Aniceto,
Manacéa e Mijinha, portelenses de respeito!
Conta a lenda do samba que, em certas
noites de lua cheia, Oswaldo Cruz muda de cor. Suas ruas ficam mais azuis, como
se a Portela respirasse fundo e soprasse sua história sobre as casas antigas.
E, nessas noites, se você prestar atenção, pode ouvir três vozes que nunca se
apagaram.
A primeira voz é firme, antiga, quase de raiz. É Aniceto[1], caminhando devagar pela Estrada do Portela, chapéu na cabeça, olhar de quem viu a escola nascer do barro e da teimosia. Ele não precisa falar alto. Basta estar. É daqueles homens que sustentam uma comunidade com a própria postura. Quando abre a boca, o samba vem inteiro — não como espetáculo, mas como fundamento. Aniceto é a raiz da árvore do samba.
Aniceto da Portela. Imagem retirada da internetA segunda voz é mais doce, quase tímida, mas tão afinada que parece costurar o ar. É Manacéia[2], sentado num banco de madeira, dedilhando melodias que nascem como água limpa. Ele canta como quem conversa com o próprio coração, e o bairro inteiro escuta. Seus sambas não gritam: sussurram. E, por isso mesmo, ficam. Manacéia é o galho que floresce.
| Manacéa da Portela, imagem retirada da internet |
| Mijinha. Imagem retirada da internet |
Os três caminham juntos — mesmo quando o tempo insiste em separá-los. Aniceto aponta o caminho, Manacéa ilumina, Mijinha colore. E, Osvaldo Cruz agradecido se cobre de azul e branco.
Em Oswaldo Cruz, havia um quintal que
parecia maior por dentro do que por fora, era grande como um terreiro de santo.
Quem passava pela Rua Dutra e Melo[4]
via apenas um portão simples, mas quem entrava descobria um mundo mágico:
tinha galinha ciscando, tinha panela
de ferro no fogo, tinha o cheiro de comida de Dona Neném, tinha tilintar de
copos e arrastar de cadeiras, tinha vizinho entrando sem bater. E tinha música.
Sempre teve música. E um cavaquinho que nunca dormia. Era ali que a Portela
respirava! ...
Aniceto chegava primeiro. Trazia no passo a
memória dos blocos antigos: “Quem Fala de Nós Come Mosca”, “Quem Nos
Faz é o Capricho”, “Vai Como Pode”. Ele era desses homens que não
precisam levantar a voz para comandar respeito. Quando entrava no quintal,
parecia que a própria Portela ajeitava as asas.
Aniceto era fundamento, era chão batido,
era a lembrança viva de Paulo da Portela caminhando de escola em escola,
levando o samba como quem leva uma vela acesa na ventania.
Depois vinha Manacéa, quieto, quase pedindo
licença ao ar. Tímido,
sensível, disciplinado, mas com um coração que transbordava melodia. Desde
menino, o tamborim o chamou, e ele atendeu. Aos 18 anos, já compunha. E quando
compunha, o mundo ficava mais bonito.
No quintal, ele se sentava num canto,
cavaquinho no colo, e deixava as notas escorrerem como água limpa, parecia que conversava
com o instrumento. Foi ali que nasceram sambas que atravessariam décadas, como
“Quantas Lágrimas”, que Cristina Buarque transformaria em hino. Foi ali
que ele ensinou a filha Áurea Maria[5]
a ouvir o silêncio entre as notas.
Manacéa era tímido e isso nunca mudou.
Falava pouco, observava muito. Mas quando ouvia um tamborim, o coração corria
na frente do corpo. Foi assim que começou a seguir os blocos. Era só um menino,
mas já desfilava como se fosse gente grande. A Portela ainda nem tinha esse
nome bonito, mas já era o seu lugar.
Lembrava do seu primo Ernani lhe puxando
pela mão, mostrando cada canto do bairro. Lembrava de Seu Nicanor, marido da
sua tia, levando para dentro da Escola como quem apresenta um filho ao mundo. E
lembrava de Mijinha: seu irmão lhe empurrando pra compor. Manacéa sorria
timidamente, achava graça. Compositor? Como??? Ele, que quase não tinha nem
coragem de cantar alto?
E então, como um vento que abre a porta sem
pedir licença, chegava Mijinha. Boêmio, expansivo, cheio de histórias — algumas
verdadeiras, outras melhoradas pela poesia da madrugada. Ele vinha com o
sorriso torto, o chapéu meio de lado, e uma alegria que não cabia no corpo. Quando
Mijinha cantava, o quintal mudava de cor. As pessoas se aproximavam, os
vizinhos encostavam no muro, e até quem estava triste encontrava um motivo para
bater palma. Foi ele quem empurrou Manacéa para a composição. Foi ele quem
ensinou que o samba também nasce da rua, do bar, da vida vivida sem medo.
Os irmãos haviam saído de Pedra de
Guaratiba[6],
lugar com cheiro de mar e de vento com destino a Osvaldo Cruz, ainda
pequenos. E, naquele bairro de ruas
estreitas e gente conversando na calçada, o samba os esperava.
Os irmãos Andrade são uma prova de que a
verdadeira espinha dorsal do samba reside nos compositores de terreiro, figuras
que preservaram a essência rítmica e lírica das comunidades suburbanas diante
das pressões da modernização e da mercantilização artística. No epicentro desta
preservação encontrava-se a figura de Bonifácio José de Andrade, imortalizado
no panteão do samba como Mijinha.
Mijinha representa um elo vital na
genealogia musical de Oswaldo Cruz e Madureira, bairros que funcionaram como
laboratórios de uma sofisticação melódica e poética sem paralelos na história
do Rio de Janeiro.
O estudo da vida e obra de Mijinha exige
uma compreensão profunda do conceito de "Velha Guarda" como
instituição de resistência cultural. Quando o grupo Velha Guarda da Portela foi
fundado em 1970, sob a batuta de Paulinho da Viola, o objetivo não era apenas o
entretenimento, mas a salvaguarda de um repertório que corria o risco de
desaparecer com o falecimento dos antigos mestres e a mudança nos paradigmas
dos desfiles carnavalescos.
Mijinha, como integrante da formação
original, foi peça fundamental nesse processo de resgate, trazendo consigo uma
estética de boemia, melancolia e rigor melódico que definiria o som portelense
por gerações.
Bonifácio José de Andrade nasceu em 3 de maio
de 1918, um período de efervescência para as manifestações populares que dariam
origem às escolas de samba modernas.
A identidade de Mijinha é marcada por uma
duplicidade de nomes que reflete a burocracia do mercado fonográfico e a
informalidade da malandragem suburbana. Embora registrado como Bonifácio, o
compositor não gostava do seu nome, adotando "José Augusto de Andrade"
para registros oficiais na União Brasileira de Compositores (UBC). Contudo, no
asfalto e no terreiro, era reconhecido apenas como Mijinha, um apelido que
carregava a intimidade das rodas de samba e a camaradagem dos quintais.
A estrutura familiar dos Andrade funcionava
como uma cooperativa de talentos. Enquanto o irmão mais velho, Aniceto,
mantinha uma vida laboral estável como fundidor e o caçula, Manacéia, exercia
uma liderança disciplinadora e quase ministerial sobre o grupo, Mijinha era o
expoente da boemia pura. Esta boemia não era meramente um estilo de vida, mas a
matéria-prima de sua composição. Mijinha circulava pelos "bons redutos de
samba", absorvendo as narrativas de desamor, a ética das ruas e a religiosidade
popular que mais tarde se transformariam em versos imortais.
A década de 1960 trouxe uma pressão comercial e estética para as escolas de samba que ameaçava silenciar os compositores mais antigos em favor de sambas-enredo com apelo mais imediato e ritmos mais acelerados. Diante desse cenário de crise de identidade, Paulinho da Viola emergiu como um mediador cultural, utilizou seu prestígio na MPB para dar voz aos patriarcas da Portela.
A “Velha Guarda da Portela, foi uma
estratégia deliberada para institucionalizar a memória oral da Escola. Mijinha
foi convocado para este projeto não apenas por seu parentesco com Aniceto e
Manacéia, mas por possuir um repertório de sambas de terreiro que representavam
o estilo portelense: elegante, melódico e profundamente lírico.
O disco de estreia, "Portela,
Passado de Glória", produzido por Paulinho da Viola e lançado
pela RGE em 1970, incluiu a composição de Mijinha "Chega de Padecer",
interpretada por Armando Santos. Este álbum não foi apenas um registro
fonográfico; foi o nascimento de um modelo organizacional que transformou o
samba suburbano em patrimônio imaterial.
A importância de Mijinha neste grupo era
também rítmica e sensorial. Paulinho da Viola relata que as sessões informais
de batucada, onde Mijinha e outros mestres como Caetano e Armando Santos
tocavam de forma espontânea, possuíam uma sonoridade única que beirava o
indescritível. Esse "som de momento" era o que Paulinho
buscava capturar, uma pulsação que não podia ser ensinada em conservatórios,
mas apenas herdada no convívio direto com os baluartes.
A geografia afetiva da Portela na década de
1970 tinha um endereço fixo: o quintal de Manacéa. Foi naquele espaço que a
Velha Guarda se consolidou, cercada por um ambiente de hospitalidade,
acolhimento e tradição culinária. Mijinha era presença constante nestas
reuniões, que começavam com ensaios rigorosos e terminavam em rodas de samba e
partido-alto alimentadas pela galinha com quiabo de Dona Neném[7].
Para Mijinha, este ambiente era a extensão de sua sala de estar; era onde a hierarquia da Escola era reafirmada através do respeito aos mais velhos e onde os novos sambas eram testados diante dos ouvidos críticos dos irmãos e amigos. O quintal funcionava como uma barreira protetora contra as interferências externas, garantindo que o estilo melódico dos Andrade não fosse diluído pelas demandas de um carnaval cada vez mais comercial.
| Quintal de Manacéa e Dona Neném. Imagem retirada da internet |
A relação entre Mijinha e Monarco foi uma das mais produtivas da história da Portela. Monarco, que via em Mijinha um mestre e uma figura paterna, foi o responsável por dar continuidade a muitos dos temas iniciados pelo compositor mais velho.
Em 2023, a Velha Guarda da Portela foi
oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio de
Janeiro. Foi a coroação de um trabalho de décadas no qual os irmãos Andrade
foram protagonistas. Eles não foram apenas compositores, foram construtores da
alma portelense, que souberam transformar a dor da boemia e as histórias de seu
bairro em uma estética de resistência que continua a emocionar e a definir o
que significa ser brasileiro.
A obra dos três irmãos serve, hoje, como
fonte de estudo para todos os que buscam entender a complexidade das relações
sociais e artísticas no subúrbio carioca. Suas músicas não são apenas canções;
são documentos históricos de uma época em que o samba era a forma mais natural
de expressão de uma comunidade que encontrava na arte a sua dignidade.
Aniceto, Manacéa e Mijinha, tiveram um
papel fundamental na construção do sentimento de “ser portelense” e,
hoje, tantas décadas depois, os portelenses confirmam a lenda de que tem noites, em Oswaldo Cruz, em que as ruas ficam azuis e a Portela canta seus baluartes!!!
[1]
AnisetoJosé de Andrade (RJ, ?/08/1912 – RJ,?)
[2]
Manacéa José de Andrade (RJ, 26/8/1921 – RJ 10/11/1995)
[3]
Bonifácio José de Andrade, nascido em (RJ,03/05/1918 – RJ,01/01/1980)
[4]
Hoje, Rua Compositor Manaceá!
[5]
Pastora da Velha Guarda Show da Portela
[6] Bairro da Zona Oeste
distante cerca de 35 km de Osvaldo Cruz.
[7] Yolanda de Almeida Andrade,
(Rio de Janeiro,1925 – Rio de Janeiro, 2020)
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