Geraldo Pedra e Padeirinho na história da
Mangueira!
Um era Geraldo da Pedra — firme,
silencioso, raiz.
O outro era Padeirinho — leve, inventivo,
água que corre sem pedir licença.
Geraldo da Pedra se chamava Geraldo Diniz[1].
vinha de longe, de uma Mangueira ainda sem asfalto, sem fama, sem microfone. Era
homem de roda antiga, daqueles que aprendem samba no ouvido, no corpo, no
respeito. Trazia no nome a marca do lugar onde morava — a pedra grande,
teimosa, que guardava sombra e memórias do morro da Mangueira. E ele era assim:
pedra que sustenta, pedra que orienta, pedra que não cai. Homem de passo firme,
desses que não precisam falar alto para que o morro inteiro escute. Trazia no
olhar a sabedoria de quem conhece cada beco, cada silêncio, cada segredo
guardado nas noites do “Buraco Quente”. Era pedra mesmo: não por dureza, mas
por fundamento. Era chão onde outros podiam pisar sem medo, com confiança.
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| Geraldo Pedra Foto: reproduzida do encarte do CD: "Mangueira: samba de terreiro e outros sambas" |
Geraldo da Pedra trabalhou como entregador da Confeitaria Colombo, antes de se tornar uma figura central do samba de Mangueira. Era presença constante nas rodas do “Buraco Quente”, um dos redutos mais tradicionais daquele morro. Foi fundador da Ala de Compositores, em 1939, e um dos pilares da Velha Guarda da Mangueira. Seus sambas de terreiro sobreviveram mais na memória oral do que em gravações — algo comum entre compositores do morro nas décadas de 1930 e 1940[2].
Padeirinho chegou depois, menino de padaria, de madrugada fria e pão quente. Chegou no morro com a alma cheia de música, mas sem saber ainda onde guardá-la. Trazia no peito um samba que já existia antes dele, esperando só o momento de ganhar nome. Era tímido no começo, mas o morro reconhece seus filhos antes que eles se reconheçam. E o morro o chamou.
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| Padeirinho Foto: retirada da Internet |
Foi Geraldo da Pedra quem ouviu primeiro e como tinha o dom de perceber talento escondido, de enxergar o que ainda não estava pronto, ele viu no jovem Oswaldo Vitalino[3] — 0 futuro Padeirinho — um brilho que não se aprende, já vem de nascença e fez o que só os grandes fazem: abriu caminho. Levou o rapaz pela mão até a Ala de Compositores. Não prometeu nada, não garantiu nada — apenas apresentou. E, aquele gesto simples, quase cotidiano, marcou a história da Mangueira.
A partir dali os dois se tornaram parte de uma mesma engrenagem. Geraldo, com seus sambas de terreiro, de raiz funda, de tradição que não se explica. Padeirinho com seus versos que voavam longe, atravessavam o morro e voltavam como pássaros que sabem onde pousar.
Nas rodas da Mangueira, quando o pandeiro
começava a chamar e o cavaquinho respondia, parecia que os dois conversavam sem
palavras. Geraldo dava o peso da história. Padeirinho dava a leveza da
invenção. E o samba, agradecido, se equilibrava entre os dois. Certos encontros
não são obra do acaso. São obra do destino. E, naquele encontro o destino
vestia verde e rosa.
Padeirinho da Mangueira foi um dos grandes
compositores da Estação Primeira, autor de mais de 300 sambas e figura
essencial da cultura do Morro da Mangueira. Oswaldo Vitalino de Oliveira passou
a infância dormindo em padarias onde o pai trabalhava e, aos 12 anos, mudou-se
com ele para o Morro da Mangueira, onde se alfabetizou sozinho e começou a
compor.
Padeirinho trabalhou como funcionário do Cais do Porto (estivador) e
da Limpeza Pública do Rio de Janeiro (gari) antes de viver de música. Casou-se
com Mida (Cremilda Benvinda), formaram uma família com 12 filhos, profundamente
ligada ao samba e, parte da sua história está registrada em fontes confiáveis[5].
Padeirinho ficou conhecido pelo
partido-alto afiado com improviso rápido e humor característico; tinha forte
ligação com as tradições do morro e da Velha Guarda; e por sua percussão tanto no
pandeiro quanto no tarol. Ele cantava seus sambas nas biroscas e tendinhas da
Mangueira. Sua obra retrata o cotidiano, a ginga e a poesia do morro.
Entre suas musicas mais conhecidas, vale citar: “Favela”-
Gravada por Nara Leão (1966). Um dos sambas mais emblemáticos sobre o morro e
sua poesia “Numa vasta extensão . Onde não há plantação. Nem
ninguém morando lá. Cada um pobre que passa por ali. Só pensa em construir seu
lar....”. “Cavaquinho
Emprestado”, gravado por Paulinho da Viola (1975), um clássico absoluto do
repertório mangueirense. “Você levou meu cavaquinho emprestado, Viajou
pra todo lado, Nem sequer me convidou. Ganhou dinheiro, Tirou onda de artista, quero
pagamento à vista do meu cavaquinho que você quebrou ...”. “A Mais Querida”, gravada por Leci Brandão (1975), cantada em rodas do
país inteiro. “Sabe quem eu sou, eu sou a Mangueira, mais conhecida como
Estação Primeira. Na avenida, sambo pra cidade inteira ...”. “Salve a
Mangueira”, gravada por Beth Carvalho (1981), também conhecida como “A
Mangueira não pode parar”. “Minha Mangueira, minha estação primeira.
Estou com você, Mangueira e você não pode parar. Também sou Mangueira, defendo
a sua bandeira. EE todos que são Mangueira têm o seu nome a zelar ...”
Geraldo da Pedra e Padeirinho: dois homens
simples, dois mundos diferentes. Um mesmo amor pelo morro, pelo povo, pelo
samba. E é por isso que, até hoje, quando a Mangueira canta, há sempre um pouco
dos dois no fundamento e no sorriso do verso.
Um pouco do Buraco Quente
Buraco Quente era um dos pequenos núcleos
populacionais que formaram o atual Complexo da Mangueira, ao
lado do Pendura Saia, Olaria, Chalé, Telégrafos, Curva da Cobra. Ele aparece
como um dos espaços mais antigos que compunham a ocupação inicial do morro desde
o final do século XIX e início do século XX. Esses núcleos eram formados por casas
improvisadas, muitas vezes erguidas com material reaproveitado, por famílias
negras vindas do Centro após
remoções urbanas do início do século XX, por trabalhadores pobres, militares
sobreviventes da Guerra do Paraguai que buscavam moradia acessível nas encostas.
Mais do que um lugar, o Buraco Quente foi
um ponto de encontro de sambistas, como: Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela,
Saturnino Gonçalves, Zé Com Fome, Alfredo Português, Zé da Zilda, Zé Ramos e
Geraldo Pedra. Mais tarde, figuras
como Nelson Cavaquinho tratavam o Buraco Quente como “extensão da sua casa”, ponto
de passagem para quem subia e descia o morro; centro de convivência, onde
moradores se encontravam para conversar, beber, tocar e resolver conflitos.
O Buraco Quente aparece nas fontes como um
dos locais associados à origem da Estação Primeira. A história da escola se
confunde com a história desses núcleos, que já eram redutos de sambistas desde
a década de 1920. O documentário “Fala Mangueira!” e textos históricos mostram
que, em 1926–1928, sambistas como Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela e
Saturnino Gonçalves circulavam por esses pontos quando decidiram abandonar o
bloco Arengueiros e fundar a Escola.
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| Morro da Mangueira, 1952. foto: O GLobo in @ORioAntigo |
Em resumo, o Buraco Quente era um local onde compositores mostravam sambas novos; a comunidade aprovava, corrigia ou descartava versos; jovens aprendiam com os mais velhos; surgiam parcerias e rivalidades criativas, tradições religiosas e musicais se misturavam. Era um espaço de formação coletiva, onde o samba não era apenas música, mas convivência, identidade e resistência. Não era apenas um lugar no mapa — e sim, um símbolo da formação cultural da Mangueira.
E, a Ala de Compositores de 1939?
Em 1939, a Mangueira ainda era mais morro
do que escola, mais poeira do que avenida, mais roda de terreiro do que
desfile. Foi nesse tempo que nasceu a Ala de Compositores — não como
instituição, mas como ritual. Um grupo que carregava no peito a
responsabilidade de transformar a vida em samba.E, ali estavam eles, reunidos
numa foto que hoje parece sagrada, como se fosse um altar verde e rosa.
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| Ala dos Compositores de 1939 Foto: retirada do blog de Raymundo de Castro |
Em pé, alinhados como soldados de um exército do samba, estavam, da esquerda para a direita: Quedinho, Alfredo Português, Nego, Geraldo da Pedra, Zé Ramos, Maçú, Cartola, Carlos Cachaça, Zagaia e Alfaiate.
Sentados,
como quem guarda o segredo do tempo, também da esquerda para a direita: Aloízio Dias, Edson, Odaléa (a madrinha),
Zeca e Baiano.
Era um grupo pequeno que carregava o peso
de uma Escola inteira. Cada um ali tinha uma história, um canto, uma dor, uma
alegria. E todos com o mesmo
compromisso: fazer da Mangueira um lugar onde o samba fosse tratado com
dignidade.
Cartola, com seu chapéu inclinado, era o
maestro silencioso. Cachaça, com o sorriso de canto, era a memória viva do
morro. Alfredo Português trazia a força da imigração transformada em poesia. Zé Ramos e Geraldo da Pedra eram o fundamento
— raiz que não se vê, mas sustenta.
Ala de 1939 não era só um grupo: era uma
escola dentro da Escola, uma universidade sem diploma, onde cada samba era
examinado como se fosse filho. Ali havia tradição, porque a Mangueira já sabia
que estava construindo algo maior do que ela mesma.
E
quando um samba era aprovado, era um documento, uma identidade. Era Mangueira
dizendo ao mundo: “É assim que a gente canta. É assim que a gente existe.”
A Ala de 1939 foi o berço de tudo que viria
depois. Foi ali que se moldou o caráter musical da Escola. Foi ali que se
decidiu que a Mangueira não seria apenas mais uma, seria a Estação Primeira.
E até hoje, quando a Mangueira entra na Avenida,
é como se aqueles homens estivessem todos ali, em pé e sentados, na mesma
formação da foto, olhando a escola passar e dizendo baixinho, com orgulho: “É
isso. O que começamos em 1939 ainda vive!”
Do centro da foto, Odálea, a madrinha da
Ala de Compositores de 1939, ocupando a liderança, o seu lugar, com autoridade,
respeito e dignidade, representando as mulheres invisíveis do samba. Aquelas
que construíram a Escola com gestos pequenos e gigantes: lavando roupa,
cozinhando para a roda, emprestando o quintal, guardando instrumentos,
segurando vela, segurando filho, segurando dor. E, sobretudo, preservando a
memória. Porque sabiam que a memória do samba não está só nos discos — está nas
mulheres que ensinaram os homens a cantar. Está nas vozes que diziam “esse
verso não”, “essa história sim”, “essa melodia é bonita”, “esse samba é nosso”,
pois sabiam que o samba é mais que música: é cuidado, é comunidade, é
continuidade, é identidade!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia, 28/04/2026
[1]Geraldo Pedra (Rio de
Janeiro 1918- Rio de Janeiro, 1999) .O apelido veio do fato dele morar próximo a
grande pedra no Morro da Mangueira. Suas composições precisam ser urgentemente recuperadas pois só existem na memória da familia e dos antigos mangueirenses.
[2] Seu principal parceiro foi
Zé Ramos, também fundador da Ala de Compositores. Juntos, assinaram sambas
importantes, incluindo: “Nossa História”, samba‑enredo
com o qual a Mangueira foi vice‑campeã em 1945 E, “O Índio”, uma
das poucas composições gravadas.
[3]
Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927–1987) nasceu no Rio de Janeiro e ganhou o
apelido Padeirinho por ser filho de um padeiro
[4]
Geraldo Pedra é pai de Zenith e Sonia, duas pastoras históricas da escola,
integrantes da Galeria da Velha Guarda da Mangueira.Era irmão de Cremilda
Benvinda (Mida) que se casou com Padeirinho
[5] PAULINO,
Franco: “Padeirinho da Mangueira: retrato sincopado de um artista”, Editora
Hedra, São Paulo, 2005.





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