sábado, 16 de maio de 2026

 

Aniceto, Manacéa e Mijinha, portelenses de respeito!

 

Conta a lenda do samba que, em certas noites de lua cheia, Oswaldo Cruz muda de cor. Suas ruas ficam mais azuis, como se a Portela respirasse fundo e soprasse sua história sobre as casas antigas. E, nessas noites, se você prestar atenção, pode ouvir três vozes que nunca se apagaram.

A primeira voz é firme, antiga, quase de raiz. É Aniceto[1], caminhando devagar pela Estrada do Portela, chapéu na cabeça, olhar de quem viu a escola nascer do barro e da teimosia. Ele não precisa falar alto. Basta estar. É daqueles homens que sustentam uma comunidade com a própria postura. Quando abre a boca, o samba vem inteiro — não como espetáculo, mas como fundamento. Aniceto é a raiz da árvore do samba.

                                        Aniceto da Portela. Imagem retirada da internet

A segunda voz é mais doce, quase tímida, mas tão afinada que parece costurar o ar. É Manacéia[2], sentado num banco de madeira, dedilhando melodias que nascem como água limpa. Ele canta como quem conversa com o próprio coração, e o bairro inteiro escuta. Seus sambas não gritam: sussurram. E, por isso mesmo, ficam. Manacéia é o galho que floresce.


Manacéa da Portela, imagem retirada da internet

A terceira voz chega rindo, tropeçando, abraçando o mundo. É Mijinha[3], o boêmio, o que conhece cada botequim, cada esquina, cada madrugada. Ele chega com histórias, com exageros, com saudade e com alegria. E, quando canta, o samba ganha corpo, ganha rua, ganha vida. Mijinha é o vento que espalha as sementes que vão frutificar.

Mijinha. Imagem retirada da internet

Os três caminham juntos — mesmo quando o tempo insiste em separá-los. Aniceto aponta o caminho, Manacéa ilumina, Mijinha colore. E, Osvaldo Cruz agradecido se cobre de azul e branco.

Em Oswaldo Cruz, havia um quintal que parecia maior por dentro do que por fora, era grande como um terreiro de santo. Quem passava pela Rua Dutra e Melo[4] via apenas um portão simples, mas quem entrava descobria um mundo mágico: tinha galinha ciscando, tinha panela de ferro no fogo, tinha o cheiro de comida de Dona Neném, tinha tilintar de copos e arrastar de cadeiras, tinha vizinho entrando sem bater. E tinha música. Sempre teve música. E um cavaquinho que nunca dormia. Era ali que a Portela respirava! ...

Aniceto chegava primeiro. Trazia no passo a memória dos blocos antigos: “Quem Fala de Nós Come Mosca”, “Quem Nos Faz é o Capricho”, “Vai Como Pode”. Ele era desses homens que não precisam levantar a voz para comandar respeito. Quando entrava no quintal, parecia que a própria Portela ajeitava as asas.

Aniceto era fundamento, era chão batido, era a lembrança viva de Paulo da Portela caminhando de escola em escola, levando o samba como quem leva uma vela acesa na ventania.

Depois vinha Manacéa, quieto, quase pedindo licença ao ar. Tímido, sensível, disciplinado, mas com um coração que transbordava melodia. Desde menino, o tamborim o chamou, e ele atendeu. Aos 18 anos, já compunha. E quando compunha, o mundo ficava mais bonito.

No quintal, ele se sentava num canto, cavaquinho no colo, e deixava as notas escorrerem como água limpa, parecia que conversava com o instrumento. Foi ali que nasceram sambas que atravessariam décadas, como “Quantas Lágrimas”, que Cristina Buarque transformaria em hino. Foi ali que ele ensinou a filha Áurea Maria[5] a ouvir o silêncio entre as notas.

Manacéa era tímido e isso nunca mudou. Falava pouco, observava muito. Mas quando ouvia um tamborim, o coração corria na frente do corpo. Foi assim que começou a seguir os blocos. Era só um menino, mas já desfilava como se fosse gente grande. A Portela ainda nem tinha esse nome bonito, mas já era o seu lugar.

Lembrava do seu primo Ernani lhe puxando pela mão, mostrando cada canto do bairro. Lembrava de Seu Nicanor, marido da sua tia, levando para dentro da Escola como quem apresenta um filho ao mundo. E lembrava de Mijinha: seu irmão lhe empurrando pra compor. Manacéa sorria timidamente, achava graça. Compositor? Como??? Ele, que quase não tinha nem coragem de cantar alto?

E então, como um vento que abre a porta sem pedir licença, chegava Mijinha. Boêmio, expansivo, cheio de histórias — algumas verdadeiras, outras melhoradas pela poesia da madrugada. Ele vinha com o sorriso torto, o chapéu meio de lado, e uma alegria que não cabia no corpo. Quando Mijinha cantava, o quintal mudava de cor. As pessoas se aproximavam, os vizinhos encostavam no muro, e até quem estava triste encontrava um motivo para bater palma. Foi ele quem empurrou Manacéa para a composição. Foi ele quem ensinou que o samba também nasce da rua, do bar, da vida vivida sem medo.

Os irmãos haviam saído de Pedra de Guaratiba[6], lugar com cheiro de mar e de vento com destino a Osvaldo Cruz, ainda pequenos.  E, naquele bairro de ruas estreitas e gente conversando na calçada, o samba os esperava.

Os irmãos Andrade são uma prova de que a verdadeira espinha dorsal do samba reside nos compositores de terreiro, figuras que preservaram a essência rítmica e lírica das comunidades suburbanas diante das pressões da modernização e da mercantilização artística. No epicentro desta preservação encontrava-se a figura de Bonifácio José de Andrade, imortalizado no panteão do samba como Mijinha.

Mijinha representa um elo vital na genealogia musical de Oswaldo Cruz e Madureira, bairros que funcionaram como laboratórios de uma sofisticação melódica e poética sem paralelos na história do Rio de Janeiro.

O estudo da vida e obra de Mijinha exige uma compreensão profunda do conceito de "Velha Guarda" como instituição de resistência cultural. Quando o grupo Velha Guarda da Portela foi fundado em 1970, sob a batuta de Paulinho da Viola, o objetivo não era apenas o entretenimento, mas a salvaguarda de um repertório que corria o risco de desaparecer com o falecimento dos antigos mestres e a mudança nos paradigmas dos desfiles carnavalescos.

Mijinha, como integrante da formação original, foi peça fundamental nesse processo de resgate, trazendo consigo uma estética de boemia, melancolia e rigor melódico que definiria o som portelense por gerações.

Os irmãos Andrade consolidaram-se se como uma das linhagens mais influentes do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela.

Bonifácio José de Andrade nasceu em 3 de maio de 1918, um período de efervescência para as manifestações populares que dariam origem às escolas de samba modernas.

A identidade de Mijinha é marcada por uma duplicidade de nomes que reflete a burocracia do mercado fonográfico e a informalidade da malandragem suburbana. Embora registrado como Bonifácio, o compositor não gostava do seu nome, adotando "José Augusto de Andrade" para registros oficiais na União Brasileira de Compositores (UBC). Contudo, no asfalto e no terreiro, era reconhecido apenas como Mijinha, um apelido que carregava a intimidade das rodas de samba e a camaradagem dos quintais.

A estrutura familiar dos Andrade funcionava como uma cooperativa de talentos. Enquanto o irmão mais velho, Aniceto, mantinha uma vida laboral estável como fundidor e o caçula, Manacéia, exercia uma liderança disciplinadora e quase ministerial sobre o grupo, Mijinha era o expoente da boemia pura. Esta boemia não era meramente um estilo de vida, mas a matéria-prima de sua composição. Mijinha circulava pelos "bons redutos de samba", absorvendo as narrativas de desamor, a ética das ruas e a religiosidade popular que mais tarde se transformariam em versos imortais.

 A década de 1960 trouxe  uma pressão comercial e estética para as escolas de samba que ameaçava silenciar os compositores mais antigos em favor de sambas-enredo com apelo mais imediato e ritmos mais acelerados. Diante desse cenário de crise de identidade, Paulinho da Viola emergiu como um mediador cultural, utilizou seu prestígio na MPB para dar voz aos patriarcas da Portela.

A “Velha Guarda da Portela, foi uma estratégia deliberada para institucionalizar a memória oral da Escola. Mijinha foi convocado para este projeto não apenas por seu parentesco com Aniceto e Manacéia, mas por possuir um repertório de sambas de terreiro que representavam o estilo portelense: elegante, melódico e profundamente lírico.

O disco de estreia, "Portela, Passado de Glória", produzido por Paulinho da Viola e lançado pela RGE em 1970, incluiu a composição de Mijinha "Chega de Padecer", interpretada por Armando Santos. Este álbum não foi apenas um registro fonográfico; foi o nascimento de um modelo organizacional que transformou o samba suburbano em patrimônio imaterial.

A importância de Mijinha neste grupo era também rítmica e sensorial. Paulinho da Viola relata que as sessões informais de batucada, onde Mijinha e outros mestres como Caetano e Armando Santos tocavam de forma espontânea, possuíam uma sonoridade única que beirava o indescritível. Esse "som de momento" era o que Paulinho buscava capturar, uma pulsação que não podia ser ensinada em conservatórios, mas apenas herdada no convívio direto com os baluartes.

A geografia afetiva da Portela na década de 1970 tinha um endereço fixo: o quintal de Manacéa. Foi naquele espaço que a Velha Guarda se consolidou, cercada por um ambiente de hospitalidade, acolhimento e tradição culinária. Mijinha era presença constante nestas reuniões, que começavam com ensaios rigorosos e terminavam em rodas de samba e partido-alto alimentadas pela galinha com quiabo de Dona Neném[7].

Para Mijinha, este ambiente era a extensão de sua sala de estar; era onde a hierarquia da Escola era reafirmada através do respeito aos mais velhos e onde os novos sambas eram testados diante dos ouvidos críticos dos irmãos e amigos. O quintal funcionava como uma barreira protetora contra as interferências externas, garantindo que o estilo melódico dos Andrade não fosse diluído pelas demandas de um carnaval cada vez mais comercial.


Quintal de Manacéa e Dona Neném. Imagem retirada da internet


A relação entre Mijinha e Monarco foi uma das mais produtivas da história da Portela. Monarco, que via em Mijinha um mestre e uma figura paterna, foi o responsável por dar continuidade a muitos dos temas iniciados pelo compositor mais velho. 

Essa parceria tem um exemplo particularmente fascinante da historiografia portelense: samba "Pra me socorrer, ninguém" teve a sua primeira parte escrita por Mijinha na década de 1940, baseada em um episódio real em que ele, ao galantear uma mulher em Oswaldo Cruz, foi agredido pelos malandros locais enquanto seus amigos fugiam. O samba permaneceu inacabado por décadas, guardado na memória coletiva da Velha Guarda, até que Monarco compôs a segunda parte cerca de setenta anos após o início da obra. Esta finalização tardia, gravada em 2013, revela a natureza orgânica e atemporal do samba de terreiro, onde a autoria é compartilhada pelo tempo e pela linhagem estética.

Em 2023, a Velha Guarda da Portela foi oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio de Janeiro. Foi a coroação de um trabalho de décadas no qual os irmãos Andrade foram protagonistas. Eles não foram apenas compositores, foram construtores da alma portelense, que souberam transformar a dor da boemia e as histórias de seu bairro em uma estética de resistência que continua a emocionar e a definir o que significa ser brasileiro.

A obra dos três irmãos serve, hoje, como fonte de estudo para todos os que buscam entender a complexidade das relações sociais e artísticas no subúrbio carioca. Suas músicas não são apenas canções; são documentos históricos de uma época em que o samba era a forma mais natural de expressão de uma comunidade que encontrava na arte a sua dignidade.

Aniceto, Manacéa e Mijinha, tiveram um papel fundamental na construção do sentimento de “ser portelense” e, hoje, tantas décadas depois, os portelenses confirmam a lenda de que tem noites, em Oswaldo Cruz, em que as ruas ficam azuis e a Portela canta seus baluartes!!!



[1] AnisetoJosé de Andrade (RJ, ?/08/1912 – RJ,?)

[2] Manacéa José de Andrade (RJ, 26/8/1921 – RJ 10/11/1995)

[3] Bonifácio José de Andrade, nascido em (RJ,03/05/1918 – RJ,01/01/1980)

[4] Hoje, Rua Compositor Manaceá!

[5] Pastora da Velha Guarda Show da Portela

[6] Bairro da Zona Oeste distante cerca de 35 km de Osvaldo Cruz.

[7]  Yolanda de Almeida Andrade (1925–2020), foi uma das mais importantes matriarcas e baluartes da Portela. Viúva de Manacéa.

[7] Yolanda de Almeida Andrade, (Rio de Janeiro,1925 – Rio de Janeiro, 2020)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  Aniceto, Manacéa e Mijinha, portelenses de respeito!   Conta a lenda do samba que, em certas noites de lua cheia, Oswaldo Cruz muda de...