domingo, 8 de fevereiro de 2026

 

Da Escola da Corte à Escola de Samba!!!

Sempre que procuramos a origem das Escolas de Samba surge a Deixa Falar, fundada no Estácio1, em 1928. Embora fosse um bloco carnavalesco e, depois rancho, a Deixa Falar que nunca foi uma Escola de Samba é sempre  mencionada como a origem das Escolas de Samba.

Naquele período (1926 – 1932), nascia no Largo do Estácio, um novo ritmo que se diferenciava que era tocado na cidade do Rio de Janeiro até então. O grupo de Bambas do Estácio2, inovou no andamento, na cadência e na percussão do que até então era tocado: o samba mais maxixado. As letras falavam dos problemas cotidianos expressando a nova realidade social que se desenhava no incipiente processo de industrialização nacional.

Mas, o que levou os sambistas a criarem o nome de Escola de Samba?
Ismael Silva

Ismael Silva contou em seu depoimento ao MIS, que naquele tempo, as batalhas de confete eram uma miniatura do carnaval e começavam no último dia do ano, na Avenida Rio Branco. A partir daquele dia, as batalhas de confetes eram semanais e em vários bairros da cidade. Agrupamentos que viriam a se tornar grandes Escolas de Samba, como Portela, Mangueira e Salgueiro, disputavam as batalhas, um querendo ser maior do que o outro. As notícias dessas grandes batalhas chegavam ao Estácio, irritando Ismael Silva que respondeu: “
Eles têm que respeitar, Escola de Samba é aqui, daqui que saem os professores, portanto aqui é a Escola de Samba! Daí saiu o nome, repito, por causa dos professores, que saiam da Escola Normal. Eis aí o nome e a Escola de Samba formada!3

Com a Escola de Samba formada e com as inovações que apresentavam na maneira de tocar o samba, Ismael e o grupo do Estácio queriam “uma melodia que atendessem às exigências básicas de um desfile de bloco carnavalesco. Isto é, que permitissem aos foliões dançar e cantar ao mesmo tempo. E, animadamente.4

Mano Rubem já havia fundado a “União Faz a Força”, bloco carnavalesco que adotou as cores do América Futebol Clube, o time da maioria da rapaziada do Estácio. Com a morte de Mano Rubem5, o grupo decidiu fundar, em sua homenagem, a Deixa Falar, com as cores do América, como bloco e como Escola de Samba que acabou virando Rancho e durou de 3 a 4 anos. Era 12 de agosto de 1928.

E, eu sempre fiquei muito curiosa em saber que Escola Normal seria aquela? São várias as referências, sempre baseadas nos depoimentos de Ismael Silva, que “Escola de Samba” vinha da “Escola Normal” que ficava perto da Rua do Estácio 29, onde a Deixa Falar ensaiava.

Mas, o Instituto de Educação estava, desde 1930, instalado na Rua Mariz de Barros, na Tijuca, um pouco longe para ser considerado perto. Na Rua Campos Salles, também na Tijuca, estava a sede do América.

E, ficava a inquietação: "Que Escola Normal seria aquela"? Foi Luis Carlos Magalhães, quem respondeu a minha indagação num artigo chamado “São Cristóvão ou Estácio, qual é o verdadeiro berço do samba carioca?”6. E, eu fui atrás da pesquisa dele.

A criação das Escolas Normais na Corte do Rio de Janeiro remonta segunda metade do século XIX. O ensino sempre foi um território de disputa: entre o público e o privado; entre o nacional e o regional; entre os mais abastados e os menos favorecidos. A partir de 1822, a questão da educação do povo brasileiro começou a ingressar nas preocupações políticas nacionais. Em decorrência, a formação dos professores que deveriam ser “os responsáveis pela educação do povo” torna-se ponto de preocupação do Império.7

A primeira Escola Normal foi criada em Niterói, em 1835, para “nela se habilitarem as pessoas, que se destinarem ao magistério de instrução primária, e os Professores atualmente existentes, que não tiverem adquirido a necessária instrução nas Escolas de Ensino"8. E, somente a partir de 1870, quando ocorrem mudanças nas concepções escolares, o conceito de Escola Normal ganhou importância e foi criada a Escola Normal da Corte, pelo Decreto nº 7.684 de 6 de março de 1880, que pode ser entendida como resultado das mudanças na visão de ensino ocorridas no Império.

A Escola Normal da Corte deveria, inicialmente, funcionar nas dependências do externato do Imperial Colégio Pedro II, na Rua Larga de São Joaquim. Estavam matriculadas 88 moças e 87 moços. No entanto, “mal se iniciaram os trabalhos letivos, constatou-se a falta de espaço físico, passando a Escola Normal a funcionar no prédio da Escola Politécnica, em cursos noturnos9 onde funcionou até 1888.

Em 1888, ano anterior ao final do Império, a Escola Normal da Corte sofreu outra mudança de endereço, saindo do Largo de São Francisco para a Praça d'Aclamação número 5610, lá permanecendo até 1914. Esta mudança colocou a Escola Normal da Corte no centro das agitações políticas do período, que envolviam a abolição da escravatura e a Proclamação da República.

Com a República, a Escola passou-se a chamar Escola Normal do Distrito Federal. E, em 1914, sofreu mais uma mudança de endereço. Foi transferida para a Rua São Cristóvão nº 18, na Cidade Nova, para o prédio onde funcionava a EScola Estácio de Sá. Naquela época, a Rua São Cristóvão região isolada da cidade, conhecida pela área de prostituição, pelos cortiços e favelas próximas. A circulação das novas personagens  naquele espaço urbano foi responsável pelo Decreto nº1678, de 5 de janeiro de 1915, que instituiu o uniforme escolar obrigatório, com o objetivo de diferenciar as normalistas do público local.
Escola Normal do Distrito Federal que deu origem ao termo Escola de Samba

A Escola Normal do Distrito Federal permaneceu na Rua São Cristóvão 18 até 1930, quando foi integrada ao nascente Instituto de Educação, na Tijuca. Pronto! Está esclarecida a história contada por Ismael Silva.

As mudanças urbanísticas ocorridas naquela região da cidade, fizeram desaparecer o pedaço da Rua São Cristóvão em que ficava o número 18. “A Escola Normal que procurava, ficava na exata esquina da antiga Rua São Cristóvão com a extinta Rua Machado Coelho. Se ainda existisse, hoje ficaria dentro dos jardins da Estação Estácio do Metrô, na exata esquina da Rua Joaquim Palhares com Rua Estácio de Sá”.11

Depois de todas estas idas e vindas, fica a sensação de que o samba acompanha e se mistura com a história social, política e econômica deste país!!!

Referências:
1 Bairro da área central da cidade do Rio de Janeiro. Atualmente faz divisa com os bairros do Catumbi, Cidade Nova, Tijuca, Praça da Bandeira e Rio Comprido.

2 Eram os Bambas do Estácio: Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Edgar Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Sylvio Fernandes (Brancura), Heitor dos Prazeres, Rubem Barcellos (Mano Rubem), Nilton Bastos e Osvaldo Caetano Vasques (Baiaco)

3 Publicado em: Oliveira Filho, A.L.:“Pioneiros do Samba”, Série Depoimentos, MIS Editorial, Rio de Janeiro, 2002, pag. 174.

4 Soares, M.T.M.: “São Ismael do Estácio: o sambista que foi rei”, FUNARTE, Rio de Janeiro, 1985, pg.12. e 98

5 Mano Rubem faleceu em junho de 1927

6 https://www.carnavalesco.com.br/luis-carlos-magalhaes-sao-cristovao-ou-estacio-qual-e-o-verdadeiro-berco-do-sambacarioca/?fbclid=IwAR1MwkjztamMqRZuqZg3wQQU8aMzmDWT1vktFlWQgB2t04FAsGI9pWNp2AU

7 As informações sobre a história das Escolas Normais foram retiradas da Dissertação de Mestrado de Thiago Cerqueira dos Santos: “Uma História do Ensino de História do Curso Normal do Rio de Janeiro: da Escola Normal da Corte à Escola Normal Carmela Dutra”, apresentado ao Programa de Pós-graduação em Ensino de História do Instituto de História da UFRJ, em dezembro de 2018.

8 Brasil Lei n° 10, 4/04/1835, art. 1°

9 Antiga Escola Central, depois Escola Politécnica, depois Escola Nacional de Engenharia e atualmente Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no Largo de São Francisco.

10 Atual Praça da República.

11 Magalhães, L.C.: link citado acima


Carmen Evangelho
Florianópolis 01/05/2023

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  O Papel dos Conselhos Municipais de Cultura   1.         Os Conselhos Municipais e o SNC [1] : Os Conselhos Municipais de Cultura sã...