João Nogueira
(12/11/1941 – 05/06/2000)
Aquele menino nascido em 12 de
novembro de 1941, parecia ter vindo ao mundo com um surdo batendo no peito.
Chamou-se João Batista Nogueira Junior e
não foi apenas um compositor ou cantor — foi um sopro de brasilidade que
atravessou o tempo. Escuta-lo cantando é como se abríssemos a janela de um Rio
antigo, onde o samba ainda escorria pelas calçadas e a vida tinha cheiro de
madrugada.
João cresceu entre histórias,
batuques e afetos. O Méier, bairro onde nasceu, lhe deu o cotidiano e o Brasil,
a sensibilidade. Desde cedo, ele descobriu que a vida tem música escondida —
basta saber escutar. E João escutava tudo: o riso, a dor, o amor, a rua, o
silêncio. Transformava cada detalhe em melodia, como quem borda poesia no ar. O
menino ouvia o mundo em ritmo de samba!!!
Seu pai era violista e através dele, João teve contato com o samba ainda criança. Em uma entrevista para o programa Água Viva, da antiga TV Educativa do Rio de Janeiro, em 1977, o músico contou que seu pai foi sua inspiração para a música Espelho.
“Eu sempre tive muita admiração pelo meu pai. Não só, enquanto vivo, e passei assim a continuar a adorá-lo, a amá-lo, como até hoje. Então eu fiz uma música, Espelho, que retrata mais ou menos a minha vivência e fala sempre no meu paí. Quer dizer, é o espelho, em quem eu me espelho”.
João cresceu convivendo comPixinguinha, Jacob do Bandolim, Donga e João da Baiana, que frequentavam sua casa e participando das rodas de samba nos quintais do suburbio do Rio. Cresceu entre bambas e transformou -se na alma do samba carioca.
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| Capa do disco "Espelho" -1977 |
Quando João cantava, não era apenas som. era presença. Aquele grave macio, cheio de malandragem elegante, parecia conversar com a gente. Ele não interpretava: confessava. Não cantava: contava. Não performava: partilhava. Era a voz de um amigo que se senta ao nosso lado, pede licença, e diz: “escuta esse samba que acabei de fazer”. E sua voz nos abraçava.
João caminhou entre gigantes do
samba com a naturalidade de quem sabe que o samba é uma grande família: via o
lirismo em Cartola; a dor que vira beleza em Nelson Cavaquinho; a firmeza de
quem defende o que ama em Candeia; a elegância natural de Paulinho da Viola e
Martinho da Vila; a força feminina que transforma qualquer samba em eternidade de
Clara Nunes e Beth Carvalho. Portelense, João não apenas honrava e reverenciava os grandes
nomes do samba como era um deles.
Em 1979, quando o samba parecia
que ia perder espaço nas radios, João inconformado, fez o que os grandes fazem: criou a opção! O Clube
do Samba nasceu como quem acende uma vela na escuridão. Ali, o samba respirou,
floresceu, se reencontrou e todos entenderam que tradição no samba, não é
passado: é raiz viva. O Clube do Samba
foi um gesto de amor de João Nogueira para o Rio de Janeiro.
Os sambas de João têm a delicadeza dos encontros e a força
das coisas simples. Falam de amor sem pieguice, de vida sem pressa, de fé sem
dogmas.
João partiu cedo, mas deixo um legado enorme: 21 discos
gravados. O primeiro deles foi lançado em 1972. Este primeiro disco é muito
autoral — João assinou praticamente todas as faixas sozinho, com exceção da
faixa de abertura, Mulher Valente, em parceria com Paulo César Pinheiro.
Numa rápida cronologia da discografia de João Nogueira, considerando somente discos oficiais, levantamos:
Anos 70
• João
Nogueira (1972)
• E Lá Vou
Eu (1974)
• Vem Que
Tem (1975)
• Espelho
(1977)
• Vida
Boêmia (1978)
• Clube do
Samba (1979)
Anos 80
• Boca do
Povo (1980)
• Wilson,
Geraldo e Noel (1981)
• O Homem
dos Quarenta (1982)
• Bem
Transado (1983)
• Pelas
Terras do Pau-Brasil (1984)
• De Amor é
Bom (1985)
• João
Nogueira (1986)
• João
(1988)
Anos 90 e 2000
• Além do
Espelho (1992)
• Parceria:
João Nogueira & Paulo César Pinheiro (1994)
• Chico
Buarque – Letra e Música (1996)
• Ao Vivo no
Pelourinho (1996)
• João de
Todos os Sambas (1998)
• Minha Alma
Canta (2000)
Celebrar João Nogueira é lembrar que
ele segue conosco. No compasso que embala, na poesia que consola, na mão que batuca
na mesa, no sorriso provocado pelo refrão de uma música sua, na emoção de um
verso seu, João estará sempre presente — discreto, elegante, eterno!!!
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| Capa do disco "João Nogueira" - 1986 |


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