domingo, 15 de março de 2026

 

João Nogueira  (12/11/1941 – 05/06/2000)

 

Aquele menino nascido em 12 de novembro de 1941, parecia ter vindo ao mundo com um surdo batendo no peito. Chamou-se João Batista Nogueira Junior  e não foi apenas um compositor ou cantor — foi um sopro de brasilidade que atravessou o tempo. Escuta-lo cantando é como se abríssemos a janela de um Rio antigo, onde o samba ainda escorria pelas calçadas e a vida tinha cheiro de madrugada.

João cresceu entre histórias, batuques e afetos. O Méier, bairro onde nasceu, lhe deu o cotidiano e o Brasil, a sensibilidade. Desde cedo, ele descobriu que a vida tem música escondida — basta saber escutar. E João escutava tudo: o riso, a dor, o amor, a rua, o silêncio. Transformava cada detalhe em melodia, como quem borda poesia no ar. O menino ouvia o mundo em ritmo de samba!!!

Seu pai era violista e através dele, João teve contato com o samba ainda criança. Em uma entrevista para o programa Água Viva, da antiga TV Educativa do Rio de Janeiro, em 1977, o músico contou que seu pai foi sua inspiração para a música Espelho

Eu sempre tive muita admiração pelo meu pai. Não só, enquanto vivo, e passei assim a continuar a adorá-lo, a amá-lo, como até hoje. Então eu fiz uma música, Espelho, que retrata mais ou menos a minha vivência e fala sempre no meu paí. Quer dizer, é o espelho, em quem eu me espelho”.

João cresceu convivendo comPixinguinha, Jacob do Bandolim, Donga e João da Baiana, que frequentavam sua casa e participando das rodas de samba nos quintais do suburbio do Rio. Cresceu entre bambas e transformou -se na alma do samba carioca.


Capa do disco "Espelho" -1977

Quando João cantava, não era apenas som. era presença. Aquele grave macio, cheio de malandragem elegante, parecia conversar com a gente. Ele não interpretava: confessava. Não cantava: contava. Não performava: partilhava. Era a voz de um amigo que se senta ao nosso lado, pede licença, e diz: “escuta esse samba que acabei de fazer”. E sua voz nos abraçava.

João caminhou entre gigantes do samba com a naturalidade de quem sabe que o samba é uma grande família: via o lirismo em Cartola; a dor que vira beleza em Nelson Cavaquinho; a firmeza de quem defende o que ama em Candeia; a elegância natural de Paulinho da Viola e Martinho da Vila; a força feminina que transforma qualquer samba em eternidade de Clara Nunes e Beth Carvalho. Portelense, João não apenas honrava e reverenciava os grandes nomes do samba como era um deles.

Em 1979, quando o samba parecia que ia perder espaço nas radios, João inconformado, fez o que os grandes fazem: criou a opção! O Clube do Samba nasceu como quem acende uma vela na escuridão. Ali, o samba respirou, floresceu, se reencontrou e todos entenderam que tradição no samba, não é passado:  é raiz viva. O Clube do Samba foi um gesto de amor de João Nogueira para o Rio de Janeiro.

Os sambas de João têm a delicadeza dos encontros e a força das coisas simples. Falam de amor sem pieguice, de vida sem pressa, de fé sem dogmas.

João partiu cedo, mas deixo um legado enorme: 21 discos gravados. O primeiro deles foi lançado em 1972. Este primeiro disco é muito autoral — João assinou praticamente todas as faixas sozinho, com exceção da faixa de abertura, Mulher Valente, em parceria com Paulo César Pinheiro.

Numa rápida cronologia da discografia de João Nogueira, considerando somente discos oficiais, levantamos:

Anos 70

           João Nogueira (1972)

           E Lá Vou Eu (1974)

           Vem Que Tem (1975)

           Espelho (1977)

           Vida Boêmia (1978)

           Clube do Samba (1979)

Anos 80

           Boca do Povo (1980)

           Wilson, Geraldo e Noel (1981)

           O Homem dos Quarenta (1982)

           Bem Transado (1983)

           Pelas Terras do Pau-Brasil (1984)

           De Amor é Bom (1985)

           João Nogueira (1986)

           João (1988)

Anos 90 e 2000

           Além do Espelho (1992)

           Parceria: João Nogueira & Paulo César Pinheiro (1994)

           Chico Buarque – Letra e Música (1996)

           Ao Vivo no Pelourinho (1996)

           João de Todos os Sambas (1998)

           Minha Alma Canta (2000)

 João partiu dia 05 de junho de 2000, um dia depois de ter feito seu último show no Bar Brahma em São Paulo na noite de 4 de junho. Ele cantou, conversou com o público, estava animado — quem esteve lá conta que João parecia em plena forma, distribuindo simpatia e aquele balanço de malandro sofisticado que só ele tinha. Foi uma apresentação cheia de alegria, onde ele estava cercado de amigos e admiradores e se despediu fazendo o que mais amava: cantando!

Celebrar João Nogueira é lembrar que ele segue conosco. No compasso que embala, na poesia que consola, na mão que batuca na mesa, no sorriso provocado pelo refrão de uma música sua, na emoção de um verso seu, João estará sempre presente — discreto, elegante, eterno!!!

Capa do disco "João Nogueira" - 1986


Carmen Evangelho - Floripa 12/03/2026

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