quarta-feira, 27 de maio de 2026

 

A Ala dos Impossíveis da Portela!!!

 

Durante a década de 1950, o cenário das escolas de samba do Rio de Janeiro atravessou transformações estruturais e estéticas profundas, impulsionadas por uma nova geração de sambistas.

No G.R.E.S. Portela, essa efervescência sociocultural manifestou-se na transição de poder criativo dos fundadores históricos e dos jovens compositores e passistas da região de Oswaldo Cruz.

Esse grupo de jovens, apelidado pelos mais antigos de "Turma do Muro por se reunir habitualmente no muro da estação ferroviária local para compor e cantar, começou a desafiar o monopólio criativo dos veteranos.

O ponto de virada dessa transição ocorreu em 1953, quando o jovem Antônio Candeia Filho, com apenas 16 anos, venceu o concurso de samba-enredo da Escola com o clássico “Seis Datas Magnas”, em parceria com Altair Prego.

A partir desta vitória o “Turma do Muro” se consolidou na Escola, se estruturou e fundou a célebre “Ala dos Impossíveis”. Concebida como uma ala de elite de passistas e compositores masculinos e femininos, o grupo reuniu nomes fundamentais para a história da azul e branco, como Waldir 59, Candeia, Wanderley Francisco, Casquinha, Humberto, Bibi, Picolino da Portela, Mazinho do Natal, Bubu, Irani e Pneu.

 Em termos demográficos, a Ala alcançou dimensões impressionantes para os padrões da época: reuniu cerca de 60 passistas masculinos e 30 cabrochas femininas, quando o contingente total de desfilantes da Portela não ultrapassava 250 foliões. A “Ala dos Impossíveis” representava uma parcela substancial e altamente qualificada da Escola.

A visibilidade do grupo rapidamente extrapolou o reduto de Madureira e Oswaldo Cruz.  Os integrantes da “Ala dos Impossíveis” ganharam notoriedade nos salões da classe média carioca, realizando apresentações sofisticadas no prestigiado clube High Life, na Glória, acompanhados pelas renomadas orquestras de Severino Araújo e Maestro Cipó.   

Esse trânsito cultural pavimentou o caminho para a inserção desses sambistas no incipiente mercado televisivo e cinematográfico da época, incluindo participações em comerciais da TV Tupi e produções de destaque nacional.

A força da “Ala dos Impossíveis” residia na densidade intelectual e artística da sua liderança. Esses sambistas acumularam funções como compositores, diretores de harmonia, instrumentistas e ativistas culturais, moldando a identidade portelense por gerações.

O marco definitivo da “Ala dos Impossíveis” na historiografia do carnaval carioca consolidou-se no desfile de 1957, sob o enredo “Legados de D. João VI”. Embalada pelo samba-enredo descritivo de autoria de Candeia, Waldir 59 e Picolino, a Portela promoveu um desfile impecável, apresentando-se inteiramente fantasiada com cerca de 1.200 componentes. Esse nível de organização contrastou com os desfiles de suas principais concorrentes, Mangueira e Império Serrano que, naquele ano, enfrentaram graves problemas de evolução e harmonia na Avenida.

Naquele desfile, o grande diferencial foi a introdução do "passo marcado", uma inovação estética liderada pela “Ala dos Impossíveis”. Os componentes se apresentaram com passos coreografados em perfeita sincronia, portando espadas como alegorias de mão. Essa introdução revela um interessante paradoxo da economia criativa do Carnaval: a coreografia rigorosa e o uso das espadas de mão foram deliberadamente planejados para atuar como uma distração visual.

Ala dos Invencíveis, 1957, Candeia, Valdir 59 e Darcy. Acervo da Portela

O objetivo era desviar a atenção, da Comissão Julgadora e do público, do acabamento precário das perucas de sisal utilizadas nas cabeças dos componentes, que sofriam com a escassez de recursos. Assim, a limitação material atuou como força motriz para a criação de uma das maiores inovações de linguagem corporal dos desfiles de escolas de samba.

A consolidação da estética de passos rigorosamente sincronizados e elegantes repetiu-se no desfile vitorioso de 1958. Naquele ano, a crônica carnavalesca registrou que para pertencer à “Ala dos Impossíveis” era imperativo ser "bamba, grande passista, disciplinado e elegante". Sob os olhares atentos dos jurados, a Ala exibiu-se em conjunto, mantendo passos milimetricamente iguais. Destacou-se também a atuação elegante do mestre-sala Ari, que chegou a executar passos de ballet clássico na avenida, dividindo os holofotes com a lendária porta-bandeira Vilma Nascimento.  

Em 1960, o Acadêmicos do Salgueiro inovou e surpreendeu ao trazer uma coreografia clássica elaborada por Mercedes Batista, consagrada bailarina do Teatro Municipal. Enquanto o Salgueiro importava a técnica e o rigor da academia erudita para a Avenida, a “Ala dos Impossíveis” da Portela refinava o próprio samba no pé popular, convertendo a espontaneidade do terreiro em uma coordenação geométrica e simétrica puramente comunitária.  

Seus integrantes portavam-se com extrema fidalguia: trajavam ternos de linho, gravatas e sapatos sob medida encomendados em sapateiros de Madureira. Esse cuidado obsessivo com a indumentária e com a elegância do porte não era uma mera vaidade estética, mas um ato de resistência sociocultural. Em um período de criminalização das práticas de matriz africana e de violenta repressão policial contra o samba, o sambista portelense que se apresentava vestido com rigor clássico e modos refinados subvertia o estereótipo do "malandro marginalizado" projetado pelas autoridades.

Era a aplicação da filosofia de Paulo da Portela, que via na elegância do terno e no sapato polido uma blindagem política para a sobrevivência social do sambista.  

A relação entre esses homens não era apenas profissional, era de convivência social. O samba era composto no ambiente da Escola, muitas vezes sob a supervisão das figuras mais velhas, garantindo que o enredo respeitasse a cadência e a história da agremiação.

Eles compartilhavam o que Candeia chamava de "Samba de Terreiro" (ou samba de quadra). A relação entre eles era baseada em um rigor estético: o samba precisava ser "o samba da Portela", com sua melodia característica, o uso do cavaquinho e o respeito ao enredo proposto.

A “Ala dos Impossíveis” funcionou como uma verdadeira academia formadora de talentos, cujos membros difundiram as técnicas de harmonia, ritmo e dança por todo o ecossistema do samba carioca.

Esse estilo de passo marcado e sincronizado gestado de forma orgânica nas ruas de Oswaldo Cruz diferia substancialmente de outras iniciativas que surgiriam posteriormente no Carnaval.

Essa busca incessante por autonomia e valorização das manifestações comunitárias tradicionais culminou na fundação do “Bloco Carnavalesco Rosa de Ouro”, em 17 de maio de 1970.

Concebido no coração de Oswaldo Cruz por integrantes históricos da Ala dos Impossíveis, como Candeia, Waldir 59, Bidi e Wanderley Francisco, o bloco foi batizado em homenagem ao célebre espetáculo musical “Rosa de Ouro”, idealizado por Cartola e Dona Zica nos anos 1960.  

Sob o ponto de vista ideológico, Candeia fundamentou o “Rosa de Ouro” com o mesmo espírito comunitário e defensivo dos Quilombos históricos. Tratava-se de um território de resistência para os sambistas tradicionais que se sentiam alienados pelas profundas transformações comerciais, financeiras e turísticas que começavam a descaracterizar os desfiles oficiais das escolas de samba na zona central da cidade. O bloco consolidou-se como um refúgio da tradição e do samba de raiz, vindo a se transformar em escola de samba anos mais tarde, sempre apadrinhada pela Portela.  

A flexibilidade artística desse grupo também se manifestava na sua capacidade de adaptar-se às demandas cênicas de grandes espetáculos, sem perder a essência da malandragem suburbana. Um episódio marcante envolveu o lendário produtor teatral Carlos Machado, que buscava passistas da Portela e da Ala dos Impossíveis para compor um show profissional em seus palcos da Zona Sul.

As tentativas iniciais esbarraram em limitações de ordem técnica: os palcos dos teatros eram pequenos demais para acomodar a amplitude física e a evolução coletiva da ala portelense. Diante do impasse, Waldir 59 indicou o dançarino "Tijolo", conhecido na quadra por suas expressões corporais extravagantes e improvisações excêntricas apelidadas de "maluquices". Tijolo adaptou-se com perfeição ao espaço restrito do teatro de revista, demonstrando a versatilidade corporal e a agilidade tática do passista de Oswaldo Cruz.  

 A Ala dos Impossíveis funcionou como uma verdadeira academia formadora de talentos, cujos membros difundiram as técnicas de harmonia, ritmo e dança por todo o ecossistema do samba carioca. Um exemplo proeminente dessa transição geracional é a trajetória de Jorge Pitanga. Ele ingressou na Portela aos 17 anos como componente da Ala dos Impossíveis. No ano seguinte, foi apadrinhado pelos mestres de bateria Marçal e Bombeiro, estreando como ritmista ao tocar um agogô de quatro bocas e, posteriormente, assumindo o surdo de terceira. Pitanga desfilou por três décadas na bateria portelense e, capitalizando o aprendizado de disciplina e evolução herdado da ala, atuou nos anos seguintes como Diretor Geral de Harmonia em agremiações como Beija-Flor de Nilópolis, União da Ilha do Governador e Paraíso do Tuiuti.  

A transmissão dessa herança cultural também ocorreu por vias sanguíneas e familiares, evidenciando uma forte linhagem de liderança feminina. Nilce Fran[1], filha do fundador Wanderley Francisco, cresceu imersa no universo da Ala dos Impossíveis e do bloco Rosa de Ouro. Seu pai desejava que ela abraçasse a carreira tradicional de porta-bandeira.

Contudo, ao experimentar as saias rodadas e o bailado ritualístico do pavilhão, a jovem sentiu um profundo incômodo com a restrição de espaço. Em suas próprias palavras, a dança de mestre-sala e porta-bandeira exigia uma entrega cênica em par que limitava sua liberdade de expressão corporal. Ela identificava-se como uma artista essencialmente solista, "dona de seus próprios movimentos", preferindo a liberdade criativa e a improvisação típicas do passista solista. Nilce Fran migrou para a ala de passistas, vindo a se tornar uma das maiores referências mundiais de samba no pé e de gestão de alas coreografadas.  

A introdução pioneira do passo marcado pela Ala dos Impossíveis provocou um efeito dominó de imitações e adaptações estéticas nas escolas concorrentes nas décadas de 1960 e 1970. Sambistas tradicionais apontam que a ala Sente o Drama, criada por Sérgio Jamelão no Império Serrano, foi uma resposta direta ao sucesso do grupo portelense. Essa difusão gerou debates acalorados entre os puristas do samba, que temiam que o excesso de ensaios coreografados e a posterior introdução de acrobacias e saltos mortais na comissão de frente e nas alas descaracterizassem o bailado livre e espontâneo dos antigos sambistas que cruzavam a passarela simplesmente sambando e evoluindo com maestria.    

A Ala dos Impossíveis foi um grupo muito numeroso — reunindo cerca de 60 passistas e 30 cabrochas na década de 1950, não há um registro público e oficial contendo o nome civil completo de todos os seus componentes da época. No entanto, existem registros de alguns nomes completos dos fundadores e dos baluartes mais célebres da Ala: 

1.      Waldir 59: Waldir de Souza (fundador e presidente da ala). 

2.     Candeia: Antônio Candeia Filho (cofundador e um dos principais líderes). 

3.     Casquinha da Portela: Otto Enrique Trepte.

4.     Picolino da Portela: Claudemiro José Rodrigues. 

5.     Wanderley Francisco (ou Wanderley Silva): Wanderley Francisco da Silva

6.     Jorge Pitanga: Jorge Pitanga

7.     Humberto de Carvalho, importante compositor da azul e branco

8.     Bubu da Portela: Jorge de Oliveira

Além destes, a Ala contava com outros nomes fundamentais que ficaram imortalizados na história da Portela por seus nomes artísticos ou apelidos, cujos nomes civis completos raramente aparecem nos registros históricos do Carnaval:

1.      Bidi ou Mestre Bidi, importante ritmista e também fundador do Bloco Rosa de Ouro);

2.     Mazinho do Natal, frequentemente citado apenas como Mazinho, filho do histórico patrono Natal da Portela);

3.     Irani ou Iranie, destacado passista do grupo;  

4.     Pneu, outro célebre passista de destaque da Ala.

Esses sambistas, conhecidos por seus apelidos ou nomes artísticos, merecem um esforço de recuperação de suas identidades. Eles contribuíram para a construção da Escola. Os amantes do samba e da Portela tem esta dívida moral para com os/as sambistas anônimos que levaram a Escola para a Avenida durante estes anos centenários, permitindo que a Portela seja sempre “A PORTELA”!

Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 27/05/2026


[1] Primeira mulher a ocupar a vice-presidência da Portela

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