Brasil Século XXI - Migração, Racismo
e os Desafios da Inclusão!
O Brasil é um país de imigrantes. Desde o
século XVI, diferentes povos chegaram aqui — uns forçados, outros por fuga,
outros por promessa de oportunidade. Mas essa narrativa esconde uma verdade
incômoda: nem todas as migrações foram tratadas da mesma forma, e a imigração
do século XXI expõe feridas históricas que o país nunca curou.
Migrar é um ato profundamente humano. É
carregar histórias, memórias, perdas, sonhos e medos. É deixar para trás um
mundo e tentar construir outro. Mas, quando essas histórias atravessam
fronteiras geográficas, elas encontram barreiras invisíveis: o racismo, a
xenofobia, a desconfiança e a desigualdade estrutural.
Quando o país diz que “é feito de
imigrantes”, geralmente se refere aos europeus que chegaram entre 1870 e
1930 e ignora as centenas de povos indígenas que aqui viviam antes do século XV.
Segundo o IBGE, mais de 4 milhões de
europeus entraram no Brasil nesse período — italianos, alemães, espanhóis,
portugueses, japoneses. Eles foram incentivados pelo Estado, recebidos com
terras, apoio institucional e integrados a um projeto explícito de embranquecimento
da população após a abolição.
Enquanto isso, cerca de 4,8 milhões de
africanos foram trazidos à força, escravizados, desumanizados e impedidos de
construir pertencimento. Essa migração forçada raramente é chamada de “imigração”
— e isso diz muito sobre como o país hierarquiza vidas.
Hoje, o cenário é outro. Segundo o
Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), os principais fluxos
atuais vêm de: Venezuela (crise humanitária), Haiti (terremoto de 2010 e
instabilidade política), Senegal, Nigéria, Angola (racismo global, falta de
oportunidades, conflitos), Síria (guerra civil), Bangladesh e Índia (trabalho
precarizado e redes migratórias). Ou seja: a imigração atual é majoritariamente
racializada.
E o Brasil — que nunca enfrentou seu
racismo estrutural — reage de forma diferente quando quem chega não é branco,
europeu ou “assimilável”.
Há grandes dificuldades de inserção quando
a fronteira é o cotidiano. A chegada a um novo país é sempre difícil, mas no
Brasil contemporâneo ela se torna ainda mais complexa. Dados ajudam a entender
o tamanho do desafio:
1.
Barreiras linguísticas e comunicacionais:
Segundo o ACNUR[1]
mais de 60% dos refugiados no Brasil têm dificuldade de acessar serviços
públicos por causa da língua. Sem políticas de tradução, a vida cotidiana vira
um labirinto.
2.
Reconhecimento profissional negado:
De acordo com o OBMigra[2],
apenas 12% dos imigrantes conseguem trabalhar na sua área de formação. Engenheiros
viram entregadores. Professores viram auxiliares de limpeza. Artistas viram
ambulantes. Enfermeiras viram cuidadoras informais. O país perde talentos; as
pessoas perdem dignidade. A burocracia do reconhecimento dos diplomas escolares
colabora para a exclusão.
3.
Precarização econômica:
O Dieese aponta que imigrantes ganham, em
média, 30% menos que brasileiros na mesma função. E são mais expostos a: informalidade,
jornadas exaustivas, exploração trabalhista, moradias precárias.
4.
Racismo e xenofobia como filtros:
Uma pesquisa da OIM[3]
mostra que mais de 50% dos imigrantes negros relatam discriminação racial no
Brasil. O sotaque vira barreira. O nome vira barreira. A cor da pele vira
barreira.
5.
Solidão e saúde mental:
Segundo o ACNUR, a solidão é o principal
fator de sofrimento psíquico entre refugiados no Brasil. Migrar é também
perder: perder referências, vínculos, paisagens afetivas. Se não conseguimos colocar alguma coisa no lugar do que perdemos a dor fica ainda maior.
6. A cena cultural ainda é um clube fechado:
Artistas migrantes enfrentam: editais que exigem documentação incompreensível,
redes culturais fechadas, exotização de seu trabalho, falta de reconhecimento
institucional.
Um exemplo concreto: Em São Paulo, um
levantamento do Sesc (2022) mostrou que menos de 2% das programações culturais
incluíam artistas migrantes, apesar da enorme produção existente no Estado de SP.
7.
O mito do país acolhedor:
O Brasil gosta de se ver como aberto,
caloroso, miscigenado. Mas essa autoimagem impede que o país reconheça: seu
racismo estrutural, sua xenofobia cotidiana, suas desigualdades históricas, suas
fronteiras simbólicas. Dentro da sua imensidão territorial, estes fenômenos sociais
se reproduzem de maneira desigual, com regiões onde são mais acirrados e outras
mais camuflados.
8.
O mito do acolhimento mascara a realidade:
Não
basta dizer “bem-vindo” se as portas continuam fechadas, se a
documentação demora, a burocracia emperra e, sobretudo, se a língua dificulta
a comunicação sutil e torna incompreensível as nuances da conversa.
9.
A arte como território de resistência e encontro
Apesar das barreiras, artistas migrantes
seguem criando. Criam porque precisam, porque resistem, porque a arte é uma
forma de existir. Exemplos recentes mostram isso: Coletivos haitianos que
reinventam o teatro comunitário em Santa Catarina. Artistas senegaleses que
transformam o maracatu ao misturá-lo com ritmos do oeste africano. Venezuelanos
que revitalizam a música de rua em Roraima. Sírios que introduzem novas
sonoridades na música instrumental brasileira e novos gostos na culinária.
Quando a arte migrante encontra espaço, ela
transforma. Quando encontra escuta, ela desloca. Quando encontra
reconhecimento, ela floresce — e faz florescer o entorno.
10.
Pertencimento: mais que acolhimento, um direito
Pertencer não é apenas estar em um lugar; é
ser reconhecido por ele. É ter voz, espaço, direitos. É ser visto como parte da
comunidade, e não como visitante permanente.
É permitir que o outro contribua na
construção do cotidiano. Construir pertencimento exige políticas públicas, mas
também exige gestos de escuta, respeito, convivência intercultural.
No fim, a pergunta é outra: Se somos um
país de imigrantes desde 1500, por que a imigração do século XXI enfrenta
tantos problemas?
Porque agora ela nos obriga a olhar para
aquilo que sempre evitamos: nosso racismo, nossa desigualdade, nossa
dificuldade de lidar com a diferença. É, também, reconhecer que os povos
originários sempre estiveram aqui e foram desrespeitados.
A
questão não é sobre quem chega. É sobre quem somos — e quem queremos ser.
Uma
sociedade que ergue muros ou que constrói pontes?
Uma
sociedade que teme a diferença ou que se transforma com ela?
Uma
sociedade que desumaniza ou que reconhece?
A
resposta nasce no encontro e no diálogo.
E
encontros e dialogos são sempre o primeiro passo!!!
| Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério |
Carmen
Evangelho
Ilha da Magia
23/06/2026
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