quinta-feira, 11 de junho de 2026

 

Assim nasceu o Império Serrano!!!


"...Menino de 47, 
de ti, ninguém esquece
Serrinha, Congonha, Tamarineira
nasceu o Império Serrano,
o reizinho de Madureira ..."
(Menino de 47, Campolino e Malandrinho)


Antes de existir o Império Serrano, o Morro da Serrinha já pulsava samba, jongo, caxambu, batuque e ancestralidade. E, no centro dessa vida cultural estava o Prazer da Serrinha, uma escola que, por muitos anos, representou o morro nos desfiles e nas festas populares. Era ali que sambistas como Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Sebastião Molequinho, Gradim, Aniceto, Fuleiro e tantos outros se encontravam para criar, cantar e sonhar.

A Prazer da Serrinha, fundada em 1926, com as cores rosa, verde e dourado, teve sua origem no bloco carnavalesco Cabelo da Mana. Até meados da década de 1940, era a principal representação carnavalesca do Morro da Serrinha. Reunia sambistas, jongueiros, trabalhadores portuários, negros recém libertos e moradores da região, constituindo um espaço de sociabilidade e expressão cultural.

Entretanto, apesar de sua relevância comunitária, a escola apresentava um modelo de gestão centralizado, concentrado na figura de seu dirigente, Alfredo Costa. As decisões — incluindo escolha de samba, organização interna e diretrizes gerais — eram tomadas de forma unilateral, sem consulta à comunidade ou aos compositores.

Esse modelo contrastava com a cultura política da Serrinha, marcada pela participação coletiva e pela forte influência do Sindicato dos Estivadores, instituição na qual muitos sambistas atuavam e onde prevaleciam práticas democráticas como assembleias e votações. O descontentamento era grande. No Morro da Serrinha se concentrava grande contingente de trabalhadores da estiva do Porto do Rio de Janeiro, acostumados a decidir em assembleia, pelo debate e pelo voto. E, a prática da presidência da Serrinha era cada dia mais contestada.

O estopim foi o carnaval de 1946. Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola haviam criado um lindo samba, aplaudido por toda a escola: “Conferência de São Francisco”. Quando a escola estava na Praça XI, pronta na concentração, bateria esquentando o ritmo, as pastoras cantando o samba escolhido, esperando só a ordem da presidência para iniciar o desfile. Eis, que chega a contraordem, partindo do próprio Alfredo Costa, deixando a escola confusa e perdida: não era para cantar o samba de Silas de Oliveira e Mano Décio. A escola desfilaria com um samba de quadra “Alto da Colina”. O desfile foi catastrófico e a escola ficou em 11º lugar entre 12 classificados.

Para Sebastião Molequinho, Gradim, Mano Elói e tantos outros, aquilo não foi só uma escolha equivocada. Foi um desrespeito, um silenciamento, afirmação de um modelo autoritário de gestão, ruptura simbólica com a identidade cultural da comunidade, prova de que o Prazer da Serrinha não representava mais o morro. Para eles, o episódio representava a confirmação de que o Prazer da Serrinha havia se distanciado dos valores da comunidade.

A Serrinha queria democracia — e não tinha. A comunidade queria: votar, escolher, participar, ser ouvida. A escola tinha perdido sua essência. E, o morro que sempre foi coletivo, não aceitava viver sob um comando que não dialogava.

Depois do desfile de 1947, a indignação virou movimento. “Vamos fazer a nossa escola”!  E, Sebastião Molequinho, incentivado por Mano Elói, começou a reunir os sambistas descontentes. A ideia era simples e revolucionária: “Vamos fundar uma escola sem dono, sem patrono, onde tudo seja decidido por voto, inspirada nas práticas do Sindicato dos Estivadores”.

E assim, no dia 23 de março de 1947, na casa de Dona Eulália, na rua da Balaiada, no alto do Morro da Serrinha, nasceu o Império Serrano — com nome, cores, símbolo e diretoria escolhidos democraticamente.

O processo de fundação do Império Serrano não pode ser compreendido sem uma análise cuidadosa do ambiente sociocultural e político que caracterizava o Prazer da Serrinha, escola de samba que antecedeu a nova agremiação. A ruptura não foi um evento isolado, mas o resultado de tensões acumuladas ao longo dos anos, envolvendo práticas de gestão, relações de poder e concepções distintas sobre o papel da comunidade na vida associativa.

O rompimento com o Prazer da Serrinha não foi apenas administrativo: foi ideológico.  O Império Serrano nasceu como resposta direta a um modelo de gestão considerado autoritário e desconectado da comunidade. A nova escola incorporava, no nascimento, valores de participação, coletividade, autonomia, organização democrática e a identidade cultural da Serrinha.

Assim, o episódio de 1947 deve ser entendido como um marco na história do samba carioca, representando a afirmação de um projeto comunitário que se tornaria uma das mais importantes tradições do carnaval do Rio de Janeiro.

A história do samba carioca é inseparável da história do trabalho urbano, das formas de organização da população negra no pós-abolição, do movimento migratório dos trabalhadores negros recém libertos das regiões cafeeiras do interior fluminense, do Vale do Paraíba e da Zona da Mata de Minas Gerais, que buscavam trabalho na capital da recente República e, dos trabalhadores que viviam na zona portuária, e empurrados pelas reformas urbanas, também migraram para bairros suburbanos conectados pela linha férrea — como Madureira, Osvaldo Cruz e Bento Ribeiro. Entre essas formas, destacava-se a atuação dos estivadores, trabalhadores do porto do Rio de Janeiro que, desde o início do século XX, desenvolveram práticas de resistência, solidariedade e democracia interna. Molequinho, Mano Décio, Mano Elói, Fuleiro, Aniceto e José do Nascimento eram todos estivadores 

Este conjunto de variáveis migratórias levou para o morro da Serrinha não apenas um volume significativo de trabalhadores. Levou, também suas tradições culturais e políticas: o jongo, o samba de terreiro, a religiosidade afro-brasileira e a incipiente cultura sindical.

É nesse contexto que emerge o Império Serrano, fundado em 1947 por um grupo de sambistas-estivadores. A Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, fundada em 1905, é considerada um dos primeiros sindicatos do Brasil e tinha composição majoritariamente negra. Era, também, conhecida como Companhia dos Homens Pretos ou simplesmente Resistência, a organização combinava: luta trabalhista, práticas democráticas, redes de apoio mútuo e atividades culturais, incluindo a organização de ranchos carnavalescos. Essa combinação de política e cultura seria fundamental para o surgimento das escolas de samba. Mano Elói foi um dos presidentes da Sociedade de Resistência, o que evidencia a forte relação entre a escola de samba e o sindicato.

A Serrinha tornou-se, assim, um espaço onde trabalho, política e cultura negra se entrelaçavam. Os estivadores entendiam a escola de samba como um espaço de lazer, de sociabilidade negra e de afirmação política. Os estivadores eram respeitados no morro porque tinham renda fixa, organização, voz política e experiência de liderança. Eram, ao mesmo tempo, trabalhadores, sambistas e articuladores comunitários.

A influência dos estivadores no samba da Serrinha se deu em três dimensões: organização interna: levaram para o samba a lógica sindical com reuniões formais, votações, atas, mensalidades, diretoria eleita, prestação de contas. “Aprenderam tudo o que sabiam no sindicato, no Cais do Porto, e levaram as práticas de lá para a escola.”[1]; Consciência Coletiva, defendiam que a escola de samba deveria ser do povo, sem patrono, sem dono, sem imposições autoritárias.

Além destes dois princípios, os estivadores influenciaram a temática e a estética dos sambas (trabalhadores, lutas, heróis populares), a disciplina dos ensaios, a força da bateria, a postura altiva da escola. O Império Serrano herdou essa identidade de forma profunda. Essas três variáveis construíram uma proposta de escola de samba que era o oposto da realidade vivenciada no Prazer da Serrinha e, este foi o motivo inevitável da ruptura.

Por isso, quando o Império Serrano foi criado, o nome da escola, as cores verde e branca, o símbolo da coroa imperiana e até as mensalidades foram escolhidos e definidos por voto, coletivamente. O processo eleitoral para a definição da nova diretoria resultou na escolha de João Gradim[2] como primeiro presidente da escola que nascia, reforçando o caráter democrático que o grupo defendia.

A lista de sócios fundadores evidenciava a amplitude do movimento, reunindo figuras como Mano Décio, Silas de Oliveira, Aniceto Menezes, Mestre Fuleiro Mano Elói, José do Nascimento e muitos outros estivadores. O Império Serrano foi, literalmente, uma escola de samba construída com a lógica de um sindicato.

E, lá no Morro da Serrinha, os estivadores não foram apenas trabalhadores do Porto. Foram arquitetos invisíveis do samba, organizadores culturais, lideranças comunitárias e construtores da democracia interna que moldou o samba da Serrinha.

Sem eles, não haveria a ruptura com o Prazer da Serrinha, a fundação do Império Serrano, a força coletiva que marcou a escola, nem a tradição democrática que a distingue até hoje. Eles são a ponte entre o cais e o morro, o trabalho e o samba, a luta e a arte.

E essa ponte é uma das bases mais sólidas da história do Império Serrano!!!


Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 10/06/2026

 



[1] Depoimento de Jorginho do Império, filho do Mano Décio da Viola.

[2] João Gradim (João de Oliveira) era irmão de Molequinho e de Dona Eulália e, parte do núcleo familiar que sediou e sustentou a fundação do Império Serrano. Era também genro de Mano Elói, o que o colocava no centro da articulação comunitária da Serrinha

2 comentários:

  1. A leitura desse artigo de Carmen Lúcia não mostra apenas o início de uma das Escolas de Samba mais tradicionais e queridas do Rio de Janeiro, mas vai muito além. Nos revela aspectos sociais, culturais e até políticos de meados do século XX. Escrito de forma simples e objetiva, oferece uma leitura agradável que prende o leitor até o final do texto, deixa um gostinho de "quero mais" e aguça a vontade de ler outros textos que a autora desse blog nos presenteia sobre o tema. Arrisco dizer que , em futuro próximo, e junto de outros tantos já divulgados e a escrever, deveriam ser reunidos em um livro sobre a história do samba. Fica a sugestão, minha querida Carmen, se é que esse já não é seu objetivo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sergio, obrigada pela gentileza ... Mouzar Benedito tem insistido comigo numa publicação. Por enquanto isto não está no horizonte .. mas, vc sabe que horizontes mudam rsrs a vontade ainda é escrever sobre samba, tema q eu amo muito. o futuro a Deus pertence rsrs bjs e obrigadissima pelo carinho

      Excluir

  Assim nasceu o Império Serrano!!! "...Menino de 47,  de ti, ninguém esquece Serrinha, Congonha, Tamarineira nasceu o Império Serrano,...