terça-feira, 14 de julho de 2026

 

Inimigos do Batente, é roda de samba bom!

 

O Inimigos do Batente nasceu como nascem as coisas verdadeiras: sem anúncio, sem projeto, sem palco. Nasceu como nascem os sambas mais verdadeiros: no intervalo entre um gole e uma conversa, no gesto simples de quem encosta o corpo na cadeira e deixa o coração fazer o resto. Foi no começo dos anos 2000, no Bar do Cidão, em Pinheiros, que alguns amigos começaram a tocar como quem acende uma luz na madrugada. Não era grupo, não era projeto — era necessidade. Era vida. Era roda!

Começaram se chamando de “33 Palitos”, homenagem a Cyro Monteiro e à sua caixa de fósforos. A roda cresceu, o nome mudou, e o que era encontro virou tradição — daquelas que não se inventam, apenas acontecem.

Com o tempo, a roda cresceu, o nome mudou, e o grupo se firmou como uma das tradições mais queridas da cidade. O estilo? Samba de raiz, rodas longas, repertório profundo e aquele clima de comunidade que só existe quando música, conversa e comida se misturam como se fossem uma coisa só.

O estilo do grupo é feito de chão, de raiz, de tempo largo. Samba que não se apressa, que não se exibe, que não se dobra ao relógio. Samba que junta música, conversa, comida, memória — tudo no mesmo prato. No Ó do Borogodó, o grupo encontrou casa. E casa, quando é verdadeira, não se entra: se pertence. Ali, o Inimigos moldou noites que pareciam eternas, rodas que viravam abraço, repertórios que cavavam fundo na alma de quem ouvia.

A relação com o Ó do Borogodó ajudou a consolidar o grupo como referência. Ali, o Inimigos é quase uma instituição: noites longas, público fiel, músicos chegando para somar e a sensação de que o samba é, antes de tudo, um território de convivência. São mais de 25 anos consolidando o grupo na cidade.

Hoje, o Inimigos do Batente é considerado um dos grupos de samba mais originais de São Paulo, mantendo viva a tradição das rodas como espaço de convivência e resistência cultural. É reconhecido como parte da história viva do samba paulistano — não apenas pela longevidade, mas por preservar e renovar a tradição das rodas como espaço de encontro, memória e criação coletiva.

Com o tempo, o grupo se aproximou de movimentos culturais e sociais, como quem entende que o samba não é só canto — é gesto, é presença, é forma de ocupar a cidade com o corpo inteiro. A roda virou território de resistência, de convivência, de afirmação. Um modo de dizer: “Estamos aqui. E aqui também é nosso.”

A cidade mudava, e o samba mudava com ela. Novas rodas surgiam, músicos circulavam, redes se formavam. O Inimigos virou polo, virou ponto de encontro, virou farol. Sambistas, compositores, pesquisadores, apaixonados — todos encontravam ali um chão comum, uma língua compartilhada, uma memória que se reconhecia no outro.

A formação mudou, mas a alma ficou. Railídia, Fernando Szegeri, Paulinho Timor, Helinho Guadalupe, Tchubi, Koka e Dil— cada nome é uma história, cada história é um sotaque, cada sotaque é um jeito de tocar que, somado aos outros, cria uma sonoridade quente, cheia de afeto, cheia de mundo.

Quando o nome virou Inimigos do Batente, o grupo se afirmou. O humor, a ironia, a boemia, tudo conversava com a tradição do samba que sempre soube rir do trabalho e trabalhar a alegria. As rodas atravessavam a madrugada como quem atravessa um rio: sem medo, sem pressa, deixando a correnteza levar.

O repertório é mergulho. É Candeia, Paulinho da Viola, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Moacyr Luz, Nelson Cavaquinho. É raiz, mas não é museu. É vivo, pulsante, cheio de improviso, cheio de conversa, cheio daquele coro que só nasce quando a roda está boa de verdade — quando o canto vira comunidade.

Sua história acompanha a da própria cidade: bairros que viram polos culturais, coletivos que brotam, ruas que se enchem de rodas, blocos, festas. Redes de memória e identidade popular que se fortalecem. Nesse cenário, o grupo virou referência para quem busca um samba que honra a tradição, mas conversa com o presente.

O Inimigos do Batente é síntese rara: respeito profundo à tradição, inserção orgânica na vida cultural da cidade, participação ativa em movimentos sociais e manutenção da roda como espaço de encontro, não de espetáculo. Sua história é também a história de uma cidade que tenta se reinventar pela cultura popular, e de um samba que continua sendo território de memória, resistência e comunidade.

Quem conhece o grupo sabe: não é só música.  É lembrança. É afeto. É resistência. É roda que abraça. É prova de que o samba segue sendo um dos lugares mais generosos e verdadeiros da vida urbana brasileira.

     Imagem criada por IA, gentilmente gerada e cedida por Paulo Eleotério

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 14/07/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  Inimigos do Batente, é roda de samba bom!   O Inimigos do Batente nasceu como nascem as coisas verdadeiras: sem anúncio, sem projeto, ...