Alvaiade,
um construtor da Portela!
“O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e
cada mês
O mundo passa por mim
todos os dias
Enquanto eu passo pelo
mundo uma vez
A natureza é perfeita
Não há quem possa
contestar
A noite é o dia que dorme
O dia é a noite ao
despertar”[1]
O mundo parecia mesmo estar virado do
avesso. Era 1968. O Brasil vivia tempos duros, o subúrbio sentia o peso das
mudanças e a Portela tentava manter sua dignidade intacta.
Alvaiade já não era o rapaz de outrora.
Trazia no rosto as marcas de quem viveu muito. No peito, as cicatrizes de quem
sentiu mais do que contou. Numa noite quente de novembro, sentado na varanda
simples de sua casa em Oswaldo Cruz, com o cavaquinho no colo, ele observava o
movimento da rua: crianças correndo, vizinhos conversando, o trem passando ao
longe. A vida seguia — sempre seguindo, mesmo quando parecia difícil. Foi, então,
que ele murmurou para si mesmo, quase sem perceber: “O dia se renova todo
dia…”
A frase ficou no ar, como se tivesse sido
dita por outra pessoa. Ele repetiu, agora mais consciente: “O dia se renova
todo dia…” e completou, com um suspiro que vinha de longe: “Eu envelheço
cada dia e cada mês…”
Ali estava o começo. Não era um samba de
festa. Não era um samba de enredo. Era um samba de verdade — desses que nascem
quando o coração resolve falar.
Ele pegou o cavaquinho e dedilhou um acorde
simples, quase tímido. A melodia veio como água mansa, sem pressa. Cada verso
parecia puxar o próximo, como se o samba já estivesse pronto e só precisasse de alguém para lhe abrir a porta. Alvaiade
escrevia devagar, riscando, voltando, cortando palavras. Era um artesão. E
sabia que um samba só fica pronto quando diz exatamente o que precisa — nem
mais, nem menos. Quando terminou, recostou-se na cadeira e ficou olhando para o
papel. Era um samba sobre o tempo. Sobre aceitar o que não se controla. Sobre
seguir adiante mesmo quando o mundo insiste em ser duro.
Era um samba de quem já tinha visto muita
coisa — e aprendido a não se desesperar. Na manhã seguinte, levou a letra para
mostrar a alguns amigos
da
Velha Guarda. Um deles,
emocionado, disse: “Alvaiade… isso ai é a vida”. Ele sorriu,
daquele jeito discreto que era só dele. “A vida é assim mesmo, respondeu,
a gente só precisa aprender a caminhar dentro dela”[2].
Falar de Alvaiade é falar da minha querida
Portela. Ele que chegou por volta de 1928, trazido por Paulo da Portela e,
nunca mais saiu. Se transformou num dos pilares fundamentais da Escola e do samba
carioca.
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| Alvaiade |
Oswaldo dos Santos[3],
Alvaiade, carioca, nascido na Estrada do Portela, criado em Osvaldo Cruz, tem
uma história de vida forjada nas adversidades e na efervescência cultural dos
subúrbios cariocas. Ficou órfão aos cinco anos de idade e cedo começou a
trabalhar como tipógrafo aos 13 anos, profissão que exigia imprimir as palavras
e que deixaria marcas na sua personalidade como a de preservar a memória do
samba.
Mas, foi no campo de futebol que ele ganhou
a identificação que o acompanharia por toda a vida: Alvaiade[4].
Atleta polivalente, jogou pelo time da
própria Portela e pela Associação Atlética Portuguesa em 1935, demonstrando
que, nos subúrbios, a sociabilidade entre o samba e o futebol constituía o
alicerce da identidade comunitária e da formação do caráter do sambista.
Convidado pelo próprio Paulo da Portela,
Alvaiade trouxe consigo a experiência de liderança de um pequeno bloco da Rua B[5],
onde também participavam Brasileiro, Zé Cachacinha e Alvarenga[6].
Inicialmente, trazia seu cavaquinho, mas logo chamou a atenção de Paulo da
Portela, se tornando seu substituto natural, assumindo a responsabilidade de
organizar a escola e receber visitantes ilustres, Na década de 1930, Alvaiade foi
organizador e zelador da estética portelense. Sob a orientação de Paulo da
Portela, ele absorveu a filosofia de que o sambista deveria ser um cidadão
respeitável, combatendo o estigma da vadiagem que assolava as comunidades
negras e suburbanas, ajudando a construir a imagem do sambista elegante. Andar
bem vestido (de terno, chapéu e sapato), naquela época, era uma forma de resistência e de exigir
respeito. Alvaiade contava que: “Ninguém podia se apresentar com chinelo
charlote[7]
porque o Paulo não gostava. O pessoal do Estácio, por exemplo, isso não é
querer falar mal, mas falar a verdade, apresentava-se muito bem, com ternos
caríssimos. Mas de chinelo charlote e lenço no pescoço. O pessoal da Portela
não. A gente tinha que andar de sapato e gravata. O Paulo dizia assim: “Quero
todo mundo com o pé ocupado e pescoço também”.
A obra musical de Alvaiade é um testemunho
da sofisticação que reside na simplicidade. Ele defendia que o artista popular
não necessita de citações complexas ou vocabulário rebuscado para filosofar
sobre a natureza e a existência humana. A capacidade de extrair lições
universais da observação do cotidiano fez de Alvaiade um dos grandes poetas do
samba, capaz de dialogar com temas existenciais a partir de uma base de
sabedoria popular.
Alvaiade foi um mestre na composição de
sambas-enredo que capturavam o espírito de sua época. Durante a década de 1940,
sob a influência do nacionalismo ufanista promovido pelo governo brasileiro,
ele ajudou a moldar a narrativa da Portela na Avenida. Em parceria com Bibi[8],
em 1942, compôs "A Vida do Samba", que celebrava a evolução do
ritmo desde os índios até o sucesso internacional, garantindo o primeiro lugar
para a Escola. No ano seguinte, em parceria com Nílson, assinou "Brasil,
Terra da Liberdade", mantendo a hegemonia da Portela no carnaval
carioca e reforçando o papel das escolas de samba como associações difusoras de
valores culturais e históricos.
A versatilidade de Alvaiade lhe permitia transitar entre o samba de exaltação, o samba-enredo, o samba de terreiro e o partido-alto com igual desenvoltura e qualidade. "Marinheiro de Primeira Viagem"[9] “Eu não sou marinheiro de primeira viagem, eu já lhe conheço, sei que isso é visagem, a minha custa, vc não fará cartaz, você gosta do samba que eu canto e nada mais ...”; "Banco de Réu" “Sento no banco de réu e aguardo a sentença, porque até hoje ninguém destruiu minha crença, pela voz que ordena que eu me conforme, porque aquele que mora lá em cima não dorme...” e "Abaixo do Nível"” A tua vida tem sido uma tragédia, nem sequer na classe média conseguistes aceitação. E, é por isso que o teu viver é horrível, vives abaixo do nível, da tua colocação...”, demonstram um olhar atento às nuances da vida urbana e da malandragem regenerada, temas que eram frequentes nas rádios da época. Ele foi um dos primeiros compositores da Portela a ter suas músicas gravadas por grandes intérpretes da era do rádio, como Linda Batista, Cyro Monteiro, Jorge Veiga e Ademilde Fonseca, o que contribuiu significativamente para a projeção nacional da estética musical de Oswaldo Cruz.
Alvaiade era mestre no chamado “samba de
terreiro”. Diferente do samba-enredo (feito para o desfile), o samba de
terreiro era o que mantinha a escola viva o ano todo, cantado nos quintais, nas
rodas e ensaios. Suas letras costumavam falar de amor, cotidiano e, claro, da
paixão pela Majestade do Samba. “Noite
que tudo esconde”, “Noite que tudo esconde, onde está o meu amor, estou cansado
de procurar, mas não há meio de encontrar, ...” e “Vida de Fidalga”[10],”Tu
que tinhas vida de fidalga, hoje vives a pão e água, coisa que me comoveu
...”
Para além das fronteiras de Oswaldo Cruz e
Madureira, Alvaiade teve um papel fundamental na profissionalização da
categoria dos compositores no Brasil. Ele foi um dos fundadores da União
Brasileira de Compositores (UBC), demonstrando uma compreensão precoce da
necessidade de proteção jurídica e financeira para os artistas populares. Em
uma época em que o sambista era frequentemente explorado por gravadoras e
editoras, a atuação de Alvaiade na UBC representou um passo fundamental para
que o samba fosse reconhecido como uma profissão legítima e para que os
direitos autorais fossem respeitados, consolidando sua imagem pessoal de visão
institucional ampla.
Nos últimos anos de sua vida, Alvaiade
desempenhou um papel central na organização e liderança da Velha Guarda da
Portela[11].
Quando Paulinho da Viola reuniu os antigos baluartes para a gravação do LP
"Portela, Passado de Glória" em 1970, Alvaiade emergiu como o
líder natural do grupo, assinando sucessos e zelando pela autenticidade das
performances. Esse movimento de resgate foi fundamental para contrapor a
crescente espetacularização do carnaval e reafirmar os valores do samba de
terreiro e da tradição oral da Azul e Branco. Alvaiade participou de diversos
espetáculos em teatros, como o Opinião, onde sua voz e seu cavaquinho
tornaram-se símbolos da resistência cultural do subúrbio.
Cantar Alvaiade, é cantar a querida Portela
nos seus anos de glória. E, como ensinou Mestre Monarco: “... No livro da
nossa história tem conquistas a valer, Juro que não posso me lembrar, Se for
falar da Portela, hoje eu não vou terminar ...”
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 01/05/2026
[1] Letra de “O Mundo é assim”,
Alvaiade,1968
[2] A história deste samba me
foi contada, numa tarde em Paquetá, por Cristina Buarque.
[3] Alvaiade (Rio de Janeiro,
21/12/1913- 23/06/1981)
[4] O alvaiade,
tradicionalmente conhecido como carbonato básico de chumbo, é um pigmento
branco denso e opaco. Os linotipos eram letras feitas com chumbo quente.
Possivelmente vem dai seu apelido.
[5] Rua em que morava em Osvaldo
Cruz.
[6] Brasileiro e Zé Cachacinha
são personagens fundamentais da história oral da Portela cujos nomes de batismo
acabou ficando em segundo plano diante da força do seu apelido no mundo do
samba. Ernani Alvarenga já estava na Portela quando Alvaiade chegou.
[7] Bibi era Sebastião Ramos, compositor portelense, irmão de Chatim da Portela.
[8] Nilson era um compositor portelense
dos anos 40/50, no entanto, como muitos outros, não se encontra registros com
todo o seu nome.
[9] Alvaiade e Djalma Mafra
(Rio de Janeiro, 1900- Rio de Janeiro 1974)
[10] Chico Santana e Alvaiade
[11]
A composição
original da Velha Guarda: Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana,
Antônio Rufino dos Reis, Mijinha, Manacéa, Alvaiade, Alcides Dias Lopes,
Armando Santos e Antônio Caetano.

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