domingo, 31 de maio de 2026



Perdemos Edgar Morin!!!

   (08/07/21 – 29/05/2026)  


A cultura geral do passado tentava dar sentido às coisas. A especialização do presente fragmenta as coisas e destrói o sentido."(Edgar Morin)


A vida de Edgar Morin parece um romance histórico. Nasceu Edgar Nahoum, em Paris, filho único de uma família judia sefardita[1] de origem grega, em 8 de julho de 1921. Sua infância foi profundamente marcada por uma tragédia precoce: a perda de sua mãe quando ele tinha apenas 10 anos, um trauma que, segundo ele mesmo, o empurrou para os livros em busca de respostas sobre a vida e a morte.

Durante a 2ªGuerra Mundial, com a invasão da França pela Alemanha, em 1940, o jovem universitário viu seu mundo desmoronar. Foi nesse cenário de extrema opressão que nasceu o homem de ação — e o codinome que ele carregaria pelo resto da vida.

Em 1942, com a intensificação da perseguição aos judeus e a consolidação do regime colaboracionista de Vichy, Edgar Nahoum decidiu que não podia ficar de braços cruzados, fugiu para a zona sul da França, em Toulouse e, se engajou ativamente na Resistência Francesa. Foi nesse período de clandestinidade que ele adotou o pseudônimo Morin, um sobrenome comum que o ajudou a ocultar sua origem judaica e sua identidade real da Gestapo.

Sua atuação na Resistência foi multifacetada e de alto risco:

§  Propaganda Clandestina: Atuou como jornalista e panfletário nas forças do Front National (uma organização de resistência ligada ao Partido Comunista Francês). Ele escrevia, imprimia e distribuía jornais ilegais que mantinham viva a chama da oposição ao nazismo;

§  Logística e Conexões: Organizava redes de contatos, distribuía fundos e ajudava a coordenar ações de sabotagem e abrigo para outros perseguidos políticos;

§  A Libertação de Paris (1944): Morin participou ativamente dos combates e da organização popular que culminaram na retomada da capital francesa em agosto de 1944.

Com o final dos combates na França, Edgar tentou voltar a usar seu nome de nascimento, Edgar Nahoum. No entanto, ele já era tão conhecido nos círculos intelectuais e políticos como "Morin" que decidiu oficializar seu pseudônimo da Resistência, como sua identidade pública. Ele foi integrado ao exército regular francês como Tenente do primeiro Exército Francês enviado a Alemanha ocupada, atuando no governo militar em Lindau e Berlim. 

Essa experiência direta com os escombros da guerra e com a população alemã derrotada gerou seu primeiro livro, publicado em 1946: "O Ano Zero da Alemanha"[2], onde ele já se recusava ver o povo alemão com puro maniqueísmo,  tentando compreender a complexidade psicológica e social de um país destruído pelo totalitarismo.

 A vivência na Resistência moldou profundamente o seu pensamento. Foi na corda bamba entre a vida e a morte, lidando com a incerteza absoluta do amanhã, que Morin entendeu que a vida não pode ser reduzida a fórmulas matemáticas ou verdades absolutas.

Edgar Morin, foi um dos pensadores mais longevos e fascinantes da nossa época. Foi antropólogo, sociólogo e filósofo, destacando-se como um dos pensadores mais relevantes do século XX e XXI por propor uma profunda reforma do pensamento diante da crescente complexidade do mundo contemporâneo. Foi pesquisador do CNRS[3] e fundador da EHESS[4] e do CECMAS[5], publicou mais de 60 livros e se tornou referência especialmente na Europa e América Latina.  

Morin defendeu que o mundo moderno cometia um grande erro ao tentar compreender a realidade dividindo-a em caixinhas isoladas (as disciplinas acadêmicas tradicionais). Para ele, a realidade é tecida junta — que é a própria raiz da palavra "complexidade" (complexus = o que é tecido junto, entrelaçado).

Ele propôs rompermos com a fragmentação disciplinar ao defender a necessidade de integrar saberes, contextualizar informações e reconhecer a interdependência entre fenômenos biológicos, sociais, culturais e ambientais. Ao enfatizar que educar é formar modos de pensar capazes de lidar com incertezas, contradições e múltiplas dimensões da realidade, Morin nos ofereceu um referencial teórico indispensável para repensar práticas pedagógicas, especialmente em áreas como as Biociências, onde a compreensão sistêmica e relacional é fundamental.

Edgar Morin ocupa um lugar singular entre os grandes pensadores do nosso tempo porque ousou enfrentar aquilo que a maior parte das teorias evita: a complexidade da vida real. Em um mundo marcado por crises interligadas — ambientais, sociais, econômicas, tecnológicas, políticas — Morin foi um dos primeiros a afirmar que não podemos mais pensar de forma fragmentada. Para ele, compreender o mundo exige compreender as relações, não apenas as partes.

E sua importância nasce justamente dessa coragem intelectual. Ele não propôs apenas uma nova teoria, ele propôs uma reforma do pensamento. Ele mostrou que a educação, a ciência e a política se tornaram prisioneiras de especializações estreitas, incapazes de enxergar o todo. E, ao mesmo tempo, mostrou que o todo não existe sem as partes. Essa visão — dialógica, recursiva, hologramática — transformou a maneira como entendemos o conhecimento.

Para superar a fragmentação do conhecimento, Morin propôs uma reforma do pensamento baseada em três princípios fundamentais que ajudam a entender como tudo está interconectado:

v Princípio Dialógico: Morin argumenta que duas ideias opostas podem ser, ao mesmo tempo, inimigas e complementares. Por exemplo: a ordem e o caos na criação do universo;

v Princípio da Recursão Organizacional: É a quebra da lógica simples de causa e efeito. Um processo recursivo é aquele em que os produtos e os efeitos são, ao mesmo tempo, causas e produtores daquilo que os determina. Nós, indivíduos, produzimos a sociedade através de nossas interações, mas a sociedade também nos produz ao nos fornecer cultura e linguagem;

v Princípio Hologramático: Baseia-se na ideia de que, assim como em um holograma físico, a menor parte contém quase a totalidade da informação do objeto inteiro. O indivíduo está na sociedade, mas a sociedade (com sua cultura e regras) também está impregnada dentro de cada indivíduo.

No campo da educação, sua influência é profunda. Morin denunciou a escola que “enche cabeças” e defendeu a formação de cabeças bemfeitas: pessoas capazes de contextualizar, conectar, interpretar e agir com responsabilidade. Para ele, educar não é transmitir informações, mas formar modos de pensar que permitam lidar com incertezas, contradições e ambiguidades características centrais da vida contemporânea.

Sua relevância também se estende às ciências. Morin mostrou que fenômenos biológicos, sociais e culturais não podem ser compreendidos isoladamente. A vida é um sistema de sistemas, e qualquer tentativa de reduzila a uma única dimensão “produz cegueira”. Por isso, sua obra inspira áreas tão diversas quanto biociências, ecologia, comunicação, saúde coletiva, filosofia e políticas.

Mas talvez o ponto mais importante de toda a sua obra seja que Morin nos ensinou que complexidade não é complicação. É a arte de reconhecer que o real é tecido de múltiplas dimensões — e que pensar bem é aprender a navegar nesse tecido. Em tempos de polarização, simplificações agressivas e respostas fáceis para problemas difíceis, Morin se torna ainda mais necessário. Ele nos lembra que a lucidez exige humildade, abertura e diálogo.

Seu livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” escrito em 1999, a pedido da UNESCO, nos mostra a necessidade de mudança da educação para enfrentar o novo milênio, Ele apresenta como “Os 7 Saberes”:

1. As cegueiras do conhecimento:

Alerta que o conhecimento pode enganar: erros, ilusões, simplificações e visões fragmentadas distorcem a realidade.

A educação precisa ensinar a detectar e corrigir essas cegueiras, desenvolvendo pensamento crítico e autoconsciente.

2. O conhecimento pertinente:

O ensino deve superar a fragmentação disciplinar e promover conhecimento contextualizado, capaz de conectar partes e totalidades.

Compreender um fenômeno exige situálo no seu contexto, no seu conjunto e nas suas inter-relações.

3. Ensinar a condição humana:

A educação deve mostrar o ser humano em sua complexidade: biológica, cultural, social, psicológica e espiritual.

Morin defende que só entendemos o humano quando reconhecemos essa multidimensionalidade.

4. Ensinar a identidade terrena:

Vivemos em um planeta interdependente.

A educação precisa formar consciência de que todos compartilhamos a mesma “casa comum” — a Terra — e que os problemas ambientais, sociais e econômicos são globais e conectados.

5. Enfrentar as incertezas:

O futuro é imprevisível.

A escola precisa ensinar a lidar com incertezas, instabilidades e contradições, preparando as pessoas para um mundo em constante transformação.

6. Ensinar a compreensão:

A compreensão é um ato ético e cognitivo.

Educar para compreender significa desenvolver empatia, diálogo, respeito às diferenças e capacidade de interpretar o outro — condição essencial para a convivência humana.

7. A ética do gênero humano:

A educação deve promover uma ética que una indivíduo, sociedade e espécie.

Morin defende uma ética da solidariedade planetária, baseada na responsabilidade, na cooperação e no cuidado com a vida.


Por tudo isso, Edgar Morin permanece como uma das vozes mais importantes do século XXI: não porque ofereça soluções prontas, mas porque nos devolve a capacidade de pensar o mundo e a nós mesmos com mais profundidade, responsabilidade e humanidade.

Esperança não significa uma promessa. Significa um caminho, uma possibilidade, um perigo!” (Edgar Morin)


Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério
 




[1] Sefarditas são os judeus (e seus descendentes) originários da Península Ibérica — região que compreende os atuais territórios de Portugal e Espanha. O termo deriva da palavra hebraica Sefarad, que significa "Espanha".

[2] L'An Zero de l'Allemagne.

[3] Centre National de la Recherche Scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Cientifica) maior centro de pesquisa publica da França, fundado em 1939.

[4] École des Hautes Études en Sciences Sociales (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais), fundado por Edgar Morin em

[5] Centre d'Études des Communications de Masse (Centro de Estudo de Comunicação de Massa)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Perdemos Edgar Morin!!!    (08/07/21 – 29/05/2026)   “ A cultura geral do passado tentava dar sentido às coisas. A especialização do present...