domingo, 8 de fevereiro de 2026

 

As Tias no Samba!

Artur de Bem

 Carmen Evangelho 

“ ...Tia Ciata, mãe amor

O teu seio o samba alimentou

E a baiana se glorificou …”

(Samba Enredo do Império Serrano - 1983)

Ainda não fora assinada a Lei Áurea e um grande contingente de pessoas libertas já migravam da Bahia para o Rio de Janeiro, em busca de melhores condições de vida. Era a chamada diáspora baiana, composta por brasileiros e, também, africanos oriundos de várias nações: Nagôs, Yorubás, Malês, da Costa da Mina e/ou seus descendentes. Dentre eles, migraram várias mulheres, que no Rio ficaram conhecidas como Tias Baianas e que, para nós, são as Tias do Samba.

A maioria dessas Tias se concentrou perto da Praça Mauá e do Cais do Valongo, em uma região que mais tarde seria chamada de “Pequena África” pelo sambista Heitor dos Prazeres,dada a quantidade de negros que ali moravam e porque era o local onde desembarcavam os navios trazendo escravizados do outro lado do Atlântico.

A mais famosa dessas Tias e, de quem se tem mais informação, foi Hilária Batista de Almeida, nascida em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, em 1854, que mais tarde marcaria a história do samba e da organização do movimento negro na cidade o Rio de Janeiro como Tia Ciata.Com 22 anos e uma filha no colo, veio da Bahia para morar na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro, perto do Paço Imperial, atual Praça XV. Para sobreviver, ou vendia doces baianos nos seus tabuleiros pelas ruas do Centro ou fazia vestes de fé do candomblé. “Vestida com saia bordada a ouro ou seda, sandália acompanhando o bordado da saia”, era admirada por outrasbaianas! Isto fez com que, mais adiante, Tia Ciata ampliasse seu campo de atuação, primeiro alugando roupas como as suas para outras baianas de tabuleiro, vindo depois a manter uma equipe de vendedoras de doces a seu serviço nas esquinas do Centro. Tudo isso sem tirar seu tabuleiro da rua, já que ela vendeu doces ao longo de toda sua vida. No Rio de Janeiro, se tornou Mãe de Santo: Tia Ciata de Oxum!

Tia Ciata praticava sua cultura: sua religiosidade com os cultos de candomblé, o hábito de festas, de comemorações coletivas e religiosas, de reuniões familiares, da vida em conjunto,do acolhimento aos mais necessitados, ou os recém-libertos da escravidão, além da gastronomia, da música e de outros hábitos de convívio que iriam impregnar a cidade.

 Um deles, um tanto diferente do que a sociedade estava acostumada, é uma celebração quando algum ente querido vai para o outro mundo, chamada de Gurufim. É quase uma festa, para que a pessoa faça a passagem de uma forma feliz, e que seu espírito fique mais leve,carregando energias positivas. Uma tradição mantida pela comunidade da Pequena África,que criou raízes no meio do samba1.

As festas religiosas, “permitidas” pela polícia, de alguma maneira serviam para esconder as rodas de samba que aconteciam no quintal ao fundo. Quando ocorria alguma batida policial, dizia-se que era macumba. A polícia não sabia diferenciar, ia embora e o samba continuava. Mesmo sendo importunada pela polícia, Tia Ciata parece não ter enfrentado os mesmos problemas com a lei que enfrentou uma outra Tia Baiana, mais antiga, Tia Tereza, que servia angu, picadinho com batata e outros quitutes, pelas ruas do Rio. Primeiro no Largo de São Francisco, depois na Rua Uruguaiana, junto à grade da Igreja do Rosário e, por fim, para fugir da perseguição policial, passou a atender em sua casa, à Rua Luiz de Camões.

A casa de Tia Tereza era famosa pelo abrigo oferecido a órfãos, viúvas e menores abandonados; pelo busto de D. Pedro I na sala de visitas e, pelas grandes festas que promovia. Quando cansada, com a saúde precária e enfrentando as novas propostas urbanísticas do então prefeito Pereira Passos, que combatiam as casas de cômodos do Centro da cidade, Tia Tereza decidiu retornar para Maragogipe, no Recôncavo baiano onde nascera, o samba perdeu um conhecido ponto de encontro. Era “no tabuleiro, ou residência da Tia Tereza, que ossambistas sabiam das novidades. Qualquer brincadeira que houvesse, tinha que ir ali – ao bureau de informações.”

Esta gente enfezada

Que nas pernas tem destreza

Vem cair na batucada

Na casa da tia Tereza

Baiana do outro mundo

Eu sinto a perna bamba

O meu prazer é profundo

Aqui na roda do samba”. (Didi da Gracinda)2

Foi preciso encontrar um novo “bureau”. Havia o conhecido samba de João Alabá3, mas a preferência recaiu na nova casa de Tia Ciata, na Visconde de Itaúna 117, perto da Praça Onze. E foi ali que se realizaram grandes festas, inúmeras rodas de samba e muita batida de tambor para as religiões de origem africana. Ali, também, foi composta coletivamente a música “Pelo Telefone”, sendo registrada em nome de Donga e considerada por muitos como o primeiro samba gravado.


Praça XI - 1922

As Tias tiveram, também, muita influência na formação dos ranchos e nos primeiros blocos de carnaval popular. Tia Ciata, Tia Carmen e Tia Fé não só fundaram vários ranchos como incentivaram e batizaram outros tantos: Os ranchos “Rei de Ouro”, “Macaco é o outro”, “Dois de Ouro”, “Perola do Egito”, “Rancho das Sereias” e vários outros foram organizados por influência das tias baianas1.

Durante os anos em que Tia Ciata morou na Cidade Nova, várias Tias Baianas, famosas na época, frequentaram sua casa: Tia Perciliana (ou Preciliana, mãe de João da Baiana), Tia Bebiana (rezadeira e figura importante na fase inicial dos ranchos carnavalescos), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Carmem, Tia Mônica, Tia Sadata (Tia Sadata da Pedra do Sal, fundadora do rancho carnavalesco Rei de Ouro), Tia Gracinda ((esposa do sacerdote islâmico Assumano Mina do Brasil), Tia Tomásia, Tia Fé (fundadora do primeiro rancho do Morro da Mangueira, o Pérolas do Egito), Tia Dadá, Tia Veridiana, Tia Josefa Rica, Tia Cecília. E essas Tias não só frequentaram a casa da Tia Ciata, mas também organizavam festas nas suas próprias casas, com as mesmas características das festas da Tia Tereza ou da Tia Ciata. Nomes importantes da música popular da época frequentavam essas festas, de músicos a políticos influentes4, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos PAzeres e Chiquinha Gonzaga, eram presenças constantes nessas festas.


Carnaval na Pequena Africa - 1937

Olhando esse histórico de festas e ligação com o carnaval, compreendemos o papel das Tias Baianas na formação do samba. Era lá que muita coisa surgia. Os filhos dessas Tias, que a tudo assistiam desde o nascimento, acabaram aprendendo samba. Alguns deles: Donga e João da Baiana. Sobre este último, inclusive, você que está lendo, vai ganhar um doce se acertar o porquê desse nome artístico.

Esta tradição se perpetuou até mesmo depois da formação das atuais escolas de samba. Era nos quintais das Tias que aconteciam as rodas, onde eram cantados os sambas. Com o surgimento das Escolas de Samba, as reuniões nos quintais (terreiros) das Tias aglutinavam os sambistas. Na Portela, Dona Esther foi figura importante para reunir muitos dos que viriam a se tornar grandes sambistas da Escola. Outro exemplo é Tia Vicentina, que esquentava o samba azul e branco com seu famoso feijão, cantado em verso e prosa e foi seguida por Tia Eunice, Tia Doca e Tia Surica. No Império Serrano, Tia Eulália, Vó Maria, Tia Marta e Tia Líbia, arregimentavam sob a bandeira verde e branca. Na Mangueira, Tia Fé, Tia Tomásia, Tia Neuma, Tia Alice e Tia Suluca cumpriam este papel na escola verde e rosa. Isto, só para lembrar as mais famosas. As casas das Tias tornaram-se redutos de resistência da cultura africana na cidade do Rio de Janeiro.

A Ala das Baianas, obrigatória nas atuais escolas de samba, tem origem na homenagem às Tias do Samba que, com sua dedicação e acolhimento, mantiveram e fortaleceram, ao longo do século XX, as principais características do que hoje chamamos a cultura do samba.

Registramos aqui o nosso reconhecimento e homenagens à todas essas mulheres, nossas queridas Tias do Samba, que conseguiram perpetuar o que de mais acolhedor existe no samba: sua filosofia de vida!!!

 Referências:

1 Gurufim é uma herança dos escravizados bantos vindos da África Central e Ocidental.

2 Didi da Gracinda era do grupo de rancho “O Macaco é outro”

3 João Alabá: Balalorixá radicado no Rio de Janeiro, de origem Nagô, era Pai de Santo da maioria das Tias Baianas, entre elas, Tia Ciata e Tia Carmem.

4 Rancho que não fosse saudar a casa da Tia Ciata, da Tia Carmem ou da Tia Bebiana “era considerado como não tendo saído no Carnaval”.

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