sábado, 8 de agosto de 2026

 

Antônio Rufino – também foi fundador da Portela

 

Revendo os mais belos sambas da nossa história

Quantos compositores morreram sem glória

Foram esquecidos em seu mundo de ilusões

Muitos sempre exerceram outras profissões ...”[1] 

Antônio Rufino dos Reis é uma das três figuras centrais da fundação da Portela ao lado de Paulo da Portela e Antônio Caetano.

Rufino nasceu em Juiz de Fora /MG, em 3 de março de 1907 e chegou a Oswaldo Cruz em 1920, ainda menino. Trazia consigo o cheiro da terra molhada, o batuque rural, o jongo das rodas mineiras e uma seriedade que não era sisudez — era compromisso, marcas culturais que havia vivido em Minas Gerais e que influenciariam sua identidade, visão de samba e ajudariam a definir sua atuação na futura Escola.

Numa Oswaldo Cruz de quintais, terreiros e vielas, foi morar na casa de uma tia na Rua Pirapora e começou a costurar sua vida à vida do bairro, marcando profundamente toda a região. Era sério, dedicado e inspirava confiança desde cedo. Antônio Rufino dos Reis chegou a Oswaldo Cruz como quem chega ao seu destino e logo se tornou uma liderança natural no bairro.


Antonio Rufino dos Reis


Começou a trabalhar cedo, como ajudante de pedreiro e aos 15 anos, já era um dos responsáveis pelo bloco “Baianinhas de Oswaldo Cruz”, convivendo com figuras que se tornariam fundamentais para o samba carioca. Este bloco era formado por Galdino Marcelino dos Santos, Antônio Caetano, Candinho e Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, Claudionor Marcelino (irmão de Galdino), José da Costa, Álvaro Sales, Angelino Vieira, Manuel Barbeiro, Alfredo Pereira da Costa, Carminha e Benedito do Braz.

Galdino Marcelino dos Santos era uma das figuras centrais e fundadoras do bloco, com visão de gestão mais conservadora e centralizadora. Antônio Caetano, Candinho, Paulo da Portela e o próprio Antônio Rufino queriam implantar novas ideias, mais organização e dinamismo ao conjunto.

Os desentendimentos internos entre Galdino e o grupo liderado por Rufino se tornaram insuperáveis. Isso fez com que, em 1926, Rufino, Caetano e Paulo se retirassem do bloco e fundassem o “Bloco Carnavalesco Conjunto de Osvaldo Cruz”, que mais tarde se tornaria o “Vai Como Pode” e, finalmente, Portela. Rufino estava lá, desde o primeiro sopro, como quem acende uma vela e protege a chama com as mãos.

As reuniões do novo bloco aconteciam na Barra Preta, ou na casa de Paulo da Portela ou sob a grande jagueira da casa de Seu Napoleão, pai de Natal.  Graças a essa discordância entre a ala jovem e a liderança de Galdino no “Baianinhas de Osvaldo Cruz”, acabou nascendo a estrutura inovadora da Majestade do Samba!

Barra Preta era a denominação histórica e popular de um trecho que hoje corresponde à Estrada do Portela e que ia das vizinhanças da estação de trem em direção a Madureira. Era o verdadeiro ponto de convergência, onde os fundadores da Portela residiam, trabalhavam e davam os primeiros passos da história da Escola. Essa região desempenha um papel fundamental na memória e na origem do samba portelense.

Na década de 20 do século passado, Paulo da Portela morou na Barra Preta, na vila de número 338, na antiga Estrada do Rio das Pedras, atual Estrada do Portela. A sua casa foi a primeira sede informal do grupo — na prática, o local onde os bambas guardavam os instrumentos e organizavam a caixinha do bloco. O local funcionava como um centro cultural informal, onde surgiam composições, discussões, ensaios e ideias do que seria uma Escola de Samba.

A poucos metros desse trecho da Barra Preta ficava o Bar do Nozinho e a chácara de Seu Napoleão, pai de Natal da Portela, onde sob a famosa jaqueira o bloco também se reunia. Foi nesta região que, na década de 1950, surgiu a tradicional quadra da Portelinha, na Estrada do Portela, nº 446.

Mas, vamos voltar ao nosso Antônio Rufino. Se Paulo da Portela foi o grande articulador e Caetano o mestre da organização comunitária, Rufino foi o homem que sustentou a escola nos anos mais difíceis. Nomeado o primeiro tesoureiro, na época chamado de procurador, ele cobrava pessoalmente a mensalidade dos integrantes, administrava a “caixinha” de empréstimos e garantia que todos tivessem transporte quando a Escola fosse desfilar no Centro. Em um episódio que se tornou símbolo de sua dedicação, chegou a empenhar o próprio terno para que a Escola não deixasse de desfilar. Há quem diga que naquele dia, Rufino não vestiu apenas outro terno, vestiu a Portela inteira. Esse lado “operacional” foi decisivo: sem Rufino, a Portela talvez não tivesse sobrevivido aos primeiros anos de vida.

Além de dirigente, Rufino foi compositor. É dele o segundo samba criado na história da Portela, “Favela tem o seu Cruzeiro[2], composto sob a famosa jagueira que abrigava as primeiras reuniões da Escola, que servia de ponto de encontro dos fundadores. Era ali que eles conversavam, organizavam o bloco e, claro, compunham.

O samba fala da favela como espaço de devoção, resistência e beleza, usando a imagem do “cruzeiro” como símbolo de fé e proteção. É um retrato poético da comunidade de Oswaldo Cruz nos anos 1920, quando a Portela ainda engatinhava. Um dos versos mais conhecidos menciona: “Favela tem o seu cruzeiro…”. Esse verso é a espinha dorsal da composição: a ideia de que a “Favela” tem sua própria espiritualidade, sua própria força, seu próprio centro simbólico.

Ele também foi jongueiro ativo, trazendo para a Portela a força das manifestações rurais que ajudaram a moldar a identidade da agremiação.

Na fundação do bloco “Vai Como Pode”, o núcleo de sambistas se reunia ao redor da antiga Rua Clara e subia em direção às áreas mais altas do bairro, conhecidas como o Morro do Urubu ou Morro de Oswaldo Cruz. Essa comunidade modesta no Morro era chamada carinhosamente pelos moradores locais de "Favela".

O "Cruzeiro" citado no samba era um monumento religioso em forma de cruz instalado em Oswaldo Cruz, próximo à estação e aos caminhos que levavam ao Morro. Ele funcionava como um ponto de referência comunitário, de fé e de encontro para os moradores e sambistas da região.

No samba, Rufino faz uma exaltação do valor da cultura suburbana e da comunidade local frente ao asfalto e à cidade central. Ao cantar "Ora vamos à favela / Dar-lhe o valor", ele reforçava o orgulho da identidade de Oswaldo Cruz e a força da escola de samba suburbana.

Rufino também viveu momentos de tensão por uma polêmica com Heitor dos Prazeres, que se apropriou do samba “Vai Mesmo”, composto por ele. O episódio abalou sua relação com Paulo da Portela, mas não diminuiu seu papel na construção da Escola. Pelo contrário: reforçou sua imagem de homem íntegro, profundamente ligado aos valores de lealdade e amizade que marcavam Oswaldo Cruz.

Nos anos 1970, quando pesquisadores começaram a registrar a história das escolas de samba, Rufino, já sócio número 1 da Escola, tornou-se uma das principais fontes de memória da Portela. Recebia todos com orgulho e narrava o passado com a autoridade de quem viveu cada etapa da construção da Escola.

Antônio Rufino morreu em 18 de novembro de 1982, aos 75 anos. Seu falecimento é lembrado como o “reencontro” com Paulo e Caetano, os amigos com quem “surgiu junto” — como ele próprio dizia. O trio permanece imortalizado na história da Portela, não apenas como fundadores, mas como símbolos de resistência, amizade e compromisso comunitário.

Rufino foi, acima de tudo, o homem que fez a Escola existir quando ainda era apenas um sonho de três jovens sambistas de Oswaldo Cruz e ajudou a moldar a identidade da Portela como Escola elegante, organizada e respeitada.

Entre os grandes nomes do samba carioca, Rufino é daqueles que ficam “escondidos” atrás de figuras mais famosas. Ele foi o responsável por transformar um grupo de amigos em uma instituição. Na galeria dos sambistas pouco conhecidos, Rufino é “uma das figuras de maior expressão” e as fontes são unânimes: sem Antônio Rufino, não haveria Portela como a conhecemos.

Se Paulo sonhou, Caetano organizou e Rufino sustentou, é porque a Portela nasceu do encontro perfeito entre visão, comunidade e compromisso, um tripé que ainda hoje sustenta a Escola.

Ao lembrar Rufino, não celebramos apenas um fundador, mas o espírito de uma Escola que aprendeu a transformar simplicidade em grandeza e comunidade em tradição.

Rufino partiu, mas deixou acesa a chama que ajudou a proteger desde o primeiro sopro. E enquanto houver Portela, haverá sempre um pouco de Antônio Rufino iluminando Oswaldo Cruz.


Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério


Carmen Evangelho

Ilha da Mgia, 08/08/2026





[1] Samba Resgate de Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro

[2] Favela tem o seu Cruzeiro/ E é o seu defensor/ Favela tem o seu Cruzeiro/

E é o seu defensor/ Salve a Escola da Cidade / Salve a Escola suburbana/

Ora vamos a Favela/ 

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