quarta-feira, 8 de julho de 2026

 

O Redesenho da Política Nacional Aldir Blanc:

avanços, limites e caminhos para o futuro

 

A Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) representa um marco histórico para o financiamento da cultura no Brasil. Pela primeira vez, o país dispõe de uma política de fomento contínuo, com previsão de repasses regulares e abrangência nacional. No entanto, como toda política jovem, a PNAB ainda enfrenta desafios estruturais que precisam ser debatidos com profundidade para garantir sua consolidação como Política de Estado para o setor cultural.

Alguns pontos  dificultam a implementação da PNAB e merecem atenção de gestores, Conselhos de Cultura, agentes culturais, fazedores de cultura e da sociedade:

1.     1. PNAB como política estruturante: promessa ainda em construção

Embora a PNAB[1] tenha sido concebida como política permanente, sua implementação ainda carrega traços de excepcionalidade herdados das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, que foram emergenciais.

A chegada da Política Nacional Aldir Blanc encontrou o setor cultural muito desestruturado em todo o país. Os órgãos gestores, de maneira geral, enfrentam enormes dificuldades no que se refere as equipes, tanto na quantidade quanto na qualificação dos quadros, equipamentos culturais precisando de manutenção e ampliação, política cultural quase inexistente nos territórios.

Diante deste quadro, a PNAB tornou-se ainda mais valiosa para o setor cultural, uma vez que ela foi pensada para ser uma política estruturante. A falta de previsibilidade da agenda dos repasses federais e a ausência de integração com o Sistema Nacional de Cultura[2] dificultam que estados e municípios, ainda desestruturados, planejem ações de longo prazo, formando equipes mais estáveis, consolidando estruturas técnicas permanentes e ampliando as estruturas para atendimento das necessidades do setor. É um processo de instalação da capacidade de absorção dos recursos para o setor cultural.

Sem essa base, a política corre o risco de se tornar contínua apenas no papel, mas fragmentada na prática. É necessário que o MinC/CNC[3] definam critérios comuns aos sistemas estaduais/municipais para que eles consigam se comunicar entre si e com o MinC/CNC. Este processo pode acelerar a maturação dos órgãos gestores na compreensão da execução de uma política cultural permanente.

2   2. Calendarização dos editais: quando o atraso de um vira atraso para  todos:

A ausência de sincronização entre repasses federais e a definição de cronogramas para o lançamento dos editais nos estados/municípios, gera um efeito cascata: editais lançados às pressas, prazos apertados, menor qualidade na elaboração das chamadas públicas e desigualdade entre entes federados. Municípios com menor capacidade técnica são os mais prejudicados. Uma política nacional precisa de uma janela de execução clara, com datas fixas para repasse, lançamento, seleção e prestação de contas. Sem isso, a PNAB perde eficiência e previsibilidade. É necessário que os repasses só aconteçam vinculados a apresentação pelos entes federativos de um calendário para o lançamento dos editais nos seus territórios. Com datas expressas para todos os passos necessários a organização e elaboração dos editais nos estados e municípios. Esta vinculação é fundamental para que não ocorra defasagem entre os repasses federais e a efetiva execução local.

    3. Controle social: participação existe, mas ainda não é efetiva

O Marco Regulatório de Fomento à Cultura define e a PNAB exige participação e controle social na aplicação dos recursos federais. Mas, muitos municípios não possuem Conselhos ativos ou contam com Conselhos sem qualificação adequada a exercer este controle.  Além disso, faltam normativas claras sobre o papel desses conselhos na política: deliberar, acompanhar, fiscalizar? Sem formação continuada e diretrizes nacionais, a participação social corre o risco de ser apenas formal e não transformadora, eficiente e eficaz. É necessário programas de capacitação dos conselheiros  bem como das equipes técnicas dos órgãos gestores.

   4. Acesso: plataformas, CULTBr e o desafio da inclusão digital

O acesso aos editais ainda é marcado por barreiras tecnológicas. Plataformas instáveis, pouco intuitivas, que atendem a toda gestão local, falta de padronização, sem especificidade para o setor cultural, com baixa usabilidade dificultam a participação de quem tem menor familiaridade com ferramentas digitais — especialmente mestres, grupos tradicionais e coletivos periféricos da cultura popular.

A CULTBr, plataforma desenvolvida pelo MinC, embora promissora, ainda não opera como plataforma integrada nacionalmente. Sem a interoperabilidade necessária com sistemas locais e oferta de suporte técnico aos entes, corre-se o risco de centralizar sem democratizar. É fundamental, difundir e centralizar os dados da PNAB numa plataforma interativa, de fácil acesso, que abranja todo o território nacional e que não exclua segmentos culturais com maior tradição oral A participação do setor cultural não pode ser definida pelas possibilidades de acesso as plataformas.

Além disso, a PNAB ainda opera majoritariamente com editais de projetos isolados, reproduzindo uma lógica competitiva que não fortalece práticas culturais contínuas. É urgente migrar para fomento continuado, com contratos plurianuais que sustentem espaços culturais, grupos e mestres, permitindo o fortalecimento do setor cultural como um todo e não somente de alguns segmentos que possuem maior acesso digital.

5   5. Avaliação: pareceristas precisam compreender a diversidade cultural do país

A avaliação dos projetos é um ponto sensível. Muitos pareceristas não possuem formação adequada para analisar propostas de cultura popular, tradição oral ou práticas comunitárias. Critérios acadêmicos são aplicados a manifestações que não se organizam segundo essa lógica. Sem capacitação específica, a política corre o risco de excluir justamente quem deveria incluir. Urge programas de capacitação de pareceristas e avaliadores que conheçam a cultura popular e entendam os diversos simbolismos nelas contidos. É necessário que os avaliadores conheçam a importância de determinados objetos para suas culturas especificas para que possam efetivamente avaliar os projetos culturais. Como podem avaliar um projeto de cultura africana se não conhecem o valor de um atabaque ou o papel de um guardião do saber para a cultura indígena? Quando não sabem definir a diferença entre os 4 princípios de avaliação de uma “batalha de rima”?[4]

6     6. Monitoramento e divulgação: a cultura precisa ser vista para ser valorizada

A PNAB financia milhares de ações culturais, mas a sociedade ainda conhece pouco seus resultados. Falta uma estratégia nacional de visibilidade: exposições, festivais, circulação, mostras e, sobretudo, uma plataforma online que reúna dados, histórias, imagens e vídeos dos projetos apoiados. Sem comunicação, a política perde legitimidade pública — e o impacto cultural fica invisível.

7.    7. Para onde avançar

A PNAB é uma conquista histórica, mas sua consolidação depende de ajustes estruturais, de um redesenho de suas características para que atendam melhor as necessidades da enorme diversidade do setor cultural nacional:

v previsibilidade nos repasses;

v fortalecimento dos conselhos e da participação social;

v plataformas acessíveis e interoperáveis;

v fomento continuado;

v formação de pareceristas;

v divulgação ampla dos resultados produzidos nacionalmente pela PNAB

A cultura brasileira é diversa, viva e pulsante. A PNAB tem potencial para ser a política que finalmente reconhece essa potência — desde que continue sendo aprimorada com escuta, crítica e compromisso público.

 

                  Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério


Carmen Evangelho

Ilha da Magia 08/07/2026



[1] Estamos cientes que o MinC não adota mais a sigla PNAB para o 2º Ciclo da Política Nacional Aldir Blanc. Mas, por praticidade, ainda usamos a sigla PNAB.

[2] A inexistência de Sistemas Estaduais/Municipais que falem entre si e se comuniquem com o SNC, acaba impossibilitando a construção efetiva de um Sistema Nacional de Cultura (SNC) de fato. Ele existe em diversos estados e municípios mas, somente no papel com os instrumentos: Conselhos, Plano e Fundo que não se comunicam.

[3] CNC – Conselho Nacional de Cultura

[4] Ataque e Resposta (Contraponto), Flow e Métrica, Criatividade e Punchline, Presença de Palco e Postura:

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