quarta-feira, 22 de abril de 2026

 

Yo no creo en brujas … pero que las hay, las hay!!!

 

Em Florianópolis, até hoje se diz que: “Quem nasce na Ilha, ou é bruxa, ou é enfeitiçada.”  E, sinceramente, vivendo aqui, é difícil discordar — a Ilha tem mesmo um encanto próprio.

Viver na Ilha da Magia é estar sempre atento ao vento repentino que traz a dança das bruxas, parte da identidade local, misturando medo, humor e muita imaginação.

Acredita-se que, antes do período açoriano,[1] a Ilha era habitada por bruxas que voavam à noite, montadas em animais ou em feitiços para fazer travessuras. Elas seriam responsáveis por trocar bebês por “bruxinhos”, adoecer animais, provocar tempestades e assombrar pescadores. Ao mesmo tempo, eram figuras meio cômicas, cheias de manias e vulnerabilidades.

Conta a lenda que as bruxas faziam festas noturnas na Praia da Joaquina, no Morro das Pedras, na Lagoa da Conceição ou em qualquer outra praia que lhes chamassem. Dançavam, cantavam, montavam bois encantados, se reuniam para rituais e voos noturnos. Pescadores acreditavam que, se a rede vinha vazia, era porque as bruxas haviam “virado o vento” ou “amarrado o mar”.  Ainda hoje, moradores falam de luzes estranhas sobre a água e ventos repentinos que seriam “as bruxas passando”.

Herança açoriana, as histórias de bruxas foram trazidas de Portugal e se misturaram com o ambiente da Ilha, onde morros, dunas, lagoas e ventos fortes criaram um clima perfeito para histórias sobrenaturais.

Uma das lendas mais queridas (aliás “a cara” de Floripa), misturando humor, respeito e aquele jeitinho místico da Ilha que só quem vive aqui entende é a de “pedir licença às bruxas” para morar em Florianópolis. A tradição diz que ninguém consegue viver bem na Ilha de Santa Catarina se não pedir licença às bruxas.

É um gesto simbólico, quase um pacto de convivência com as forças antigas da Ilha, nasce da crença que território das bruxas muito antes dos colonos aqui chegarem, Florianópolis não é apenas uma Ilha: é um território encantado, guardado há séculos pelas bruxas que dançam entre o gelado vento sul e o sussurro das ondas. Então, para não atrair azar, doenças, ventos contrários ou simplesmente uma vida “travada”, o recém-chegado deveria, antes de fincar raízes aqui, pedir licença as bruxas, reconhecer que está entrando num lugar encantado, mostrar respeito às entidades da Ilha e pedir permissão para ficar. Quase como bater na porta e pedir licença antes de entrar na casa de alguém.

Um gesto simples, quase um segredo dito ao mar: “Com licença, minhas bruxas, venho em paz”, “com licença, minhas bruxas, estou chegando com respeito”, “peço licença, minhas bruxas, para morar nesta Ilha”. E assim, acreditam os antigos, a Ilha abre caminho. O vento amansa, a vida flui, e o novo morador passa a ser parte do encanto. Porque em Floripa, mais do que viver, é preciso ser aceito — e quem chega com reverência sempre encontra boas companhias invisíveis pelo caminho.





Fotos da Praia de Itaguaçú, retiradas da internet

A Ilha tem personalidade própria:  ventos que mudam do nada, mar que decide quando deixa pescar, dunas que se movem, histórias que se misturam com o cotidiano. Pedir licença é uma forma poética de reconhecer que Floripa não é só um lugar, é um ser mágico. Tem uma frase que ouvi e que resume a magia desta Ilha: “Na Ilha de Santa Catarina, quem não acredita em bruxas… é porque nunca encontrou uma.”

Foi Franklin Joaquim Cascaes[2] quem dedicou sua vida a registrar o folclore, as histórias orais e o modo de viver do povo manezinho. Cresceu ouvindo relatos de pescadores, rendeiras e benzedeiras, e percebeu cedo que aquele universo estava desaparecendo. Por isso, decidiu documentar tudo — em textos, desenhos, esculturas e cadernos de campo. Ele foi artista, professor, pesquisador, folclorista, ceramista, antropólogo, gravurista e escritor.  Sem ele, muita coisa teria se perdido. Ele foi o grande guardião das lendas de Florianópolis: transformou o imaginário das bruxas, dos ventos e do mar em patrimônio cultural da Ilha e é considerado o maior cronista do imaginário da Ilha de Santa Catarina. Seu trabalho não foi apenas artístico: foi também etnográfico, linguístico e histórico.


Arte urbana em homenagem à Franklin Cascaes, artista Thiago Valdi, 2017, no centro de Florianópolis.


Entre 1946 e 1975, Franklin Cascaes reuniu narrativas baseadas em relatos de moradores da Ilha. Essas histórias misturam cotidiano e sobrenatural — bruxas que voam, bois encantados, ventos que falam, balanços que se movem sozinhos. Com um olhar sensível e uma dedicação quase obsessiva, ele passou décadas registrando tudo: escreveu cadernos inteiros com relatos orais, desenhou centenas de figuras fantásticas e esculpiu personagens que pareciam ter saído diretamente das noites ventosas da Ilha. Seu trabalho não foi apenas artístico, foi sobretudo um ato de preservação. Ele entendeu que aquelas histórias eram parte da identidade do povo manezinho e, que sem registro, se perderiam no tempo.

Foto: Balanço Bruxolico, bico de pena, Franklin Cascaes, 1970, Museu UFSC

A partir de suas pesquisas nasceu “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, obra que consolidou a imagem de Floripa como “Ilha da Magia”. Foi Cascaes quem eternizou as bruxas, não como vilãs, mas como figuras complexas, cheias de humor, mistério e humanidade. Ele transformou o folclore local em patrimônio, e sua arte hoje é reconhecida como uma das expressões mais importantes da cultura catarinense, dando forma à mitologia moderna de Floripa, eternizando o modo de falar açoriano.


"Viagem Bruxólica à India", Franklin Cascaes, s.d. 


Além dos textos, Franklin Cascaes produziu dezenas de desenhos e esculturas que representam bruxas, pescadores e cenas do folclore. Seu acervo — com cadernos, manuscritos é um tesouro da cultura manézinha e pode ser visitado no Museu da UFSC. Seus trabalhos são considerados patrimônio cultural de Santa Catarina.

Franklin Cascaes faleceu em março de 1983, mas seu legado continua vivo: nas escolas, nos museus, nas festas populares, nas esculturas espalhadas pela cidade e, principalmente, no imaginário de quem vive ou visita Florianópolis. Graças a ele, a Ilha não é apenas um lugar: é um território encantado, onde o passado ainda sopra trazido pelos ventos e onde as bruxas, reais ou simbólicas, continuam a dançar, mantendo viva a tradição da Ilha.

Dizem que o vento da Ilha nunca sopra por acaso. Quando muda de repente, é sinal de que as bruxas estão passando — e quem vive aqui aprende a ouvir o que ele tem a dizer. Às vezes avisa, às vezes provoca, às vezes só passa para lembrar que as bruxas continuam por aqui, rs.

Obrigada, minhas bruxas, por me permitirem aqui viver!”

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 21/04/2026

 

 



[1] Meados do século XVIII

[2] Franklin Joaquim Cascaes (Praia de Itaguaçú, 16/10/1908 – Florianópolis, 15/03/1983). Na época, Praia de Itaguaçú  pertencia ao município de São José.

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