Aniceto do Império
“Velho
Aniceto
Fundador
do grande Império
Quando
entra no Partido
Ele é
um caso sério ...”
(Partido Alto da Antiga - Martinho da Vila)
Mas o destino de Aniceto não seria apenas o samba: seria também o cais. O Porto do Rio de Janeiro, com seus armazéns de café, suas montanhas de carvão e seus trapiches úmidos, era um mundo à parte — duro, perigoso, mas cheio de vida. Ali, desde 1903, existia uma instituição que não era apenas sindicato: era trincheira, era abrigo, era orgulho. Chamava‑se Companhia dos Homens Pretos, mas todos conheciam pelo nome que atravessou décadas: Sindicato da Resistência.
Resistência. A palavra que define o corpo que levanta sacas de cinquenta quilos, o braço que puxa corda, o peito que enfrenta patrão, polícia, fome e mar. Resistência também dos homens negros que, recém‑saídos da escravidão, encontraram no porto um lugar onde podiam trabalhar, se organizar, se defender. Era um sindicato, nascido antes de legislação de trabalhista de Getúlio Vargas, antes de qualquer direito, antes de qualquer proteção. Um reduto negro, como dizem os historiadores, onde os trabalhadores seguraram seus postos “com unhas e dentes”.
| Os trabalhadores do Porto e o carnaval carioca |
Quando Aniceto chegou ao Porto, em 1941, ele entrou nesse mundo como quem entra numa família. A Resistência não era apenas uma entidade: era uma forma de estar vivo. Ali se aprendia a força da coletividade, a dignidade do trabalho, a política que nasce do corpo cansado e da palavra firme. Ali Aniceto virou liderança — não por ambição, mas porque sua voz tinha o mesmo peso que seu canto. Ele negociava, articulava, defendia seus companheiros com a mesma naturalidade com que improvisava versos.
E foi desse encontro entre música e luta que nasceu, em 1947, o Império Serrano[2]. Não é coincidência que tantos fundadores da Escola fossem estivadores. O Império nasceu com a alma da Resistência: liberdade, invenção, dignidade. Aniceto estava lá, entre Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Molequinho, como quem ajuda a erguer não apenas uma Escola, mas uma ideia de mundo. No Império, ele virou orador oficial — porque sua palavra era ponte entre o cais e a quadra, entre o trabalho e o samba, entre a luta e a festa.
| Placa na Zona Portuária do Rio de Janeiro |
Ele representava o Império em reuniões, rodas e eventos, preservando sua tradição, mediando decisões e ensinando gerações com a mesma naturalidade com que improvisava versos.
| Aniceto e Molequinho, fundadores do Império |
As décadas seguintes, nas rodas da Mangueira, do Estácio, do Império, do porto, Aniceto era rei sem coroa. Clementina de Jesus dizia que ele tinha “voz de menino”. Dona Ivone Lara confessava que improvisar ao lado dele era desafio. Martinho da Vila, Nei Lopes, Wilson Moreira, Nelson Sargento — todos sabiam que, quando Aniceto entrava na roda, o samba mudava de temperatura. O improviso dele não era só técnica: era visão de mundo. Era a Resistência cantando.
Para Aniceto, o samba e a luta operária caminhavam lado a lado, ambos como instrumentos de afirmação da cidadania herdadas da ancestralidade africana.
Aniceto é uma figura lendária do samba carioca, sinônimo
de tradição, malandragem e resistência cultural! Ficou conhecido por intercalar
versos improvisados e respostas em coro de forma bastante dinâmica na arte do
Partido Alto, na qual se tornou mestre supremo, pois com sua mente ágil
costurava versos instantâneos com uma métrica impecável e uma ironia elegante.
Quando Aniceto tomava a palavra na roda, o tempo parecia desacelerar para que
todos pudessem absorver a profundidade do seu repertório. Tinha um vozeirão inconfundível e aquele jeito
irreverente de falar e improvisar, com uma presença marcante e sambas cheios de
poesia e verdade. Na batida do tamborim e no compasso da história, Aniceto sempre
dizia com orgulho e autenticidade: “Partido Alto é pra quem tem respeito e
raiz”
Aposentou‑se do Porto em 1972, mas não da vida. Em 1977, gravou com Nilton Campolino
um disco que é quase um tratado
sobre o partido‑alto: “O
Partido Alto de Aniceto & Campolino”. Em 1984, lançou “Partido Alto Nota 10”, onde sua
maturidade aparece inteira: humor, crítica,
malandragem, sabedoria. Era como se cada faixa fosse uma conversa longa, dessas
que atravessam a madrugada e deixam o ouvinte diferente no dia seguinte.
Nos anos 1980, o cinema o descobriu. Zózimo Bulbul o filmou como quem registra um monumento vivo. Eduardo Coutinho o captou já idoso, mas com o improviso intacto — e ali, diante da câmera, Aniceto parecia improvisar não apenas versos, mas a própria memória do país.
Quando se aposentou foi morar em Nova
Iguaçu e lá sua casa virou templo. As rodas que aconteciam ali reuniam
gigantes, mas ninguém parecia maior que o anfitrião. Aniceto recebia todos com
simplicidade, como quem sabe que o samba não é espetáculo: é encontro.
Martinho, Wilson Moreira, Nei Lopes, Nelson Sargento, Monarco, Argemiro, Hilton
do Candongueiro, Guezinha — todos vinham, todos cantavam, todos aprendiam.
Entre os grandes mestres do Partido Alto, Aniceto ocupa um lugar singular. Se
Candeia era o pensador combativo, Wilson Moreira o melodista refinado, Nilton Campolino
o malandro brincalhão, Marçal o percussionista rítmico e Nei Lopes o intelectual da tradição, Aniceto era o orador. Seu improviso unia
humor, crítica e sabedoria com
uma naturalidade que só
quem viveu o cais, a Resistência
e o Estácio poderia ter. Aniceto
é o mestre do Partido Alto
cuja raiz está mais diretamente
ligada ao trabalho negro organizado —
e isso moldou sua visão
de mundo e sua obra.
Quando partiu, em 19 de julho de 1993, o
samba não perdeu apenas um mestre. Perdeu uma forma de pensar. Perdeu um jeito
de olhar o mundo e transformá‑lo
em verso. Mas a Resistência
— aquela do cais, aquela dos homens pretos,
aquela que moldou sua vida —
continuou pulsando no partido‑alto
que ele deixou. E quem escuta Aniceto hoje sente que ele ainda está ali: firme, sorrindo, pronto para mais um
verso que ninguém espera, mas que
todos reconhecem quando Porque Aniceto não improvisava apenas palavras.
Improvisava o mundo nos versos que cantava.
Aniceto e os Outros Mestres — Uma
Constelação em Partido Alto
Há quem diga que o partido‑alto é
disputa. Há quem diga que é brincadeira. Mas quem já viu uma roda verdadeira
sabe: o Partido Alto é um céu.
E cada mestre é uma estrela acesa no escuro da noite. Aniceto, não brilhava: ele
iluminava. Quando chegava, parecia que o tempo fazia silêncio para escutá-lo. Sua
palavra não era verso: era ferramenta. Era cais, era luta, era tambor. Improvisava
como quem abre caminho, como quem ergue ponte, como quem sabe que a voz também
é trabalho.
Ao seu lado, Candeia era raio. Vinha
cortando o ar com a força de quem carrega a verdade no peito. Seu improviso era
faca afiada: direto, urgente, necessário. Se Aniceto sorria ensinando, Candeia
ensinava incendiando.
Wilson Moreira era brisa. Seu Partido Alto tinha perfume de madrugada, um jeito de
cantar que parecia acalmar até o surdo mais nervoso. Enquanto Aniceto puxava o
coro como quem convoca, Wilson chamava como quem acolhe.
Nilton Campolino, ah, Campolino era
travessura. Era o moleque da roda, o que fazia a malandragem virar poesia. Se
Aniceto era o mestre que organizava o mundo, Campolino era o que bagunçava — só
para reorganizar de outro jeito.
| Aniceto do Império e Nilton Campolino |
Nei Lopes é livro aberto. Improvisa com a
elegância de quem carrega séculos na língua. Se Aniceto era a memória viva da
Resistência, Nei é a biblioteca viva da ancestralidade.
E no meio de todos eles, Aniceto seguia
sendo o que nenhum outro era: orador. Homem que falava para a roda, para a
quadra, para o cais, para os companheiros de luta, para os que vinham aprender,
para os que vinham lembrar. Ele não improvisava apenas palavras — improvisava
destinos. Costurava o humor de Campolino, a firmeza de Candeia, a suavidade de
Wilson Moreira, a cadência de Marçal e a a sabedoria de Nei. E devolvia tudo
isso ao mundo em forma de verso, como quem devolve ao povo aquilo que o povo
lhe deu.
No céu do Partido Alto, cada mestre é estrela. Mas Aniceto é constelação. É
mapa. É caminho. É aquele que, quando entrava na roda, faz o samba mudar de
temperatura e o mundo mudar de sentido. Porque alguns improvisam para vencer. Outros
improvisam para encantar. Mas Aniceto improvisava para lembrar: lembrar quem
somos, de onde viemos e para onde o samba ainda pode nos levar.
Salve o Velho Aniceto do Império!!!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 02/09/2026
OBS:
Algumas sugestões para quem tiver interesse no tema:
1.
História do samba:
ARAÚJO, Hiram: Carnaval: Seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003. Panorama amplo do carnaval, com seções dedicadas às escolas de samba. Ajuda a situar o Império Serrano dentro da evolução cultural do samba carioca.
CABRAL, Sérgio: As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lumiar, 1996. Obra clássica que contextualiza a formação das escolas de samba, incluindo o Império Serrano. Cabral descreve a presença dos estivadores entre os fundadores, oferecendo base histórica para compreender o ambiente em que Aniceto atuou como liderança e orador.
SIMAS, Luiz Antônio: LOPES, Nei. Dicionário da história social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. Fonte para compreender conceitos como Partido Alto, Estácio, Resistência e a formação social do samba. Os verbetes ajudam a contextualizar Aniceto como figura central da tradição oral e da liderança comunitária.
VALENÇA, Rachel: Império Serrano: uma escola de samba. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999. Estudo aprofundado sobre a história do Império Serrano, com depoimentos e análises que iluminam o papel de seus fundadores. Útil para fundamentar a atuação de Aniceto como orador oficial.
______________: Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba, Rio de Janeiro: Record, 2017 A história de uma escola de samba sempre é a história do bairro, da região, onde surgiu e evoluiu. Há exceções, porém: Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano, instituições com cujos caminhos é possível contar o caminho do Rio de Janeiro no século XX.
2.
Partido‑alto,
improviso e tradição
oral
BRUM, Mário. “Trabalhadores do porto e identidade urbana no Rio de Janeiro”. Revista Brasileira de História, v. 28, n. 55, 2008. Artigo que analisa o papel dos trabalhadores portuários na construção da cidade e na organização política. Ajuda a contextualizar a Resistência como espaço de cidadania negra.
CAZES, Henrique. Choro: do quintal ao
municipal. Rio de Janeiro: Lumiar, 1998.
Embora focado no choro, traz análises sobre
improvisação e rodas musicais que dialogam com a prática do Partido Alto.
Franceschi,Humberto M.: Samba de sambar do Estácio – 1928 a 1931, Rio de Janeiro, Instituto Moreira Sales, 2014. Personagens e as histórias que percorreram o largo do Estácio na época e que definiram, segundo o autor, a relação do samba com o candomblé, o futebol e a prostituição. É a partir de depoimentos dos remanescentes do Deixa Falar, bloco que deu origem ao “samba da sambar”, na definição de Ismael Silva. Ajuda a contextualizar o ambiente cultural do nascimento de Aniceto.
LOPES, Nei. Partido Alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2003. Estudo dedicado ao Partido Alto como prática cultural e política. Ajuda a compreender a importância do improviso como forma de discurso — essencial para entender o papel de Aniceto como orador.
SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917–1933). Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Análise técnica e histórica do partido‑alto e da tradição oral no samba. Embora não trate diretamente de Aniceto, explica a estrutura musical e poética do improviso que ele dominava.
Sevcenko, Nicolau: Orfeu extático na metrópole Analisa a vida cultural do Rio no século XX. Não é sobre samba exclusivamente, mas ajuda a entender o clima urbano que moldou o surgimento das escolas.
3.
Porto do Rio de Janeiro, estivadores e Sindicato da Resistência
MATTOS, Claudia. Trabalhadores do porto: resistência e organização. Rio de Janeiro: FGV, 2008. Trabalho sobre a Companhia dos Homens Pretos / Sindicato da Resistência. Explica o ambiente político e social que moldou a liderança de Aniceto.
MAMIGONIAN, Beatriz. “Pós-abolição e trabalho portuário no Rio de Janeiro”. Tempo, v. 14, n. 28, 2009. Estudo sobre trabalhadores negros no pós‑abolição, incluindo estivadores. Fundamenta a afirmação de que o Porto era um reduto de resistência negra.
PEREIRA, João Baptista Borges. Negros e brancos no mercado de trabalho. São Paulo: Ática, 1978. Clássico da sociologia do trabalho que analisa relações laborais e organização de trabalhadores, incluindo portuários.
4.
Fontes diretas sobre Aniceto
BULBUL, Zózimo. Registros sobre cultura negra e samba. Diversos filmes e curtas, 1970–1990. Bulbul filmou Aniceto em rodas e encontros, tratando-o como patrimônio vivo da cultura negra. Material valioso para compreender sua dimensão política e estética.
COUTINHO,
Eduardo. O fio da memória. Documentário. Brasil, 1991.
Registro audiovisual em que Aniceto aparece
improvisando e falando sobre sua vida. Fonte primária essencial para observar
sua postura, sua fala e sua presença como orador.
FUNARTE. Acervo da Rádio Nacional. Rio de Janeiro, s.d. Entrevistas e gravações de rodas de samba dos anos 1960–1980, com referências a Aniceto e ao Partido Alto.
Leon Hirszman – Partido Alto (1982) Documentário essencial para entender o partido‑alto como prática viva. Mostra mestres improvisando e explicando a tradição.
MUSEU DO SAMBA. Acervo de entrevistas e documentos sobre sambistas cariocas. Rio de Janeiro, s.d. Acervo com depoimentos, fotos e gravações que ajudam a reconstruir a trajetória de Aniceto e seu papel no Império Serrano.
5. Discografia como documento histórico
ANICETO; CAMPOLINO. O partido alto de Aniceto & Campolino. Rio de Janeiro: RCA Victor, 1977. LP. Registro fundamental para compreender a técnica de improviso de Aniceto e sua visão de mundo expressa em versos.
ANICETO. Partido Nota 10. Rio de Janeiro: CID, 1984. LP. Disco que revela sua maturidade artística. As faixas funcionam como discursos poéticos e são fontes primárias sobre sua forma de falar e ensinar.
[1] Nasceu dia 11 de março de 1912 e só foi
registrado dia 22/03/1912, com o nome de Aniceto Menezes e Silva Junior. Filho
de Aniceto Menezes e Silva e Chrispiniana Braga Menezes e Silva.
[2] Grêmio Recreativo Escola de Samba Império
Serrano
Maravilhoso texto sobre essa entidade chamado de Aniceto.Parabens.
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