quinta-feira, 7 de maio de 2026

 

Chatim e Bibi: dois irmãos que ensinaram a Portela a cantar

 

Muito antes da Portela se tornar a Majestade do Samba, dois irmãos caminhavam pelas ruas de terra batida de Campinho[1], carregando um tamborim, uma melodia na cabeça e um jeito muito particular de olhar o samba.

Eram Sebastião Ramos, o Bibi, e Thompson José Ramos, o Chatim — dois nomes que ajudaram a moldar, com mãos de artesãos, o que hoje chamamos de “estética portelense”.

Bibi era o mais velho. Quieto, observador, daqueles que falam pouco e dizem muito. Tinha uma melodia limpa, elegante, que parecia brotar sem esforço. Os antigos diziam que ele “tirava samba do ar”. Chatim, por sua vez, era mais expansivo, mais brincalhão, mas igualmente rigoroso com o que escrevia. Juntos, formavam uma dupla rara: um equilíbrio perfeito entre a serenidade de um e a sensibilidade do outro.

Geograficamente Campinho é um território vizinho do vibrante polo cultural de Madureira e Oswaldo Cruz e os irmãos viviam próximo à Rua Dona Clara, ponto estratégico para a circulação de saberes musicais. A antiga estação Dona Clara, hoje Praça do Patriarca, ponto de desembarque de uma legião de sambistas que migravam do Centro da cidade em direção ao subúrbio, fugindo da repressão policial e da higienização urbana promovida pelas reformas da virada do século.

Esse fluxo migratório não foi somente populacional, foi também cultural: a antiga estação Dona Clara, era ponto de desembarque de um conjunto de ritmos, danças e formas de sociabilidade que se fundiriam com a tradição local da região de Madureira.

Chatim e seu irmão Bibi, foram criados sob a efervescente influência dos grandes blocos carnavalescos e das embrionárias escolas de samba que começavam a delimitar seus territórios simbólicos. A localidade de Campinho serviu de incubadora para o talento dos dois irmãos, que, embora morassem ali, encontraram na vizinha Oswaldo Cruz o palco definitivo para suas expressões artísticas.

A história das escolas de samba do Rio de Janeiro é, também, a crônica de comunidades periféricas que converteram o que era considerado marginalidade[2] em um dos pilares da identidade nacional brasileira.

E, no centro dessa transformação encontra-se a Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, a "Majestade do Samba". A trajetória da agremiação, sediada no coração de Oswaldo Cruz, é indissociável de figuras que moldaram a estética do samba-enredo entre as décadas de 1930 e 1950.

Entre esses arquitetos da memória musical, destacam-se os irmãos Chatim e Bibi da Portela.

Chatim, nascido em 7 de setembro de 1915, foi um fruto direto dessa efervescência. Criado em um ambiente onde o samba era a linguagem comum, ele e seu irmão[3] integraram a primeira geração de poetas portelenses que viram na escola uma forma de organização social e afirmação de dignidade.

A transição de Chatim e Bibi para a Portela marca o início de uma era em que a agremiação deixaria de ser apenas um grupo de amigos sob a liderança carismática de Paulo da Portela para se tornar uma instituição cultural de relevância nacional.

A formação de Chatim na escola foi orgânica: antes de ascender à prestigiada Ala de Compositores, ele atuou tocando tamborim tanto na quadra quanto nos desfiles. Essa experiência prática como ritmista conferiu-lhe uma compreensão privilegiada da pulsação necessária para que um samba-enredo pudesse sustentar a evolução de centenas de componentes sob a pressão do relógio e do julgamento público.

Chatim e Bibi foram protagonistas do período áureo da Portela no cenário carnavalesco do Rio de Janeiro. No período entre 1941 e 1948, a Escola conquistou o inédito e jamais repetido heptacampeonato, um período de glória que teve em Chatim um de seus principais pilares musicais.

Foi a parceria dos dois irmãos que deu à Portela o sambaenredo campeão de 1941, Dez Anos de Glória. A história é conhecida: Paulo da Portela, magoado, abandona o desfile na concentração. A Escola entra desfalcada, tensa. E, foi o samba dos irmãos Ramos que segurou a comunidade, que deu firmeza ao cortejo, que conduziu a Portela ao título. Bibi e Chatim nunca fizeram alarde disso mas quem viveu aquele dia sabia que o samba deles foi mais do que música; foi a coluna vertebral da Portela.

A vitória da Portela em 1941, consagrou Chatim como o sucessor melódico de Paulo da Portela, iniciando uma nova fase em que a escola passaria a contar com uma forte Ala de Compositores. Aquele desfile vitorioso demonstrou a força da Escola.

Em 1942, Chatim formou uma parceria histórica com Alvaiade, outra figura central da primeira geração de poetas portelenses. Juntos, compuseram "A Vida do Samba", obra que sintetizava a elegância e a sofisticação harmônica que Paulo da Portela sempre pregara, mas que Chatim e Alvaiade elevaram a novos patamares técnicos.

Enquanto o país atravessava o período do Estado Novo de Getúlio Vargas, as escolas de samba buscavam legitimação social através de enredos que exaltassem a brasilidade e a história oficial. Chatim navegou por esse contexto com maestria, equilibrando a pressão política com a autenticidade do samba de terreiro. A escola tornou-se a "Majestade do Samba", inovando com o uso de alegorias, comissões de frente e uma bateria que introduzia instrumentos como a caixa surda e o reco-reco.

Nos anos seguintes, cada irmão seguiu seu caminho dentro da escola, mas sempre conectados pela música. Bibi, discreto, continuou compondo sambas de terreiro que sobreviveram mais na memória do que nos discos[4]. Chatim, mais presente na quadra, venceu novamente o enredo em 1951 e se tornou figura querida da Velha Guarda. Era ele quem, já mais velho, cantava com sorriso largo sambas como “Nega Danada” e “Mulher Ingrata”, enquanto Bibi permanecia como aquele compositor que todos respeitavam, mesmo que poucos conhecessem de nome.

A trajetória de Chatim exemplifica a realidade de muitos sambistas de sua geração, que habitavam se dividiam entre a vida artística e o trabalho braçal necessário à sobrevivência. Fora da quadra e da avenida, Thompson José Ramos construiu uma carreira sólida como bombeiro hidráulico na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Essa faceta de sua vida revela o contraste entre o gênio criativo, capaz de compor harmonias que encantariam intérpretes como Marisa Monte e Paulinho da Viola e, o trabalhador anônimo que percorria os corredores da universidade realizando manutenções técnicas.

Essa dualidade foi posta à prova de forma dramática quando sua esposa adoeceu. Em um gesto de profunda devoção, Chatim decidiu afastar-se integralmente da Portela e de sua vida pública como sambista para dedicar-se aos cuidados de sua companheira. Este hiato, que durou anos, demonstra que para Chatim o samba não era um meio de vida comercial, mas uma extensão de sua própria existência, que poderia ser pausada em nome de valores humanos fundamentais.

Durante esse período, mudou-se para Pilares, mantendo um distanciamento físico e emocional da "outra paixão", a Portela, mas sem nunca perder o respeito e a admiração dos seus pares.  Foi nesse período que escreveu alguns de seus sambas mais profundos, como “O Verdadeiro Amor”. Bibi, sempre reservado, manteve-se próximo da comunidade, mas sem buscar protagonismo. Ambos viveram o samba como quem vive uma fé: com devoção, com humildade, com verdade.

Quando Chatim voltou à escola, já viúvo, foi recebido por Monarco e Manacéa como quem retorna ao lar. Cantou “Portela Querida” na quadra e emocionou quem estava lá. Ele não retornou apenas como um compositor do passado, mas como um baluarte necessário para a preservação da identidade portelense em um momento em que o carnaval passava por processos de intensa espetacularização. Convocado, Chatim integrou a Velha Guarda Show da Portela, participando de projetos que visavam resgatar sambas de terreiro que haviam se perdido na memória oral da comunidade.

Bibi, mesmo mais distante dos holofotes, continuava sendo lembrado como um dos compositores mais finos da primeira geração. E, o Grupo de Ouro: Alcides Dias Lopes, João da Gente e Chatim formavam o núcleo duro da resistência poética contra a comercialização excessiva do samba.

A influência de Chatim na memória cultural da Portela é tão importante que ele é frequentemente citado em sambas de outros compositores como forma de homenagem. Walter Rosa, em 1955, compôs "Confraternização", uma música que citava Chatim como um dos baluartes indispensáveis à memória da agremiação. Esse reconhecimento é a prova máxima da autoridade artística que Thompson José Ramos exercia no mundo do samba.

A história dos dois irmãos é também a história da Portela. Eles representam o samba que nasce da rua, da vizinhança, da roda pequena; o samba que não precisa de brilho para ser grande; o samba que se sustenta na melodia, na poesia e na dignidade.

Chatim e Bibi ensinaram a Portela a cantar com elegância. E, até hoje, a Portela, canta com a voz deles.

Carmen Evangelho
Ilha da Magia, 07/05/2026

[1] Campinho: bairro residencial na Zona Norte do Rio de Janeiro, localizado próximo a Madureira, Osvaldo Cruz, Bento Ribeiro, Cascadura e Praça Seca

[2]  No início do séc XX, o samba era considerado fruto da marginalidade e a policia reprimia.

[3] Infelizmente, não encontramos registros da data de nascimento do Bibi, somente a referência de que ele era mais velho do que Chatim, o que nos faz supor que tenha nascido entre 1910 e 1914.

[4] É urgente recuperar e registrar o acervo musical de Bibi.

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