domingo, 10 de maio de 2026

 

Megaeventos e o espaço público! 

  

Tive acesso a uma postagem, nas redes sociais, onde a pessoa se manifestava contra o que ela chamou de “camarotização” dos espaços púbicos em referencia ao último show “Todos no Rio”.

Mobilizando cerca de 2 milhões de pessoas, o evento teve um retorno econômico estimado na casa de R$ 776 milhões a R$ 800 milhões para a cidade do Rio de Janeiro[1].

O impacto econômico gerado é calculado a partir de uma combinação de dados reais coletados durante o evento e modelos econômicos usados pelo setor de turismo. O ponto de partida é o gasto direto dos visitantes, estimado em quanto os turistas nacionais e internacionais desembolsam por dia em hospedagem, alimentação, transporte, lazer e compras. Esse valor é multiplicado pelo número de visitantes e pelos dias de permanência na cidade, formando a base do cálculo.

A partir daí, estimam-se os efeitos indiretos, que representam o aumento de demanda que o evento provoca em toda a cadeia produtiva — hotéis compram mais insumos, restaurantes reforçam estoques, empresas de transporte ampliam serviços. Por fim, são considerados os efeitos induzidos, que refletem o consumo adicional gerado pela renda extra de trabalhadores locais envolvidos no evento, como garçons, motoristas, ambulantes, comerciários e funcionários de hotelaria.

Somando impacto direto, indireto e induzido, adicionando ainda o valor estimado de exposição midiática e fortalecimento da imagem da cidade, chega-se ao total divulgado. É assim que eventos de grande porte, como os shows gratuitos, alcançam cifras que ultrapassam centenas de milhões de reais e movimentam diversos setores da economia.

Os megaeventos financiados com recursos públicos podem gerar benefícios reais, sim: aquecem a economia, fortalecem o turismo, ampliam o acesso à cultura e projetam a cidade nacionalmente. Esses ganhos existem e devem ser reconhecidos. Mas nenhum benefício justifica transformar o espaço público em território privatizado, nem afastar a população que, direta ou indiretamente, paga a conta.

A situação se torna ainda mais grave quando, além do dinheiro público, entram patrocinadores privados que passam a ditar regras, ocupar áreas privilegiadas e controlar o acesso ao que deveria ser de todos.

O que se vê, cada vez mais, é a aliança entre verba pública e interesses privados, resultando em eventos que cercam praças, bloqueiam avenidas e restringem o uso de bens coletivos. A população é empurrada para fora, enquanto camarotes, lounges e setores VIP — muitas vezes erguidos com infraestrutura paga pelo Estado — são reservados a convidados, marcas e grupos privilegiados, criando a “camarotização” do espaço público. Quando o poder público financia a estrutura e o privado ocupa o melhor espaço, estamos diante de uma distorção profunda da finalidade pública.

Praças, parques, avenidas e orlas são bens de uso comum de quem vive na cidade e, sua utilização deve preservar o princípio da universalidade do acesso. Ao bloquear esses espaços, limitar a circulação e afastar a população que deveria ser a principal beneficiária, o Estado acaba promovendo uma apropriação privada de um bem coletivo. A situação se agrava quando áreas exclusivas são criadas dentro de um evento financiado com dinheiro público, pois isso significa que o erário está custeando privilégios, e não políticas culturais inclusivas.

Além das questões legais — como possíveis violações aos princípios da impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência — há impactos sociais relevantes. A elitização de eventos públicos reforça desigualdades, gera sensação de exclusão e enfraquece a confiança da população nas instituições.

A cultura, quando financiada pelo Estado, deve ser instrumento de integração social. A criação de camarotes e convites especiais, quando sustentada por verbas públicas, transforma o que deveria ser um espaço de convivência democrática em um ambiente de segregação social.

Isso não significa que grandes eventos sejam inadequados por natureza. Eles podem ser legítimos e até desejáveis quando ampliam o acesso à cultura, fortalecem o turismo, movimentam a economia local e respeitam o direito de ir e vir. Contudo, para que sejam compatíveis com o interesse público, precisam garantir transparência nos contratos, critérios claros de acesso, preservação dos espaços comuns e ausência de privilégios financiados pelo Estado.

Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério 

Diante disso, conclui-se que a realização de megaeventos com recursos públicos, quando acompanhada de restrições injustificadas ao acesso popular e da criação de áreas VIP exclusivas, configura prática incompatível com os princípios constitucionais e com a finalidade social do investimento público. Se o evento é pago pelo povo, o acesso deve ser do povo. Qualquer forma de exclusividade financiada pelos cofres públicos fere a lógica republicana e compromete a legitimidade da ação governamental.

É preciso afirmar com clareza: não é aceitável que o Estado banque o palco enquanto o setor privado ocupa a primeira fila. Não é aceitável que o povo arque com os custos e seja mantido atrás das grades, enquanto marcas e convidados desfrutam de exclusividade em áreas que pertencem à cidade. Isso viola princípios constitucionais, fere a moralidade administrativa e compromete a legitimidade do investimento público.

A cultura financiada pelo Estado deve ser instrumento de inclusão, não moeda de troca. Deve democratizar, não segregar. Deve aproximar, não afastar. Quando o patrocínio privado se soma ao dinheiro público, o dever do Estado é ainda maior: garantir que o interesse coletivo prevaleça sobre qualquer privilégio comercial. O que não pode acontecer — e tem acontecido — é o poder público atuar como sócio minoritário de um espetáculo que exclui justamente quem deveria ser o protagonista: a população!

Reconhecer os benefícios dos megaeventos não significa aceitar seus abusos. Pelo contrário: quanto maior o impacto econômico e a presença de patrocinadores, maior deve ser a responsabilidade do Estado em assegurar transparência, acesso universal e respeito ao caráter público dos espaços urbanos.

Megaeventos podem existir, e podem ser positivos, mas precisam ser planejados para incluir, não para excluir; para fortalecer a cidade, não para privatizá-la temporariamente.

Em síntese, quando dinheiro público e o patrocínio privado se juntam para produzir eventos que restringem o acesso popular e criam áreas VIP em espaços públicos, o resultado é uma prática incompatível com a lógica republicana. Se o recurso é público, o espaço é público, o acesso também deve ser público. Qualquer modelo que transforme o povo em espectador distante de um evento que ele mesmo financiou é injusto, antidemocrático e inaceitável.

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 08/05/2026



[1] Estimativa da Prefeitura do Rio, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e da Riotur.

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