terça-feira, 9 de junho de 2026

 

Jurandir da Mangueira, compositor de 12 títulos!

 

                  “ ... pergunte ao  Criador

                          Pergunte ao Criador,

             Quem pintou esta aquarela

              Livre do açoite da senzala

        Preso na miséria da favela ...”

        (Alvinho, Jurandir e Hélio Turco)

 


Jurandir da Mangueira[1] teve uma vida inteira dedicada ao samba. Nasceu em 1939, na cidade de Campos dos Goytacazes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Ainda menino, mudou-se com a família para a capital, onde cresceu em meio às transformações urbanas e culturais que moldariam sua identidade artística. A vida no Rio, ofereceu a ele o ambiente perfeito para desenvolver o ouvido musical, a sensibilidade poética e o senso de comunidade que marcariam sua trajetória.

Antes de se tornar um nome respeitado no mundo do samba, Jurandir exerceu ofícios que revelam a dureza e a dignidade de sua caminhada: foi sapateiro e depois caldeireiro na Secretaria Municipal de Saúde. Como tantos sambistas de sua geração, dividia o tempo entre o trabalho formal e a boemia criativa, encontrando na música um espaço de liberdade, expressão e pertencimento.

Ele se aproximou da Estação Primeira de Mangueira ainda jovem, encantado pela força da comunidade, pela imponência da bateria e pela tradição de compositores que transformavam histórias do povo em poesia cantada. Incentivado por Cartola, em 1959, ingressou oficialmente na Ala dos Compositores, iniciando uma trajetória que o colocaria entre os maiores nomes da história da escola.

Jurandir não era apenas um compositor talentoso — era também um cantor de voz suave, afinada e elegante, qualidades que o levaram, mais tarde, a integrar a Velha Guarda da Mangueira, grupo responsável por preservar a memória musical da escola. Sua presença ali não era apenas artística, mas também afetiva: ele representava a continuidade de uma linhagem de sambistas que carregavam o passado no peito e o futuro na ponta da caneta.


                                           Jurandir da Mangueira, foto retirada da internet


 

Ao longo de sua carreira como compositor, Jurandir venceu 12 vezes o concurso de sambaenredo da Mangueira, um feito extraordinário, que o coloca entre os maiores campeões da história da escola. Seus sambas eram conhecidos pela melodia generosa, pelo lirismo elegante e pela capacidade de traduzir temas complexos em versos acessíveis e emocionantes.

Entre seus parceiros mais frequentes estavam Hélio Turco, Darci da Mangueira, Ratinho e João da Gente. Juntos, criaram obras que marcaram gerações e se tornaram parte do patrimônio cultural do carnaval carioca. Alguns de seus sambas mais emblemáticos foram: “Mercadores e suas tradições” (1969), “Modernos Bandeirantes” (1971), “Yes, nós temos Braguinha” (1984), samba campeão que inaugurou o Sambódromo, “Abram alas, que eu quero passar – Chiquinha Gonzaga” (1985), “100 anos de liberdade – realidade ou ilusão?” (1988), um dos sambas mais importantes da história do carnaval.

Este último, de 1988, tornou-se um marco não apenas para a Mangueira, mas para o gênero do samba-enredo. A crítica social, a força poética e a profundidade histórica fizeram dele um clássico absoluto.

Embora fosse reconhecido principalmente pelos sambas-enredo, Jurandir também deixou um repertório expressivo de sambas de terreiro, muitos deles gravados por grandes nomes da música brasileira. Muitas de suas composições de terreiro foram registradas em projetos de preservação da memória da escola, como o álbum “Mangueira – Sambas de Terreiro e Outros Sambas[2].

Entre seus sambas de terreiro mais conhecidos estão: “Transformação”, parceria com João da Gente; “Folha de Zinco”, parceria com Ratinho, uma composição que mostra sua habilidade em tratar do cotidiano e das vivências no morro através do samba; “Vovó Chica”, um dos seus sambas de terreiro mais citados e emblemáticos, carregado de tradição e ancestralidade; e, “Palácio Encantado”, parceria com Irson Pinto, outra obra importante que transita pelo universo dos sambas que celebram a escola fora do formato competitivo. Essas músicas mostram um lado mais íntimo e cotidiano de Jurandir — sambas que falam de vida, de amor, de luta e de ancestralidade.


                                 Jurandir da Mangueira, foto retirada da internet

 

Jurandir foi uma das vozes mais marcantes da Velha Guarda da Mangueira, participando de gravações importantes que ajudaram a registrar a memória musical da verde e rosa. Mesmo quando o grupo foi reduzido, em 1991, ele permaneceu entre os escolhidos, prova de sua importância artística e histórica. Sua participação nos cds “Velha Guarda da Mangueira e Convidados(1999) e “Mangueira – Sambas de Terreiro e Outros Sambas(2000) revelam seu comprometimento em resgatar a memória musical da verde e rosa. Ali, Jurandir aparece não como o "autor de samba enredo" que busca o título do campeonato, mas como o baluarte que canta a história da escola e a vivência do seu povo.

É interessante notar que, para um compositor da estatura de Jurandir, essa distinção entre samba enredo e samba de terreiro era muito fluida. Muitas vezes, ele compunha sambas que, embora não fossem enredos de desfile, funcionavam como verdadeiros hinos da comunidade, servindo para o entretenimento da Velha Guarda e das rodas dentro da quadra.

Em 2005, lançou seu primeiro disco solo, pelo Selo Candongueiro, um reconhecimento merecido após décadas de contribuição ao samba e a cultura brasileira. Este álbum é frequentemente citado por pesquisadores da música popular brasileira não apenas pela qualidade técnica, mas por ser um documento histórico da linhagem de compositores mangueirenses que, como ele, mantiveram viva a tradição da escola.

Este disco foi um marco, pois consolidou sua carreira solo já no final da vida, reunindo composições de várias fases de sua trajetória, assim como o registr0 de canções que muitas vezes ficavam restritas apenas ao imaginário das rodas de samba ou na memória da escola, reafirmando seu lugar de destaque na Estação Primeira.

Jurandir da Mangueira faleceu em 25 de abril de 2007, no Rio de Janeiro, vítima de problemas cardíacos. Foi sepultado no Cemitério do Caju, deixando uma legião de admiradores, parceiros e discípulos. Sua história é muito centrada na dedicação à sua escola de samba, sendo uma figura que equilibrou a rotina de trabalhador público com uma trajetória artística de grande relevância.

Sua morte representou a perda de um dos últimos grandes pilares da geração de ouro da Mangueira. Mas seu legado permanece vivo: nos desfiles, nas gravações, nas rodas de samba e na memória afetiva da comunidade mangueirense. Ele é lembrado como: um dos maiores compositores da história da verde e rosa, a voz suave e marcante da Velha Guarda, o sorriso aberto e franco, um poeta do povo, capaz de transformar temas históricos em emoção, um símbolo de humildade, disciplina e amor ao samba.

Sua obra continua sendo estudada, cantada e celebrada — não apenas como parte da história da Mangueira, mas como parte da história do samba brasileiro.



[1] Jurandir Pereira da Silva

[2] lançado pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 1999/2000.

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