Assim
nasceu o Império Serrano!!!
Antes de existir o Império Serrano, o Morro
da Serrinha já pulsava samba, jongo, caxambu, batuque e ancestralidade. E, no centro
dessa vida cultural estava o Prazer da Serrinha, uma escola que, por muitos
anos, representou o morro nos desfiles e nas festas populares. Era ali que
sambistas como Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Sebastião Molequinho,
Gradim, Aniceto, Fuleiro e tantos outros se encontravam para criar, cantar e
sonhar.
A Prazer da Serrinha, fundada em 1926, com
as cores rosa, verde e dourado, teve sua origem no bloco carnavalesco Cabelo da
Mana. Até meados da década de 1940, era a principal representação carnavalesca
do Morro da Serrinha. Reunia sambistas, jongueiros, trabalhadores portuários,
negros recém libertos e moradores da região, constituindo um espaço de
sociabilidade e expressão cultural.
Entretanto, apesar de sua relevância
comunitária, a escola apresentava um modelo de gestão centralizado, concentrado
na figura de seu dirigente, Alfredo Costa. As decisões — incluindo escolha de
samba, organização interna e diretrizes gerais — eram tomadas de forma
unilateral, sem consulta à comunidade ou aos compositores.
Esse modelo contrastava com a cultura
política da Serrinha, marcada pela participação coletiva e pela forte
influência do Sindicato dos Estivadores, instituição na qual muitos sambistas
atuavam e onde prevaleciam práticas democráticas como assembleias e votações. O
descontentamento era grande. No Morro da Serrinha se concentrava grande
contingente de trabalhadores da estiva do Porto do Rio de Janeiro, acostumados
a decidir em assembleia, pelo debate e pelo voto. E, a prática da presidência
da Serrinha era cada dia mais contestada.
O estopim foi o carnaval de 1946. Silas de
Oliveira e Mano Décio da Viola haviam criado um lindo samba, aplaudido por toda
a escola: “Conferência de São Francisco”. Quando a escola estava na
Praça XI, pronta na concentração, bateria esquentando o ritmo, as pastoras
cantando o samba escolhido, esperando só a ordem da presidência para iniciar o
desfile. Eis, que chega a contraordem, partindo do próprio Alfredo Costa,
deixando a escola confusa e perdida: não era para cantar o samba de Silas de
Oliveira e Mano Décio. A escola desfilaria com um samba de quadra “Alto da
Colina”. O desfile foi catastrófico e a escola ficou em 11º lugar entre 12
classificados.
Para Sebastião Molequinho, Gradim, Mano Elói e tantos outros, aquilo não foi só uma escolha equivocada. Foi um desrespeito, um silenciamento, afirmação de um modelo autoritário de gestão, ruptura simbólica com a identidade cultural da comunidade, prova de que o Prazer da Serrinha não representava mais o morro. Para eles, o episódio representava a confirmação de que o Prazer da Serrinha havia se distanciado dos valores da comunidade.
A Serrinha queria democracia — e não tinha.
A comunidade queria: votar, escolher, participar, ser ouvida. A escola tinha
perdido sua essência. E, o morro que sempre foi coletivo, não aceitava viver
sob um comando que não dialogava.
Depois do desfile de 1947, a indignação
virou movimento. “Vamos fazer a nossa escola”!
E, Sebastião Molequinho, incentivado por Mano Elói, começou a reunir os
sambistas descontentes. A ideia era simples e revolucionária: “Vamos fundar uma
escola sem dono, sem patrono, onde tudo seja decidido por voto, inspirada nas
práticas do Sindicato dos Estivadores”.
E assim, no dia 23 de março de 1947, na
casa de Dona Eulália, na rua da Balaiada, no alto do Morro da Serrinha, nasceu
o Império Serrano — com nome, cores, símbolo e diretoria escolhidos
democraticamente.
O processo de fundação do Império Serrano não
pode ser compreendido sem uma análise cuidadosa do ambiente sociocultural e
político que caracterizava o Prazer da Serrinha, escola de samba que antecedeu
a nova agremiação. A ruptura não foi um evento isolado, mas o resultado de
tensões acumuladas ao longo dos anos, envolvendo práticas de gestão, relações
de poder e concepções distintas sobre o papel da comunidade na vida
associativa.
O rompimento com o Prazer da Serrinha não
foi apenas administrativo: foi ideológico. O Império Serrano nasceu como resposta direta
a um modelo de gestão considerado autoritário e desconectado da comunidade. A
nova escola incorporava, no nascimento, valores de participação, coletividade, autonomia,
organização democrática e a identidade cultural da Serrinha.
Assim, o episódio de 1947 deve ser
entendido como um marco na história do samba carioca, representando a afirmação
de um projeto comunitário que se tornaria uma das mais importantes tradições do
carnaval do Rio de Janeiro.
A história do samba carioca é inseparável
da história do trabalho urbano, das formas de organização da população negra no
pós-abolição, do movimento migratório dos trabalhadores negros recém libertos das
regiões cafeeiras do interior fluminense, do Vale do Paraíba e da Zona da Mata
de Minas Gerais, que buscavam trabalho na capital da recente República e, dos
trabalhadores que viviam na zona portuária, e empurrados pelas reformas
urbanas, também migraram para bairros suburbanos conectados pela linha férrea —
como Madureira, Osvaldo Cruz e Bento Ribeiro. Entre essas formas, destacava-se
a atuação dos estivadores, trabalhadores do porto do Rio de Janeiro que, desde
o início do século XX, desenvolveram práticas de resistência, solidariedade e
democracia interna. Molequinho,
Mano Décio, Mano Elói, Fuleiro, Aniceto e José do Nascimento eram todos
estivadores
Este conjunto de variáveis migratórias levou
para o morro da Serrinha não apenas um volume significativo de trabalhadores.
Levou, também suas tradições culturais e políticas: o jongo, o samba de
terreiro, a religiosidade afro-brasileira e a incipiente cultura sindical.
É nesse contexto que emerge o Império
Serrano, fundado em 1947 por um grupo de sambistas-estivadores. A Sociedade de
Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, fundada em 1905, é
considerada um dos primeiros sindicatos do Brasil e tinha composição
majoritariamente negra. Era, também, conhecida como Companhia dos Homens Pretos
ou simplesmente Resistência, a organização combinava: luta trabalhista, práticas
democráticas, redes de apoio mútuo e atividades culturais, incluindo a
organização de ranchos carnavalescos. Essa combinação de política e cultura
seria fundamental para o surgimento das escolas de samba. Mano Elói foi um dos
presidentes da Sociedade de Resistência, o que evidencia a forte relação entre a
escola de samba e o sindicato.
A Serrinha tornou-se, assim, um espaço onde
trabalho, política e cultura negra se entrelaçavam. Os estivadores entendiam a
escola de samba como um espaço de lazer, de sociabilidade negra e de afirmação
política. Os estivadores eram respeitados no morro porque tinham renda fixa, organização,
voz política e experiência de liderança. Eram, ao mesmo tempo, trabalhadores,
sambistas e articuladores comunitários.
A influência dos estivadores no samba da
Serrinha se deu em três dimensões: organização interna: levaram para o samba a
lógica sindical com reuniões formais, votações, atas, mensalidades, diretoria
eleita, prestação de contas. “Aprenderam tudo o que sabiam no sindicato, no
Cais do Porto, e levaram as práticas de lá para a escola.”[1];
Consciência Coletiva, defendiam que a escola de samba deveria ser do povo, sem
patrono, sem dono, sem imposições autoritárias.
Além destes dois princípios, os estivadores
influenciaram a temática e a estética dos sambas (trabalhadores, lutas, heróis
populares), a disciplina dos ensaios, a força da bateria, a postura altiva da
escola. O Império Serrano herdou essa identidade de forma profunda. Essas três
variáveis construíram uma proposta de escola de samba que era o oposto da
realidade vivenciada no Prazer da Serrinha e, este foi o motivo inevitável da
ruptura.
Por isso, quando o Império Serrano foi
criado, o nome da escola, as cores verde e branca, o símbolo da coroa imperiana
e até as mensalidades foram escolhidos e definidos por voto, coletivamente. O
processo eleitoral para a definição da nova diretoria resultou na escolha de
João Gradim[2]
como primeiro presidente da escola que nascia, reforçando o caráter democrático
que o grupo defendia.
A lista de sócios fundadores evidenciava a
amplitude do movimento, reunindo figuras como Mano Décio, Silas de Oliveira,
Aniceto Menezes, Mestre Fuleiro Mano Elói, José do Nascimento e muitos outros
estivadores. O Império Serrano foi, literalmente, uma escola de samba
construída com a lógica de um sindicato.
E, lá no Morro da Serrinha, os estivadores não
foram apenas trabalhadores do Porto. Foram arquitetos invisíveis do samba, organizadores
culturais, lideranças comunitárias e construtores da democracia interna que
moldou o samba da Serrinha.
Sem eles, não haveria a ruptura com o
Prazer da Serrinha, a fundação do Império Serrano, a força coletiva que marcou
a escola, nem a tradição democrática que a distingue até hoje. Eles são a ponte
entre o cais e o morro, o trabalho e o samba, a luta e a arte.
E essa ponte é uma das bases mais sólidas
da história do Império Serrano!!!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia, 10/06/2026
[1] Depoimento de Jorginho do
Império, filho do Mano Décio da Viola.
[2]
João Gradim (João
de Oliveira) era irmão de Molequinho e de Dona Eulália e, parte do núcleo
familiar que sediou e sustentou a fundação do Império Serrano. Era também genro
de Mano Elói, o que o colocava no centro da articulação comunitária da Serrinha
A leitura desse artigo de Carmen Lúcia não mostra apenas o início de uma das Escolas de Samba mais tradicionais e queridas do Rio de Janeiro, mas vai muito além. Nos revela aspectos sociais, culturais e até políticos de meados do século XX. Escrito de forma simples e objetiva, oferece uma leitura agradável que prende o leitor até o final do texto, deixa um gostinho de "quero mais" e aguça a vontade de ler outros textos que a autora desse blog nos presenteia sobre o tema. Arrisco dizer que , em futuro próximo, e junto de outros tantos já divulgados e a escrever, deveriam ser reunidos em um livro sobre a história do samba. Fica a sugestão, minha querida Carmen, se é que esse já não é seu objetivo.
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