Chatim e Bibi: dois irmãos que
ensinaram a Portela a cantar
Muito antes da Portela se tornar a Majestade
do Samba, dois irmãos caminhavam pelas ruas de terra batida de Campinho[1],
carregando um tamborim, uma melodia na cabeça e um jeito muito particular de
olhar o samba.
Eram Sebastião Ramos, o Bibi, e Thompson
José Ramos, o Chatim — dois nomes que ajudaram a moldar, com mãos de artesãos,
o que hoje chamamos de “estética portelense”.
Bibi era o mais velho. Quieto, observador,
daqueles que falam pouco e dizem muito. Tinha uma melodia limpa, elegante, que
parecia brotar sem esforço. Os antigos diziam que ele “tirava samba do ar”.
Chatim, por sua vez, era mais expansivo, mais brincalhão, mas igualmente
rigoroso com o que escrevia. Juntos, formavam uma dupla rara: um equilíbrio
perfeito entre a serenidade de um e a sensibilidade do outro.
Geograficamente Campinho é um território vizinho
do vibrante polo cultural de Madureira e Oswaldo Cruz e os irmãos viviam próximo
à Rua Dona Clara, ponto estratégico para a circulação de saberes musicais. A
antiga estação Dona Clara, hoje Praça do Patriarca, ponto de desembarque de uma
legião de sambistas que migravam do Centro da cidade em direção ao subúrbio,
fugindo da repressão policial e da higienização urbana promovida pelas reformas
da virada do século.
Esse fluxo migratório não foi somente
populacional, foi também cultural: a antiga estação Dona Clara, era ponto de
desembarque de um conjunto de ritmos, danças e formas de sociabilidade que se
fundiriam com a tradição local da região de Madureira.
Chatim e seu irmão Bibi, foram criados sob a
efervescente influência dos grandes blocos carnavalescos e das embrionárias escolas
de samba que começavam a delimitar seus territórios simbólicos. A localidade de
Campinho serviu de incubadora para o talento dos dois irmãos, que, embora
morassem ali, encontraram na vizinha Oswaldo Cruz o palco definitivo para suas expressões
artísticas.
A história das escolas de samba do Rio de
Janeiro é, também, a crônica de comunidades periféricas que converteram o que
era considerado marginalidade[2]
em um dos pilares da identidade nacional brasileira.
E, no centro dessa transformação
encontra-se a Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, a "Majestade
do Samba". A trajetória da agremiação, sediada no coração de Oswaldo
Cruz, é indissociável de figuras que moldaram a estética do samba-enredo entre
as décadas de 1930 e 1950.
Entre esses arquitetos da memória musical,
destacam-se os irmãos Chatim e Bibi da Portela.
Chatim, nascido em 7 de setembro de 1915,
foi um fruto direto dessa efervescência. Criado em um ambiente onde o samba era
a linguagem comum, ele e seu irmão[3]
integraram a primeira geração de poetas portelenses que viram na escola uma
forma de organização social e afirmação de dignidade.
A transição de Chatim e Bibi para a Portela
marca o início de uma era em que a agremiação deixaria de ser apenas um grupo
de amigos sob a liderança carismática de Paulo da Portela para se tornar uma
instituição cultural de relevância nacional.
A formação de Chatim na escola foi
orgânica: antes de ascender à prestigiada Ala de Compositores, ele atuou tocando
tamborim tanto na quadra quanto nos desfiles. Essa experiência prática como
ritmista conferiu-lhe uma compreensão privilegiada da pulsação necessária para
que um samba-enredo pudesse sustentar a evolução de centenas de componentes sob
a pressão do relógio e do julgamento público.
Chatim e Bibi foram protagonistas do período
áureo da Portela no cenário carnavalesco do Rio de Janeiro. No período entre 1941
e 1948, a Escola conquistou o
inédito e jamais repetido heptacampeonato, um período de glória que teve em
Chatim um de seus principais pilares musicais.
Foi
a parceria dos dois irmãos que deu à Portela o samba‑enredo campeão de 1941, “Dez
Anos de Glória”. A história é
conhecida: Paulo da Portela, magoado, abandona o desfile na concentração. A Escola entra desfalcada, tensa. E, foi o samba dos irmãos Ramos que segurou a comunidade, que deu firmeza ao cortejo, que conduziu a Portela
ao título. Bibi e Chatim nunca fizeram alarde
disso — mas quem viveu aquele
dia sabia que o samba deles foi mais do que música; foi a coluna vertebral da Portela.
A
vitória da Portela em 1941, consagrou Chatim como o sucessor melódico de Paulo
da Portela, iniciando uma nova fase em que a escola passaria a contar com uma forte
Ala de Compositores. Aquele desfile vitorioso demonstrou a força da Escola.
Em
1942, Chatim formou uma parceria histórica com Alvaiade, outra figura central
da primeira geração de poetas portelenses. Juntos, compuseram "A Vida
do Samba", obra que sintetizava a elegância e a sofisticação harmônica
que Paulo da Portela sempre pregara, mas que Chatim e Alvaiade elevaram a novos
patamares técnicos.
Enquanto
o país atravessava o período do Estado Novo de Getúlio Vargas, as escolas de
samba buscavam legitimação social através de enredos que exaltassem a
brasilidade e a história oficial. Chatim navegou por esse contexto com
maestria, equilibrando a pressão política com a autenticidade do samba de
terreiro. A escola tornou-se a "Majestade do Samba", inovando
com o uso de alegorias, comissões de frente e uma bateria que introduzia
instrumentos como a caixa surda e o reco-reco.
Nos
anos seguintes, cada irmão seguiu seu caminho dentro da escola, mas sempre
conectados pela música. Bibi, discreto, continuou compondo sambas de terreiro
que sobreviveram mais na memória do que nos discos[4].
Chatim, mais presente na quadra, venceu novamente o enredo em 1951 e se tornou
figura querida da Velha Guarda. Era ele quem, já mais velho, cantava com
sorriso largo sambas como “Nega Danada” e “Mulher Ingrata”,
enquanto Bibi permanecia como aquele compositor que todos respeitavam, mesmo
que poucos conhecessem de nome.
A
trajetória de Chatim exemplifica a realidade de muitos sambistas de sua
geração, que habitavam se dividiam entre a vida artística e o trabalho braçal
necessário à sobrevivência. Fora da quadra e da avenida, Thompson José Ramos
construiu uma carreira sólida como bombeiro hidráulico na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Essa faceta de sua vida revela o contraste
entre o gênio criativo, capaz de compor harmonias que encantariam intérpretes
como Marisa Monte e Paulinho da Viola e, o trabalhador anônimo que percorria os
corredores da universidade realizando manutenções técnicas.
Essa
dualidade foi posta à prova de forma dramática quando sua esposa adoeceu. Em um
gesto de profunda devoção, Chatim decidiu afastar-se integralmente da Portela e
de sua vida pública como sambista para dedicar-se aos cuidados de sua
companheira. Este hiato, que durou anos, demonstra que para Chatim o samba não
era um meio de vida comercial, mas uma extensão de sua própria existência, que
poderia ser pausada em nome de valores humanos fundamentais.
Durante
esse período, mudou-se para Pilares, mantendo um distanciamento físico e
emocional da "outra paixão", a Portela, mas sem nunca perder o
respeito e a admiração dos seus pares.
Foi nesse período que escreveu alguns de seus sambas mais profundos,
como “O Verdadeiro Amor”. Bibi, sempre reservado, manteve-se próximo da
comunidade, mas sem buscar protagonismo. Ambos viveram o samba como quem vive
uma fé: com devoção, com humildade, com verdade.
Quando
Chatim voltou à escola, já viúvo, foi recebido por Monarco e Manacéa como quem
retorna ao lar. Cantou “Portela Querida” na quadra e emocionou quem
estava lá. Ele não retornou apenas como um compositor do passado, mas como um
baluarte necessário para a preservação da identidade portelense em um momento
em que o carnaval passava por processos de intensa espetacularização. Convocado,
Chatim integrou a Velha Guarda Show da Portela, participando de projetos que
visavam resgatar sambas de terreiro que haviam se perdido na memória oral da
comunidade.
Bibi,
mesmo mais distante dos holofotes, continuava sendo lembrado como um dos
compositores mais finos da primeira geração. E, o Grupo de Ouro: Alcides Dias
Lopes, João da Gente e Chatim formavam o núcleo duro da resistência poética
contra a comercialização excessiva do samba.
A
influência de Chatim na memória cultural da Portela é tão importante que ele é
frequentemente citado em sambas de outros compositores como forma de homenagem.
Walter Rosa, em 1955, compôs "Confraternização", uma música
que citava Chatim como um dos baluartes indispensáveis à memória da agremiação.
Esse reconhecimento é a prova máxima da autoridade artística que Thompson José
Ramos exercia no mundo do samba.
A
história dos dois irmãos é também a história da Portela. Eles representam o
samba que nasce da rua, da vizinhança, da roda pequena; o samba que não precisa
de brilho para ser grande; o samba que se sustenta na melodia, na poesia e na
dignidade.
Chatim
e Bibi ensinaram a Portela a cantar com elegância. E, até hoje, a Portela, canta
com a voz deles.
[1] Campinho: bairro
residencial na Zona Norte do Rio de Janeiro, localizado próximo a Madureira, Osvaldo
Cruz, Bento Ribeiro, Cascadura e Praça Seca
[2] No início do séc XX, o samba era considerado fruto da
marginalidade e a policia reprimia.
[3] Infelizmente, não
encontramos registros da data de nascimento do Bibi, somente a referência de
que ele era mais velho do que Chatim, o que nos faz supor que tenha nascido
entre 1910 e 1914.
[4] É urgente recuperar e
registrar o acervo musical de Bibi.
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