sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

Antônio da Silva Caetano, 

o Arquiteto da Majestade do Samba

 

Um de seus pilares fundamentais da história do Carnaval carioca e, mais especificamente, da construção institucional do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela foi Antônio da Silva Caetano, embora frequentemente obscurecido pelo nome de Paulo da Portela.

Antonio da Silva Caetano, imagem retirada da internet

Nascido em 10 de setembro de 1900, Antônio Caetano, Mestre Caetano ou “Pelado” como era conhecido, representa a figura do sambista intelectualizado do início do século XX, cujas contribuições ultrapassaram a composição musical para criar as bases da organização das escolas de samba modernas.

Marinheiro, desenhista, carnavalesco e compositor, Caetano foi o principal responsável por converter o amadorismo dos blocos suburbanos em um espetáculo de representação plástica e temática, conferindo à Portela a identidade que a consagrou como a "Majestade do Samba".

 Gênese e Formação: O Contexto Suburbano e a Experiência Naval

A trajetória de Antônio Caetano está intimamente ligada a transformação demográfica e cultural sofrida pela Zona Norte do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

Filho de João Manoel Caetano e Raquel da Silva Caetano, Mestre Caetano cresceu em um ambiente que presenciava o deslocamento das populações do centro da cidade para os subúrbios, impulsionado pela expansão da malha ferroviária.

Este movimento migratório trouxe para regiões como Oswaldo Cruz e Madureira uma massa heterogênea de trabalhadores, ex escravizados e imigrantes rurais, criando um fértil terreno cultural que daria origem ao samba carioca.

Diferente de muitos de sambistas de sua época, Caetano teve acesso a uma educação formal que moldou sua capacidade de articulação e planejamento. Ele frequentou o Colégio Salesiano, instituição que lhe proporcionou não apenas uma boa instrução escolar, mas também uma iniciação musical rigorosa na banda da escola, onde passou de corneteiro a saxofonista e pistonista, fixando-se posteriormente no violão.

O jovem Antonio Caetano, imagem retirada da internet

Essa base escolar foi determinante para sua atuação posterior como desenhista da Imprensa Naval, cargo que ocupou durante sua carreira na Marinha Brasileira.

A experiência na Marinha foi o grande divisor de águas na formação intelectual de Caetano. Enquanto a maioria dos jovens suburbanos da época tinha sua visão de mundo circunscrita aos limites da capital, Caetano viajou por diversos países, entrando em contato com estéticas e símbolos de nações distantes, o que lhe proporcionou uma visão mais cosmopolita que possibilitou que ele trouxesse para o universo do samba uma capacidade de abstração e um repertório simbólico que seriam aplicados na criação da identidade visual portelense.

  A Fundação da Portela e o Triunvirato de Oswaldo Cruz:

A consolidação da Portela como instituição não foi um ato isolado, mas o resultado de um entrosamento orgânico entre três jovens com habilidades complementares: Paulo da Portela, o articulador social e político; Antônio Rufino, o gestor de recursos; e Antônio Caetano, o mentor artístico e visual.

Na metade da década de 1920, Caetano, que residia em Quintino, passou a frequentar intensamente Oswaldo Cruz após iniciar um relacionamento com Diva, uma jovem local.

Em 1923, a sombra de uma mangueira na Rua Joaquim Teixeira, localidade que Caetano imortalizaria em suas pinturas e composições, os três fundadores decidiram criar  uma nova associação que superasse as limitações dos blocos extintos "Quem Fala de Nós Come Mosca" e "Baianinhas de Oswaldo Cruz". Surgiria, então,  o Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz, que posteriormente passaria por nomes como "Quem Nos Faz É O Capricho" e "Vai Como Pode”, até adotar definitivamente a denominação Portela, em meados dos anos 1930.

Em 11 de abril de 1926 foi registrado o documento que oficializava o Conjunto Carnavalesco Escola Samba de Oswaldo Cruz, constituído por Paulo da Portela, Antônio da Silva Caetano, Antônio Rufino dos Reis, Álvaro Sales, José da Costa, Galdino, Claudionor, Manoel Bam-Bam-Bam Gonçalves, Antônio Portugal, Cláudio Bernardo da Costa, Angelino Poró Vieira e Candinho, entre outros.

Na primeira Junta Governativa da Escola, Antônio Caetano assumiu o cargo de Secretário, sendo o responsável por formalizar a existência da agremiação e estruturar suas primeiras apresentações. Sua atuação foi fundamental para que a escola superasse o modelo de blocos rurais e começasse a desenhar o que viria a ser o desfile moderno.

 

 Antonio Caetano, Antonio Rufino e Paulo da Portela, o triunvirato fundador da Portela, pelo traço do Lan


A Evolução do nome:

A transição do Conjunto Oswaldo Cruz para a Portela envolveu não apenas mudanças de nome, mas uma evolução na percepção do sambista como artista. Antônio Caetano foi peça-chave na manutenção da licença de funcionamento da escola.

Em 1934, o delegado Dulcídio Gonçalves negou a renovação da licença para uma agremiação chamada "Vai Como Pode", por considerar o nome pejorativo e associado à vadiagem. Diante da necessidade de uma identidade mais respeitável, a escola adotou o nome da via principal de acesso ao bairro, consolidando-se como G.R.E.S. Portela.

 

Inovação Estética: O Nascimento do Cargo de Carnavalesco:

Antônio Caetano é considerado como o primeiro carnavalesco do Carnaval brasileiro, uma ocupação que ele inventou ao transpor seus dotes de desenhista para a pavimentação da passarela. Antes dele, os grupos carnavalescos desfilavam sem um fio condutor temático ou visual. Caetano introduziu a idéia de que uma escola de samba deveria contar uma história através de seus adereços e fantasias, criando a representação plástica dos temas.

 O Primeiro Título e a Primeira Alegoria:

No Carnaval de 1935, a Portela, ainda desfilando sob o nome "Vai Como Pode", apresentou o enredo "O Samba Dominando o Mundo". Para este desfile, Caetano concebeu a primeira alegoria da história das Escolas de Samba: um rústico globo terrestre giratório que simbolizava a universalidade do ritmo. Esta inovação foi o fator determinante para a conquista do primeiro título oficial da Escola, estabelecendo um padrão de excelência que a Portela manteria pelas décadas seguintes.

Caetano não apenas idealizava os enredos, mas trabalhava ativamente no barracão, introduzindo novos materiais e técnicas de construção que permitiam a criação de adereços mais complexos e duradouros. Ele foi o precursor do espetáculo visual que hoje define o Carnaval do Rio de Janeiro, antecipando em décadas o surgimento de carnavalescos profissionais.

A Simbologia Portelense: Identidade e Devoção:

A longevidade dos símbolos da Portela deve-se à genialidade de Caetano em fundir referências globais com a religiosidade local. Cada elemento visual da Escola carrega uma carga semântica profunda, concebida para elevar a autoestima do sambista suburbano.

A Bandeira do Sol Nascente:

A bandeira da Portela, desenhada por Caetano em 1931, é um dos pavilhões mais icônicos do samba. O desenho foi explicitamente inspirado na bandeira japonesa do sol nascente, uma referência que Caetano trouxe de suas viagens marítimas. A disposição dos raios partindo de um centro comum simboliza a irradiação da cultura portelense para o mundo, mantendo um rigor geométrico que a diferenciava dos estandartes rústicos da época.

A bandeira portelense, em azul e branco. Imagem retirada da internet

As Cores do Manto Sagrado:

A escolha das cores azul e branco foi uma decisão de cunho religioso. Caetano buscou inspiração no manto de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira da Escola. Esta escolha não apenas conferiu uma elegância visual à agremiação, mas também estabeleceu uma conexão espiritual profunda com a comunidade, refletindo o sincretismo religioso presente na fundação da Escola, onde os padroeiros católicos dividiam o espaço simbólico com orixás como Oxum e Oxóssi.

A Águia: A Ave que Voa mais Alto:

A escolha da Aguia como símbolo máximo foi uma proposição de Caetano baseada na ideia de superação e domínio. Para ele, a águia representava a ave capaz de alçar os voos mais altos, uma metáfora para o desejo dos sambistas de Oswaldo Cruz de serem reconhecidos pela grandeza de sua arte.

Embora o presidente Natal da Portela tenha sido o responsável por incutir na Escola o orgulho ferrenho pelo símbolo, a concepção visual original é de autoria de Caetano. O desenho original da Aguia, preservado em arquivos nacionais, demonstra a preocupação de Caetano com a proporção e a altivez da imagem.

 Produção Musical e Inovação Melódica:

Antônio Caetano foi um artista completo que entendia a música como parte integrante da narrativa do Carnaval. Suas composições são marcadas por uma sofisticação melódica incomum para a época, fruto de sua formação musical em instrumentos de sopro e cordas

 O Sabiá e a Ousadia da Segunda Parte:

Em 1929, no primeiro concurso de sambas da história, ocorrido na casa de Zé Espinguela, Caetano apresentou "O Sabiá". A música causou espanto entre os jurados e competidores por apresentar uma "segunda parte" desenvolvida, rompendo com a estrutura circular e repetitiva dos sambas de terreiro da década de 20. Essa inovação antecipou o desenvolvimento do samba-enredo moderno, que exigiria estruturas mais complexas para narrar temas históricos.

 Obra e Acervo:

A produção de Caetano inclui sambas que se tornaram hinos de fundação da Portela. "O quanto a paixão é capaz" é listado como uma das três primeiras composições da história da Escola.

Para o desfile vitorioso de 1935, ele compôs "Alegria tu terás", demonstrando que sua participação na conquista do  título não foi apenas nas criações visuais, mas também musical.

 1937: Ética, Dívidas e o Rompimento com Paulo da Portela

Um dos episódios mais complexos da biografia de Antônio Caetano é o seu rompimento com Paulo da Portela em 1937. O conflito não foi motivado por questões artísticas, mas por uma divergência ética e financeira profunda que envolveu a eleição de Paulo como "Cidadão-Samba". Caetano atuou como o principal articulador da campanha de Paulo, contraindo dívidas pessoais significativas com Sérgio Hermógenes para garantir a estrutura necessária para a vitória do amigo. A expectativa de Caetano era quitar esses débitos com a premiação financeira em dinheiro que o título de Cidadão-Samba conferiria ao vencedor.

No entanto, após vencer a disputa, Paulo da Portela decidiu usar integralmente o valor do prêmio para comprar presentes para os jornalistas e intelectuais presentes, vendo tal ato como um "investimento em imagem" que traria benefícios futuros para o samba.

Caetano, que havia empenhado sua palavra e seu crédito pessoal, sentiu-se traído. O choque entre a visão política e pragmática de Paulo e a ética de honra e palavra de Caetano resultou em um rompimento imediato. Caetano pagou a dívida com recursos próprios e afastou-se da diretoria da Escola que ajudara a fundar, mantendo-se em uma posição de observador anônimo por muitos anos. Esse episódio revela as tensões internas entre os pioneiros, que muitas vezes sacrificavam suas finanças pessoais para consolidar a imagem pública do sambista.

 A Fundação do Império Serrano e a Unidade de Madureira

O afastamento de Antônio Caetano da Portela não significou seu fim no Carnaval. Em 1946, ele foi convidado a colaborar com o bloco Prazer da Serrinha, liderado por Alfredo Costa. Caetano levou para a Serrinha o enredo "Conferência de São Francisco", que havia idealizado originalmente para a Portela, com música de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola.

Durante o desfile, a interferência autoritária de Alfredo Costa, que impediu a execução do samba-enredo para cantar um samba de terreiro, provocou uma revolta entre os compositores. Este incidente foi o catalisador para a criação do G.R.E.S. Império Serrano, em 1947. Caetano foi peça fundamental na nova agremiação, sendo o autor do risco da bandeira imperial e da coroa, o símbolo máximo do Império, março de 1947.

Dessa forma, Antônio Caetano tornou-se o único artista a ter desenhado a identidade visual das duas maiores potências de Madureira e Oswaldo Cruz, provando que sua visão estética estava além das rivalidades de bairro. Sua atuação no Império Serrano ajudou a escola a vencer seu primeiro desfile em 1948, derrotando inclusive a Portela, que vinha de um heptacampeonato ininterrupto.

 Reconciliação, a Velha Guarda e a Imortalidade do Legado:

Pouco antes de sua morte, ocorreu a lenta e necessária reintegração de Antônio Caetano ao convívio portelense. Ele reatou a amizade com os antigos companheiros e foi homenageado pela Velha Guarda da Portela. E, ostentava orgulhosamente, a cópia de um anel com as iniciais AC, que Paulo da Portela havia mandado cunhar para os principais fundadores da Portela: AC - Antônio Caetano, PO- Paulo Oliveira e AR - Antônio Rufino.

Sua contribuição foi fundamental para o projeto de preservação da memória da Escola, servindo de fonte para pesquisadoras como Lygia Santos e Marília Barboza, cujos depoimentos ajudaram a elucidar as origens dos símbolos da agremiação.

Num quintal de Madureira, os portelenses históricos

A importância de Antônio Caetano para a cultura brasileira reside na sua capacidade de transformar o Carnaval em algo institucional e simbólico. Ele não foi apenas um fundador; foi o arquiteto que desenhou a alma da Portela. Se hoje a Águia abre as asas na Sapucaí sob um pavilhão azul e branco, isso se deve ao talento técnico e à sensibilidade artística de um marinheiro que viu o mundo e decidiu que o samba de Oswaldo Cruz merecia a mesma dignidade das grandes nações.

O legado de Caetano foi celebrado no centenário da Portela em 2023, onde historiadores e integrantes da escola reafirmam que ele, Paulo e Rufino formam a tríade sagrada que sustenta a maior campeã do Carnaval carioca. Sua vida prova que o samba não é apenas ritmo, mas também imagem, narrativa e, sobretudo, história.


Em pé, Paulinho da Viola,  seu lado: Aniceto, Alberto Lonato, Chico Santana, atrás dele, encoberto, Antônio Caetano, Armando Santos, Vicentina, o sobrinho dela e Manacéa. Agachados estão Casquinha, o neto de Iara, a própria Iara, Monarco, Alcides Lopes (o Malandro Histórico), Cláudio e Mijinha, na porta da casa da Iara em Osvaldo Cruz, onde gravaram o primeiro disco da VG da Portela.
                 
 Antônio da Silva Caetano, faleceu em 11 de agosto de 1982, mas permanece como o "Pelado" entre os íntimos e como o "Mestre Caetano" para a história. Sua trajetória é o exemplo máximo da sofisticação do intelecto popular carioca, que soube criar, a partir da precariedade dos barracões, um império de símbolos e sons que resiste ao tempo.


Carmen Evangelho

Ilha da Magia 17/07/2026

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