segunda-feira, 18 de maio de 2026

 


Picolino da Portela: Moldando a Azul e Branco

 

Minha Portela querida

Es a razão da minha própria vida

Se algum dia eu me separar de ti

Muito vou sentir

Tudo em ti é glória na derrota

ou mesmo na vitória

Tens o seu nome gravado em ouro

nos anais

Através dos carnavais”.

“Portela Querida” de Picolino, Noca e Colombo

 

Na memória afetiva e musical da Portela, Picolino ocupa um lugar especial. Não só pelo brilho individual de compositor de grandes enredos, mas pela força coletiva de quem ajudou a erguer, com simplicidade e talento, a identidade musical da mais tradicional escola de samba do Rio de Janeiro.

Mais do que um cantor ou músico, Picolino representava um tipo de personagem fundamental no universo das escolas de samba: o guardião da tradição oral, o artista que aprende e transmite o samba no convívio, na roda, no quintal, no ensaio. Sua trajetória se entrelaça com a de tantos outros portelenses que, mesmo sem grande projeção individual, sustentaram a grandeza da Escola com dedicação, disciplina e amor ao pavilhão azul e branco.

A trajetória de Claudemiro José Rodrigues, conhecido como Picolino da Portela, não é apenas o registro biográfico de um compositor de escola de samba: é a própria crônica da evolução do Carnaval do Rio de Janeiro no século XX.

Quando falamos em Picolino, nos referimos a um elo importante na corrente que mantém viva a tradição da Portela. Ele é lembrado como um artista de entrega, de parceria, de presença. Alguém que ajudou a construir, tijolo por tijolo, a grande casa portelense.

Picolino[1]  atravessou as décadas fundamentais em que o samba deixou de ser marginalizado para se tornar a espinha dorsal da identidade cultural brasileira. Ele chega na Portela em 1950, período de transição entre o amadorismo lúdico dos blocos de bairro e a complexidade artística das grandes agremiações contemporâneas.

Para compreender a relevância de Picolino, é importante analisar o solo em que sua arte germinou. O Rio de Janeiro da década de 1930, então Capital Federal, vivia um processo de urbanização que empurrava as classes populares para os subúrbios ferroviários.

Oswaldo Cruz e Madureira tornaram-se polos de resistência e criação cultural. Picolino, descendente dessa linhagem suburbana, recebeu seu apelido ainda na infância, um detalhe que humaniza o baluarte e o vincula à sociabilidade do "quintal" e da "esquina".

Sua iniciação artística não se deu diretamente na "Majestade do Samba", mas sim no bloco “Unidos da Tamarineira”, em Oswaldo Cruz. Em 1946, aos 16 anos, Picolino já era reconhecido como compositor do bloco, demonstrando uma precocidade que anteciparia sua futura liderança na Portela. Esta experiência foi crucial, pois os blocos eram os laboratórios onde os compositores forjavam sua métrica e rima antes de se submeterem ao rigor das alas de compositores das escolas maiores.


Picolino da Portela



Paulo da Portela defendia que o sambista deveria ser um cidadão respeitável, o "sambista-trabalhador", com o objetivo de desconstruir a imagem do "malandro vadio" perseguido pela polícia. Picolino da Portela foi funcionário do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, onde chegou a se aposentar, reforçando a narrativa de estabilidade e responsabilidade que a Velha Guarda da Escola havia aprendido com seu fundador.

Ao ingressar na Portela em 1950, aos 20 anos, Picolino encontrou um ambiente de intensa renovação. Ele se uniu a figuras como Candeia e Waldir 59, formando uma parceria que redefiniria a performance visual e sonora da Escola. Este grupo de jovens compositores e passistas não estava satisfeito apenas em manter a tradição; eles buscavam elevar o nível do espetáculo.

Uma das contribuições mais vanguardistas de Picolino foi a integração da "Ala dos Impossíveis" na estrutura do desfile da Escola. Este grupamento foi pioneiro ao introduzir coreografias marcadas nos desfiles de Carnaval, rompendo com o estilo espontâneo e desordenado que predominava até então. A “Ala dos Impossíveis” não era apenas um conjunto de dança; era uma afirmação de disciplina e estética. O sucesso foi enorme e, em meados dos anos 50, o grupo se apresentou no prestigiado clube High Life, na Glória, acompanhado pelas orquestras de Severino Araújo[2] e do Maestro Cipó[3].

Esta ponte entre o subúrbio e a elite carioca demonstra como o samba de Picolino e seus pares possuía uma sofisticação que desafiava as barreiras sociais da época.

A consagração definitiva como mestre do samba-enredo ocorreu em 1957. Em parceria com Candeia e Waldir 59, Picolino compôs "Legados de D. João VI", obra que garantiu o campeonato daquele ano à Portela. Este samba é um exemplo clássico do "samba-lençol": composição descritiva e longa narrando fatos históricos com uma densidade pedagógica.

A letra de "Legados de D. João VI" é uma aula de história versada, abordando a vinda da Família Real, a abertura dos portos e as instituições fundadas pelo monarca no Brasil. Este tipo de composição era valorizado pela estética da época, que via no samba-enredo uma forma de educação popular e exaltação cívica.

O registro fonográfico desta obra no LP "A Vitoriosa Escola de Samba Portela", lançado pela Sinter, em 1957, foi um dos primeiros documentos de áudio a capturar a excelência musical portelense em seu período áureo.

Na década de 1960, o samba se deparou com o surgimento da Bossa Nova e da incipiente música Pop internacional. Picolino da Portela foi um dos principais articuladores do movimento de revitalização do samba de raiz. Ele entendia que o samba não era apenas entretenimento, mas um patrimônio que precisava ser preservado em sua forma mais pura e comunitária.

Em 1963, Picolino uniu-se a Candeia[4], Casquinha[5], Casemiro[6], Jorge do Violão[7], Arlindo[8] e Davi do Pandeiro[9] para fundar o grupo "Os Mensageiros do Samba". Este coletivo foi uma das frentes mais importantes de resistência cultural no Rio de Janeiro.  Enquanto o Carnaval começava a se profissionalizar e a atrair o olhar turístico, os Mensageiros focavam no "samba de terreiro" e na tradição oral.


Capa do LP Mensageiros do Samba


O grupo gravou um LP, em 1966, pela Polydor, que se tornou um marco na discografia nacional. Através deste trabalho, Picolino e seus companheiros defendiam uma estética que priorizava a harmonia das cordas, a cadência rítmica e letras que refletiam a alma do povo suburbano, sem concessões à indústria fonográfica comercial da época.

Picolino participou com Noca da Portela[10] e Colombo[11] da criação do “Trio ABC da Portela”. O trio surgiu por volta de 1966, no mesmo ano em que Noca ingressou na Ala de Compositores da Escola a convite de Paulinho da Viola.

O Trio ABC surgiu num momento em que a Portela consolidava sua estética musical: um samba elegante, melodioso, de versos bem construídos e profunda ligação com a vida do subúrbio. Nesse cenário, Picolino se destacou como um sambista de fundamento, daqueles que não precisam de holofotes para serem indispensáveis. Sua presença no trio ajudou a dar corpo e harmonia ao repertório que se tornaria referência da Velha Guarda, contribuindo para gravações que hoje são parte da história fonográfica da Escola.

Ao lado de Noca e Colombo, Picolino ajudou a eternizar sambas que se tornaram parte do imaginário portelense, como “Portela Querida[12] e o sambaenredo “O Homem de Pacoval”[13]. O trio gravou cinco discos e se tornou uma espécie de embaixada musical da escola, levando a Portela para públicos que talvez nunca tivessem tido contato direto com o samba carioca.

O Trio ABC foi um instrumento de difusão da obra portelense em festivais de música. Em 1968, participaram do "II Concurso de Música de Carnaval", organizado por Ricardo Cravo Albin no Museu da Imagem e do Som (MIS). Apresentaram composições como "Portela Querida", que na voz de Elza Soares tornou-se um sucesso nacional, e "É bom assim".  A importância deste Trio residiu na capacidade de manter o samba da Portela competitivo e respeitado em um cenário de grandes festivais de MPB.


                                Trio ABC da Portela - Colombo, Noca e Picolino

Picolino da Portela era também, um gestor da tradição. Sua influência dentro da hierarquia da Portela foi enorme. Ele fundou e liderou a “Ala dos Malabaristas” por cinco anos, demonstrando uma preocupação contínua com a evolução visual da Escola.

Sua autoridade moral e técnica o levou à presidência da Ala de Compositores da Portela, cargo que exerceu por dois anos. Presidir a Ala de Compositores da Portela, historicamente uma das mais exigentes e talentosas do Brasil, requer um profundo conhecimento da gramática musical da Escola. Durante sua gestão, Picolino atuou como guardião, assegurando que os novos talentos respeitassem a essência melódica estabelecida pelos fundadores, enquanto permitiu o florescimento de novas ideias que mantivessem a agremiação vibrante.

A assinatura musical de Picolino é frequentemente associada ao uso magistral do "tom menor", que confere às suas obras uma melancolia altiva, típica dos grandes mestres. Canções como "Lenços Brancos" exemplificam essa característica. A música trata da saudade e da despedida, temas recorrentes na alma portelense, sempre ligada à imagem do trem e da partida.

A obra de Picolino pode ser dividida em três pilares: o samba-enredo histórico, o samba de exaltação e o samba de terreiro. Cada um desses gêneros revela uma faceta de seu talento literário e musical.

"Legados de D. João VI", de 1957, este samba-enredo é um primor de síntese histórica. Ao descrever a chegada da corte, os compositores conseguem transformar dados áridos em poesia cantável. A melodia facilitava o canto coletivo, o "gogó", termo usado para descrever a potência vocal dos componentes da Escola na passarela.

"Lenços Brancos", considerada uma "pepita do samba em tom menor", como descrevem críticos e admiradores. A letra utiliza a metáfora dos lenços que acenam na partida para explorar a dor da separação. É uma obra que demonstra a sofisticação harmônica de Picolino, elevando o samba ao status de canção de concerto suburbano.

Composta em parceria com Noca da Portela, "Chorei, sofri, penei" venceu o Concurso de Carnaval do Teatro Municipal de São Paulo. O fato de um compositor da Portela vencer um concurso de tal magnitude em outra capital, no final dos anos 60, demonstra a universalidade de sua linguagem e a força da marca Portela sob sua liderança.

A relação de Picolino com o território de Oswaldo Cruz e Madureira era visceral, figura presente pelas ruas da região e personificando a história viva dos bairros. A importância de Picolino para a comunidade transcendia as vitórias na Avenida. Ele participava da manutenção de redes de sociabilidade que mantinham a identidade negra e suburbana coesa.

Marquinhos de Oswaldo Cruz, o atual idealizador do "Trem do Samba", recorda Picolino como uma estrela que nunca se apagou na memória da região. A casa onde Picolino morava, nas proximidades da estação ferroviária de Oswaldo Cruz, era vista como um marco geográfico da resistência cultural, um local onde a história da Portela era preservada em cada conversa, em cada acorde.

 Através de eventos como a Feijoada da Família Portelense e rodas de samba informais, Picolino transmitia aos mais jovens o "mistério do samba”, aquele conhecimento tácito que não se aprende em conservatórios, mas na vivência do terreiro.

No final da década de 1990 e início dos anos 2000, a obra de Picolino e da Velha Guarda da Portela experimentou um renascimento junto ao público jovem e à elite cultural brasileira. Este movimento foi amplamente catalisado por Marisa Monte, cujo pai, Carlos Monte, era uma figura central no departamento cultural da Escola.  

Picolino participou ativamente das gravações do CD "Tudo Azul"[14], que resgatou pérolas do acervo da Escola que estavam fora do mercado fonográfico há décadas. Além disso, sua presença e seus depoimentos foram fundamentais para o documentário "Mistério do Samba[15]", que imortalizou a rotina, as memórias e a dignidade dos baluartes portelenses. Embora Picolino tenha falecido antes do lançamento oficial do filme, sua imagem e sua voz permanecem como pilares da narrativa que celebra a continuidade do samba através das gerações.  

Picolino da Portela faleceu aos 73 anos [16]. Sua partida foi sentida como o fim de uma era, mas o legado que deixou está consolidado nas estruturas da Escola. Em 2001, a Portela foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural e, em 2021, declarada patrimônio cultural de natureza imaterial do Rio de Janeiro. Estas honrarias refletem o trabalho de homens como Picolino, que dedicaram suas vidas a construir uma instituição que é, ao mesmo tempo, um museu vivo e uma usina de criatividade.  

A contribuição de Picolino para a Portela pode ser sintetizada em três eixos fundamentais que garantem sua imortalidade:

Estético: A introdução de coreografias e refinamento do samba-enredo "lençol" elevaram o padrão técnico dos desfiles.

Ideológico: Através dos "Mensageiros do Samba" e do “Trio ABC  da Portela” ele lutou contra a descaracterização comercial da cultura popular, preservando o samba de raiz.

Administrativo: Sua liderança na Ala de Compositores garantiu a sucessão de talentos e a manutenção do "estilo portelense" de compor.

A vida de Claudemiro José Rodrigues, o Picolino, é um testemunho da força cultural do subúrbio carioca. Ele não foi apenas um compositor de sucessos; foi um arquiteto da alma de uma das instituições mais importantes da nossa cultura. Sua capacidade de transitar entre o rigor do trabalho no Departamento de Portos e a boemia inspirada no terreiro da Portela reflete a dualidade do brasileiro que constrói o país com suor e o celebra com arte.

Quando vemos a Portela desfilar sob a égide da tradição, é possível sentir a presença de Picolino. Ele permanece vivo na cadência de cada ritmista da “Tabajara do Samba”, em cada verso escrito por um novo compositor que, mesmo sem saber, segue a métrica deixada pelo mestre.

Picolino da Portela é, definitivamente, uma estrela que não se apaga, iluminando o caminho de quem acredita no samba como uma das expressões máxima da cultura brasileira.



[1] Claudemiro José Rodrigues (Rio de Janeiro 13/05/1930 – Rio de Janeiro 09/09/2003).

[2]  A histórica Orquestra Tabajara, considerada a maior big band do Brasil, nasceu junto com a Rádio Tabajara, na Paraíba. Sob o comando do maestro e clarinetista Severino Araújo por mais de 70 anos, popularizou o samba, o choro e ritmos nordestinos com arranjos geniais.

[3] Orlando Silva de Oliveira Costa, maestro e arranjador.

[4]  Antônio Candeia Filho

[5] Otto Enrique Trepte

[6] Casemiro Vieira

[7] Jorge da Conceição

[8] Arlindo Domingos Cruz

[9] David de Araújo

[10] Osvaldo Alves Pereira

[11] Colombo Costa Pinto

[12] 1967

[13] 1976

[14] Produzido em 1999

[15] Produzido em 2008

[16] Faleceu em 09/09/2003.


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