quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 

Onde as narrativas se encontram?

 

O que há em comum entre a declaração do governador Jorginho Melo reiterando que Santa Catarina é o estado mais branco do país, a sua revogação da Lei de Cotas nas universidades estaduais catarinenses e as recentes declarações do ex-jogador Tulio sobre a sua filha não cursar as universidades públicas para as quais ela foi aprovada?

Quando o governador do Estado declara orgulhosamente que Santa Catarina é o estado mais branco do país, ele evidencia que as políticas públicas devem ser pensadas e aplicadas para o que ele chama de “maioria” da população. Evidência, também, um desconhecimento da realidade demográfica do estado que ele governa, onde os dados oficiais, mostram um crescimento vertiginoso da população preta, parda e outras[1] de 6,5% em 1980 para 23,8% em 2022, conforme mostra o gráfico abaixo.

Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1980 a 2022


Quando o mesmo governador revoga a Lei de Cotas para acesso às universidades públicas, ele está assumindo que as universidades públicas no estado além de desconsiderar todas as desigualdades sócioeconômicas existentes ao longo da nossa história, deverão priorizar o acesso da população branca, que majoritariamente vem definindo os destinos do estado catarinense.

Quando um conhecido ex-jogador de futebol declara que sua filha, aprovada em 2 conceituadas universidades públicas do Rio de Janeiro (UFRJ e UERJ) não cursará nenhum dos cursos para os quais ela foi aprovada e que receberam   avaliação máxima no ENADE[2], pois “a faculdade particular estaria mais alinhada aos princípios da família”, “o trajeto até a UFRJ envolve áreas perigosas, trânsito pesado e deslocamentos longos, além da ocorrência de greves e estrutura precária”, “a filha poderia sofrer críticas ou bullying por ser de família com boa condição financeira caso ocupasse uma vaga pública” e que era melhor “Deixar a vaga para quem precisa", torna público que os seus critérios para avaliar a formação profissional baseiam-sem em valores morais e não em competência.

Imagem retirada da pagina do Facebook
"Universidade Pública Tô Dentro"


No Brasil ainda existe uma disputa profunda sobre o valor do que é público e sobre quem pode ocupar esses espaços ou se beneficiar deles. Há, também, uma grande confusão entre o público e o privado, que muitas vezes se mistura com questões éticas e/ou morais, quando ações que deveriam ser tipicamente de interesse público atendem a interesses privados.

Quando enfocamos a educação pública e, no caso específico, as universidades públicas, evidenciamos nossos problemas estruturais decorrentes da enorme concentração de renda no país, que se refletem no acesso e permanência nos bancos escolares.  

Quando alguém com visibilidade social “desqualifica” a universidade pública, reforça o imaginário de que o que é público é pior, é ruim, é inferior. No caso das universidades públicas, mesmo que sucateadas, há um reconhecimento nacional e internacional que elas são o centro brasileiro da produção científica, que parte significativa da pesquisa brasileira nasce nas instituições públicas. Além disto, a universidade pública é um espaço de convivência democrática e, por definição, diversa — social, econômica, cultural e politicamente.

Quando alguém responsável pela implantação de políticas públicas realoca recursos públicos para o ensino privado no lugar que aplicar estes recursos para ampliação e modernização do ensino universitário público, como foi o caso em Santa Catarina do “Programa Universidade Gratuita”, privilegia-se o privado em detrimento do público, para atendimento do qual são pagos os tributos.

Historicamente ainda sobrevive o imaginário antigo e ultrapassado de que universidade pública é “para poucos”, e que esses poucos deveriam ser “intelectuais”, “pobres esforçados” ou “gênios”. A ampliação no acesso e na permanência e a política de cotas trabalham para corrigir desigualdades históricas, garantindo o acesso e a permanência de grupos sub representados.

O ensino superior público cumpre um papel social estratégico, além da formação de profissionais de alta qualificação para atender as necessidades técnicas, científicas e sociais do país é motor propulsor do desenvolvimento técnico-cientifico, espaço de debate democrático e plural, locus privilegiado da cultura e da memória do país, garantindo o acesso universal ao conhecimento como um bem público, patrimônio de toda a sociedade.

O que tem em comum as três narrativas: a intenção de fazer da educação e da cultura um patrimônio particular de alguns segmentos da sociedade, difundir a noção errônea do papel do Estado e das políticas educacionais, divulgar preconceitos e privilégios em detrimento do interesse coletivo. Afinal, é elemento chave para um país soberano a igualdade de oportunidades!  

 

Carmen Evangelho

Ilha de Magia 11/02/2026


[1] Dados censitários do IBGE para o período de 1980 a 2022. A categoria “outras” para o IBGE compreende os indígenas, mamelucos, ciganos, etc

[2]ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes)  avaliação obrigatória do Ministério da Educação (MEC) que mede o aprendizado dos concluintes de graduação, avaliando conteúdos, competências e habilidades em relação às diretrizes curriculares, servindo para aferir a qualidade do ensino superior, gerar indicadores de qualidade para os cursos e instituições, e sendo um requisito para o diploma do estudante.

[2]

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