terça-feira, 23 de junho de 2026

 

Brasil Século XXI - Migração, Racismo e os Desafios da Inclusão!

 

O Brasil é um país de imigrantes. Desde o século XVI, diferentes povos chegaram aqui — uns forçados, outros por fuga, outros por promessa de oportunidade. Mas essa narrativa esconde uma verdade incômoda: nem todas as migrações foram tratadas da mesma forma, e a imigração do século XXI expõe feridas históricas que o país nunca curou.

Migrar é um ato profundamente humano. É carregar histórias, memórias, perdas, sonhos e medos. É deixar para trás um mundo e tentar construir outro. Mas, quando essas histórias atravessam fronteiras geográficas, elas encontram barreiras invisíveis: o racismo, a xenofobia, a desconfiança e a desigualdade estrutural.

Quando o país diz que “é feito de imigrantes”, geralmente se refere aos europeus que chegaram entre 1870 e 1930 e ignora as centenas de povos indígenas que aqui viviam antes do século XV.

Segundo o IBGE, mais de 4 milhões de europeus entraram no Brasil nesse período — italianos, alemães, espanhóis, portugueses, japoneses. Eles foram incentivados pelo Estado, recebidos com terras, apoio institucional e integrados a um projeto explícito de embranquecimento da população após a abolição.

Enquanto isso, cerca de 4,8 milhões de africanos foram trazidos à força, escravizados, desumanizados e impedidos de construir pertencimento. Essa migração forçada raramente é chamada de “imigração” — e isso diz muito sobre como o país hierarquiza vidas.

Hoje, o cenário é outro. Segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), os principais fluxos atuais vêm de: Venezuela (crise humanitária), Haiti (terremoto de 2010 e instabilidade política), Senegal, Nigéria, Angola (racismo global, falta de oportunidades, conflitos), Síria (guerra civil), Bangladesh e Índia (trabalho precarizado e redes migratórias). Ou seja: a imigração atual é majoritariamente racializada.

E o Brasil — que nunca enfrentou seu racismo estrutural — reage de forma diferente quando quem chega não é branco, europeu ou “assimilável”.

Há grandes dificuldades de inserção quando a fronteira é o cotidiano. A chegada a um novo país é sempre difícil, mas no Brasil contemporâneo ela se torna ainda mais complexa. Dados ajudam a entender o tamanho do desafio:

1. Barreiras linguísticas e comunicacionais:

Segundo o ACNUR[1] mais de 60% dos refugiados no Brasil têm dificuldade de acessar serviços públicos por causa da língua. Sem políticas de tradução, a vida cotidiana vira um labirinto.

2. Reconhecimento profissional negado:

De acordo com o OBMigra[2], apenas 12% dos imigrantes conseguem trabalhar na sua área de formação. Engenheiros viram entregadores. Professores viram auxiliares de limpeza. Artistas viram ambulantes. Enfermeiras viram cuidadoras informais. O país perde talentos; as pessoas perdem dignidade. A burocracia do reconhecimento dos diplomas escolares colabora para a exclusão.

3. Precarização econômica:

O Dieese aponta que imigrantes ganham, em média, 30% menos que brasileiros na mesma função. E são mais expostos a: informalidade, jornadas exaustivas, exploração trabalhista, moradias precárias.

4. Racismo e xenofobia como filtros:

Uma pesquisa da OIM[3] mostra que mais de 50% dos imigrantes negros relatam discriminação racial no Brasil. O sotaque vira barreira. O nome vira barreira. A cor da pele vira barreira.

5. Solidão e saúde mental:

Segundo o ACNUR, a solidão é o principal fator de sofrimento psíquico entre refugiados no Brasil. Migrar é também perder: perder referências, vínculos, paisagens afetivas. Se não conseguimos colocar alguma coisa no lugar do que perdemos a dor fica ainda maior.

6. A cena cultural ainda é um clube fechado:

Artistas migrantes enfrentam: editais que exigem documentação incompreensível, redes culturais fechadas, exotização de seu trabalho, falta de reconhecimento institucional.

Um exemplo concreto: Em São Paulo, um levantamento do Sesc (2022) mostrou que menos de 2% das programações culturais incluíam artistas migrantes, apesar da enorme produção existente no Estado de SP.

7. O mito do país acolhedor:

O Brasil gosta de se ver como aberto, caloroso, miscigenado. Mas essa autoimagem impede que o país reconheça: seu racismo estrutural, sua xenofobia cotidiana, suas desigualdades históricas, suas fronteiras simbólicas. Dentro da sua imensidão territorial, estes fenômenos sociais se reproduzem de maneira desigual, com regiões onde são mais acirrados e outras mais camuflados.

8. O mito do acolhimento mascara a realidade:

Não basta dizer “bem-vindo” se as portas continuam fechadas, se a documentação demora, a burocracia emperra e, sobretudo, se a língua dificulta a comunicação sutil e torna incompreensível as nuances da conversa.

9. A arte como território de resistência e encontro

Apesar das barreiras, artistas migrantes seguem criando. Criam porque precisam, porque resistem, porque a arte é uma forma de existir. Exemplos recentes mostram isso: Coletivos haitianos que reinventam o teatro comunitário em Santa Catarina. Artistas senegaleses que transformam o maracatu ao misturá-lo com ritmos do oeste africano. Venezuelanos que revitalizam a música de rua em Roraima. Sírios que introduzem novas sonoridades na música instrumental brasileira e novos gostos na culinária.

Quando a arte migrante encontra espaço, ela transforma. Quando encontra escuta, ela desloca. Quando encontra reconhecimento, ela floresce — e faz florescer o entorno.

10. Pertencimento: mais que acolhimento, um direito

Pertencer não é apenas estar em um lugar; é ser reconhecido por ele. É ter voz, espaço, direitos. É ser visto como parte da comunidade, e não como visitante permanente.

É permitir que o outro contribua na construção do cotidiano. Construir pertencimento exige políticas públicas, mas também exige gestos de escuta, respeito, convivência intercultural.

No fim, a pergunta é outra: Se somos um país de imigrantes desde 1500, por que a imigração do século XXI enfrenta tantos problemas?

Porque agora ela nos obriga a olhar para aquilo que sempre evitamos: nosso racismo, nossa desigualdade, nossa dificuldade de lidar com a diferença. É, também, reconhecer que os povos originários sempre estiveram aqui e foram desrespeitados.

A questão não é sobre quem chega. É sobre quem somos — e quem queremos ser.

Uma sociedade que ergue muros ou que constrói pontes?

Uma sociedade que teme a diferença ou que se transforma com ela?

Uma sociedade que desumaniza ou que reconhece?

A resposta nasce no encontro e no diálogo.

E encontros e dialogos são sempre o primeiro passo!!!

 

Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 23/06/2026



[1] Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

[2] Portal de Imigração do Ministério da Justiça e Segurança Pública

[3]  Organização Internacional para as Migrações

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