha, na Estrada do
Portela, nº 446.
Mas, vamos voltar ao nosso Antônio Rufino. Se
Paulo da Portela foi o grande articulador e Caetano o mestre da organização
comunitária, Rufino foi o homem que sustentou a escola nos anos mais difíceis.
Nomeado o primeiro tesoureiro, na época chamado de procurador, ele cobrava
pessoalmente a mensalidade dos integrantes, administrava a “caixinha” de
empréstimos e garantia que todos tivessem transporte quando a Escola fosse desfilar
no Centro. Em um episódio que se tornou símbolo de sua dedicação, chegou a
empenhar o próprio terno para que a Escola não deixasse de desfilar. Há quem diga que naquele dia, Rufino não
vestiu apenas outro terno, vestiu a Portela inteira. Esse lado “operacional” foi decisivo: sem
Rufino, a Portela talvez não tivesse sobrevivido aos primeiros anos de vida.
Além de dirigente, Rufino foi compositor. É
dele o segundo samba criado na história da Portela, “Favela tem o seu Cruzeiro”[2],
composto sob a famosa jagueira que abrigava as primeiras reuniões da Escola, que
servia de ponto de encontro dos fundadores. Era ali que eles conversavam,
organizavam o bloco e, claro, compunham.
O samba fala da favela como espaço de devoção, resistência e beleza, usando a imagem do “cruzeiro” como símbolo de fé e proteção. É um retrato poético da comunidade de Oswaldo Cruz nos anos 1920, quando a Portela ainda engatinhava. Um dos versos mais conhecidos menciona: “Favela tem o seu cruzeiro…”. Esse verso é a espinha dorsal da composição: a ideia de que a “Favela” tem sua própria espiritualidade, sua própria força, seu próprio centro simbólico.
Ele também foi jongueiro ativo, trazendo para a
Portela a força das manifestações rurais que ajudaram a moldar a identidade da
agremiação.
Na fundação do bloco “Vai Como Pode”,
o núcleo de sambistas se reunia ao redor da antiga Rua Clara e subia em direção
às áreas mais altas do bairro, conhecidas como o Morro do Urubu ou Morro de
Oswaldo Cruz. Essa comunidade modesta no Morro era chamada carinhosamente pelos
moradores locais de "Favela".
O "Cruzeiro" citado no
samba era um monumento religioso em forma de cruz instalado em Oswaldo Cruz,
próximo à estação e aos caminhos que levavam ao Morro. Ele funcionava como um
ponto de referência comunitário, de fé e de encontro para os moradores e
sambistas da região.
No samba, Rufino faz uma exaltação do valor
da cultura suburbana e da comunidade local frente ao asfalto e à cidade
central. Ao cantar "Ora vamos à favela / Dar-lhe o valor", ele
reforçava o orgulho da identidade de Oswaldo Cruz e a força da escola de samba
suburbana.
Rufino também viveu momentos de tensão por
uma polêmica com Heitor dos Prazeres, que se apropriou do samba “Vai Mesmo”,
composto por ele. O episódio abalou sua relação com Paulo da Portela, mas não
diminuiu seu papel na construção da Escola. Pelo contrário: reforçou sua imagem
de homem íntegro, profundamente ligado aos valores de lealdade e amizade que
marcavam Oswaldo Cruz.
Nos anos 1970, quando pesquisadores
começaram a registrar a história das escolas de samba, Rufino, já sócio número
1 da Escola, tornou-se uma das principais fontes de memória da Portela. Recebia
todos com orgulho e narrava o passado com a autoridade de quem viveu cada etapa
da construção da Escola.
Antônio Rufino morreu em 18 de novembro de
1982, aos 75 anos. Seu falecimento é lembrado como o “reencontro” com Paulo e
Caetano, os amigos com quem “surgiu junto” — como ele próprio dizia. O
trio permanece imortalizado na história da Portela, não apenas como fundadores,
mas como símbolos de resistência, amizade e compromisso comunitário.
Rufino foi, acima de tudo, o homem que fez
a Escola existir quando ainda era apenas um sonho de três jovens sambistas de
Oswaldo Cruz e ajudou a moldar a identidade da Portela como Escola elegante,
organizada e respeitada.
Entre os grandes nomes do samba carioca,
Rufino é daqueles que ficam “escondidos” atrás de figuras mais famosas. Ele foi
o responsável por transformar um grupo de amigos em uma instituição. Na galeria
dos sambistas pouco conhecidos, Rufino é “uma das figuras de maior expressão”
e as fontes são unânimes: sem Antônio Rufino, não haveria Portela como a
conhecemos.
Se Paulo sonhou, Caetano organizou e Rufino
sustentou, é porque a Portela nasceu do encontro perfeito entre visão,
comunidade e compromisso, um tripé que ainda hoje sustenta a Escola.
Ao lembrar Rufino, não celebramos apenas um
fundador, mas o espírito de uma Escola que aprendeu a transformar simplicidade
em grandeza e comunidade em tradição.
Rufino partiu, mas deixou acesa a chama que
ajudou a proteger desde o primeiro sopro. E enquanto houver Portela, haverá
sempre um pouco de Antônio Rufino iluminando Oswaldo Cruz.

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