Waldir
59: um baluarte da Portela!
Waldir 59 é daqueles personagens
portelenses que parecem ter nascido com o samba correndo nas veias. Morador de
Madureira, criado entre quadras, terreiros e rodas de partido-alto, ele se
tornou uma figura querida dentro da Portela — não apenas pelo amor à escola,
mas pela forma como viveu o samba no cotidiano.
| Valdir 59, foto retirada da internet |
Conhecido pelo sorriso fácil, voz firme e presença marcante nos ensaios, Waldir 59 representa a velha guarda viva: alguém que carregou histórias, memórias e a essência portelense. Para muitos, ele será sempre referência de resistência cultural, alguém que manteve acesa a chama azul e branca com a mesma intensidade de quem viu a escola crescer, mudar e se reinventar.
A trajetória de Waldir 59 se mistura com a
história da azul e branco de Madureira: anos de quadra, de canto, de luta e de
alegria. Figura emblemática da Escola,
conhecido por sua dedicação ao samba, sua presença constante nos eventos e seu
carinho pela comunidade portelense, é lembrado como um dos rostos mais
autênticos da Portela, um capítulo vivo da cultura do samba carioca no século
XX.
Nascido no subúrbio de Oswaldo Cruz, Waldir
não apenas testemunhou a infância do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela,
mas foi um de seus arquitetos fundamentais, moldando tanto a sua sonoridade
quanto a sua estrutura organizacional e estética.
Waldir de Souza cresceu no ambiente
efervescente de Oswaldo Cruz e Madureira, bairros que funcionavam como núcleos
de resistência da cultura negra no Rio de Janeiro. Sua vida é um registro vivo
de oito décadas de dedicação a uma Escola que deixou de ser um bloco recreativo
para se tornar a "Majestade do Samba".
Aos sete anos de idade, Waldir já estava
integrado à Portela. Esta inserção precoce permitiu que ele absorvesse os
ensinamentos diretos de figuras como Paulo da Portela, de quem Waldir herdou
não apenas a técnica do samba, mas a filosofia do sambista como um cidadão
elegante, educado e consciente de seu papel social.
Obedecendo os regramentos aprendidos com
Paulo da Portela, a vida de Waldir foi marcada pela dualidade entre o fazer
operário e a criação artística. Durante décadas, ele exerceu a profissão de
marceneiro na Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa ocupação não era
meramente um meio de subsistência, mas uma característica definidora de uma
geração de sambistas que via no trabalho formal a base para a dignidade
pessoal, enquanto o samba representava a expressão máxima de sua liberdade e
intelecto.
A precisão exigida na marcenaria teve correspondência
na sua técnica de composição, caracterizada por letras bem pesquisadas e
melodias rigorosas que resistiram ao tempo.
Valdir 59 morava na Rua Henrique de Melo, numa
casa situada estrategicamente perto da sede da Escola. Na década de 1950, havia
na Ala dos Compositores da Portela três pessoas chamadas Waldir. Era necessário
identificá-las. O número 59 estava na porta da sua residência, no número do seu
telefone e na sua matrícula de sócio da Escola. Pronto, o 59 foi adicionado ao
seu nome como identidade pública. Para os pares de Waldir, como Monarco, ele
era a personificação da "linhagem nobre" de compositores
portelenses, alguém que nunca levantava a voz, mas cuja autoridade era sentida
através de sua elegância e conhecimento.
| Monarco e Valdir 59, foto retirada da internet |
A maior contribuição técnica de Waldir 59
para o universo das escolas de samba foi, sem dúvida, a transformação da forma
como as agremiações se organizam na Avenida. Na década de 1950, o contingente
das escolas era pequeno, raramente ultrapassando 250 figurantes. Foi nesse
contexto que Waldir, junto a parceiros como Candeia[1],
Casquinha[2],
Humberto[3]
e Wanderlei[4],
fundou a "Ala dos Impossíveis".
Esta Ala tornou-se uma lenda no Carnaval
carioca das décadas de 1950 e 1960. Reunindo cerca de 60 passistas e 30
cabrochas, a Ala dos Impossíveis destacava-se pela excelência do samba no pé e
pela disciplina estética.
No entanto, o impacto de Waldir 59 foi além
da criação desta Ala de elite; ele é reconhecido como o mentor da organização
das escolas de samba em alas temáticas. Esse novo formato permitiu que o enredo
fosse dividido por setores, facilitando a compreensão narrativa por parte do
público e dos jurados, além de permitir uma visualização mais organizada e
impactante do tema proposto. Essa inovação estrutural é a base do desfile
moderno, tal como o conhecemos hoje no Sambódromo.
Waldir 59 ingressou formalmente na Ala de
Compositores da Portela na década de 1950 e rapidamente estabeleceu-se como uma
das mentes mais brilhantes na criação de sambas-enredo. Sua parceria com
Candeia foi uma das mais frutíferas e vitoriosas da história portelense,
rendendo títulos e sambas que se tornaram clássicos do gênero.
Sua primeira vitória significativa ocorreu
em 1954, com o samba "São Paulo Quatrocentão", em parceria com
Picolino[5],
para homenagear o quarto centenário da capital paulista. A partir daí, Waldir
59 iniciou uma sequência de vitórias que consolidou a Portela como a força
dominante da década.
Além dos sambas-enredo, a colaboração com
Candeia produziu clássicos do samba de terreiro, como "Vem Amenizar"
(1956), uma obra que desafia o tempo e foi gravada por nomes como Luiz Carlos
da Vila e o próprio Candeia. A versatilidade de Waldir 59 permitia que ele
navegasse entre o samba épico dos desfiles e a intimidade melódica dos
terreiros, mantendo sempre a integridade poética.
Em 1957, a Escola sagrou-se campeã com
"Legados de D. João VI", obra que Monarco considerava o samba
mais belo de Waldir 59. Em 1959, ele fez parte do quinteto (com Candeia,
Casquinha, Bubu[6]
e Picolino) que compôs "Brasil, Pantheon de Glórias",
garantindo o tricampeonato consecutivo da escola e seu 14º título no total.
Em 1973, Waldir 59 assumiu uma função vital
para o sucesso dos desfiles da Portela: Diretor de Harmonia. Esta posição
exigia não apenas conhecimento musical, mas liderança firme e respeitada para
coordenar o canto e a evolução de milhares de componentes. Waldir foi mestre
nesta arte, sendo premiado em 1990 com o "Troféu O Dia" por
sua atuação excepcional no quesito.
Para Waldir, a harmonia era a espinha
dorsal da escola. Ele acreditava que o samba deveria ser cantado com alma, mas
com precisão rítmica. Sua conduta elegante e seu histórico como compositor
permitiam que ele mediasse conflitos e inspirasse a comunidade a buscar a
perfeição técnica sem perder a espontaneidade do samba. Sua atuação como
diretor de harmonia ajudou a definir o padrão de excelência que a Portela
ostenta até hoje, sendo reconhecido como um dos mais importantes diretores de
harmonia de todo o mundo do samba.
A influência de Waldir 59 na Portela não se
limitou às suas próprias criações, mas incluiu sua capacidade de renovar o
quadro social e artístico da escola. Ele é considerado o principal responsável
por levar Clara Nunes e Paulinho da Viola para a agremiação, em 1963. Ao
integrar esses dois ícones da música popular brasileira à azul e branco de
Madureira, Waldir não apenas enriqueceu o patrimônio da Escola, mas criou uma
ponte vital entre o samba tradicional e a indústria fonográfica moderna.
Essa visão estratégica foi fundamental para
que a Portela mantivesse sua relevância cultural em um período de rápidas
mudanças sociais.
Paulinho da Viola, em especial, encontrou
em Waldir59 e em seus pares (como Casquinha e Monarco) a fonte de inspiração
para seus trabalhos de resgate e valorização do passado glorioso da Escola,
resultando na formação da Velha Guarda Show da Portela, em 1970.
Naquele ano, Waldir 59 foi, ao lado de
baluartes como Monarco, Casquinha e Jair do Cavaquinho, um dos fundadores da
Velha Guarda da Portela. Ali ele assumiu o papel de guardião das tradições
musicais da escola. Sua participação foi essencial em discos históricos do
grupo, contribuindo com sua voz e composições que ajudaram a definir a
identidade sonora de Oswaldo Cruz. Levantamentos discográficos mostram que
Waldir 59 possui dezenas de músicas registradas em diversos álbuns,
consolidando-se como um dos autores mais gravados do núcleo fundamental da
Velha Guarda.
Sua importância como depositário da
tradição oral foi destacada no documentário "O Mistério do Samba"
(2008), produzido por Marisa Monte e dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque
de Hollanda.
No filme, Waldir 59 é apresentado como uma
ponte viva entre o passado e o presente, um mestre capaz de relembrar melodias
e letras que estavam apenas na memória melódica dos antigos sambistas. Mesmo
enfrentando a cegueira causada por cataratas a partir do ano 2000, sua presença
no documentário e nas rodas de samba da Portela permanecia magnética,
personificando a "malandragem elegante" e a ética do respeito
que definem o verdadeiro sambista.
A presença de Waldir 59 em produções
cinematográficas reforça sua estatura como figura central da cultura
brasileira. Ele participou, em 1959, do clássico filme "Orfeu do
Carnaval" (Orfeu Negro), dirigido por Marcel Camus. O filme, que
venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes, contou
com a colaboração técnica e artística de Waldir 59, que foi responsável por
parte da trilha sonora e pela consultoria musical, garantindo a autenticidade
rítmica da obra.
Além de "Orfeu do Carnaval
", Waldir 59 foi uma das figuras centrais de "O Passo de Madureira"
(2008/2009), documentário que explora a história do samba na região e do qual
ele também assinou a trilha sonora. Essas participações demonstram que seu
talento não estava confinado às quadras de ensaio. Ele era um artista completo,
capaz de traduzir a complexidade do samba para as telas do cinema mundial.
Ao longo de sua vasta carreira, Waldir 59
recebeu inúmeras honrarias que atestam sua importância para o Carnaval e para a
música brasileira. Em 1991, ele recebeu o prestigiado "Estandarte de
Ouro" do jornal O Globo na categoria "Personalidade do
Carnaval", um reconhecimento tardio, porém justo, a um homem que
dedicou oito décadas de sua vida à arte popular, em especial ao samba.
Valdir 59, foto retirada da internet
Ao longo das décadas, Waldir 59 se tornou
um daqueles personagens fundamentais para a vida de uma escola de samba: não o
artista de palco, não o dirigente, mas o sambista de base, aquele que mantém a
tradição viva no cotidiano. Ele atravessou fases importantes da Portela: os
anos de ouro da Velha Guarda, os períodos de disputa interna, as transformações
do carnaval moderno e a renovação da Escola no final do século XX.
Sua presença constante nos ensaios,
eventos, festas e desfiles fazia dele parte da estrutura viva da Portela. Era
respeitado pelos mais antigos e querido pelos mais jovens, funcionando como
ponte entre gerações.
A história das escolas de samba é
sustentada por personagens como Waldir 59, homens e mulheres que não aparecem
nos livros, mas que mantêm a cultura viva, preservam tradições, transmitem
valores, ensinam o respeito à Escola e garantem que a Portela continue sendo
Portela. Waldir 59 representava exatamente isso: a memória oral, a vivência
acumulada, o pertencimento comunitário.
Seu falecimento em 2015, aos 88 anos,
deixou um vazio imenso na Portela. Sendo o sócio original mais antigo e
integrante importante da "Turma do Muro", sua partida encerrou
um capítulo da história da Escola. Entretanto, seu legado permanece vivo
através das alas que ele ajudou a organizar, dos sambas que ainda são cantados
em todas as rodas de samba e da ética de elegância que ele, como sucessor de Paulo
da Portela, ajudou a perpetuar.
| Valdir 59, foto retirada da internet |
Waldir 59 não foi apenas um sambista; ele carregou a Escola no peito, viveu o samba como missão, foi um intelectual do povo, um marceneiro da harmonia e um mestre da composição. Sua vida é a prova de que o samba, quando tratado com a seriedade e o amor, é uma forma superior de civilidade. Ele transformou o número 59 em um símbolo de excelência, deixando para a posteridade a imagem de um homem que, mesmo na sombra da cegueira em seus últimos anos, continuou iluminando a Portela com sua sabedoria e seu ritmo inesquecível, construindo dia após dia, a história da “Majestade do Samba”.
Carmen
Evangelho
Ilha da Magia
24/05/2026
Adorei saber o porquê do 59!! Viva ele!! Parabéns, Cármen.
ResponderExcluirLindo texto Carmem , saudade não tem idade !
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