“Ninguém
vai chorar pelo IRÔ???
No dia 28 de fevereiro de 2026, quando os
EUA e Israel bombardearam o Irã, o jornal Estadão publicou um editorial com o
título “Ninguém vai chorar pelo Irã”, com os seguintes argumentos: “Irã
é um “Estado pária”, “sua queda seria positiva para o mundo”, “ninguém
no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”.
A reação nas redes sociais e na imprensa
alternativa foi grande: “insensível diante das mortes que já estavam
ocorrendo”, “apoio explícito à ofensiva militar”, “desumanização
d0 povo iraniano”, “naturaliza bombardeios”, “desconsidera o
sofrimento de civis”, “transforma geopolítica em justificativa moral
para violência”, “confunde governo com o povo”, etc.
Nos dias seguintes, relatos de mortes de
civis — incluindo meninas em uma escola em Minab — tornaram o editorial ainda
mais polêmico, pois o texto parecia não só minimizar as vidas perdidas como
considerar que estas vidas iranianas valiam menos do que as vidas americanas ou
israelenses.
Quem são os iranianos? São qualquer pessoa
que nasce no Irã, independentemente de etnia, língua ou cultura. O Irã é um
país multiétnico, com vários grupos: Persas, Azeris, Curdos, Árabes, Lurs, Balúchis, Turcomenos, Armênios, Assírios,
entre outros. Os “Persas” são um grupo
étnico e cultural específico com língua própria (persa/farsi), tradição
cultural (poesia, arte, culinária, costumes) e herança histórica ligada aos
antigos impérios persas. São o maior grupo étnico do Irã, mas não representam
todos os iranianos. A cultura
persa é a base da identidade iraniana, embora seja uma das identidades que
formam o Irã.
Quando li o editorial, tudo que me veio a
cabeça foi: “como pode a humanidade não chorar por uma cultura milenar, que
tanto contribuiu para o que somos hoje???” Lembrei os livros de história
que me ensinaram sobre a cultura persa[1]
(o atual Irã) uma das mais antigas da história humana. Poucas civilizações
deixaram um legado tão profundo e tão duradouro em áreas como política,
filosofia, arte, ciência, arquitetura, medicina, literatura e espiritualidade.
A antiga Pérsia não foi apenas um império
poderoso; ela foi um laboratório de ideias que moldaram o mundo, nos legando alguns
dos pilares mais marcantes da humanidade:
ü Política e administração: o primeiro “Estado moderno”: a Pérsia criou modelos administrativos que influenciaram impérios posteriores, incluindo o romano: [2] sistema de províncias (satrapias) com governadores locais, rede de estradas extremamente avançada, incluindo a famosa Estrada Real, serviço postal organizado, algo revolucionário para a época, tolerância religiosa e cultural como política de Estado — uma ideia extremamente contemporânea, padronização de pesos, medidas e moeda.
Ciro, o Grande[3], é frequentemente lembrado como um dos primeiros governantes a tratar dos direitos humanos, com o Cilindro de Ciro, que defendia liberdade religiosa e o fim da escravidão por conquista;
ü Religião e Filosofia: O Zoroastrismo — surgido entre 1500 e 1000 a.C. (com consolidação por volta de 600 a.C.), fundado por Zaratustra (Zoroastro), com ideias que influenciaram o judaísmo pós-exílio[4], o cristianismo e o islamismo:dualidade bem/mal,livre-arbítrio, julgamento após a morte, céu e inferno;
ü
Ciência, Matemática e Medicina: A Pérsia (hoje Irã) deu a humanidade
pensadores que preservaram e expan;diram o conhecimento grego, indiano e árabe.
§
Idade
de Ouro Islâmica (séculos VIII–XIII):
quando muitos dos maiores cientistas eram persas;
§ Al-Khwarizmi (século IX): Pai da álgebra, Origem da palavra “algoritmo”;
§ Avicena / Ibn Sina (980–1037): o cânone da Medicina (usado na Europa até o século XVII)
§ Omar Khayyam (1048–1131): Reformas no calendário, avanços em álgebra e geometria;
§ Al-Biruni (973–1048): Polimata[5], defensor do método científico, maior matemático aplicado antes da era moderna, projeção do mapa equidistante azimutal; Relógio Astrolábio, aplicação da Lei dos Senos, Teorema da Corda Quebrada
ü Arte, Arquitetura e Estética:
§Aquemênidas (550–330 a.C.): Construção de Persépolis[6], Primeiros jardins persas (pairidaeza → “paraíso”)
§ Império Sassânida (224–651 d.C.): Arquitetura monumental com arcos e cúpulas, motivos artísticos que influenciaram o mundo islâmico;
§ Período Islâmico Persa (a partir de 651 d.C.): miniaturas persas (séculos XIII–XVI), tapeçaria persa (séculos XV–XVII especialmente), arquitetura islâmica persa (mesquitas de Isfahan, século XVII);
ü Literatura e poesia:
§
Período
Islâmico Persa (séculos X–XIV)
— a era de ouro da poesia persa, que influenciou profundamente a literatura
mundial.
§ Ferdowsi (940–1020): Shahnameh (Épico nacional da Pérsia)
§ Omar Khayyam (1048–1131): Rubaiyat
§ Rumi (1207–1273): Poesia mística sufi
§ Saadi (1210–1291): Bustan e Gulistan
§ Hafez (1315–1390): Um dos poetas mais influentes da história
ü Influência cultural duradoura:
§
Da
Antiguidade ao período moderno
Ø
Influência
sobre o mundo grego (Alexandre, século IV a.C.)
Ø
Influência
sobre o mundo islâmico (a partir do século VII)
Ø
Influência
sobre a Índia Mogol (séculos XVI–XVIII): O Taj Mahal tem forte estética persa;
Ø
Influência
na Europa (Renascimento e Romantismo): traduções de Jalal ad-Din Rumi
(1207–1273), Hafez de Shiraz (aprox.
1315–1390) e Omar Khayyam
(1048–1131);
Ø
Influência
contemporânea: Rumi é um dos poetas mais
lidos do mundo hoje.
Enquanto o mundo ocidental chamava o país
de Pérsia, os próprios habitantes sempre chamaram sua terra de Irān (ایران), que significa: “Terra
dos Arianos” (no sentido histórico de povos indo-europeus, não no sentido
político moderno). Esse nome aparece em textos persas há mais de 2.000 anos.
“Pérsia” era um nome grego que vem de
Persis, a província de Fars, berço do Império Aquemênida. Ou seja, era um nome
regional que os gregos usaram para se referir ao império inteiro. Em 1935, a Pérsia
passou a se chamar oficialmente “Irã”
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| Mapa dos dominios do Império Persa |
Patrimônios da Pérsia Antiga (UNESCO +
arqueologia)
1.
Persépolis (Aquemênida – 518 a.C.): Capital cerimonial de Dario I e Xerxes.
Um dos maiores símbolos da civilização persa. Destaques: escadarias monumentais, relevos de povos do
império, palácios e salas de audiência;
2. Pasárgada (Aquemênida – 546 a.C.): Primeira
capital do Império Persa, fundada por Ciro, o Grande.Inclui: túmulo de Ciro, jardins
persas originais (modelo do “paraíso”), palácios e terraços;
3.
Susa (Elamita, Aquemênida e Sassânida): Uma das cidades mais antigas do mundo, capital de vários
impérios. Importância: centro administrativo de Dario I, local da inscrição de
Dario (Código de Susa), palácio real reconstruído pelos persas;
4. Tchogha Zanbil (Elamita – 1250 a.C.):
um dos poucos zigurates fora da Mesopotâmia. É especial por sua arquitetura
religiosa elamita, pela preservação
impressionante e pela mostra da base pré-persa da região;
5. Bisotun (Aquemênida – 520 a.C.): Inscrição
monumental de Dario I, gravada em um penhasco. Destaques: texto trilíngue
(persa antigo, elamita, acádio), narrativa da ascensão de Dario, “Pedra de
Roseta” da escrita cuneiforme persa;
6. Takht-e Soleyman (Sassânida – séc.
III–VII d.C.): Centro
religioso do zoroastrismo. Inclui: templo do fogo, palácio sassânida, lago
sagrado;
7. Shushtar – Sistema Hidráulico
(Aquemênida e Sassânida): Obra-prima de engenharia antiga, com canais, túneis,
moinhos e represas;
8. Cidadela de Bam (Aquemênida, Parta e
Sassânida). maior estrutura de adobe do mundo, com a importância da Rota da
Seda e da arquitetura militar persa,;
9. Gonbad-e Qabus (Pré-islâmico tardio –
1006 d.C.): Embora já no
início do período islâmico, sua arquitetura deriva diretamente da tradição
persa pré-islâmica, com destaque a torre funerária monumental e a geometria
perfeita;
10. Complexo Arqueológico de Firuzabad
(Sassânida): Fundado por
Ardashir I, o primeiro rei Sassânida, inclui: palácio de Ardashir, cidade
circular de Gur, arquitetura palaciana pré-islâmica;
11. Complexo Sassânida do Fars (UNESCO): Conjunto de sítios que mostram o auge da
Pérsia antes do Islã e inclui: Bishapur, Sarvestan, Naqsh-e Rostam (túmulos dos
reis aquemênidas), Naqsh-e Rajab (relevos sassânidas).
Pensar que um patrimônio cultural de mais
de três mil anos pode ser bombardeado e a humanidade perder estes tesouros
provoca em qualquer pessoa um sentimento de tristeza enorme, pois nenhum destes
patrimônios poderá ser reconstruído. É uma perda irreparável para a história
humana. Um patrimônio que foi construído com muito esforço, por homens e
mulheres em diversas épocas da história da humanidade, um tesouro de beleza única,
que expressa os sonhos, esperanças e desesperanças de milhares de gerações que
viveram, trabalharam e construíram aquele país.
Vamos chorar pelo Irã sim, pelas mulheres
que. durante milênios lutaram por liberdade, pelos jovens que sonharam com
futuro, pelas minorias étnicas que exigiram dignidade, pelas famílias que só quiseram
viver em paz.
Vamos chorar pelo Irã sim, em respeito as
milhões de pessoas daquele território que ali viveram e que legaram a
humanidade tesouros incomensuráveis como testemunho de suas vidas. Vamos chorar
pelo Irã sim, por todos os civis mortos numa guerra sem sentido e que estão
pegando em armas para defender sua pátria e sua cultura. Vamos chorar pelo Irã
sim, por todos os frutos que a cultura persa nos legou e que estão sendo destruídos.
Vamos chorar pelo Irã sim, pois muito do que somos e sabemos hoje nos foi
deixado pela cultura que construíram. Vamos chorar pelo Irã sim, pois como
disse o poeta: “somos humanos e nada do que é humano nos é estranho[7]”!
Chorar pelo Irã é chorar pela história da civilização!
[1]
Cultura persa
[3] Períodos
de Ciro, o Grande (559–530 a.C.) e Dario I (522–486 a.C.):
[4]
Judaísmo pós‑exílio” é o judaísmo reconstruído após o retorno da Babilônia, marcado
pela centralidade da Torá, pela reconstrução do Templo e por profundas reformas religiosas e sociais.
[5]
Pessoa que possui mutas habilidades em vários campos do conhecimento com capacidade
de integra-los.
[6] Persepolis:
as ruínas monumentais de Persépolis são patrimônio da humanidade da UNESCO
[7]
Frase do dramaturgo romano do século II a, C ( por volta de 165 a. C.) Públio
Terêncio Afro (Terêncio), na sua peça Heauton Timorumenos ("O
Auto-torturador").

Muito bom o texto,Carmen kerida.Elucidativo e aprofundado.na pesquisa,o que, infelizmente, temos perdido com a instantaneidade de informações, desinformações e artificialidades.A antiga Pérsia nos deixou um legado inestimável.Ultimamente choro pela humanidade "demasiadamente humana", que,definitivamente perdeu as rédeas da sensatez e da empatia.Bjkas kósmikas. #oAmorSIM
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