terça-feira, 26 de maio de 2026

 

Seu Delegado, o dançarino da Mangueira!!!

 

“Seu Delegado, um dançarino,

faz coisas que aprendeu

com Marcelino”.

(“Meninos da Mangueira”,

Ataulfo Alves Filho)

No Carnaval, o MestreSala e a PortaBandeira formam o par mais nobre da escola na Avenida. Eles não contam apenas uma história: eles guardam a alma da escola.

A PortaBandeira carrega o pavilhão: símbolo maior de identidade, memória e pertencimento e, o faz com graça, leveza e respeito. Cada giro, cada abertura de bandeira, é um gesto de reverência e respeito à comunidade que ela representa.

Ao lado, o MestreSala dança como guardião. Ele protege, apresenta e celebra o pavilhão sem jamais tocálo. Seus passos são elegantes, precisos, quase ritualísticos. Ele cria o espaço para que ela brilhe, e ela transforma esse espaço em poesia.

Juntos, formam um diálogo silencioso que mistura tradição, técnica e emoção. São o elo entre o passado e o presente, entre o morro e a avenida, entre a escola e o mundo. Quando eles dançam, não é só arte: é história viva atravessando o tempo.

Antes de falarmos do lendário Mestre Delegado da Mangueira, o Mestre Sala nota 10, é importante lembrarmos de dois mestres salas da Mangueira que o antecederam e com os quais ele aprendeu: Marcelino, o Maçu da Mangueira[1] e Jorge Rasgado[2].


 Delegado da Mangueira, foto retirada da internet

Marcelino, filho de ex-escravizados, nasceu na zona oeste do Rio de Janeiro em 1899. A juventude de Maçu foi moldada pelo contexto do Rio de Janeiro pós-abolição, combinando trabalho braçal, migração interna e a cultura da malandragem carioca. Chegou no Morro da Mangueira, com 19 anos, num momento em que o morro estava em pleno processo de crescimento, recebendo trabalhadores pobres e ex-escravozados de várias regiões. Ele rapidamente se destacou nas rodas de capoeira. Naquela época, o termo "valente" definia o homem que sabia brigar bem e que impunha respeito físico. Maçu virou uma espécie de "protetor" e líder territorial da comunidade.  e logo se aproximou do Bloco dos Arengueiros, onde conheceu Cartola e Carlos Cachaça.

Conforme relata o biográfo de Maçu, “ele era um homem extremamente atraente e namorador e, acabou ensinando Cartola a ser conquistador”. Antes da escola existir, os dois foram líderes do Bloco dos Arengueiros em 1925. Enquanto Cartola organizava as músicas e as cores, Maçu garantia a segurança e o respeito ao bloco nas ruas por meio de sua reconhecida valentia.

Em 1928, quando se uniram para fundar a Mangueira, eles dividiram as funções perfeitamente de acordo com suas vocações: Cartola comandava a parte poética e musical, enquanto Maçu cuidava da dança na avenida e, mais tarde, da liderança executiva como presidente.

A relação entre Maçu e Cartola foi uma das parcerias fundamentais para a criação da Estação Primeira de Mangueira. Eles mantinham uma amizade profunda, baseada na cumplicidade, no respeito mútuo e na malandragem saudável da época.

Falar de Marcelino é voltar para as raízes mais antigas e mais sagradas da dança do casal Mestre Sala e Porta Bandeira. Ele é daqueles nomes que muita gente já ouviu, mas poucos realmente conhecem — e, ainda assim, todo mestresala moderno carrega um pedaço dele nos pés.

Marcelino foi um dos primeiros e mais influentes mestressalas da história do carnaval carioca. Ele atuou principalmente nas décadas de 1930 e 1940, numa época em que o casal ainda estava se formando como função, como ritual. Antes dele, a figura do mestresala ainda era difusa: mistura de dançarino, guardião, animador. Marcelino foi um dos primeiros a estabelecer a postura que depois virou regra: elegância, respeito, proteção, dança circular e reverência à portabandeira. Foi ele quem desenhou o arcabouço da função.

Marcelino foi referência direta para Delegado que cresceu vendo Marcelino dançar na Mangueira. Delegado dizia que aprendeu muito observando: a postura, o cuidado com a portabandeira, a forma de ocupar o espaço, a malandragem fina sem exagero. Podemos concluir que sem Marcelino, não existiria o Delegado que conhecemos.

A Mangueira dos anos 30 e 40 era pura poesia: Cartola, Carlos Cachaça, Saturnino, as primeiras fantasias feitas à mão, o desfile ainda como cortejo. Marcelino era o mestresala dessa Mangueira ancestral, quase mítica. Ele carregava no corpo a elegância do morro, a educação do samba, a nobreza que não vem de berço — vem de alma. Seu estilo era clássico, limpo e cerimonial.  Marcelino dançava com: passos curtos, giros pequenos, gestos contidos, olhar sempre atento à portabandeira. Era a escola da sobriedade, da discrição, da proteção silenciosa.

Marcelino não deixou vídeos — deixou memória. E, no samba, memória vale mais do que qualquer registro.

Jorge Rasgado contemporâneo de Marcelino, é protagonista daquelas histórias antigas da Mangueira que não estão nos livros, mas estão na memória viva do samba. Ele foi um dos primeiros grandes mestressalas da escola, nas décadas de 1930 e 1940, pertence àquela geração fundadora, quando o carnaval ainda era mais cortejo do que espetáculo, e a dança do casal estava sendo inventada na prática, no improviso, no talento puro.

Rasgado tinha uma malandragem fina, daquelas que não se aprende: nasce com a pessoa. Seus passos eram largos, leves, cheios de charme e sua dança parecia conversa silenciosa com a portabandeira, com o público, com o próprio samba. Ele representava a elegância espontânea, a graça natural, o corpo que dança porque sabe, não porque ensaiou. Jorge Rasgado foi a malandragem elegante que ajudou a moldar a alma do mestresala mangueirense. Um artista que dançava com leveza, charme e respeito — e que influenciou todos que vieram depois. Muito do que hoje chamamos de “estilo mangueirense” tem raiz nos gestos dele. Foi referência direta para os que vieram depois, especialmente para Delegado, que cresceu vendo Rasgado na quadra.

Jorge Rasgado é daqueles nomes que o tempo não apaga. Ele é parte da fundação. Parte da memória. Parte da alma verde e rosa. Ele não deixou vídeos — deixou gestos que viraram tradição.

E, esses dois foram a grande influência sobre Delegado, que cresceu vendo os dois dançar.

Delegado da Mangueira, foto retirada da internet
Delegado[3] nasceu no antigo Morro de Santo Antônio e cresceu na Mangueira, cercado de samba, de dança e de gente que tratava o carnaval como religião. Filho de um dançarino de valsa e de uma doceira, aprendeu cedo que elegância e doçura podiam caminhar juntas — e ele levaria isso para a avenida por toda a vida.

Ainda menino, ficava hipnotizado vendo Marcelino e Jorge Rasgado, os mestressalas que abriram caminho antes dele. Ali, na poeira da quadra, Delegado descobriu que a dança do pavilhão não era só técnica: era respeito, era ritual, era poesia em movimento. E quando estreou como MestreSala em 1948, ao lado de Nininha Chochoba[4], começou uma história que ninguém mais repetiu: nunca tirou menos que nota 10. Foram 36 anos de perfeição absoluta, dançando com Nininha, Neide[5] e Mocinha[6] três eras diferentes, três capítulos de uma mesma elegância.


                                     Delegado da Mangueira, foto retirada da internet

Delegado revolucionou a forma como o mestre-sala se movimenta. Para ele, o mestre-sala não estava ali apenas para exibir o pavilhão; estava ali para proteger a porta-bandeira, para fazer a “dança da proteção”.

Ele desenvolveu uma técnica de deslocamento onde não permitia que a ponta do seu sapato tocasse o chão de forma descuidada. Cada movimento era desenhado, preciso e coreografado para que ele estivesse sempre em posição de "guarda" em relação à porta-bandeira.

Dançava com o tronco ereto, cabeça levemente inclinada, olhar sempre atento ao pavilhão. A elegância era, para ele, uma forma de respeito ao símbolo máximo da escola.

Extremamente disciplinado e exigente consigo mesmo e com as gerações que vieram depois, Delegado não guardava seus segredos. Dedicou muitos anos da sua vida após a aposentadoria a ensinar jovens mestres-salas que o respeito à bandeira vinha antes de qualquer exibicionismo pessoal. E, frequentemente criticava, de forma construtiva, o excesso de acrobacias que alguns mestres-salas modernos passaram a fazer, defendendo que o bailado clássico, o passo miúdo, o giro constante e a proteção lateral eram a essência da arte.

Dizem os antigos sambistas da Mangueira que, quando Delegado entrava na avenida, o público silenciava. Havia uma autoridade natural na forma como ele conduzia o pavilhão. Não era uma exibição de força, mas de maestria.

Para alguém que estuda a história das escolas de samba, olhar para o trabalho do Delegado é entender como a tradição do Morro da Mangueira se tornou sinônimo de excelência artística.

O apelido de Delegado veio porque “prendia” as moças na conversa, mas a verdade é que ele prendia o olhar de qualquer um que o visse dançar. Era um pé de valsa, frequentador de gafieiras e, levou essa leveza para o samba, transformando a dança do casal em arte refinada. Delegado era alto, altivo, dono de uma postura que parecia de outro tempo. Os passos curtos, os giros precisos, o sorriso discreto, o olhar atento à portabandeira tudo nele era medida, equilíbrio, nobreza.

Em 1984, no primeiro desfile do Sambódromo, ele encerrou sua carreira como começou: com nota máxima. A Mangueira venceu o supercampeonato, e Delegado se despediu da Avenida, discreto como sempre foi: recusou homenagens, como quem sabe que a verdadeira glória está no que já foi vivido, não no que é celebrado.

A partir dali, cada mestresala que gira pequeno, que protege com o corpo, que reverencia com o olhar, carrega um pouco de Delegado nos pés. Ele não foi apenas o maior. Foi o modelo. O mestre que virou lenda. A elegância que o samba nunca esqueceu.

Delegado da Mangueira, foto retirada da internet

Anos depois, em 2011, foi consagrado Presidente de Honra da Mangueira. Na cerimônia, dançou com portabandeiras de todas as escolas um gesto simbólico, quase mítico, como se o mestre estivesse abençoando as gerações que vieram depois. Foi diretor de bateria, ritmista e mestresala um artista completo dentro da escola e um dos homenageados do enredo da Mangueira ao lado de Cartola e Jamelão, em 2022.

Delegado partiu em 2012, aos 90 anos, havia pedido que seu velório tivesse samba, cerveja e o hino da Mangueira. E assim foi. Porque Delegado não era só um mestresala: era um capítulo inteiro da história do carnaval. Um homem que dançou com a leveza de quem sabe que a vida passa rápido mas que a elegância, quando verdadeira, fica para sempre.

Não podemos falar da grandeza de Delegado sem pensar o que teria se ele dividisse a passarela com a divina porta-bandeira portelense Vilma Nascimento[7]. Nininha, Neide e Mocinha foram porta bandeiras maravilhosas e construíram a história da Estação Primeira. Mas, Delegado era etéreo e Vilma foi a grande porta bandeira etérea, foi o “O Cisne da Portela”. Os dois nunca dançaram juntos. Mas, meu coração portelense e minha grande admiração por Delegado imaginou uma dança para o encontro dos dois:

"não foi desfile, não foi competição: foi encontro. Dois monumentos do samba dividindo o mesmo chão.

A roda já estava formada quando Delegado chegou, terno branco impecável, sapato brilhando, postura de príncipe do samba. Ele caminha devagar, cada passo marcando o compasso como se o chão fosse seu parceiro de longa data, com aquele passo miúdo de quem conhece o chão como conhece o próprio nome. O murmúrio correu rápido: “Vilma tá aí…”.

A quadra está iluminada por luzes amarelas, quentes, que parecem saídas de um sonho antigo. A bateria toca baixinho, só no surdo e no tamborim, como se estivesse respirando. Pela porta lateral surge a figura de Vilma Nascimento.

Ela não entra: ela desliza. Vestido azul Portela, leve como brisa. O cabelo preso com flores. O sorriso nos lábios. O murmúrio cresce. A música para. Só se ouve o eco dos passos dela.

Delegado a vê. Sorri: aquele sorriso pequeno, quase secreto, que só aparece quando ele reconhece grandeza. Ele se aproxima. Estende a mão, não para tocar, mas para pedir licença.

Vilma inclina a cabeça, como quem aceita um convite que já sabia que viria.

A bateria volta. Agora completa. Mas suave, como se tocasse com a ponta dos dedos. Eles começam a dançar.

Delegado gira pequeno, preciso, como se desenhasse a coreografia do vento. Vilma responde com giros amplos, leves, que fazem o vestido abrir como asas. A quadra circula ao redor deles, captando o contraste perfeito: ele, a nobreza contida; ela, a leveza absoluta. A quadra inteira parece suspensa no ar. Ninguém respira. Ninguém pisca. Delegado desliza como se o chão fosse água. Vilma flutua como se o chão fosse nuvem.

Eles não competem. Não disputam. Não representam escolas. Eles celebram. A música cresce. O salão inteiro girando ao redor deles, como se o mundo estivesse acompanhando o passo. E então, no auge do giro final, a bateria corta. Silêncio.

Vilma para com o vestido ainda rodando. Delegado termina com uma reverência tão elegante que parece coreografada por séculos.

A quadra explode em aplausos. Mas eles não se movem.

Ficam ali, respirando juntos, como dois monumentos que por um instante decidiram dançar.

Delegado diz, baixinho, com um sorriso leve:

— Isso aí, minha rainha… é samba.

Vilma sorri de volta, com brilho nos olhos:

— E o senhor… é a própria elegância do samba.

A bateria volta. A quadra vibra.

E a memória guarda para sempre o encontro que o carnaval nunca teve na Avenida, mas que só a imaginação, generosa, permitiu acontecer.

Naquele instante, naquele chão, eles tinham sido um só samba.”

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 26/05/2026



[1] Marcelino, o Maçu da Mangueira (1899  - 1973)

[2] Jorge da Silva

[3] Helio Laurindo da Silva (RJ 29/12/1921 – 12/11/2012)

[4] Sebastiana Texeira de Almeida (RJ, 1512/1922 – RJ, 14/02/1996)

[5] Neide Gomes Santana ou Neide da Mangueira (RJ, 1940–1980)

[6] Rivailda do Nascimento Souza (RJ, 1926 — 26/07/2002)

[7] O Cisne da Portela. Vilma e Delegado representavam escolas rivais e tradições distintas. Mas, se reconheciam na maestria. Vilma entrou para a Portela em 1957 e desfilou soberana até 1969.

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