sábado, 2 de maio de 2026

 

Dorina[1]: a voz que guarda o samba e escreve o cotidiano!

 

Há artistas que se tornam importantes não apenas pelo que cantam, mas pelo que sustentam. Dorina é uma dessas figuras raras: uma intérprete que carrega o samba de raiz com a firmeza de quem conhece o chão que pisa e, ao mesmo tempo, com a delicadeza de quem sabe ouvir as histórias que o Rio sussurra.

Dorina
Desde a década de 1990, ela se consolidou como uma das vozes mais respeitadas do samba carioca, especialmente nas rodas do subúrbio, onde seu canto encontrou espaço natural e público fiel.

Nascida no Rio de Janeiro, Dorina cresceu cercada pela cultura popular e pela força feminina que sempre atravessou o samba. Seu primeiro disco, “Eu Canto Samba” (1996), já deixava claro o caminho que ela escolheria: um repertório que privilegia compositores fundamentais e uma interpretação que combina vigor, afeto e precisão rítmica. Ao longo dos anos, ela dedicou álbuns inteiros a nomes como Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc — um gesto de reverência e, ao mesmo tempo, de preservação da memória musical brasileira.

   
Dorina e Aldir Blanc



Capa do CD



O que distingue Dorina é justamente essa postura de guardiã. Ela não se limita a cantar sambas consagrados; ela ilumina obras menos conhecidas, dá palco a compositores do subúrbio, participa de projetos coletivos[2] e mantém viva a tradição das rodas que formaram gerações. Sua presença é constante, generosa e profundamente comprometida com a cultura que representa, demostrando que Dorina é uma artista que transita com naturalidade entre gerações, rodas, escolas e coletivos, sempre com foco na preservação do samba tradicional e na valorização de compositores fundamentais.

Ela é daquelas figuras que costuram a cena, conectam pessoas e mantêm vivas tradições — tanto no palco quanto nos bastidores.

Em 2020, Dorina ampliou esse gesto de partilha ao lançar “Contornos”, seu primeiro livro. A obra reúne vinte textos — entre contos e crônicas — escritos com a mesma sensibilidade que marca sua trajetória musical. É uma obra bem pessoal, que mistura memória, cotidiano, sensibilidade suburbana e o olhar de alguém que vive o samba por dentro — sem ser um livro “sobre samba”. É mais literário, íntimo, reflexivo. Não é um livro sobre samba, embora o samba esteja ali, nas entrelinhas, no seu modo de olhar o mundo.

 São textos curtos, com linguagem acessível e afetiva. Temas ligados ao subúrbio carioca, relações humanas, lembranças e pequenas histórias. Um tom que lembra muito a Dorina intérprete: direto, sensível e cheio de vida. Histórias do cotidiano, memórias, afetos, pequenas epifanias que revelam a autora por trás da intérprete. Contornos mostra que Dorina não apenas canta narrativas: ela também as escreve, com voz própria, ritmo próprio e uma intimidade que aproxima o leitor.

Assim, a artista que há décadas empresta sua voz ao repertório do samba agora também empresta sua escrita ao universo literário. Um livro gostoso de ler. E o resultado é coerente com tudo o que ela construiu: uma obra que celebra o detalhe, o gesto simples, a vida comum — exatamente aquilo que ela sempre alimentou no samba.

Dorina segue sendo uma figura essencial para quem entende o samba como cultura viva, feita de encontros, histórias e permanências. Sua música e sua literatura se complementam: ambas nascem do mesmo lugar de escuta, de respeito e de amor pelo Rio que pulsa em cada verso, em cada página, em cada roda. E, além de tudo, seu coração também é portelense!

 

Carmen Evangelho

Ilha da Magia 02/05/2026

 

 

 

 



[[1] Adorina Guimarães Barros

.2] Mulheres de Zeca, Suburbanistas, Familia Diniz: Um coração Azul e Branco, etc


Carmen Evangelho

Ilha da Magia 02/05/2026



[ Familia Diniz: Um coração Azul e Branco, etc

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