Yo no creo en brujas … pero que las hay, las hay!!!
Em
Florianópolis, até hoje se diz que: “Quem nasce na Ilha, ou é bruxa, ou é
enfeitiçada.” E, sinceramente,
vivendo aqui, é difícil discordar — a Ilha tem mesmo um encanto próprio.
Viver
na Ilha da Magia é estar sempre atento ao vento repentino que traz a dança das
bruxas, parte da identidade local, misturando medo, humor e muita imaginação.
Acredita-se
que, antes do período açoriano,[1]
a Ilha era habitada por bruxas que voavam à noite, montadas em animais ou em
feitiços para fazer travessuras. Elas seriam responsáveis por trocar bebês por
“bruxinhos”, adoecer animais, provocar tempestades e assombrar pescadores. Ao mesmo
tempo, eram figuras meio cômicas, cheias de manias e vulnerabilidades.
Conta
a lenda que as bruxas faziam festas noturnas na Praia da Joaquina, no Morro das
Pedras, na Lagoa da Conceição ou em qualquer outra praia que lhes chamassem. Dançavam,
cantavam, montavam bois encantados, se reuniam para rituais e voos noturnos.
Pescadores acreditavam que, se a rede vinha vazia, era porque as bruxas haviam
“virado o vento” ou “amarrado o mar”. Ainda hoje, moradores falam de luzes
estranhas sobre a água e ventos repentinos que seriam “as bruxas passando”.
Herança
açoriana, as histórias de bruxas foram trazidas de Portugal e se misturaram com
o ambiente da Ilha, onde morros, dunas, lagoas e ventos fortes criaram um clima
perfeito para histórias sobrenaturais.
Uma
das lendas mais queridas (aliás “a cara” de Floripa), misturando humor,
respeito e aquele jeitinho místico da Ilha que só quem vive aqui entende é a de
“pedir licença às bruxas” para morar em Florianópolis. A tradição diz
que ninguém consegue viver bem na Ilha de Santa Catarina se não pedir licença
às bruxas.
É
um gesto simbólico, quase um pacto de convivência com as forças antigas da Ilha,
nasce da crença que território das bruxas muito antes dos colonos aqui chegarem,
Florianópolis não é apenas uma Ilha: é um território encantado, guardado há
séculos pelas bruxas que dançam entre o gelado vento sul e o sussurro das
ondas. Então, para não atrair azar, doenças, ventos contrários ou simplesmente
uma vida “travada”, o recém-chegado deveria, antes de fincar raízes aqui,
pedir licença as bruxas, reconhecer que está entrando num lugar encantado, mostrar
respeito às entidades da Ilha e pedir permissão para ficar. Quase como bater na
porta e pedir licença antes de entrar na casa de alguém.
Um
gesto simples, quase um segredo dito ao mar: “Com licença, minhas bruxas,
venho em paz”, “com licença, minhas bruxas, estou chegando com respeito”,
“peço licença, minhas bruxas, para morar nesta Ilha”. E assim, acreditam
os antigos, a Ilha abre caminho. O vento amansa, a vida flui, e o novo morador
passa a ser parte do encanto. Porque em Floripa, mais do que viver, é preciso
ser aceito — e quem chega com reverência sempre encontra boas companhias
invisíveis pelo caminho.
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| Fotos da Praia de Itaguaçú, retiradas da internet |
A
Ilha tem personalidade própria: ventos
que mudam do nada, mar que decide quando deixa pescar, dunas que se movem,
histórias que se misturam com o cotidiano. Pedir licença é uma forma poética de
reconhecer que Floripa não é só um lugar, é um ser mágico. Tem uma frase que
ouvi e que resume a magia desta Ilha: “Na Ilha de Santa Catarina, quem não
acredita em bruxas… é porque nunca encontrou uma.”
Foi
Franklin Joaquim Cascaes[2]
quem dedicou sua vida a registrar o folclore, as histórias orais e o modo de
viver do povo manezinho. Cresceu ouvindo relatos de pescadores, rendeiras e
benzedeiras, e percebeu cedo que aquele universo estava desaparecendo. Por
isso, decidiu documentar tudo — em textos, desenhos, esculturas e cadernos de
campo. Ele foi artista, professor, pesquisador, folclorista, ceramista,
antropólogo, gravurista e escritor. Sem
ele, muita coisa teria se perdido. Ele foi o grande guardião das lendas de
Florianópolis: transformou o imaginário das bruxas, dos ventos e do mar em
patrimônio cultural da Ilha e é considerado o maior cronista do imaginário da
Ilha de Santa Catarina. Seu trabalho não foi apenas artístico: foi também
etnográfico, linguístico e histórico.
Arte urbana em homenagem à Franklin Cascaes, artista Thiago Valdi, 2017, no centro de Florianópolis.
Entre
1946 e 1975, Franklin Cascaes reuniu narrativas baseadas em relatos de
moradores da Ilha. Essas histórias misturam cotidiano e sobrenatural — bruxas
que voam, bois encantados, ventos que falam, balanços que se movem sozinhos.
Com um olhar sensível e uma dedicação
quase obsessiva, ele passou décadas registrando tudo: escreveu cadernos
inteiros com relatos orais, desenhou centenas de figuras fantásticas e esculpiu
personagens que pareciam ter saído diretamente das noites ventosas da Ilha. Seu
trabalho não foi apenas artístico, foi sobretudo um ato de preservação. Ele
entendeu que aquelas histórias eram parte da identidade do povo manezinho e,
que sem registro, se perderiam no tempo.
A partir de suas pesquisas nasceu “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, obra que consolidou a imagem de Floripa como “Ilha da Magia”. Foi Cascaes quem eternizou as bruxas, não como vilãs, mas como figuras complexas, cheias de humor, mistério e humanidade. Ele transformou o folclore local em patrimônio, e sua arte hoje é reconhecida como uma das expressões mais importantes da cultura catarinense, dando forma à mitologia moderna de Floripa, eternizando o modo de falar açoriano.
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| "Viagem Bruxólica à India", Franklin Cascaes, s.d. |
Além dos textos, Franklin Cascaes
produziu dezenas de desenhos e esculturas que representam bruxas, pescadores e
cenas do folclore. Seu acervo — com cadernos, manuscritos é um tesouro da
cultura manézinha e pode ser visitado no Museu da UFSC. Seus trabalhos são
considerados patrimônio cultural de Santa Catarina.
Franklin
Cascaes faleceu em março de 1983, mas seu legado continua vivo: nas escolas,
nos museus, nas festas populares, nas esculturas espalhadas pela cidade e,
principalmente, no imaginário de quem vive ou visita Florianópolis. Graças a
ele, a Ilha não é apenas um lugar: é um território encantado, onde o passado
ainda sopra trazido pelos ventos e onde as bruxas, reais ou simbólicas,
continuam a dançar, mantendo viva a tradição da Ilha.
Dizem
que o vento da Ilha nunca sopra por acaso. Quando muda de repente, é sinal de
que as bruxas estão passando — e quem vive aqui aprende a ouvir o que ele tem a
dizer. Às vezes avisa, às vezes provoca, às vezes só passa para lembrar que as
bruxas continuam por aqui, rs.
“Obrigada, minhas bruxas, por me permitirem aqui viver!”
Carmen
Evangelho
Ilha da Magia,
21/04/2026






Parabéns, muito legal o artigo 👏🏼
ResponderExcluirObrigada, Badria!
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