E a
querida Mafalda mudou de casa ....
| Mafalda e seus amigos |
Depois de mais de meio século morando na
mesma editora, a pequena Mafalda fez as malas. Não é uma mudança qualquer: é o
fim de uma era que começou em 1970, quando a Ediciones de la Flor abriu suas
portas para aquela menina de cabelo preto, olhar inquieto e perguntas que
deixavam qualquer adulto desconfortável.
A verdade é que Mafalda sempre foi maior
que as paredes que a abrigavam. Desde que apareceu pela primeira vez em 1964,
nas tiras de jornal criadas por Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, ela já
carregava dentro de si uma espécie de bússola moral, apontada para a justiça, a
paz e a lucidez. Era uma criança que não aceitava respostas prontas, que
desconfiava de discursos e que, com a simplicidade de quem ainda não aprendeu a
mentir, expunha as contradições do mundo adulto.
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| Mafalda e Quino |
E, Mafalda se manifestava com humor crítico sem perder ternura, com a coragem de fazer perguntas incômodas, filosofia em formato de tirinhas, política vista pelos olhos de quem não tinha poder, força de personagens que representam ideias.
Quino, filho de imigrantes espanhóis e
criado em Mendoza, tinha um olhar que misturava ternura e melancolia. Ele
enxergava o absurdo da vida moderna com uma precisão quase cirúrgica, cheia de humanidade.
Quando criou Mafalda, não imaginava que ela se tornaria um ícone global — muito
menos que atravessaria gerações, idiomas e fronteiras, chegando ao Brasil como
se fosse uma velha conhecida da família.
Cresci lendo Mafalda, paixão de meu pai e,
durante décadas, a Ediciones de la Flor foi o lar dessa menina que odiava sopa
e amava a ONU.
Naquela editora, Quino encontrou espaço para sua liberdade
criativa e, Mafalda encontrou estabilidade. A editora cuidou dela como quem
cuida de uma filha: publicou suas tiras, preservou seu espírito, manteve viva
sua voz mesmo depois que Quino decidiu parar de desenhá-la em 1973.
Agora,
Mafalda segue adiante, como sempre fez. Terá o novo guarda-chuva de uma grande
editora internacional[1],
sua voz deve ecoar ainda mais longe. Novas edições, novas traduções, novos
leitores. Talvez até novas adaptações, como a série animada prevista para os
próximos anos. Mafalda muda de casa, mas não muda de essência: continuará sendo
aquela menina que olha para o mundo com uma mistura de espanto e indignação — e
nos obriga a fazer o mesmo.
Quino costumava dizer que desenhava para
tentar entender o mundo. Mafalda, por sua vez, existe para nos lembrar que
entender o mundo não é suficiente: é preciso questioná-lo.
E enquanto houver injustiça, desigualdade,
guerras e sopas metafóricas sendo empurradas goela abaixo, Mafalda e suas
manifestações geniais continuarão necessárias. Que continues a encantar novos
leitores, minha querida Mafalda!!!
Carmen Evangelho
Ilha da Magia 10/05/2026



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