Acesso
aos Editais: Diagnóstico e Propostas
A implementação da Política Nacional Aldir
Blanc (PNAB) representa um avanço histórico na democratização do acesso aos
recursos públicos destinados à cultura. No entanto, a participação dos artistas,
especialmente aqueles com atuação comunitária, periféricas, com práticas
baseadas na oralidade e com pouco acesso ao circuito comercial — ainda enfrenta
grandes barreiras. Essas dificuldades não decorrem de falta de interesse ou
capacidade do artista, mas de um conjunto de obstáculos estruturais que limitam
o acesso e a permanência desses grupos nas políticas de fomento.
Os editais da PNAB, assim como de outras
políticas culturais, utilizam uma linguagem jurídica e administrativa distante
da realidade dos mestres/as, brincantes, grupos tradicionais e artistas
populares. Termos como “proponente”, “contrapartida”, “inexequibilidade”,
“metas” e “indicadores”, por exemplo, viram um labirinto e criam
um ambiente de exclusão simbólica.
Para quem é mestre de boi-de-mamão,
benzedeira, capoeirista, griô, pescador, só como exemplos, isso vira quase
outra língua e, muitas vezes, compreender o edital já é, por si só, um desafio ainda
maior do que elaborar o projeto. Efeito: o artista desiste antes de começar.
2. Exigências
documentais incompatíveis com a realidade dos grupos populares:
Grande parte dos artistas, principalmente
os dos setores tradicionais da cultura popular, não possui CNPJ, MEI, certidões
negativas, comprovantes formais de atuação cultural, assinatura gov.br ou conta
bancária individual. Suas práticas são comunitárias, transmitidas oralmente,
sem estrutura administrativa. A burocracia, ao exigir formalização, acaba
excluindo quem mantém tradições fundamentais para a identidade cultural
brasileira.
3. Barreiras
digitais:
A inscrição em plataformas como
TransfereGov, Mapas Culturais, Salic ou CultBR exige acesso regular à internet,
domínio de ferramentas digitais, e-mail ativo e capacidade de enviar documentos
digitalizados. Para muitos artistas populares, esse processo é inviável sem
apoio técnico. A dificuldade tecnológica se torna um filtro silencioso, mas
poderoso e excludente.
É frequente escutarmos que “hoje, todo
mundo tem um celular”. Supondo que a afirmação seja verdadeira, podemos
imaginar as dificuldades enfrentadas por quem não tem o hábito de preencher
formulários ou digitalizar documentos, enfrentar
a tela pequena do celular, com acesso precário a internet, tendo prazo para
preencher a documentação solicitada. Certamente não é uma tarefa fácil.
4. Falta de
apoio técnico nos municípios:
A maioria dos municípios não oferece
atendimento presencial contínuo, oficinas de escrita de projetos, equipes
itinerantes ou tradução dos editais para uma linguagem mais simples. Sem esse
suporte, a política cultural tende a beneficiar quem já domina a lógica dos
editais, reproduzindo as desigualdades históricas.
E, quando há a disponibilidade de apoio
administrativo para a inserção de dados nos formulários, esta disponibilidade –
na maior parte das vezes – possui a expectativa que a única dificuldade daquele
artista é o acesso ao preenchimento dos formulários. Quando na realidade, são
inúmeras as dificuldades que antecedem o preenchimento formal dos formulários
de acesso.
5. “Risco” da
prestação de contas:
A prestação de contas é percebida como um
risco real. Muitos artistas temem “fazer errado”, não entender
planilhas, não conseguir comprovar gastos ou enfrentar problemas com órgãos
públicos. Esse medo é legítimo e decorre da falta de orientação e da
inadequação dos modelos de prestação de contas às práticas culturais
tradicionais.
6.
Incompatibilidade entre o modelo de projeto e a lógica da cultura popular:
A cultura popular é contínua, comunitária,
oral e não linear. Já os editais exigem metas mensuráveis, cronogramas rígidos,
indicadores e orçamentos detalhados. Essa incompatibilidade faz com que muitos
mestres e grupos, populações indígenas e quilombolas, não se reconheçam no
formato exigido e não saibam adaptar suas práticas a modelos que não dialogam
com sua realidade.
7. Consequências
para a PNAB:
Essas barreiras resultam em baixa
participação dos artistas populares, distorção das práticas culturais para
caber nos editais, exclusão dos artistas que não se reconhecem nesse formato, concentração
de recursos em grupos mais escolarizados, invisibilização de práticas
tradicionais e desalinhamento entre os objetivos da PNAB e sua execução local. A
PNAB foi criada justamente para corrigir desigualdades históricas. Mas, se os
editais não forem acessíveis, ela acaba reforçando o que já existia: “Quem
tem formação escolar e experiência em projetos ganha. Quem mantém tradições,
saberes e práticas ancestrais fica de fora.”
Reiteramos que as dificuldades não são
individuais; são estruturais: histórico de exclusão educacional, falta de
políticas de formação continuada, burocratização excessiva da gestão pública, ausência
de equipes técnicas nos municípios, falta de reconhecimento da oralidade como
forma legítima de inscrição e comprovação.
O somatório dessas dificuldades representa uma
contradição que muitos conselhos de cultura e gestores estão enfrentando. A
política, que deveria reduzir desigualdades, acaba por reproduzi-las, mesmo que
não intencionalmente. E, está permitindo o surgimento de um nicho de mercado de
trabalho: a terceirização da sistematização do projeto. Aquele que escreve os
projetos e realiza o processo de inscrição. Se de um lado isto pode parecer
interessante, de outro desvincula o artista popular da forma como ele apresenta
seu trabalho para a sociedade, perdendo bastante de sua identidade.
Na medida que reconhecemos a enorme
importância desta política pública se faz necessário propor algumas
alternativas para minimizar os problemas levantados.
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| Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério |
Propostas:
1. Editais simplificados:
v Formulários curtos e objetivos;
v Inscrições por vídeo ou áudio, permitindo
que os artistas, mestres e mestras, brincantes, etc expliquem seus projetos
oralmente;
v Dispensa de CNPJ ou MEI, com possibilidades
de inscrição como pessoa física ou por meio de associações comunitárias ou
coletivos sem CNPJ, como já são aceitos nas premiações;
v
Reconhecimento
da oralidade como forma legítima de comprovação de atuação cultural;
v
Plataformas
interativas que facilitem as inscrições.
v Plantões de inscrição em centros culturais,
escolas, CRAS e Associações Comunitárias;
v
Equipes
itinerantes que visitem comunidades, terreiros, grupos tradicionais e mestres
para esclarecer os procedimentos e entender as dificuldades. Com calendário de
visitas amplamente divulgado nas comunidades;
v
Acompanhamento
individualizado durante todo o processo, da inscrição à prestação de contas,
com o objetivo de ampliar o acesso ao processo seletivo;
v
Possibilidade
de uso da internet em locais amplamente divulgados;
3. Prestação de
contas simplificada:
v Relatos das atividades por vídeo, fotos ou
depoimentos;
v Modelos de planilhas pré-preenchidos e
adaptados à realidade dos grupos populares;
v Orientação presencial e acompanhamento
técnico até o encerramento do projeto.
4. Formação
continuada:
v Oficinas de escrita de projetos em
linguagem simples;
v Alfabetização digital voltada para o uso
das plataformas culturais interativas;
v Formação de agentes culturais comunitários
capazes de apoiar mestres e artistas/grupos tradicionais;
5. Reconhecimento
e valorização dos mestres e mestras da cultura popular:
v Programas de Patrimônio Vivo com bolsas
permanentes;
v Editais específicos para transmissão de
saberes tradicionais.
v Ações que valorizem a oralidade, a
ancestralidade e a continuidade das práticas culturais.
6. Adequação
dos critérios de avaliação:
v Valorização da relevância cultural, da
trajetória e do impacto comunitário.
v
Menor
peso para aspectos técnicos como redação, indicadores e formalização.
v
Comissões
de avaliação com pareceristas que tenham experiência/conhecimento das
características da cultura popular.
Conclusão:
A plena participação dos artistas populares na PNAB depende da capacidade dos gestores públicos de reconhecer que a burocracia, a linguagem técnica e as exigências formais não são neutras: elas podem excluir. Para que a política cultural cumpra seu papel transformador, é necessário construir editais acessíveis, acolhedores, interativos e culturalmente adequados, que respeitem a diversidade de modos de existir, criar e transmitir saberes. Cabe aos Conselhos Municipais incentivar o debate, apresentar experiências exitosas que possam contribuir para acelerar novos procedimentos, defender a ampliação do acesso dos artistas/grupos mais populares e fora do circuito comercial as ações de fomento emanadas das políticas públicas.
A cultura popular não cabe em planilhas — e não deve caber. É a política pública que precisa se adaptar à cultura, e não o contrário!
Ilha da Magia, 06/05/2026


Olá Carmem, excelente reflexão sobre processo de democratização de acesso as fontes de recursos possibilitadas pela Politica Nacional Aldir Blanc e as dificuldades encontradas por grupos e artistas populares e de referencia cultural brasileira. Digo que, para além da dificuldade de interpretação dos conteúdo dos editais , as plataformas de inscrição e cadastro de projetos são objetos de estudo da mais alta complexidade, que nem artistas e produtores com experiência, preenchem com facilidade. A impressão que dá é justamente essa, de que este é o primeiro filtro, mas não foi para isso que a PNAB veio. Ainda há tempo !!!
ResponderExcluirObrigada, querida .. Estamos na batalha pra conseguir modificar as condições dadas!
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