Tive acesso a uma postagem, nas redes
sociais, onde a pessoa se manifestava contra o que ela chamou de “camarotização”
dos espaços púbicos em referencia ao último show “Todos no Rio”.
Mobilizando cerca de 2 milhões de pessoas, o
evento teve um retorno econômico estimado na casa de R$ 776 milhões a R$ 800
milhões para a cidade do Rio de Janeiro[1].
O impacto econômico gerado é calculado a
partir de uma combinação de dados reais coletados durante o evento e modelos
econômicos usados pelo setor de turismo. O ponto de partida é o gasto direto dos
visitantes, estimado em quanto os turistas nacionais e internacionais
desembolsam por dia em hospedagem, alimentação, transporte, lazer e compras.
Esse valor é multiplicado pelo número de visitantes e pelos dias de permanência
na cidade, formando a base do cálculo.
A partir daí, estimam-se os efeitos indiretos,
que representam o aumento de demanda que o evento provoca em toda a cadeia
produtiva — hotéis compram mais insumos, restaurantes reforçam estoques,
empresas de transporte ampliam serviços. Por fim, são considerados os efeitos
induzidos, que refletem o consumo adicional gerado pela renda extra de
trabalhadores locais envolvidos no evento, como garçons, motoristas, ambulantes, comerciários e funcionários de hotelaria.
Somando impacto direto, indireto e
induzido, adicionando ainda o valor estimado de exposição midiática e
fortalecimento da imagem da cidade, chega-se ao total divulgado. É
assim que eventos de grande porte, como os shows gratuitos, alcançam cifras que
ultrapassam centenas de milhões de reais e movimentam diversos setores da
economia.
Os megaeventos financiados com recursos
públicos podem gerar benefícios reais, sim: aquecem a economia, fortalecem o
turismo, ampliam o acesso à cultura e projetam a cidade nacionalmente. Esses
ganhos existem e devem ser reconhecidos. Mas nenhum benefício justifica
transformar o espaço público em território privatizado, nem afastar a população
que, direta ou indiretamente, paga a conta.
A situação se torna ainda mais grave
quando, além do dinheiro público, entram patrocinadores privados que passam a
ditar regras, ocupar áreas privilegiadas e controlar o acesso ao que deveria
ser de todos.
O que se vê, cada vez mais, é a aliança
entre verba pública e interesses privados, resultando em eventos que cercam
praças, bloqueiam avenidas e restringem o uso de bens coletivos. A população é
empurrada para fora, enquanto camarotes, lounges e setores VIP — muitas vezes
erguidos com infraestrutura paga pelo Estado — são reservados a convidados,
marcas e grupos privilegiados, criando a “camarotização” do espaço público.
Quando o poder público financia a estrutura e o privado ocupa o melhor espaço,
estamos diante de uma distorção profunda da finalidade pública.
Praças, parques, avenidas e orlas são bens
de uso comum de quem vive na cidade e, sua utilização deve preservar o
princípio da universalidade do acesso. Ao bloquear esses espaços, limitar a
circulação e afastar a população que deveria ser a principal beneficiária, o
Estado acaba promovendo uma apropriação privada de um bem coletivo. A situação
se agrava quando áreas exclusivas são criadas dentro de um evento financiado
com dinheiro público, pois isso significa que o erário está custeando
privilégios, e não políticas culturais inclusivas.
Além das questões legais — como possíveis
violações aos princípios da impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência — há impactos sociais relevantes. A elitização de eventos públicos
reforça desigualdades, gera sensação de exclusão e enfraquece a confiança da
população nas instituições.
A cultura, quando financiada pelo Estado,
deve ser instrumento de integração social. A criação de camarotes e convites
especiais, quando sustentada por verbas públicas, transforma o que deveria ser
um espaço de convivência democrática em um ambiente de segregação social.
Isso não significa que grandes eventos
sejam inadequados por natureza. Eles podem ser legítimos e até desejáveis
quando ampliam o acesso à cultura, fortalecem o turismo, movimentam a economia
local e respeitam o direito de ir e vir. Contudo, para que sejam compatíveis
com o interesse público, precisam garantir transparência nos contratos,
critérios claros de acesso, preservação dos espaços comuns e ausência de
privilégios financiados pelo Estado.
| Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério |
Diante disso, conclui-se que a realização de megaeventos com recursos públicos, quando acompanhada de restrições injustificadas ao acesso popular e da criação de áreas VIP exclusivas, configura prática incompatível com os princípios constitucionais e com a finalidade social do investimento público. Se o evento é pago pelo povo, o acesso deve ser do povo. Qualquer forma de exclusividade financiada pelos cofres públicos fere a lógica republicana e compromete a legitimidade da ação governamental.
É preciso afirmar com clareza: não é
aceitável que o Estado banque o palco enquanto o setor privado ocupa a primeira
fila. Não é aceitável que o povo arque com os custos e seja mantido atrás das
grades, enquanto marcas e convidados desfrutam de exclusividade em áreas que
pertencem à cidade. Isso viola princípios constitucionais, fere a moralidade
administrativa e compromete a legitimidade do investimento público.
A cultura financiada pelo Estado deve ser
instrumento de inclusão, não moeda de troca. Deve democratizar, não segregar.
Deve aproximar, não afastar. Quando o patrocínio privado se soma ao dinheiro
público, o dever do Estado é ainda maior: garantir que o interesse coletivo
prevaleça sobre qualquer privilégio comercial. O que não pode acontecer — e tem
acontecido — é o poder público atuar como sócio minoritário de um espetáculo
que exclui justamente quem deveria ser o protagonista: a população!
Reconhecer os benefícios dos megaeventos
não significa aceitar seus abusos. Pelo contrário: quanto maior o impacto
econômico e a presença de patrocinadores, maior deve ser a responsabilidade do
Estado em assegurar transparência, acesso universal e respeito ao caráter
público dos espaços urbanos.
Megaeventos podem existir, e podem ser positivos, mas precisam ser planejados para incluir, não para excluir; para fortalecer a cidade, não para privatizá-la temporariamente.
Em síntese, quando dinheiro público e o patrocínio
privado se juntam para produzir eventos que restringem o acesso popular e criam
áreas VIP em espaços públicos, o resultado é uma prática incompatível com a
lógica republicana. Se o recurso é público, o espaço é público, o acesso também
deve ser público. Qualquer modelo que transforme o povo em espectador distante
de um evento que ele mesmo financiou é injusto, antidemocrático e inaceitável.
Carmen
Evangelho
Ilha da
Magia, 08/05/2026
[1] Estimativa da Prefeitura do
Rio, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e da Riotur.
Nenhum comentário:
Postar um comentário