Inimigos
do Batente, é roda de samba bom!
O Inimigos do Batente nasceu como nascem as
coisas verdadeiras: sem anúncio, sem projeto, sem palco. Nasceu como nascem os
sambas mais verdadeiros: no intervalo entre um gole e uma conversa, no gesto
simples de quem encosta o corpo na cadeira e deixa o coração fazer o resto. Foi
no começo dos anos 2000, no Bar do Cidão, em Pinheiros, que alguns amigos começaram
a tocar como quem acende uma luz na madrugada. Não era grupo, não era projeto —
era necessidade. Era vida. Era roda!
Começaram se chamando de “33 Palitos”,
homenagem a Cyro Monteiro e à sua caixa de fósforos. A roda cresceu, o nome
mudou, e o que era encontro virou tradição — daquelas que não se inventam,
apenas acontecem.
Com o tempo, a roda cresceu, o nome mudou,
e o grupo se firmou como uma das tradições mais queridas da cidade. O estilo?
Samba de raiz, rodas longas, repertório profundo e aquele clima de comunidade
que só existe quando música, conversa e comida se misturam como se fossem uma
coisa só.
O estilo do grupo é feito de chão, de raiz,
de tempo largo. Samba que não se apressa, que não se exibe, que não se dobra ao
relógio. Samba que junta música, conversa, comida, memória — tudo no mesmo
prato. No Ó do Borogodó, o grupo encontrou casa. E casa, quando é verdadeira,
não se entra: se pertence. Ali, o Inimigos moldou noites que pareciam eternas,
rodas que viravam abraço, repertórios que cavavam fundo na alma de quem ouvia.
A relação com o Ó do Borogodó ajudou a
consolidar o grupo como referência. Ali, o Inimigos é quase uma instituição:
noites longas, público fiel, músicos chegando para somar e a sensação de que o
samba é, antes de tudo, um território de convivência. São mais de 25 anos
consolidando o grupo na cidade.
Hoje, o Inimigos do Batente é considerado
um dos grupos de samba mais originais de São Paulo, mantendo viva a tradição
das rodas como espaço de convivência e resistência cultural. É reconhecido como
parte da história viva do samba paulistano — não apenas pela longevidade, mas
por preservar e renovar a tradição das rodas como espaço de encontro, memória e
criação coletiva.
Com o tempo, o grupo se aproximou de
movimentos culturais e sociais, como quem entende que o samba não é só canto —
é gesto, é presença, é forma de ocupar a cidade com o corpo inteiro. A roda
virou território de resistência, de convivência, de afirmação. Um modo de
dizer: “Estamos aqui. E aqui também é nosso.”
A cidade mudava, e o samba mudava com ela.
Novas rodas surgiam, músicos circulavam, redes se formavam. O Inimigos virou
polo, virou ponto de encontro, virou farol. Sambistas, compositores,
pesquisadores, apaixonados — todos encontravam ali um chão comum, uma língua
compartilhada, uma memória que se reconhecia no outro.
A formação mudou, mas a alma ficou.
Railídia, Fernando Szegeri, Paulinho Timor, Helinho Guadalupe, Tchubi, Koka e
Dil— cada nome é uma história, cada história é um sotaque, cada sotaque é um
jeito de tocar que, somado aos outros, cria uma sonoridade quente, cheia de
afeto, cheia de mundo.
Quando o nome virou Inimigos do Batente, o
grupo se afirmou. O humor, a ironia, a boemia, tudo conversava com a tradição
do samba que sempre soube rir do trabalho e trabalhar a alegria. As rodas
atravessavam a madrugada como quem atravessa um rio: sem medo, sem pressa,
deixando a correnteza levar.
O repertório é mergulho. É Candeia,
Paulinho da Viola, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Moacyr Luz, Nelson
Cavaquinho. É raiz, mas não é museu. É vivo, pulsante, cheio de improviso,
cheio de conversa, cheio daquele coro que só nasce quando a roda está boa de
verdade — quando o canto vira comunidade.
Sua história acompanha a da própria cidade:
bairros que viram polos culturais, coletivos que brotam, ruas que se enchem de
rodas, blocos, festas. Redes de memória e identidade popular que se fortalecem.
Nesse cenário, o grupo virou referência para quem busca um samba que honra a
tradição, mas conversa com o presente.
O Inimigos do Batente é síntese rara:
respeito profundo à tradição, inserção orgânica na vida cultural da cidade,
participação ativa em movimentos sociais e manutenção da roda como espaço de
encontro, não de espetáculo. Sua história é também a história de uma cidade que
tenta se reinventar pela cultura popular, e de um samba que continua sendo
território de memória, resistência e comunidade.
Quem conhece o grupo sabe: não é só música. É lembrança. É afeto. É resistência. É roda que abraça. É prova de que o samba segue sendo um dos lugares mais generosos e verdadeiros da vida urbana brasileira.
Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo EleotérioCarmen
Evangelho
Ilha da Magia
14/07/2026
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