Perdemos
Edgar Morin!!!
(08/07/21 – 29/05/2026)
“A
cultura geral do passado tentava dar sentido às coisas. A especialização do
presente fragmenta as coisas e destrói o sentido."(Edgar Morin)
Durante a 2ªGuerra Mundial, com a invasão
da França pela Alemanha, em 1940,
o jovem universitário viu seu mundo desmoronar. Foi nesse cenário de extrema
opressão que nasceu o homem de ação — e o codinome que ele carregaria pelo
resto da vida.
Em 1942, com a intensificação da
perseguição aos judeus e a consolidação do regime colaboracionista de Vichy,
Edgar Nahoum decidiu que não podia ficar de braços cruzados, fugiu para a zona
sul da França, em Toulouse e, se engajou ativamente na Resistência Francesa. Foi
nesse período de clandestinidade que ele adotou o pseudônimo Morin, um
sobrenome comum que o ajudou a ocultar sua origem judaica e sua identidade real
da Gestapo.
Sua atuação na Resistência foi
multifacetada e de alto risco:
§
Propaganda
Clandestina: Atuou como jornalista e panfletário nas forças do Front National
(uma organização de resistência ligada ao Partido Comunista Francês). Ele
escrevia, imprimia e distribuía jornais ilegais que mantinham viva a chama da
oposição ao nazismo;
§
Logística
e Conexões: Organizava redes de contatos, distribuía fundos e ajudava a
coordenar ações de sabotagem e abrigo para outros perseguidos políticos;
§
A
Libertação de Paris (1944): Morin participou ativamente dos combates e da
organização popular que culminaram na retomada da capital francesa em agosto de
1944.
Com o final dos combates na França, Edgar
tentou voltar a usar seu nome de nascimento, Edgar Nahoum. No entanto, ele já
era tão conhecido nos círculos intelectuais e políticos como "Morin"
que decidiu oficializar seu pseudônimo da Resistência, como sua identidade pública.
Ele foi integrado ao exército regular francês como Tenente do primeiro Exército Francês
enviado a Alemanha ocupada, atuando no governo militar em Lindau e Berlim.
Essa experiência direta com os escombros da guerra e com a população alemã derrotada gerou seu primeiro livro, publicado em 1946: "O Ano Zero da Alemanha"[2], onde ele já se recusava ver o povo alemão com puro maniqueísmo, tentando compreender a complexidade psicológica e social de um país destruído pelo totalitarismo.
Edgar Morin, foi um dos pensadores mais
longevos e fascinantes da nossa época. Foi antropólogo, sociólogo e filósofo,
destacando-se como um dos pensadores mais relevantes do século XX e XXI por propor uma profunda
reforma do pensamento diante da crescente complexidade do mundo contemporâneo. Foi
pesquisador do CNRS[3]
e fundador da EHESS[4]
e do CECMAS[5],
publicou mais de 60 livros e se tornou referência especialmente na
Europa e América Latina.
Morin defendeu que o mundo moderno cometia
um grande erro ao tentar compreender a realidade dividindo-a em caixinhas
isoladas (as disciplinas acadêmicas tradicionais). Para ele, a realidade é
tecida junta — que é a própria raiz da palavra "complexidade"
(complexus = o que é tecido junto, entrelaçado).
Ele propôs rompermos com a fragmentação disciplinar ao defender a necessidade de
integrar saberes, contextualizar informações
e reconhecer a interdependência
entre fenômenos biológicos, sociais, culturais e ambientais. Ao
enfatizar que educar é
formar modos de pensar capazes de lidar com incertezas, contradições e múltiplas
dimensões da realidade, Morin nos ofereceu um referencial teórico indispensável
para repensar práticas pedagógicas, especialmente em áreas como as Biociências,
onde a compreensão sistêmica e relacional é fundamental.
Edgar Morin ocupa um lugar singular entre
os grandes pensadores do nosso tempo porque ousou enfrentar aquilo que a maior
parte das teorias evita: a complexidade da vida real. Em um mundo marcado por
crises interligadas — ambientais, sociais, econômicas, tecnológicas, políticas
— Morin foi um dos primeiros a afirmar que não podemos mais pensar de forma
fragmentada. Para ele, compreender o mundo exige compreender as relações, não
apenas as partes.
E sua importância nasce justamente dessa
coragem intelectual. Ele não propôs apenas uma nova teoria, ele propôs uma
reforma do pensamento. Ele mostrou que a educação, a ciência e a política se
tornaram prisioneiras de especializações estreitas, incapazes de enxergar o
todo. E, ao mesmo tempo, mostrou que o todo não existe sem as partes. Essa
visão — dialógica, recursiva, hologramática — transformou a maneira como
entendemos o conhecimento.
Para superar a fragmentação do
conhecimento, Morin propôs uma reforma do pensamento baseada em três princípios
fundamentais que ajudam a entender como tudo está interconectado:
v
Princípio
Dialógico: Morin argumenta que duas ideias opostas podem ser, ao mesmo tempo,
inimigas e complementares. Por exemplo: a ordem e o caos na criação do universo;
v
Princípio
da Recursão Organizacional: É a quebra da lógica simples de causa e efeito. Um
processo recursivo é aquele em que os produtos e os efeitos são, ao mesmo
tempo, causas e produtores daquilo que os determina. Nós, indivíduos,
produzimos a sociedade através de nossas interações, mas a sociedade também nos
produz ao nos fornecer cultura e linguagem;
v
Princípio
Hologramático: Baseia-se na ideia de que, assim como em um holograma físico, a
menor parte contém quase a totalidade da informação do objeto inteiro. O
indivíduo está na sociedade, mas a sociedade (com sua cultura e regras) também
está impregnada dentro de cada indivíduo.
No campo da educação, sua influência é
profunda. Morin denunciou a escola que “enche cabeças” e defendeu a
formação de cabeças bem‑feitas:
pessoas capazes de contextualizar, conectar, interpretar e agir com
responsabilidade. Para ele, educar não
é transmitir informações, mas formar modos de pensar que permitam
lidar com incertezas, contradições
e ambiguidades — características centrais da vida contemporânea.
Sua relevância também se estende às
ciências. Morin mostrou que fenômenos biológicos, sociais e culturais não podem
ser compreendidos isoladamente. A vida é um sistema de sistemas, e qualquer
tentativa de reduzi‑la
a uma única dimensão “produz cegueira”. Por isso, sua
obra inspira áreas tão diversas quanto biociências, ecologia, comunicação, saúde
coletiva, filosofia e políticas.
Mas talvez o ponto mais importante de toda
a sua obra seja que Morin nos ensinou que complexidade não é complicação. É a
arte de reconhecer que o real é tecido de múltiplas dimensões — e que pensar
bem é aprender a navegar nesse tecido. Em tempos de polarização, simplificações
agressivas e respostas fáceis para problemas difíceis, Morin se torna ainda
mais necessário. Ele nos lembra que a lucidez exige humildade, abertura e
diálogo.
Seu livro “Os Sete Saberes Necessários à
Educação do Futuro” escrito em 1999, a pedido da UNESCO, nos mostra a
necessidade de mudança da educação para enfrentar o novo milênio, Ele apresenta
como “Os 7 Saberes”:
1. As cegueiras do conhecimento:
Alerta que o conhecimento pode enganar:
erros, ilusões, simplificações e visões fragmentadas distorcem a realidade.
A educação precisa ensinar a detectar e
corrigir essas cegueiras, desenvolvendo pensamento crítico e autoconsciente.
2. O conhecimento pertinente:
O ensino deve superar a fragmentação
disciplinar e promover conhecimento contextualizado, capaz de conectar partes e
totalidades.
Compreender um fenômeno exige situá‑lo no seu contexto, no seu conjunto e nas
suas inter-relações.
3. Ensinar a condição humana:
A educação deve mostrar o ser humano em sua
complexidade: biológica, cultural, social, psicológica e espiritual.
Morin defende que só entendemos o humano
quando reconhecemos essa multidimensionalidade.
4. Ensinar a identidade terrena:
Vivemos em um planeta interdependente.
A educação precisa formar consciência de
que todos compartilhamos a mesma “casa comum” — a Terra — e que os problemas
ambientais, sociais e econômicos são globais e conectados.
5. Enfrentar as incertezas:
O futuro é imprevisível.
A escola precisa ensinar a lidar com
incertezas, instabilidades e contradições, preparando as pessoas para um mundo
em constante transformação.
6. Ensinar a compreensão:
A compreensão é um ato ético e cognitivo.
Educar para compreender significa
desenvolver empatia, diálogo, respeito às diferenças e capacidade de
interpretar o outro — condição essencial para a convivência humana.
7. A ética do gênero humano:
A educação deve promover uma ética que una
indivíduo, sociedade e espécie.
Morin defende uma ética da solidariedade
planetária, baseada na responsabilidade, na cooperação e no cuidado com a vida.
Por tudo isso, Edgar Morin permanece como
uma das vozes mais importantes do século XXI: não porque ofereça soluções
prontas, mas porque nos devolve a capacidade de pensar o mundo e a nós mesmos
com mais profundidade, responsabilidade e humanidade.
“Esperança
não significa uma promessa. Significa um caminho, uma possibilidade, um perigo!”
(Edgar Morin)
| Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério |
[1] Sefarditas são os judeus (e
seus descendentes) originários da Península Ibérica — região que compreende os
atuais territórios de Portugal e Espanha. O termo deriva da palavra hebraica
Sefarad, que significa "Espanha".
[2] L'An Zero de l'Allemagne.
[3] Centre National de la
Recherche Scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Cientifica) maior centro de
pesquisa publica da França, fundado em 1939.
[4] École des Hautes Études en
Sciences Sociales (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais), fundado por
Edgar Morin em
[5] Centre d'Études des
Communications de Masse (Centro de Estudo de Comunicação de Massa)
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