terça-feira, 28 de abril de 2026


Geraldo Pedra e Padeirinho na história da Mangueira!

 No alto do morro da Mangueira, onde o vento carrega histórias antes de começar a soprar, dois homens caminharam por tempos diferentes, mas pelo mesmo chão e se encontraram. Com respeito portelense, vou falar de dois bambas da verde e rosa.

Um era Geraldo da Pedra — firme, silencioso, raiz.

O outro era Padeirinho — leve, inventivo, água que corre sem pedir licença.

Geraldo da Pedra se chamava Geraldo Diniz[1]. vinha de longe, de uma Mangueira ainda sem asfalto, sem fama, sem microfone. Era homem de roda antiga, daqueles que aprendem samba no ouvido, no corpo, no respeito. Trazia no nome a marca do lugar onde morava — a pedra grande, teimosa, que guardava sombra e memórias do morro da Mangueira. E ele era assim: pedra que sustenta, pedra que orienta, pedra que não cai. Homem de passo firme, desses que não precisam falar alto para que o morro inteiro escute. Trazia no olhar a sabedoria de quem conhece cada beco, cada silêncio, cada segredo guardado nas noites do “Buraco Quente”. Era pedra mesmo: não por dureza, mas por fundamento. Era chão onde outros podiam pisar sem medo, com confiança.

Geraldo Pedra Foto: reproduzida do encarte do CD:
"Mangueira: samba de terreiro e outros sambas"

Geraldo da Pedra trabalhou como entregador da Confeitaria Colombo, antes de se tornar uma figura central do samba de Mangueira. Era presença constante nas rodas do “Buraco Quente”, um dos redutos mais tradicionais daquele morro. Foi fundador da Ala de Compositores, em 1939, e um dos pilares da Velha Guarda da Mangueira. Seus sambas de terreiro sobreviveram mais na memória oral do que em gravações — algo comum entre compositores do morro nas décadas de 1930 e 1940[2].

Padeirinho chegou depois, menino de padaria, de madrugada fria e pão quente. Chegou no morro com a alma cheia de música, mas sem saber ainda onde guardá-la. Trazia no peito um samba que já existia antes dele, esperando só o momento de ganhar nome. Era tímido no começo, mas o morro reconhece seus filhos antes que eles se reconheçam. E o morro o chamou.

 
                                                      
Padeirinho Foto: retirada da Internet

Foi Geraldo da Pedra quem ouviu primeiro e como tinha o dom de perceber talento escondido, de enxergar o que ainda não estava pronto, ele viu no jovem Oswaldo Vitalino[3] — 0 futuro Padeirinho — um brilho que não se aprende, já vem de nascença e fez o que só os grandes fazem: abriu caminho. Levou o rapaz pela mão até a Ala de Compositores. Não prometeu nada, não garantiu nada — apenas apresentou. E, aquele gesto simples, quase cotidiano, marcou a história da Mangueira.

A partir dali os dois se tornaram parte de uma mesma engrenagem. Geraldo, com seus sambas de terreiro, de raiz funda, de tradição que não se explica. Padeirinho com seus versos que voavam longe, atravessavam o morro e voltavam como pássaros que sabem onde pousar.

Nas rodas da Mangueira, quando o pandeiro começava a chamar e o cavaquinho respondia, parecia que os dois conversavam sem palavras. Geraldo dava o peso da história. Padeirinho dava a leveza da invenção. E o samba, agradecido, se equilibrava entre os dois. Certos encontros não são obra do acaso. São obra do destino. E, naquele encontro o destino vestia verde e rosa.

Padeirinho da Mangueira foi um dos grandes compositores da Estação Primeira, autor de mais de 300 sambas e figura essencial da cultura do Morro da Mangueira. Oswaldo Vitalino de Oliveira passou a infância dormindo em padarias onde o pai trabalhava e, aos 12 anos, mudou-se com ele para o Morro da Mangueira, onde se alfabetizou sozinho e começou a compor.

Caricatura de Padeirinho, retirada da internet

Entrou para a Ala de Compositores da Mangueira aos 20 anos, levado por aquele que viria a ser seu cunhado: Geraldo da Pedra[4]. Seu talento logo se destacou: em 1956, seu samba-enredo Exaltação a Getúlio Vargas foi escolhido para o desfile da escola — mais tarde gravado por Jamelão como “O Grande Presidente”.

Padeirinho trabalhou como funcionário do Cais do Porto (estivador) e da Limpeza Pública do Rio de Janeiro (gari) antes de viver de música. Casou-se com Mida (Cremilda Benvinda), formaram uma família com 12 filhos, profundamente ligada ao samba e, parte da sua história está registrada em fontes confiáveis[5].

Padeirinho ficou conhecido pelo partido-alto afiado com improviso rápido e humor característico; tinha forte ligação com as tradições do morro e da Velha Guarda; e por sua percussão tanto no pandeiro quanto no tarol. Ele cantava seus sambas nas biroscas e tendinhas da Mangueira. Sua obra retrata o cotidiano, a ginga e a poesia do morro.

Entre suas musicas mais conhecidas, vale citar: “Favela”- Gravada por Nara Leão (1966). Um dos sambas mais emblemáticos sobre o morro e sua poesia “Numa vasta extensão . Onde não há plantação. Nem ninguém morando lá. Cada um pobre que passa por ali. Só pensa em construir seu lar....”. “Cavaquinho Emprestado”, gravado por Paulinho da Viola (1975), um clássico absoluto do repertório mangueirense. “Você levou meu cavaquinho emprestado, Viajou pra todo lado, Nem sequer me convidou. Ganhou dinheiro, Tirou onda de artista, quero pagamento à vista do meu cavaquinho que você quebrou ...”. “A Mais Querida”, gravada  por Leci Brandão (1975), cantada em rodas do país inteiro. “Sabe quem eu sou, eu sou a Mangueira, mais conhecida como Estação Primeira. Na avenida, sambo pra cidade inteira ...”. “Salve a Mangueira”, gravada por Beth Carvalho (1981), também conhecida como “A Mangueira não pode parar”. “Minha Mangueira, minha estação primeira. Estou com você, Mangueira e você não pode parar. Também sou Mangueira, defendo a sua bandeira. EE todos que são Mangueira têm o seu nome a zelar ...”

Geraldo da Pedra e Padeirinho: dois homens simples, dois mundos diferentes. Um mesmo amor pelo morro, pelo povo, pelo samba. E é por isso que, até hoje, quando a Mangueira canta, há sempre um pouco dos dois no fundamento e no sorriso do verso.


Um pouco do  Buraco Quente

 O Buraco Quente é um dos núcleos mais antigos, simbólicos e férteis do samba no morro e na memória afetiva da Mangueira. Aparece nas fontes como um dos primeiros pontos de encontro dos sambistas que fundaram a Estação Primeira.

Buraco Quente era um dos pequenos núcleos populacionais  que formaram o atual Complexo da Mangueira, ao lado do Pendura Saia, Olaria, Chalé, Telégrafos, Curva da Cobra. Ele aparece como um dos espaços mais antigos que compunham a ocupação inicial do morro desde o final do século XIX e início do século XX. Esses núcleos eram formados por casas improvisadas, muitas vezes erguidas com material reaproveitado, por famílias negras vindas do Centro após remoções urbanas do início do século XX, por trabalhadores pobres, militares sobreviventes da Guerra do Paraguai que buscavam moradia acessível nas encostas.

Mais do que um lugar, o Buraco Quente foi um ponto de encontro de sambistas, como: Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela, Saturnino Gonçalves, Zé Com Fome, Alfredo Português, Zé da Zilda, Zé Ramos e Geraldo Pedra. Mais tarde, figuras como Nelson Cavaquinho tratavam o Buraco Quente como “extensão da sua casa”, ponto de passagem para quem subia e descia o morro; centro de convivência, onde moradores se encontravam para conversar, beber, tocar e resolver conflitos.

O Buraco Quente aparece nas fontes como um dos locais associados à origem da Estação Primeira. A história da escola se confunde com a história desses núcleos, que já eram redutos de sambistas desde a década de 1920. O documentário “Fala Mangueira!” e textos históricos mostram que, em 1926–1928, sambistas como Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela e Saturnino Gonçalves circulavam por esses pontos quando decidiram abandonar o bloco Arengueiros e fundar a Escola.


Morro da Mangueira, 1952. foto: O GLobo in @ORioAntigo
                            

Em resumo, o Buraco Quente era um local onde compositores mostravam sambas novos; a comunidade aprovava, corrigia ou descartava versos; jovens aprendiam com os mais velhos; surgiam parcerias e rivalidades criativas, tradições religiosas e musicais se misturavam. Era um espaço de formação coletiva, onde o samba não era apenas música, mas convivência, identidade e resistência. Não era apenas um lugar no mapa — e sim, um símbolo da formação cultural da Mangueira.


 E, a Ala de Compositores de 1939?

Em 1939, a Mangueira ainda era mais morro do que escola, mais poeira do que avenida, mais roda de terreiro do que desfile. Foi nesse tempo que nasceu a Ala de Compositores — não como instituição, mas como ritual. Um grupo que carregava no peito a responsabilidade de transformar a vida em samba.E, ali estavam eles, reunidos numa foto que hoje parece sagrada, como se fosse um altar verde e rosa.

Ala dos Compositores de 1939
Foto: retirada do blog de Raymundo de Castro

Em pé, alinhados como soldados de um exército do samba, estavam, da esquerda para a direita: Quedinho, Alfredo Português, Nego, Geraldo da Pedra, Zé Ramos, Maçú, Cartola, Carlos Cachaça, Zagaia e Alfaiate.

Sentados, como quem guarda o segredo do tempo, também da esquerda para a direita: Aloízio Dias, Edson, Odaléa (a madrinha), Zeca e Baiano.

Era um grupo pequeno que carregava o peso de uma Escola inteira. Cada um ali tinha uma história, um canto, uma dor, uma alegria. E  todos com o mesmo compromisso: fazer da Mangueira um lugar onde o samba fosse tratado com dignidade.

Cartola, com seu chapéu inclinado, era o maestro silencioso. Cachaça, com o sorriso de canto, era a memória viva do morro. Alfredo Português trazia a força da imigração transformada em poesia.  Zé Ramos e Geraldo da Pedra eram o fundamento — raiz que não se vê, mas sustenta.

Ala de 1939 não era só um grupo: era uma escola dentro da Escola, uma universidade sem diploma, onde cada samba era examinado como se fosse filho. Ali havia tradição, porque a Mangueira já sabia que estava construindo algo maior do que ela mesma.

E quando um samba era aprovado, era um documento, uma identidade. Era Mangueira dizendo ao mundo: “É assim que a gente canta. É assim que a gente existe.”

A Ala de 1939 foi o berço de tudo que viria depois. Foi ali que se moldou o caráter musical da Escola. Foi ali que se decidiu que a Mangueira não seria apenas mais uma, seria a Estação Primeira.

E até hoje, quando a Mangueira entra na Avenida, é como se aqueles homens estivessem todos ali, em pé e sentados, na mesma formação da foto, olhando a escola passar e dizendo baixinho, com orgulho: “É isso. O que começamos em 1939 ainda vive!”

Do centro da foto, Odálea, a madrinha da Ala de Compositores de 1939, ocupando a liderança, o seu lugar, com autoridade, respeito e dignidade, representando as mulheres invisíveis do samba. Aquelas que construíram a Escola com gestos pequenos e gigantes: lavando roupa, cozinhando para a roda, emprestando o quintal, guardando instrumentos, segurando vela, segurando filho, segurando dor. E, sobretudo, preservando a memória. Porque sabiam que a memória do samba não está só nos discos — está nas mulheres que ensinaram os homens a cantar. Está nas vozes que diziam “esse verso não”, “essa história sim”, “essa melodia é bonita”, “esse samba é nosso”, pois sabiam que o samba é mais que música: é cuidado, é comunidade, é continuidade, é identidade!

Carmen Evangelho

Ilha da Magia, 28/04/2026



[1]Geraldo Pedra (Rio de Janeiro 1918- Rio de Janeiro, 1999) .O apelido veio do fato dele morar próximo a grande pedra no Morro da Mangueira. Suas composições precisam ser urgentemente recuperadas pois só existem na memória da familia e dos antigos mangueirenses.

[2] Seu principal parceiro foi Zé Ramos, também fundador da Ala de Compositores. Juntos, assinaram sambas importantes, incluindo: “Nossa História”, sambaenredo com o qual a Mangueira foi vicecampeã em 1945 E, “O Índio”, uma das poucas composições gravadas.

[3] Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927–1987) nasceu no Rio de Janeiro e ganhou o apelido Padeirinho por ser filho de um padeiro

[4] Geraldo Pedra é pai de Zenith e Sonia, duas pastoras históricas da escola, integrantes da Galeria da Velha Guarda da Mangueira.Era irmão de Cremilda Benvinda (Mida) que se casou com Padeirinho

[5] PAULINO, Franco: “Padeirinho da Mangueira: retrato sincopado de um artista”, Editora Hedra, São Paulo, 2005.


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