domingo, 24 de maio de 2026

 

Waldir 59: um baluarte da Portela!

 

Waldir 59 é daqueles personagens portelenses que parecem ter nascido com o samba correndo nas veias. Morador de Madureira, criado entre quadras, terreiros e rodas de partido-alto, ele se tornou uma figura querida dentro da Portela — não apenas pelo amor à Escola, mas pela forma como viveu o samba no cotidiano.

Valdir 59, foto retirada da internet

Conhecido pelo sorriso fácil, voz firme e presença marcante nos ensaios, Waldir 59 representa a Velha Guarda viva: alguém que carregou histórias, memórias e a essência portelense. Para muitos, ele será sempre referência de resistência cultural, alguém que manteve acesa a chama azul e branca com a mesma intensidade de quem viu a Escola crescer, mudar e se reinventar.

A trajetória de Waldir 59 se mistura com a história da azul e branco de Madureira: anos de quadra, de canto, de luta e de alegria.  Figura emblemática da Escola, conhecido por sua dedicação ao samba, sua presença constante nos eventos e seu carinho pela comunidade portelense, é lembrado como um dos rostos mais autênticos da Portela, um capítulo vivo da cultura do samba carioca no século XX.

Nascido no subúrbio de Oswaldo Cruz, Waldir não apenas testemunhou a infância do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, mas foi um de seus arquitetos fundamentais, moldando tanto a sua sonoridade quanto a sua estrutura organizacional e estética.

Waldir de Souza cresceu no ambiente efervescente de Oswaldo Cruz e Madureira, bairros que funcionavam como núcleos de resistência da cultura negra no Rio de Janeiro. Sua vida é um registro vivo de oito décadas de dedicação a uma Escola que deixou de ser um bloco recreativo para se tornar a "Majestade do Samba".

Aos sete anos de idade, Waldir já estava integrado à Portela. Esta inserção precoce permitiu que ele absorvesse os ensinamentos diretos de figuras como Paulo da Portela, de quem Waldir herdou não apenas a técnica do samba, mas a filosofia do sambista como um cidadão elegante, educado e consciente de seu papel social.

Obedecendo os regramentos aprendidos com Paulo da Portela, a vida de Waldir foi marcada pela dualidade entre o fazer operário e a criação artística. Durante décadas, ele exerceu a profissão de marceneiro na Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa ocupação não era meramente um meio de subsistência, mas uma característica definidora de uma geração de sambistas que via no trabalho formal a base para a dignidade pessoal, enquanto o samba representava a expressão máxima de sua liberdade e intelecto.

A precisão exigida na marcenaria teve correspondência na sua técnica de composição, caracterizada por letras bem pesquisadas e melodias rigorosas que resistiram ao tempo.

Valdir 59 morava na Rua Henrique de Melo, numa casa situada estrategicamente perto da sede da Escola. Na década de 1950, havia na Ala dos Compositores da Portela três pessoas chamadas Waldir. Era necessário identificá-las. O número 59 estava na porta da sua residência, no número do seu telefone e na sua matrícula de sócio da Escola. Pronto, o 59 foi adicionado ao seu nome como identidade pública. Para os pares de Waldir, como Monarco, ele era a personificação da "linhagem nobre" de compositores portelenses, alguém que nunca levantava a voz, mas cuja autoridade era sentida através de sua elegância e conhecimento.


Monarco e Valdir 59, foto retirada da internet


A maior contribuição técnica de Waldir 59 para o universo das escolas de samba foi, sem dúvida, a transformação da forma como as agremiações se organizam na Avenida. Na década de 1950, o contingente das escolas era pequeno, raramente ultrapassando 250 figurantes. Foi nesse contexto que Waldir, junto a parceiros como Candeia[1], Casquinha[2], Humberto[3] e Wanderlei[4], fundou a "Ala dos Impossíveis".

Esta Ala tornou-se uma lenda no Carnaval carioca das décadas de 1950 e 1960. Reunindo cerca de 60 passistas e 30 cabrochas, a "Ala dos Impossíveis" destacava-se pela excelência do samba no pé e pela disciplina estética.

No entanto, o impacto de Waldir 59 foi além da criação desta Ala de elite; ele é reconhecido como o mentor da organização das escolas de samba em alas temáticas. Esse novo formato permitiu que o enredo fosse dividido por setores, facilitando a compreensão narrativa por parte do público e dos jurados, além de permitir uma visualização mais organizada e impactante do tema proposto. Essa inovação estrutural é a base do desfile moderno, tal como o conhecemos hoje no Sambódromo.

Waldir 59 ingressou formalmente na Ala de Compositores da Portela na década de 1950 e rapidamente estabeleceu-se como uma das mentes mais brilhantes na criação de sambas-enredo. Sua parceria com Candeia foi uma das mais frutíferas e vitoriosas da história portelense, rendendo títulos e sambas que se tornaram clássicos do gênero.

Sua primeira vitória significativa ocorreu em 1954, com o samba "São Paulo Quatrocentão", em parceria com Picolino[5], para homenagear o quarto centenário da capital paulista. A partir daí, Waldir 59 iniciou uma sequência de vitórias que consolidou a Portela como a força dominante da década.

Além dos sambas-enredo, a colaboração com Candeia produziu clássicos do samba de terreiro, como "Vem Amenizar" (1956), uma obra que desafia o tempo e foi gravada por nomes como Luiz Carlos da Vila e o próprio Candeia. A versatilidade de Waldir 59 permitia que ele navegasse entre o samba épico dos desfiles e a intimidade melódica dos terreiros, mantendo sempre a integridade poética.

Em 1957, a Escola sagrou-se campeã com "Legados de D. João VI", obra que Monarco considerava o samba mais belo de Waldir 59. Em 1959, ele fez parte do quinteto (com Candeia, Casquinha, Bubu[6] e Picolino) que compôs "Brasil, Pantheon de Glórias", garantindo o tricampeonato consecutivo da escola e seu 14º título no total.

Em 1973, Waldir 59 assumiu uma função vital para o sucesso dos desfiles da Portela: Diretor de Harmonia. Esta posição exigia não apenas conhecimento musical, mas liderança firme e respeitada para coordenar o canto e a evolução de milhares de componentes. Waldir foi mestre nesta arte, sendo premiado em 1990 com o "Troféu O Dia" por sua atuação excepcional no quesito.

Para Waldir, a harmonia era a espinha dorsal da escola. Ele acreditava que o samba deveria ser cantado com alma, mas com precisão rítmica. Sua conduta elegante e seu histórico como compositor permitiam que ele mediasse conflitos e inspirasse a comunidade a buscar a perfeição técnica sem perder a espontaneidade do samba. Sua atuação como diretor de harmonia ajudou a definir o padrão de excelência que a Portela ostenta até hoje, sendo reconhecido como um dos mais importantes diretores de harmonia de todo o mundo do samba.

A influência de Waldir 59 na Portela não se limitou às suas próprias criações, mas incluiu sua capacidade de renovar o quadro social e artístico da escola. Ele é considerado o principal responsável por levar Clara Nunes e Paulinho da Viola para a agremiação, em 1963. Ao integrar esses dois ícones da música popular brasileira à azul e branco de Madureira, Waldir não apenas enriqueceu o patrimônio da Escola, mas criou uma ponte vital entre o samba tradicional e a indústria fonográfica moderna.

Essa visão estratégica foi fundamental para que a Portela mantivesse sua relevância cultural em um período de rápidas mudanças sociais.

Paulinho da Viola, em especial, encontrou em Waldir59 e em seus pares (como Casquinha e Monarco) a fonte de inspiração para seus trabalhos de resgate e valorização do passado glorioso da Escola, resultando na formação da Velha Guarda Show da Portela, em 1970.

Naquele ano, Waldir 59 foi, ao lado de baluartes como Monarco, Casquinha e Jair do Cavaquinho, um dos fundadores da Velha Guarda da Portela. Ali ele assumiu o papel de guardião das tradições musicais da Escola. Sua participação foi essencial em discos históricos do grupo, contribuindo com sua voz e composições que ajudaram a definir a identidade sonora de Oswaldo Cruz. Levantamentos discográficos mostram que Waldir 59 possui dezenas de músicas registradas em diversos álbuns, consolidando-se como um dos autores mais gravados do núcleo fundamental da Velha Guarda.

Sua importância como depositário da tradição oral foi destacada no documentário "O Mistério do Samba" (2008), produzido por Marisa Monte e dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda.

No filme, Waldir 59 é apresentado como uma ponte viva entre o passado e o presente, um mestre capaz de relembrar melodias e letras que estavam apenas na memória melódica dos antigos sambistas. Mesmo enfrentando a cegueira causada por cataratas a partir do ano 2000, sua presença no documentário e nas rodas de samba da Portela permanecia magnética, personificando a "malandragem elegante" e a ética do respeito que definem o verdadeiro sambista.

A presença de Waldir 59 em produções cinematográficas reforça sua estatura como figura central da cultura brasileira. Ele participou, em 1959, do clássico filme "Orfeu do Carnaval" (Orfeu Negro), dirigido por Marcel Camus. O filme, que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes, contou com a colaboração técnica e artística de Waldir 59, que foi responsável por parte da trilha sonora e pela consultoria musical, garantindo a autenticidade rítmica da obra.

Além de "Orfeu do Carnaval ", Waldir 59 foi uma das figuras centrais de "O Passo de Madureira" (2008/2009), documentário que explora a história do samba na região e do qual ele também assinou a trilha sonora. Essas participações demonstram que seu talento não estava confinado às quadras de ensaio. Ele era um artista completo, capaz de traduzir a complexidade do samba para as telas do cinema mundial.

Ao longo de sua vasta carreira, Waldir 59 recebeu inúmeras honrarias que atestam sua importância para o Carnaval e para a música brasileira. Em 1991, ele recebeu o prestigiado "Estandarte de Ouro" do jornal O Globo na categoria "Personalidade do Carnaval", um reconhecimento tardio, porém justo, a um homem que dedicou oito décadas de sua vida à arte popular, em especial ao samba.

Valdir 59, foto retirada da internet

Ao longo das décadas, Waldir 59 se tornou um daqueles personagens fundamentais para a vida de uma escola de samba: não o artista de palco, não o dirigente, mas o sambista de base, aquele que mantém a tradição viva no cotidiano. Ele atravessou fases importantes da Portela: os anos de ouro da Velha Guarda, os períodos de disputa interna, as transformações do carnaval moderno e a renovação da Escola no final do século XX.

Sua presença constante nos ensaios, eventos, festas e desfiles fazia dele parte da estrutura viva da Portela. Era respeitado pelos mais antigos e querido pelos mais jovens, funcionando como ponte entre gerações.

A história das escolas de samba é sustentada por personagens como Waldir 59, homens e mulheres que não aparecem nos livros, mas que mantêm a cultura viva, preservam tradições, transmitem valores, ensinam o respeito à Escola e garantem que a Portela continue sendo Portela. Waldir 59 representava exatamente isso: a memória oral, a vivência acumulada, o pertencimento comunitário.

Seu falecimento em 2015, aos 88 anos, deixou um vazio imenso na Portela. Sendo o sócio original mais antigo e integrante importante da "Turma do Muro", sua partida encerrou um capítulo da história da Escola. Entretanto, seu legado permanece vivo através das alas que ele ajudou a organizar, dos sambas que ainda são cantados em todas as rodas de samba e da ética de elegância que ele, como sucessor de Paulo da Portela, ajudou a perpetuar.

Valdir 59, foto retirada da internet

Waldir 59 não foi apenas um sambista; ele carregou a Escola no peito, viveu o samba como missão, foi um intelectual do povo, um marceneiro da harmonia e um mestre da composição. Sua vida é a prova de que o samba, quando tratado com a seriedade e o amor, é uma forma superior de civilidade. Ele transformou o número 59 em um símbolo de excelência, deixando para a posteridade a imagem de um homem que, mesmo na sombra da cegueira em seus últimos anos, continuou iluminando a Portela com sua sabedoria e seu ritmo inesquecível, construindo dia após dia, a história da “Majestade do Samba”.

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 24/05/2026

 

 

 [1] Antônio Candeia Filho

[2] Otto Henrique Trepte

[3] Humberto de Carvalho

[4] Wanderley Francisco da Silva

[5] Claudemiro José Rodrigues

[6][6] Jorge de Oliveira

2 comentários:

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