segunda-feira, 11 de maio de 2026


E a querida Mafalda mudou de casa ....


Mafalda e seus amigos


Depois de mais de meio século morando na mesma editora, a pequena Mafalda fez as malas. Não é uma mudança qualquer: é o fim de uma era que começou em 1970, quando a Ediciones de la Flor abriu suas portas para aquela menina de cabelo preto, olhar inquieto e perguntas que deixavam qualquer adulto desconfortável.

A verdade é que Mafalda sempre foi maior que as paredes que a abrigavam. Desde que apareceu pela primeira vez em 1964, nas tiras de jornal criadas por Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, ela já carregava dentro de si uma espécie de bússola moral, apontada para a justiça, a paz e a lucidez. Era uma criança que não aceitava respostas prontas, que desconfiava de discursos e que, com a simplicidade de quem ainda não aprendeu a mentir, expunha as contradições do mundo adulto.

Mafalda e Quino


E, Mafalda se manifestava com humor crítico sem perder ternura, com a coragem de fazer perguntas incômodas, filosofia em formato de tirinhas, política vista pelos olhos de quem não tinha poder, força de personagens que representam ideias.

Quino, filho de imigrantes espanhóis e criado em Mendoza, tinha um olhar que misturava ternura e melancolia. Ele enxergava o absurdo da vida moderna com uma precisão quase cirúrgica, cheia de humanidade. Quando criou Mafalda, não imaginava que ela se tornaria um ícone global — muito menos que atravessaria gerações, idiomas e fronteiras, chegando ao Brasil como se fosse uma velha conhecida da família.

Cresci lendo Mafalda, paixão de meu pai e, durante décadas, a Ediciones de la Flor foi o lar dessa menina que odiava sopa e amava a ONU.

     

Naquela editora, Quino encontrou espaço para sua liberdade criativa e, Mafalda encontrou estabilidade. A editora cuidou dela como quem cuida de uma filha: publicou suas tiras, preservou seu espírito, manteve viva sua voz mesmo depois que Quino decidiu parar de desenhá-la em 1973.

Agora, Mafalda segue adiante, como sempre fez. Terá o novo guarda-chuva de uma grande editora internacional[1], sua voz deve ecoar ainda mais longe. Novas edições, novas traduções, novos leitores. Talvez até novas adaptações, como a série animada prevista para os próximos anos. Mafalda muda de casa, mas não muda de essência: continuará sendo aquela menina que olha para o mundo com uma mistura de espanto e indignação — e  nos obriga a fazer o mesmo.

Quino costumava dizer que desenhava para tentar entender o mundo. Mafalda, por sua vez, existe para nos lembrar que entender o mundo não é suficiente: é preciso questioná-lo.

E enquanto houver injustiça, desigualdade, guerras e sopas metafóricas sendo empurradas goela abaixo, Mafalda e suas manifestações geniais continuarão necessárias. Que continues a encantar novos leitores, minha querida Mafalda!!!

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 10/05/2026



[1]Desde 2025, os herdeiros de Quino assinaram acordo com a  Penguin Random House

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